Por
que se manter em movimento é fundamental para a saúde e a felicidade das
crianças
Em todo
o mundo, as crianças são menos ativas que no passado. E os cientistas afirmam
que isso pode trazer efeitos de longo prazo sobre a sua saúde.
Paralelamente
a esta inatividade, vem aumentando a incidência de obesidade infantil, uma
condição atualmente enfrentada por uma em cada 10 crianças e adolescentes.
O
aumento do sedentarismo, o estresse, a qualidade da alimentação e a redução da
prática de esportes são fatores que contribuem para esta situação.
A boa
notícia é que entender o que faz com que as crianças sejam menos ativas também
traz oportunidades para incentivá-las a se movimentar mais, o que irá
beneficiá-las agora e no futuro.
Existem
cada vez mais evidências indicando formas práticas e eficazes de fazer as
crianças se movimentarem, aumentando sua saúde física e cognitiva.
As
crianças devem ter 60 minutos de atividade física por dia, mas muitas delas
estão abaixo desta recomendação.
Os
efeitos podem ser duradouros, já que a falta de atividade física na infância
foi relacionada à menor atividade na idade adulta. E as crianças que praticam
mais atividade física também são mais propensas a serem ativas quando
crescerem.
Um
estudo longitudinal que acompanhou por 50 anos 712 veteranos da Segunda Guerra
Mundial (1939-1945) concluiu que a prática esportiva no ensino médio foi o
maior fator para que eles atingissem melhores condições de saúde aos 70 anos de
idade.
Nesta
pesquisa, as pessoas que praticaram esportes enquanto jovens também eram mais
ativas na idade avançada e tiveram menos necessidade de consultas médicas.
Diversos
outros estudos apresentaram efeitos similares. E o exercício na infância também
está relacionado à melhor saúde a longo prazo.
As
pessoas que praticam esporte na juventude demonstram menor índice de massa
corporal (IMC), menores medidas da cintura e melhor saúde mental, além de
melhores resultados educacionais e de desempenho cognitivo.
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Benefícios cognitivos
O
exercício físico também beneficia as crianças na própria infância, segundo a
professora de cinesiologia Nicole Logan, da Universidade de Rhode Island, nos
Estados Unidos.
A
atividade física "melhora a composição corporal das crianças e também
promove e mantém as funções cognitivas positivas, durante o seu desenvolvimento
na adolescência", explica ela.
"Se
fizermos mais atividade física, aumentamos nosso condicionamento
cardiorrespiratório e isso também é bom para o nosso cérebro."
Por
todos estes benefícios, existe um foco cada vez maior entre os pesquisadores em
ajudar as crianças e adolescentes a ficarem menos tempo sentadas e se
movimentarem mais, segundo diversas associações, como a Organização Mundial da
Saúde (OMS).
Em um
programa de nove meses de exercícios após a escola, por exemplo, Logan e seus
colegas concluíram que as crianças com obesidade apresentaram melhores
avaliações cognitivas do que aquelas que não participaram da intervenção. As
atividades tiveram lugar após a escola e incluíram atividades moderadas a
vigorosas, cinco dias por semana.
Também
se demonstrou que esta intervenção reduziu a gordura corporal, o que é uma
razão da melhoria da cognição, explica Logan.
Isso
ocorre porque a gordura armazenada em volta dos nossos órgãos vitais pode
produzir inflamações, o que, por sua vez, está relacionado à queda das funções
cognitivas. Já o condicionamento aeróbico e a atividade física foram
relacionados à melhor precisão em tarefas complexas, melhores tempos de reação
e melhor controle inibitório, o que ajuda as crianças a resistir a reações
impulsivas e, portanto, é fundamental para a concentração.
Logan
propõe que as escolas implementem 60 minutos de movimentos por dia, o que
retiraria dos pais o encargo de oferecer atividades esportivas, que podem ser
caras e ocupar muito tempo.
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O fim da falta de mobilidade
Aumentar
a atividade física não precisa envolver esportes estruturados.
Em um
estudo realizado no Estado americano de Massachusetts, o simples aumento das
oportunidades em torno da atividade física antes, durante e depois da escola,
além de oferecer às crianças melhor acesso a alimentos saudáveis, resultou em
IMCs mais baixos entre crianças do ensino fundamental. Cerca de 25% dessas
crianças não haviam participado de atividades esportivas no ano anterior ao
estudo.
"A
forma mais eficaz de realmente ajudar a evitar a obesidade entre as crianças é
melhorar o ambiente alimentar à sua volta, promover a atividade física e manter
regras sobre o tempo nas telas", orienta a professora Ulla Toft, do
Departamento de Saúde da Universidade de Copenhague, na Dinamarca.
Toft
está realizando um estudo de intervenção sobre a obesidade em larga escala no
seu país, concentrado em quatro áreas principais: alimentação, atividade
física, uso de telas e sono.
As
intervenções escolares também são promissoras.
Um
estudo recente incentivou os professores a reduzir o tempo de sedentarismo em
30 escolas britânicas e concluiu que as crianças participantes reduziram sua
relação cintura-quadril (uma medida da gordura abdominal) em 8%. A prática de
esportes também aumentou em 10%.
Durante
o estudo, os professores foram incentivados a pedir às crianças que se
levantassem para responder questões e se movimentassem mais pela sala de aula
do que o habitual.
"Não
era questão de fazer exercício, mas de ficarem menos tempo sentadas",
explica Flaminia Ronca, do Instituto de Esportes, Exercícios e Saúde do
University College de Londres, a principal autora do estudo.
Como as
crianças ficam sentadas por grande parte do dia escolar, a implementação de
formas criativas de acrescentar movimento poderá melhorar sua saúde, segundo
ela.
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Apoio dos pais
Não se
sabe ao certo se este tipo de intervenção terá efeitos a longo prazo. Mas Ronca
afirma que incentivar comportamentos saudáveis desde cedo poderá trazer
benefícios duradouros.
Da
mesma forma que outras pesquisas, o estudo de Ronca também indica que, quanto
mais ativas forem as crianças, mais rapidamente elas reagem a tarefas
cognitivas que envolvam atenção e controle inibitório.
Pesquisas
de acompanhamento concluíram que uma única sessão de 30 minutos de atividade
física também melhorou o desempenho das crianças em uma tarefa cognitiva.
Considerando
que a atividade física costuma diminuir na adolescência, especialmente entre as
meninas, o apoio dos pais também pode incentivar a sua participação.
Em uma
pesquisa americana entre crianças e seus pais, meninas cujos pais as
incentivaram e ajudaram a encontrar oportunidades para praticar esportes
apresentaram maior probabilidade de persistir.
Da
mesma forma, como as crianças muitas vezes aprendem com os adultos à sua volta,
estudos demonstraram que as crianças apresentam maior probabilidade de serem
fisicamente ativas se seus pais também se mantiverem em atividade — e se os
pais se exercitarem junto com seus filhos.
Este
exercício pode ser algo bastante simples, como um passeio de bicicleta no
parque local ou uma rápida corrida juntos.
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Aumento da confiança
Outra
forma de aumentar a atividade física é considerar como as crianças se sentem
quando estão se movimentando.
Michaela
James, da Faculdade de Medicina da Universidade de Swansea, no Reino Unido,
concluiu que crianças que se sentem confiantes e competentes em relação ao
movimento físico apresentam melhor bem-estar.
Ela
descobriu que muitas escolas se concentram em atividades físicas estruturadas,
o que pode fazer algumas crianças se sentirem excluídas e afetar sua
autoconfiança.
Para
James, oferecer às crianças mais opções de atividade pode ser transformador.
"Talvez
seja um tanto caótico entregar o poder aos jovens e dizer 'sigam em
frente'", explica ela. "Mas acho que isso é uma parte muito
importante da criação de seres humanos gentis e solidários."
A maior
oferta de jogos não estruturados também deve ser de execução simples,
incentivando intervalos de movimentação ativa e garantindo que esses intervalos
não sejam eliminados como punição, o que algumas escolas empregam como
intervenção comportamental.
Paralelamente,
projetar os playgrounds de forma mais criativa, incentivando jogos livres,
usando objetos como caixotes, pneus ou pallets de madeira, também poderá ajudar
a aumentar os níveis de atividade.
E,
fundamentalmente, precisamos reconhecer que todo movimento é valioso, segundo
James, seja subir em uma árvore, correr em volta do playground ou brincar de
pega-pega.
"É
tudo questão de valorizar o que as crianças querem fazer", conclui a
pesquisadora.
Fonte:
Por Melissa Hogenboom, da BBC Future

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