ORCRIM
BOLSONARISTA: Ataques de Eduardo Bolsonaro ao Itamaraty expõem estratégia de
blindagem do clã
deputado
cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) intensificou ataques ao Itamaraty depois que
a embaixada do Brasil em Washington negou o uso de suas instalações para uma
coletiva de imprensa do senador Flávio Bolsonaro.
O
episódio, que ocorre enquanto a Polícia Federal investiga a remessa de milhões
de dólares ao fundo Havengate para supostamente financiar o filme Dark Horse,
expõe a dupla crise do clã: a agressividade que contradiz o discurso de
moderação eleitoral e a dependência de autorização do governo Donald Trump para
que a Justiça brasileira acesse dados financeiros nos Estados Unidos.
A
embaixada do Brasil em Washington negou o uso de suas instalações para uma
coletiva de imprensa ligada ao senador Flávio Bolsonaro. A resposta de Eduardo
Bolsonaro veio na forma de ameaças ao Itamaraty, um gesto que analistas leram
como confirmação de que o clã não abandonou o padrão de confronto institucional
que marcou o governo Jair Bolsonaro.
O
episódio desfez em poucos dias o trabalho de imagem que Flávio vinha
construindo de moderação. O silêncio do senador diante das ameaças do irmão foi
o detalhe mais revelador. Sem uma palavra de distanciamento, o presidenciável
sinalizou, na prática, que a narrativa de candidato moderado para 2026 tem
limites estreitos, determinados pela dinâmica interna do próprio clã.
<><>
O cerco financeiro e o ‘fator Trump’
Enquanto
o episódio diplomático dominava o noticiário, a Polícia Federal avançava em
outra frente. Segundo apuração do Brasil 247 com base em informações do The
Intercept Brasil, a PF enviou parecer à Procuradoria-Geral da República para
abertura de investigação sobre a remessa de milhões de dólares ao fundo
Havengate, supostamente destinados a financiar o filme Dark Horse. Mensagens
reveladas pelo The Intercept indicam que Eduardo Bolsonaro orientou Thiago
Miranda, que atuava junto com o banqueiro Daniel Vorcaro, a enviar recursos via
offshore aberta em Delaware por Altieris Santana e Paulo Calixto.
O nó
jurídico é concreto: a quebra de sigilo do fundo Havengate nos Estados Unidos
depende de autorização do governo Donald Trump, criando um gargalo diplomático
que, na prática, pode blindar o clã de investigações sobre movimentações
financeiras. A proximidade política entre os Bolsonaro e Trump, portanto,
deixou de ser apenas um ativo eleitoral e passou a funcionar como um possível
escudo jurídico.
Compondo
esse cenário, Paulo Figueiredo, que acompanhou os irmãos Flávio e Eduardo
Bolsonaro na visita a Trump na Casa Branca, carrega uma condenação da CVM por
fraudes financeiras. A multa atribuída a Paulo Figueiredo pela CVM chega a R$
102 milhões, relacionada a uma operação considerada fraudulenta envolvendo a
construção de um hotel da marca Trump no Rio de Janeiro. Tanto Figueiredo
quanto seu sócio na operação recorreram das multas.
<><>
A manobra no STF
No
mesmo movimento em que as investigações financeiras encontravam obstáculos nos
Estados Unidos, o deputado Lindbergh Farias (PT) tentou abrir uma nova frente
no Supremo Tribunal Federal. Em petição apresentada ao STF, o parlamentar pediu
que a decisão do governo americano de classificar o PCC e o Comando Vermelho
como organizações terroristas fosse incorporada como fato novo ao processo em
que Eduardo Bolsonaro responde na corte.
O
argumento de Lindbergh é técnico e político ao mesmo tempo. Segundo o deputado,
ao enquadrar o crime organizado sob a legislação antiterrorismo dos Estados
Unidos, determinados procedimentos podem migrar da cooperação penal tradicional
para mecanismos ligados à segurança nacional americana, que operam sob regras
mais restritivas de acesso a informações. “Pode afetar diretamente a cooperação
penal internacional, pois desloca investigações ordinárias de lavagem de
dinheiro, organização criminosa e crimes financeiros para estruturas de
inteligência, segurança nacional e sigilo ampliado”, afirmou Lindbergh Farias
em sua petição.
Na
avaliação do parlamentar, a medida reforça a tese de que integrantes do entorno
de Jair Bolsonaro atuaram junto ao governo americano para pressionar
instituições brasileiras e dificultar o rastreamento de recursos financeiros. A
petição sustenta ainda que a mobilização de um governo estrangeiro para impor
sanções contra autoridades brasileiras representaria uma afronta à soberania
nacional, segundo Lindbergh Farias.
<><>
Consequências políticas
O
projeto eleitoral de Flávio Bolsonaro para 2026 foi construído sobre uma
premissa simples: apresentar-se como o Bolsonaro sem o radicalismo do pai e do
irmão. O episódio do Itamaraty mostrou o limite dessa construção. Ao não se
manifestar publicamente diante das ameaças de Eduardo à diplomacia brasileira,
Flávio sinalizou que sua “moderação” é seletiva e, sobretudo, frágil diante da
dinâmica familiar.
O elo
com Daniel Vorcaro, preso, e as investigações sobre o uso de recursos para
financiar as atividades de Eduardo nos Estados Unidos seguem como pontos de
desgaste acumulado para a família. A estratégia de moderação, na leitura da
colunista Daniela Lima, nasceu justamente como tentativa de desviar a atenção
desse elo milionário. O problema é que cada novo episódio de confronto
protagonizado pelo clã recoloca o tema no centro do debate.
<><>
Eduardo Bolsonaro está nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025, respondendo
a processo no STF por suposta articulação de sanções contra o Brasil e
integrantes de instituições brasileiras. A combinação de investigações
financeiras abertas, um aliado condenado pela CVM e a dependência de Trump para
qualquer avanço nas apurações nos EUA forma um quadro que, independentemente do
desfecho jurídico, já produz desgaste político contínuo para o senador que
tenta se descolar da imagem do clã sem conseguir, na prática, se distanciar de
suas ações.
• A cortina de fumaça de Eduardo
Bolsonaro: usa PCC e EUA para abafar cerco da PF e atacar Lula
Eduardo
Bolsonaro usou PCC, Comando Vermelho e Estados Unidos como cortina de fumaça
para atacar Lula e tentar blindar Flávio Bolsonaro. Em vídeo publicado no X, o
ex-deputado vendeu como “vitória” do irmão a decisão americana contra facções
brasileiras, insinuou ligação do PT com crime organizado e Hezbollah, mas não
apresentou prova contra o governo brasileiro.
O
Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou a classificação do PCC e do
Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras, com efeito a
partir de 5 de junho. Eduardo tenta transformar a medida em ativo político do
clã Bolsonaro.
A
manobra ocorre enquanto a Polícia Federal avança sobre personagens ligados ao
bolsonarismo no Rio de Janeiro. A Fórum mostrou que a decisão de Trump sobre
PCC e CV ocorre no momento em que a PF aprofunda apurações sobre elos de grupo
político ligado a Bolsonaro.
<><>
Eduardo Bolsonaro tenta inverter a narrativa
No
vídeo, Eduardo Bolsonaro afirma que Flávio Bolsonaro teria convencido
autoridades americanas a enquadrar PCC e Comando Vermelho como organizações
terroristas estrangeiras. A partir daí, o ex-deputado tenta deslocar o debate:
sai o cerco da PF sobre aliados do bolsonarismo, entra uma acusação sem prova
contra Lula e o PT.
“Quando
o Bolsonaro, quando o Flávio Bolsonaro, pede de maneira enfática e consegue
convencer as autoridades americanas da necessidade de você colocar o CV e o PCC
como FTOs, Foreign Terrorist Organizations, organizações estrangeiras
terroristas, isso daí traz também um problema para aquele cara que ganha muito
dinheiro com o tráfico”, afirmou Eduardo.
Eduardo
diz que a medida atingiria não apenas integrantes das facções, mas também
operadores do mercado financeiro responsáveis por lavar dinheiro do tráfico.
Segundo ele, bancos com clientes ligados ao PCC e ao CV poderiam sofrer
sanções.
“Bancos
que tenham como clientes pessoas ligadas ao CV e PCC serão sancionados,
sofrerão consequências com relação a essa medida agora que o Flávio Bolsonaro
conseguiu”, disse.
<><>
Flávio Bolsonaro vira peça da propaganda
A fala
tenta apresentar Flávio Bolsonaro como protagonista de uma ofensiva
internacional contra o crime organizado. Eduardo chega a dizer que o irmão
“marcou um grande gol” nos Estados Unidos.
“O
Flávio Bolsonaro marcou um grande gol. O Flávio Bolsonaro teve ali, em dois
dias de viagem, algo muito satisfatório, e eu vou aqui cravar que não vai parar
por aí”, afirmou.
A
operação política tem alvo definido: Lula. A Fórum já mostrou que Flávio
Bolsonaro pretende usar PCC e CV na campanha eleitoral contra o presidente. O
vídeo de Eduardo reforça essa linha ao tentar transformar uma decisão de
Washington em munição contra o governo brasileiro.
O
problema para o clã é o contexto. Enquanto Eduardo fala em combate ao crime
organizado, uma foto de Flávio Bolsonaro com TH Joias voltou a circular após a
publicação de Marco Rubio sobre PCC e CV. Como revelou a Fórum, Flávio aparece
ao lado de TH Joias e Rodrigo Bacellar em imagem que viralizou depois da
ofensiva americana.
<><>
PT, bancos e Hezbollah no mesmo pacote
Eduardo
Bolsonaro também incluiu o Hezbollah na narrativa. Ele afirmou que o grupo
teria “grande presença” na Tríplice Fronteira entre Brasil, Paraguai e
Argentina e citou os governos de Javier Milei e Santiago Peña como parceiros
dos Estados Unidos.
Na
sequência, fez a associação política que estrutura o vídeo.
“E isso
tudo daí entra no ecossistema do PT”, disse Eduardo.
A frase
é o centro da cortina de fumaça. Eduardo mistura PCC, CV, Hezbollah, bancos,
lavagem de dinheiro e PT em uma mesma acusação, mas não exibe documento,
investigação, decisão judicial ou dado oficial que comprove ligação do governo
Lula com facções ou grupo estrangeiro.
Ao
final, o ex-deputado ainda sugeriu que novas ações envolvendo Brasil e Estados
Unidos podem ocorrer.
“Mais
ações que dizem respeito a Estados Unidos e Brasil podem ir adiante”, afirmou.
A
mensagem é política. Eduardo tenta usar Washington como palco contra Lula,
blindar Flávio Bolsonaro e reposicionar o clã como protagonista do combate ao
crime organizado. Na prática, o vídeo funciona como cortina de fumaça diante do
avanço das apurações que cercam aliados da extrema direita.
• Estadão chama Flávio Bolsonaro de
“mordomo da Casa Branca” por foto com Trump
Editorial
publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo fez duras críticas ao senador Flávio
Bolsonaro após seu encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O texto classificou o parlamentar como um “mordomo da Casa Branca” e afirmou
que a imagem ao lado do republicano transmitiu “subserviência” ao governo
americano.
“O que
interessa, para o clã Bolsonaro, é que aconteceu e foi registrado numa imagem
que pode dar sobrevida a uma candidatura questionada”, escreveu o jornal ao
comentar a foto divulgada do encontro.
Em um
dos trechos mais contundentes, o editorial afirma: “Na pose de mordomo da Casa
Branca, Flávio transpira subserviência a Trump”. Segundo o Estadão, o
comportamento do senador “é o exato oposto do que se espera de um presidente da
República”.
O
jornal também sustenta que Flávio Bolsonaro não estaria representando os
interesses do Brasil, mas apenas os da própria família. “O único propósito de
Flávio é representar sua família, sobretudo seu pai”, diz o texto, em
referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
O
editorial ainda relaciona a viagem à atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados
Unidos. Segundo o Estadão, Eduardo trabalha para aproximar o bolsonarismo da
extrema direita americana e pressionar Trump a agir em favor de Jair Bolsonaro.
<><>
Piada nas redes
Ao
ironizar os resultados da visita, o jornal afirma que “todo esse esforço
resultou apenas numa foto que rapidamente serviu de matéria-prima para todo
tipo de piada nas redes sociais”. O texto acrescenta ainda que, caso a imagem
tivesse sido produzida por inteligência artificial ou com “um Trump de
papelão”, “teria obtido o mesmo resultado”.
O
Estadão também questiona a versão apresentada por Flávio Bolsonaro sobre a
reunião com Trump. “Considerando-se que o senador mentiu seguidas vezes sobre
suas relações com Daniel Vorcaro, é muito difícil acreditar em qualquer coisa
que ele diga a respeito do encontro com Trump”, afirma o editorial.
Por
fim, o jornal destaca que nem o site oficial da Casa Branca nem as redes
sociais de Trump registraram o encontro, sugerindo que a reunião teve
relevância apenas para a estratégia política do senador brasileiro.
Fonte:
Fórum

Nenhum comentário:
Postar um comentário