terça-feira, 2 de junho de 2026

Antidepressivos ISRS são "prescritos de forma descuidada"

Os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) estão entre os antidepressivos mais prescritos no mundo. Medicamentos como Prozac, Zoloft e Lexapro são usados para tratar depressãoe transtornos de ansiedade em milhões de pessoas.

Mas alguns especialistas veem exagero no uso deles. "Oitenta por cento dos antidepressivos nos EUA são prescritos de forma descuidada por clínicos gerais apressados, como uma forma fácil de atender pacientes em 15 minutos", diz o professor emérito de psiquiatria Allen Frances, da Universidade Duke, nos EUA.

"Não existe uma pílula para cada problema psicológico e social", afirma.

<><> O que fazem os ISRS?

Como o próprio nome sugere, os ISRS inibem, ou bloqueiam, a recaptação ou absorção da serotonina. Essa inibição aumenta os níveis dela no organismo. Quando os níveis de serotonina estão baixos, isso pode prejudicar o bem-estar emocional de uma pessoa.

A serotonina é um neurotransmissor, um mensageiro químico que transmite sinais entre as células nervosas por todo o corpo.

Ela é um dos quatro assim chamados hormônios da felicidade, sendo o mais associado à estabilidade do humor. Regula a ansiedade e os ciclos de sono, além de criar uma sensação geral de bem-estar.

"A serotonina é uma substância química que as células cerebrais usam para se comunicar. É particularmente importante para as emoções", diz o professor de psiquiatria biológica Carmine Pariante, do King's College de Londres.

Assim, manter níveis saudáveis de serotonina é considerado essencial para prevenir ou controlar a depressão.

"Sabemos que, na depressão, quando se usa os ISRS, aumenta-se a quantidade de serotonina disponível para a comunicação entre as células. E esse é o primeiro passo", explica Pariante. "A pessoa começa a reavaliar o mundo ao seu redor, tornando-se menos negativa em relação a ele", diz.

<><> Os antidepressivos são prescritos em excesso?

Mas alguns especialistas afirmam que a depressão envolve mais fatores do que apenas um desequilíbrio químico (os baixos níveis de serotonina) no cérebro.

A professora de Psiquiatria Crítica e Social Joanna Moncrieff, do University College London, há muito argumenta que os ISRS são prescritos em excesso. "A psiquiatria fez as pessoas acreditarem que a depressão era causada por uma deficiência de serotonina e que os antidepressivos revertiam isso, embora isso nunca tenha sido comprovado", diz.

"Nunca houve evidências fortes, mas alguns resultados aqui e ali, nunca um quadro consistente", afirma. Moncrieff acrescenta que a eficácia aparente pode, na verdade, ser resultado de um efeito placebo (que ocorre quando o simples ato de tomar um medicamento leva a pessoa a acreditar que ele está ajudando, apesar de não estar tendo efeito algum).

A maioria dos psiquiatras e organizações como a Associação Americana de Psiquiatria rejeitam a ideia de que os ISRS funcionam principalmente como placebo. "Há evidências esmagadoras de que os antidepressivos são eficazes para reduzir os sintomas depressivos e, em particular, os principais sintomas da depressão", diz Pariante, apesar de ele reconhecer que a serotonina é apenas um dos fatores envolvidos.

<><> Quando usar os ISRS

Pariante diz que os ISRS devem ser prescritos apenas para pessoas com depressão clínica, ou seja, uma "constelação de sintomas" que vai além da tristeza comum. "Deve haver um impacto na vida que vá além de apenas se sentir triste por alguns dias ou algumas semanas por causa de algo que aconteceu", diz.

"A vida da pessoa precisa estar sofrendo ou se deteriorando devido à depressão", afirma.

"Por exemplo, ela não consegue voltar ao trabalho, ou os relacionamentos familiares começam a se deteriorar por causa da depressão."

<><> Os ISRS nem sempre ajudam

Os ISRS nem sempre funcionam, nem funcionam imediatamente, nem funcionam em todos os casos. Isso depende do paciente, e é muito importante buscar o melhor acompanhamento médico possível.

Em cerca de um terço dos casos, o primeiro ISRS testado não ajuda. Tentar um segundo tipo pode trazer resultados, mas em 70% ou até 80% dos casos eles são ineficazes.

"Atualmente, não há como prever quem responderá ou não aos antidepressivos, aos ISRS em particular, ou a um ISRS específico. Eles não funcionam para todos. Existe um espectro de respostas. É um processo de tentativa e erro, mas ainda é a melhor opção que temos até encontrarmos uma forma de personalizar o tratamento", diz Pariante.

<><> Um consenso: minimizar o uso dos ISRS

Moncrieff afirma que os riscos e efeitos colaterais dos ISRS são frequentemente subestimados. "São medicamentos que interferem na química do cérebro e em outros sistemas biológicos", afirma.

Segundo ela, os efeitos colaterais podem incluir disfunção sexual, dependência, osteoporose, ganho de peso, sangramentos e complicações na gravidez. "Devemos realmente minimizar seu uso o máximo possível", afirma.

Os ISRS também podem reduzir as respostas emocionais de forma geral, causando uma espécie de anestesia emocional, o que algumas pessoas consideram útil. Mas muitas não gostam disso, observa Moncrieff.

