Maria
Luiza Falcão: Entre Vorcaro e Trump
A
coincidência temporal é difícil de ignorar. No momento em que Flávio Bolsonaro
passou a enfrentar desgaste político decorrente das controvérsias envolvendo
sua associação com Daniel Vorcaro e o Banco Master, o senador desembarcou nos
Estados Unidos para uma agenda que recolocou seu nome no centro do debate
nacional sob uma nova perspectiva: o combate ao crime organizado.
O
efeito político é evidente. De repente, parte da imprensa deixou de discutir
Vorcaro para discutir Donald Trump. Deixou de discutir relações entre poder
político e sistema financeiro para discutir PCC e Comando Vermelho. Deixou de
discutir o passado recente do senador, para discutir seu suposto papel na
cooperação internacional contra facções criminosas.
Em
política, mudar de assunto costuma ser tão importante quanto vencer um debate.
E talvez seja exatamente isso que esteja em jogo.
Mas
antes de discutir Trump, soberania ou crime organizado, vale observar um fato
político objetivo. Independentemente das intenções que motivaram a viagem,
Flávio Bolsonaro já obteve um resultado concreto: mudou o foco do debate
público nacional.
<><>
A vitória da mudança de agenda
Até
poucos dias atrás, as manchetes eram dominadas pelas repercussões de sua
associação com Daniel Vorcaro e pelas consequências políticas do caso Banco
Master. Hoje, o debate gira em torno das facções criminosas, da cooperação com
os Estados Unidos, da classificação de organizações criminosas transnacionais e
dos impactos dessa decisão sobre a soberania brasileira.
Em
política, essa mudança não é um detalhe. Controlar a agenda frequentemente vale
mais do que vencer uma discussão. Quando um ator político consegue substituir
um tema desfavorável por outro mais conveniente aos seus interesses, já
conquistou uma vantagem importante.
Segurança
pública sempre foi um dos terrenos mais confortáveis para o bolsonarismo. O
escândalo do caso Vorcaro, ao contrário, colocava Flávio Bolsonaro numa posição
defensiva, obrigado a responder perguntas incômodas sobre relações pessoais,
políticas e econômicas com o banqueiro preso. Ao reposicionar o debate em torno
do combate ao crime organizado, o senador voltou a atuar em uma arena onde
acredita possuir maior capacidade de mobilização eleitoral.
Nesse
sentido, a viagem pode ser interpretada como uma vitória tática. A questão que
permanece em aberto é se ela também se transformará em vitória estratégica.
Porque agendas políticas podem ser deslocadas, mas raramente desaparecem. Se
novas revelações surgirem ou se as perguntas que ficaram sem resposta
continuarem ecoando, o tema poderá retornar ao centro do debate com a mesma
velocidade com que dele se afastou.
<><
Uma nova manchete para um velho problema
A
trajetória política de Flávio Bolsonaro tem sido marcada por controvérsias que
frequentemente retornam ao debate público. O caso das rachadinhas permanece
associado à sua imagem política, independentemente dos desdobramentos
jurídicos. Agora, a proximidade com Daniel Vorcaro adiciona um novo elemento ao
desgaste enfrentado pelo senador.
O
problema não é apenas jurídico ou econômico. É sobretudo político.
Durante
anos, o bolsonarismo construiu sua identidade em torno de uma promessa de
ruptura com as velhas práticas da política brasileira. Apresentou-se como
movimento anticorrupção, antissistema e moralizador. Quando figuras centrais
desse campo político passam a ser associadas a empresários, banqueiros ou
personagens envolvidos em controvérsias públicas, surge inevitavelmente uma
contradição entre discurso e realidade.
É
justamente nesse contexto que a viagem aos Estados Unidos ganha significado.
A
agenda internacional oferece algo extremamente valioso para qualquer político
sob pressão: uma nova narrativa.
<><>
O crime organizado que interessa
O
combate ao crime organizado é um dos temas mais importantes da agenda nacional.
As facções ampliaram sua presença territorial, fortaleceram redes
transnacionais e desafiam diariamente o Estado brasileiro.
Mas o
conceito de crime organizado não se limita às organizações armadas que dominam
territórios ou controlam rotas do narcotráfico.
As
economias ilícitas modernas movimentam bilhões de dólares por meio de
estruturas financeiras sofisticadas, esquemas de lavagem de dinheiro, empresas
de fachada, corrupção e redes de influência que muitas vezes operam longe das
periferias e perto dos centros de poder econômico.
Existe
o crime armado.
Existe
também o crime financeiro.
Existe
o crime visível.
Existe
também o crime invisível.
Ao
deslocar o debate exclusivamente para as facções, Flávio Bolsonaro procura
atuar em um terreno politicamente favorável à direita. Segurança pública sempre
foi um dos temas centrais do discurso bolsonarista.
Mas a
estratégia encontra um obstáculo: o eleitor pode perguntar por que o combate ao
crime deve começar apenas pelos morros e pelas fronteiras, e não também pelos
ambientes onde circulam grandes fortunas, influência política e poder
econômico.
<><>
Trump entra em cena
A
presença de Donald Trump acrescenta outra camada à história.
O
bolsonarismo sempre cultivou uma relação simbólica com o trumpismo. Ambos
compartilham linguagem política semelhante, estratégias de mobilização
parecidas e uma visão de mundo marcada pela polarização permanente. Por isso, a
imagem de Flávio Bolsonaro ao lado de Trump possui um valor eleitoral evidente.
Ela procura transmitir força, relevância internacional e proximidade com o
líder político mais admirado pela base bolsonarista.
O
problema é que a cena também pode produzir leitura oposta.
Uma
parte dos eleitores pode enxergar na aproximação não uma demonstração de
liderança, mas um sinal de submissão política. Afinal, a eleição presidencial
brasileira será decidida pelos brasileiros, não pela Casa Branca.
Quando
um candidato ou grupo político parece buscar legitimidade externa para
fortalecer sua posição doméstica, inevitavelmente surgem questionamentos sobre
soberania e autonomia nacional.
<><
A sombra da interferência
A
discussão sobre a classificação de facções brasileiras como organizações
criminosas transnacionais ou terroristas pelos Estados Unidos abre questões
relevantes.
A
cooperação internacional no combate ao crime é necessária e faz parte da
realidade contemporânea. Mas existe uma linha delicada entre cooperação e
influência política.
Não é
difícil compreender por que integrantes do governo e especialistas em relações
internacionais manifestam preocupação. O tema envolve não apenas segurança
pública, mas também soberania nacional.
A
preocupação não é teórica. Ela decorre de acontecimentos recentes. A própria
administração Trump utilizou a narrativa do combate ao narcotráfico, ao
narcoterrorismo e às ameaças transnacionais para justificar a escalada que
culminou na captura de Nicolás Maduro em território venezuelano. Washington
sustentou que estruturas ligadas ao poder venezuelano representavam ameaça à
segurança dos Estados Unidos e associou o governo Maduro a redes criminosas
internacionais. O resultado foi uma operação que ultrapassou todos os limites
tradicionais da soberania latino-americana e abriu um precedente profundamente
inquietante para a região.
É
justamente por isso que a discussão atual sobre a classificação de facções
brasileiras por autoridades americanas é mais delicada do que parece à primeira
vista. Evidentemente, ninguém está sugerindo equivalência entre situações
distintas. Mas a experiência recente demonstra como determinadas categorias
políticas e jurídicas podem ser gradualmente ampliadas até servirem de
fundamento para formas crescentes de pressão, sanções, intervenções ou
ingerência externa. O que hoje aparece como cooperação internacional pode
amanhã ser reinterpretado dentro de uma lógica de segurança hemisférica
definida unilateralmente por Washington.
<><>
O assunto que Flávio gostaria de abandonar
É
possível que a estratégia tenha funcionado. Pelo menos por enquanto.
As
manchetes mudaram. Os programas de televisão mudaram de pauta. Os comentaristas
passaram a discutir PCC, Comando Vermelho, terrorismo, soberania nacional e
Donald Trump. Sob esse aspecto, Flávio Bolsonaro obteve uma vitória política
relevante: conseguiu retirar do centro do debate um tema que lhe era
profundamente desfavorável.
Mas
existe um problema.
Assuntos
políticos podem sair das manchetes. Perguntas sem resposta, não.
A
viagem aos Estados Unidos não elimina os questionamentos sobre a relação de
Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro. Não elimina as dúvidas levantadas pela
opinião pública. Não elimina o desgaste provocado por uma associação política
que se transformou em um dos temas mais sensíveis da campanha eleitoral.
Pelo
contrário. Talvez a própria necessidade de produzir uma mudança tão abrupta de
agenda revele a gravidade do problema que se pretendia abandonar. Afinal,
ninguém mobiliza uma operação política internacional para fugir de um assunto
irrelevante.
A
aposta do senador parece clara: substituir um debate desconfortável sobre suas
próprias relações pessoais, políticas e econômicas por um debate mais amplo
sobre crime organizado e segurança pública. É uma estratégia compreensível do
ponto de vista eleitoral. Mas permanece a dúvida sobre sua eficácia de longo
prazo.
Porque
o eleitor brasileiro pode até acompanhar uma nova manchete. O que raramente faz
é esquecer a anterior.
E, ao
final da viagem, permanece uma constatação simples. Donald Trump entrou no
debate. O PCC entrou no debate. O Comando Vermelho entrou no debate.
Mas
Daniel Vorcaro não saiu dele.
• Como as organizações criminosas
conquistaram a política. Por Luís Nassif
A
corrupção que se instalou na administração pública dos Estados Unidos talvez só
encontre paralelo na Chicago das décadas de 1920 a 1970.
Chicago
tornou-se o símbolo histórico da fusão entre crime organizado, máquina
partidária e poder econômico. Desde o fim do século XIX, a cidade era marcada
pela corrupção política sistêmica, pela prostituição aberta e pelo domínio de
chefes do crime organizado. O auge veio com Al Capone e a Chicago Outfit, que
controlavam jogos, bebidas e prostituição enquanto subornavam sistematicamente
políticos, policiais e juízes. Paralelamente, consolidou-se a poderosa máquina
democrata de Richard J. Daley, sustentada no clientelismo, no controle sindical
e num domínio eleitoral quase absoluto.
Ainda
assim, segundo críticos do segundo governo Donald Trump, o modelo atual superou
Chicago em escala e sofisticação. A diferença fundamental é que o sistema
contemporâneo opera menos nas sombras e mais à luz do dia — protegido por
mecanismos legais, financiamento político institucionalizado e ecossistemas
digitais de mobilização.
Relatório
da minoria do Comitê de Supervisão da Câmara estima que os esquemas de pay to
play (pedágio para conseguir negócios com o Estado) ligados a Trump
movimentaram cerca de US$ 2,25 bilhões até janeiro de 2026, envolvendo
entidades estrangeiras, oligarcas e interesses privados. O PAC MAGA Inc.
arrecadou quase US$ 300 milhões em eventos realizados em propriedades da
família Trump, com ingressos chegando a US$ 1 milhão por pessoa.
Os
exemplos se multiplicam: contratos militares beneficiando empresas ligadas aos
filhos do presidente; investimentos estrangeiros associados a negócios da
família; perdões presidenciais concedidos após doações eleitorais; arquivamento
de investigações contra grandes corporações financiadoras; e decisões
regulatórias sistematicamente favoráveis a grupos econômicos aliados.
O
quadro resultante é o de uma privatização do Estado federal americano: cargos,
contratos, perdões e políticas públicas convertidos em moeda de troca política
e financeira. A ampliação da imunidade presidencial pela Suprema Corte em 2024
reduziu ainda mais os riscos jurídicos inerentes a esse modelo.
<><>
Ultradireita e crime organizado
Esse
fenômeno não é isolado. A ascensão global da extrema direita tem sido
sustentada por alianças entre grandes interesses econômicos, lobby organizado,
redes digitais e mecanismos sofisticados de influência política, abrindo espaço
para o crime organizado.
Nos
Estados Unidos, a NRA (Associação Nacional do Rifle) tornou-se o modelo
pioneiro. De associação técnica de atiradores, transformou-se num movimento
político-cultural estruturado a partir de mobilização identitária, pressão
eleitoral permanente, uso intensivo de redes sociais, produção de conteúdo
emocional de alta circulação e campanhas sistemáticas de guerra cultural.
Esse
modelo foi exportado ao bolsonarismo no Brasil, especialmente através do
movimento armamentista dos CACs. Os mecanismos são os mesmos: criação de uma
sensação permanente de ameaça existencial, redes de influenciadores digitais,
conteúdo algorítmico de alto impacto emocional e construção artificial de uma
suposta maioria cultural.
O mesmo
padrão se reproduziu em outros setores fortemente regulados, como apostas
online e mineração: financiamento de influenciadores, campanhas digitais
segmentadas, fabricação de “movimentos espontâneos” corporativamente
financiados, captura de narrativas regionais e pressão contínua sobre marcos
regulatórios.
No
Brasil, tanto o mercado de bets quanto parcelas do setor mineral replicaram
essa arquitetura com fidelidade.
Identifica-se
assim um padrão estrutural comum, sustentado em quatro pilares: entidades
aparentemente legítimas como fachada pública; financiamento eleitoral
institucionalizado; ecossistemas próprios de mídia e redes sociais; e
mobilização popular — real ou fabricada — como instrumento de pressão política.
<><>
A grande diferença é tecnológica
O
suborno clássico dependia de malas de dinheiro, favores locais e acordos
mantidos no silêncio. O modelo contemporâneo opera em escala industrial,
impulsionado por algoritmos de engajamento, plataformas digitais e campanhas
emocionais permanentes.
Se Al
Capone precisasse hoje operar a partir de bares clandestinos, provavelmente
perderia espaço para um algoritmo bem calibrado no TikTok.
<><>
Mercado financeiro e crime
A
invasão do mercado financeiro pelo crime organizado decorre de dois fenômenos
interligados: a ultra financeirização da economia e a espiral da especulação
financeira.
O ganho
do investidor se realiza sobre a valorização do ativo adquirido. Décadas de
ultra fincanceirização, no entanto, tornaram os ativos reais extremamente caros
em relação à oferta de dinheiro disponível. A saída encontrada pelo sistema foi
abrir as comportas do mercado para a lavagem de capital em larga escala.
No
Brasil, esse fenômeno tornou-se nítido a partir da gestão de Roberto Campos
Neto no Banco Central. Sob sua condução, autorizou-se o funcionamento
irrestrito de fintechs e permitiu-se a constituição de fundos de investimento
sem transparência mínima — criando as condições institucionais para que capital
de origem ilícita circulasse livremente pelo sistema financeiro regulado.
Fonte:
Brasi 247/Jornal GGN

Nenhum comentário:
Postar um comentário