Antidepressivos
ISRS são "prescritos de forma descuidada"
Os
inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) estão entre os
antidepressivos mais prescritos no mundo. Medicamentos como Prozac, Zoloft e
Lexapro são usados para tratar depressãoe transtornos de ansiedade em milhões
de pessoas.
Mas
alguns especialistas veem exagero no uso deles. "Oitenta por cento dos
antidepressivos nos EUA são prescritos de forma descuidada por clínicos gerais
apressados, como uma forma fácil de atender pacientes em 15 minutos", diz
o professor emérito de psiquiatria Allen Frances, da Universidade Duke, nos
EUA.
"Não
existe uma pílula para cada problema psicológico e social", afirma.
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O que fazem os ISRS?
Como o
próprio nome sugere, os ISRS inibem, ou bloqueiam, a recaptação ou absorção da
serotonina. Essa inibição aumenta os níveis dela no organismo. Quando os níveis
de serotonina estão baixos, isso pode prejudicar o bem-estar emocional de uma
pessoa.
A
serotonina é um neurotransmissor, um mensageiro químico que transmite sinais
entre as células nervosas por todo o corpo.
Ela é
um dos quatro assim chamados hormônios da felicidade, sendo o mais associado à
estabilidade do humor. Regula a ansiedade e os ciclos de sono, além de criar
uma sensação geral de bem-estar.
"A
serotonina é uma substância química que as células cerebrais usam para se
comunicar. É particularmente importante para as emoções", diz o professor
de psiquiatria biológica Carmine Pariante, do King's College de Londres.
Assim,
manter níveis saudáveis de serotonina é considerado essencial para prevenir ou
controlar a depressão.
"Sabemos
que, na depressão, quando se usa os ISRS, aumenta-se a quantidade de serotonina
disponível para a comunicação entre as células. E esse é o primeiro
passo", explica Pariante. "A pessoa começa a reavaliar o mundo ao seu
redor, tornando-se menos negativa em relação a ele", diz.
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Os antidepressivos são prescritos em excesso?
Mas
alguns especialistas afirmam que a depressão envolve mais fatores do que apenas
um desequilíbrio químico (os baixos níveis de serotonina) no cérebro.
A
professora de Psiquiatria Crítica e Social Joanna Moncrieff, do University
College London, há muito argumenta que os ISRS são prescritos em excesso.
"A psiquiatria fez as pessoas acreditarem que a depressão era causada por
uma deficiência de serotonina e que os antidepressivos revertiam isso, embora
isso nunca tenha sido comprovado", diz.
"Nunca
houve evidências fortes, mas alguns resultados aqui e ali, nunca um quadro
consistente", afirma. Moncrieff acrescenta que a eficácia aparente pode,
na verdade, ser resultado de um efeito placebo (que ocorre quando o simples ato
de tomar um medicamento leva a pessoa a acreditar que ele está ajudando, apesar
de não estar tendo efeito algum).
A
maioria dos psiquiatras e organizações como a Associação Americana de
Psiquiatria rejeitam a ideia de que os ISRS funcionam principalmente como
placebo. "Há evidências esmagadoras de que os antidepressivos são eficazes
para reduzir os sintomas depressivos e, em particular, os principais sintomas
da depressão", diz Pariante, apesar de ele reconhecer que a serotonina é
apenas um dos fatores envolvidos.
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Quando usar os ISRS
Pariante
diz que os ISRS devem ser prescritos apenas para pessoas com depressão clínica,
ou seja, uma "constelação de sintomas" que vai além da tristeza
comum. "Deve haver um impacto na vida que vá além de apenas se sentir
triste por alguns dias ou algumas semanas por causa de algo que
aconteceu", diz.
"A
vida da pessoa precisa estar sofrendo ou se deteriorando devido à
depressão", afirma.
"Por
exemplo, ela não consegue voltar ao trabalho, ou os relacionamentos familiares
começam a se deteriorar por causa da depressão."
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Os ISRS nem sempre ajudam
Os ISRS
nem sempre funcionam, nem funcionam imediatamente, nem funcionam em todos os
casos. Isso depende do paciente, e é muito importante buscar o melhor
acompanhamento médico possível.
Em
cerca de um terço dos casos, o primeiro ISRS testado não ajuda. Tentar um
segundo tipo pode trazer resultados, mas em 70% ou até 80% dos casos eles são
ineficazes.
"Atualmente,
não há como prever quem responderá ou não aos antidepressivos, aos ISRS em
particular, ou a um ISRS específico. Eles não funcionam para todos. Existe um
espectro de respostas. É um processo de tentativa e erro, mas ainda é a melhor
opção que temos até encontrarmos uma forma de personalizar o tratamento",
diz Pariante.
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Um consenso: minimizar o uso dos ISRS
Moncrieff
afirma que os riscos e efeitos colaterais dos ISRS são frequentemente
subestimados. "São medicamentos que interferem na química do cérebro e em
outros sistemas biológicos", afirma.
Segundo
ela, os efeitos colaterais podem incluir disfunção sexual, dependência,
osteoporose, ganho de peso, sangramentos e complicações na gravidez.
"Devemos realmente minimizar seu uso o máximo possível", afirma.
Os ISRS
também podem reduzir as respostas emocionais de forma geral, causando uma
espécie de anestesia emocional, o que algumas pessoas consideram útil. Mas
muitas não gostam disso, observa Moncrieff.
Pariante
concorda que o uso dos ISRS deve ser limitado: quando funcionam, não devem ser
utilizados indefinidamente. "Num cenário ideal, para o primeiro episódio
de depressão, inicia-se o tratamento com antidepressivo, e a pessoa pode
começar a se sentir melhor após seis ou oito semanas", diz Pariante.
"Seis
meses, nove meses, no máximo um ano depois, o antidepressivo deve ser
gradualmente reduzido até ser interrompido. Uma pessoa não precisa tomar
antidepressivos por toda a vida só porque teve um episódio de depressão."
• Parar antidepressivos causa sempre
síndrome de abstinência?
Os
antidepressivos estão entre os medicamentos mais prescritos nos países ricos,
incluindo Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e em grande parte da Europa
Ocidental.
O que
acontece quando se para de tomar esses remédios, normalmente não prescritos
para uso prolongado, tem sido uma questão controversa desde que o medicamento
foi descoberto e empregado na prática clínica, na década de 1950.
Num
estudo publicado em 5 de junho de 2024, na revista The Lancet Psychiatry,
constatou-se que 14% dos que que interromperam o uso de antidepressivos
apresentaram sintomas de abstinência, como tontura, dores de cabeça, náusea,
insônia e irritabilidade. Essa proporção, de um para sete, surpreende, pois é
bem menor do que esperavam diversos especialistas em antidepressivos .
"Será
gratificante saber que as taxas de síndrome de abstinência não são nem de longe
tão altas quanto as até então relatadas, em torno de 50%", comenta Sameer
Jauhar, psiquiatra do King's College de Londres, especializado em transtornos
afetivos, que não participou do estudo.
No
entanto, os pacientes que suspenda a medicação precisam ser informados sobre os
sintomas de abstinência "que são reais e precisam ser monitorados e
tratados, caso ocorram", enfatiza o autor principal Christopher Baethge,
psiquiatra da Universidade de Colônia, na Alemanha.
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Baixa incidência de sintomas graves
A
meta-análise, que é a mais abrangente pesquisa já feita até o momento para
avaliar a prevalência de sintomas de descontinuação de antidepressivos, incluiu
79 estudos científicos com um total de 21.002 participantes adultos.
Os
estudos incluíram 44 ensaios de controle randomizados e 35 estudos
observacionais relacionados aos sintomas de descontinuação de antidepressivos
publicados entre 1961 e 2019.
Os
autores estimam que cerca de uma em cada sete pessoas relatou ter pelo menos um
sintoma após a interrupção dos antidepressivos, enquanto um pequeno número -
cerca de uma em cada 35 - relatou sintomas graves.
"Os
sintomas graves de descontinuação ocorrem muito menos, mas devem ser levados a
sério e são importantes, pois muitos milhões de pacientes tomam
antidepressivos. Não está claro quais sofrerão com a abstinência", observa
Eric Ruhé, psiquiatra do Hospital Universitário Radboud, na Holanda.
Também
não ficou claro no estudo quanto tempo os sintomas de abstinência podem durar,
após a interrupção dos antidepressivos, mas a pesquisa indica que "eles
geralmente desaparecem depois de duas a seis semanas, ou quando os
antidepressivos são retomados", explica Baethge.
Os
medicamentos desvenlafaxina, venlafaxina, imipramina e escitalopram foram os
mais frequentemente associados à síndrome de abstinência. A fluoxetina e a
sertralina apresentaram as menores taxas de sintomas.
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O que causa sintomas de descontinuação de antidepressivos?
A
maioria dos antidepressivos pertence a um grupo de medicamentos conhecidos como
inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS). Os ISRS funcionam
bloqueando a recaptação da serotonina no cérebro, de modo que esse
neurotransmissor não fica mais disponível para atuar nas células cerebrais.
Os
cientistas não entendem completamente como surge a síndrome de abstinência, mas
uma teoria é que "retirar o aumento da serotonina ao interromper os ISRS,
provoca os sintomas de privação", explica Baethge.
As
flutuações do nível de sinalização da serotonina no cérebro podem afetar uma
série de estados cerebrais, como percepção sensorial, estados emocionais e
estados de sono-vigília. Mas ainda não está claro como a retirada dos ISRS está
relacionada a sintomas específicos, como tontura, dores de cabeça ou insônia.
Algumas
teorias relacionadas a uma ligação entre a serotonina e a depressão foram
criticadas como simplistas demais pelos pesquisadores. Atualmente estão sendo
desenvolvidas teorias mais abrangentes sobre a depressão.
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Efeito "nocebo" e expectativa de sintomas
A
pesquisa também constatou que quase um em cada cinco participantes dos grupos
de placebo dos estudos descreveu sintomas semelhantes aos relatados pelo grupo
que havia interrompido o uso de antidepressivos.
Baethge
acredita que isso se deve a um efeito "nocebo", no qual "a
expectativa de que coisas ruins acontecerão, quando se toma ou deixa de tomar
um medicamento, cria uma maior consciência da piora da ansiedade ou da
depressão depois de tomar o remédio": "Esse efeito pode ser ampliado
quando o médico alerta o paciente sobre os possíveis efeitos colaterais."
Para
Baethge, as descobertas sugerem que entram em jogo sintomas não específicos,
semelhantes às flutuações normais da percepção sensorial.
"Não
estamos dizendo que é tudo coisa de cabeça. É tentador pensar que se algo
ocorre com placebo, é tudo imaginação. A questão é que os pacientes realmente
sentem tontura, por exemplo, e isso precisa ser levado a sério, independente da
causa."
Fonte:
DW Brasil

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