Pariante concorda que o uso dos ISRS deve ser limitado: quando funcionam, não devem ser utilizados indefinidamente. "Num cenário ideal, para o primeiro episódio de depressão, inicia-se o tratamento com antidepressivo, e a pessoa pode começar a se sentir melhor após seis ou oito semanas", diz Pariante.

"Seis meses, nove meses, no máximo um ano depois, o antidepressivo deve ser gradualmente reduzido até ser interrompido. Uma pessoa não precisa tomar antidepressivos por toda a vida só porque teve um episódio de depressão."

•        Parar antidepressivos causa sempre síndrome de abstinência?

Os antidepressivos estão entre os medicamentos mais prescritos nos países ricos, incluindo Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e em grande parte da Europa Ocidental.

O que acontece quando se para de tomar esses remédios, normalmente não prescritos para uso prolongado, tem sido uma questão controversa desde que o medicamento foi descoberto e empregado na prática clínica, na década de 1950.

Num estudo publicado em 5 de junho de 2024, na revista The Lancet Psychiatry, constatou-se que 14% dos que que interromperam o uso de antidepressivos apresentaram sintomas de abstinência, como tontura, dores de cabeça, náusea, insônia e irritabilidade. Essa proporção, de um para sete, surpreende, pois é bem menor do que esperavam diversos especialistas em antidepressivos .

"Será gratificante saber que as taxas de síndrome de abstinência não são nem de longe tão altas quanto as até então relatadas, em torno de 50%", comenta Sameer Jauhar, psiquiatra do King's College de Londres, especializado em transtornos afetivos, que não participou do estudo.

No entanto, os pacientes que suspenda a medicação precisam ser informados sobre os sintomas de abstinência "que são reais e precisam ser monitorados e tratados, caso ocorram", enfatiza o autor principal Christopher Baethge, psiquiatra da Universidade de Colônia, na Alemanha.

<><> Baixa incidência de sintomas graves

A meta-análise, que é a mais abrangente pesquisa já feita até o momento para avaliar a prevalência de sintomas de descontinuação de antidepressivos, incluiu 79 estudos científicos com um total de 21.002 participantes adultos.

Os estudos incluíram 44 ensaios de controle randomizados e 35 estudos observacionais relacionados aos sintomas de descontinuação de antidepressivos publicados entre 1961 e 2019.

Os autores estimam que cerca de uma em cada sete pessoas relatou ter pelo menos um sintoma após a interrupção dos antidepressivos, enquanto um pequeno número - cerca de uma em cada 35 - relatou sintomas graves.

"Os sintomas graves de descontinuação ocorrem muito menos, mas devem ser levados a sério e são importantes, pois muitos milhões de pacientes tomam antidepressivos. Não está claro quais sofrerão com a abstinência", observa Eric Ruhé, psiquiatra do Hospital Universitário Radboud, na Holanda.

Também não ficou claro no estudo quanto tempo os sintomas de abstinência podem durar, após a interrupção dos antidepressivos, mas a pesquisa indica que "eles geralmente desaparecem depois de duas a seis semanas, ou quando os antidepressivos são retomados", explica Baethge.

Os medicamentos desvenlafaxina, venlafaxina, imipramina e escitalopram foram os mais frequentemente associados à síndrome de abstinência. A fluoxetina e a sertralina apresentaram as menores taxas de sintomas.

<><> O que causa sintomas de descontinuação de antidepressivos?

A maioria dos antidepressivos pertence a um grupo de medicamentos conhecidos como inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS). Os ISRS funcionam bloqueando a recaptação da serotonina no cérebro, de modo que esse neurotransmissor não fica mais disponível para atuar nas células cerebrais.

Os cientistas não entendem completamente como surge a síndrome de abstinência, mas uma teoria é que "retirar o aumento da serotonina ao interromper os ISRS, provoca os sintomas de privação", explica Baethge.

As flutuações do nível de sinalização da serotonina no cérebro podem afetar uma série de estados cerebrais, como percepção sensorial, estados emocionais e estados de sono-vigília. Mas ainda não está claro como a retirada dos ISRS está relacionada a sintomas específicos, como tontura, dores de cabeça ou insônia.

Algumas teorias relacionadas a uma ligação entre a serotonina e a depressão foram criticadas como simplistas demais pelos pesquisadores. Atualmente estão sendo desenvolvidas teorias mais abrangentes sobre a depressão.

<><> Efeito "nocebo" e expectativa de sintomas

A pesquisa também constatou que quase um em cada cinco participantes dos grupos de placebo dos estudos descreveu sintomas semelhantes aos relatados pelo grupo que havia interrompido o uso de antidepressivos.

Baethge acredita que isso se deve a um efeito "nocebo", no qual "a expectativa de que coisas ruins acontecerão, quando se toma ou deixa de tomar um medicamento, cria uma maior consciência da piora da ansiedade ou da depressão depois de tomar o remédio": "Esse efeito pode ser ampliado quando o médico alerta o paciente sobre os possíveis efeitos colaterais."

Para Baethge, as descobertas sugerem que entram em jogo sintomas não específicos, semelhantes às flutuações normais da percepção sensorial.

"Não estamos dizendo que é tudo coisa de cabeça. É tentador pensar que se algo ocorre com placebo, é tudo imaginação. A questão é que os pacientes realmente sentem tontura, por exemplo, e isso precisa ser levado a sério, independente da causa."

 

Fonte: DW Brasil

 

Nenhum comentário: