terça-feira, 2 de junho de 2026

ORCRIM BOLSONARISTA: Ataques de Eduardo Bolsonaro ao Itamaraty expõem estratégia de blindagem do clã

deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) intensificou ataques ao Itamaraty depois que a embaixada do Brasil em Washington negou o uso de suas instalações para uma coletiva de imprensa do senador Flávio Bolsonaro.

O episódio, que ocorre enquanto a Polícia Federal investiga a remessa de milhões de dólares ao fundo Havengate para supostamente financiar o filme Dark Horse, expõe a dupla crise do clã: a agressividade que contradiz o discurso de moderação eleitoral e a dependência de autorização do governo Donald Trump para que a Justiça brasileira acesse dados financeiros nos Estados Unidos.

A embaixada do Brasil em Washington negou o uso de suas instalações para uma coletiva de imprensa ligada ao senador Flávio Bolsonaro. A resposta de Eduardo Bolsonaro veio na forma de ameaças ao Itamaraty, um gesto que analistas leram como confirmação de que o clã não abandonou o padrão de confronto institucional que marcou o governo Jair Bolsonaro.

O episódio desfez em poucos dias o trabalho de imagem que Flávio vinha construindo de moderação. O silêncio do senador diante das ameaças do irmão foi o detalhe mais revelador. Sem uma palavra de distanciamento, o presidenciável sinalizou, na prática, que a narrativa de candidato moderado para 2026 tem limites estreitos, determinados pela dinâmica interna do próprio clã.

<><> O cerco financeiro e o ‘fator Trump’

Enquanto o episódio diplomático dominava o noticiário, a Polícia Federal avançava em outra frente. Segundo apuração do Brasil 247 com base em informações do The Intercept Brasil, a PF enviou parecer à Procuradoria-Geral da República para abertura de investigação sobre a remessa de milhões de dólares ao fundo Havengate, supostamente destinados a financiar o filme Dark Horse. Mensagens reveladas pelo The Intercept indicam que Eduardo Bolsonaro orientou Thiago Miranda, que atuava junto com o banqueiro Daniel Vorcaro, a enviar recursos via offshore aberta em Delaware por Altieris Santana e Paulo Calixto.

O nó jurídico é concreto: a quebra de sigilo do fundo Havengate nos Estados Unidos depende de autorização do governo Donald Trump, criando um gargalo diplomático que, na prática, pode blindar o clã de investigações sobre movimentações financeiras. A proximidade política entre os Bolsonaro e Trump, portanto, deixou de ser apenas um ativo eleitoral e passou a funcionar como um possível escudo jurídico.

Compondo esse cenário, Paulo Figueiredo, que acompanhou os irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro na visita a Trump na Casa Branca, carrega uma condenação da CVM por fraudes financeiras. A multa atribuída a Paulo Figueiredo pela CVM chega a R$ 102 milhões, relacionada a uma operação considerada fraudulenta envolvendo a construção de um hotel da marca Trump no Rio de Janeiro. Tanto Figueiredo quanto seu sócio na operação recorreram das multas.

<><> A manobra no STF

No mesmo movimento em que as investigações financeiras encontravam obstáculos nos Estados Unidos, o deputado Lindbergh Farias (PT) tentou abrir uma nova frente no Supremo Tribunal Federal. Em petição apresentada ao STF, o parlamentar pediu que a decisão do governo americano de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas fosse incorporada como fato novo ao processo em que Eduardo Bolsonaro responde na corte.

O argumento de Lindbergh é técnico e político ao mesmo tempo. Segundo o deputado, ao enquadrar o crime organizado sob a legislação antiterrorismo dos Estados Unidos, determinados procedimentos podem migrar da cooperação penal tradicional para mecanismos ligados à segurança nacional americana, que operam sob regras mais restritivas de acesso a informações. “Pode afetar diretamente a cooperação penal internacional, pois desloca investigações ordinárias de lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes financeiros para estruturas de inteligência, segurança nacional e sigilo ampliado”, afirmou Lindbergh Farias em sua petição.

Na avaliação do parlamentar, a medida reforça a tese de que integrantes do entorno de Jair Bolsonaro atuaram junto ao governo americano para pressionar instituições brasileiras e dificultar o rastreamento de recursos financeiros. A petição sustenta ainda que a mobilização de um governo estrangeiro para impor sanções contra autoridades brasileiras representaria uma afronta à soberania nacional, segundo Lindbergh Farias.

<><> Consequências políticas

O projeto eleitoral de Flávio Bolsonaro para 2026 foi construído sobre uma premissa simples: apresentar-se como o Bolsonaro sem o radicalismo do pai e do irmão. O episódio do Itamaraty mostrou o limite dessa construção. Ao não se manifestar publicamente diante das ameaças de Eduardo à diplomacia brasileira, Flávio sinalizou que sua “moderação” é seletiva e, sobretudo, frágil diante da dinâmica familiar.

O elo com Daniel Vorcaro, preso, e as investigações sobre o uso de recursos para financiar as atividades de Eduardo nos Estados Unidos seguem como pontos de desgaste acumulado para a família. A estratégia de moderação, na leitura da colunista Daniela Lima, nasceu justamente como tentativa de desviar a atenção desse elo milionário. O problema é que cada novo episódio de confronto protagonizado pelo clã recoloca o tema no centro do debate.

<><> Eduardo Bolsonaro está nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025, respondendo a processo no STF por suposta articulação de sanções contra o Brasil e integrantes de instituições brasileiras. A combinação de investigações financeiras abertas, um aliado condenado pela CVM e a dependência de Trump para qualquer avanço nas apurações nos EUA forma um quadro que, independentemente do desfecho jurídico, já produz desgaste político contínuo para o senador que tenta se descolar da imagem do clã sem conseguir, na prática, se distanciar de suas ações.

•        A cortina de fumaça de Eduardo Bolsonaro: usa PCC e EUA para abafar cerco da PF e atacar Lula

Eduardo Bolsonaro usou PCC, Comando Vermelho e Estados Unidos como cortina de fumaça para atacar Lula e tentar blindar Flávio Bolsonaro. Em vídeo publicado no X, o ex-deputado vendeu como “vitória” do irmão a decisão americana contra facções brasileiras, insinuou ligação do PT com crime organizado e Hezbollah, mas não apresentou prova contra o governo brasileiro.

O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras, com efeito a partir de 5 de junho. Eduardo tenta transformar a medida em ativo político do clã Bolsonaro.

A manobra ocorre enquanto a Polícia Federal avança sobre personagens ligados ao bolsonarismo no Rio de Janeiro. A Fórum mostrou que a decisão de Trump sobre PCC e CV ocorre no momento em que a PF aprofunda apurações sobre elos de grupo político ligado a Bolsonaro.

<><> Eduardo Bolsonaro tenta inverter a narrativa

No vídeo, Eduardo Bolsonaro afirma que Flávio Bolsonaro teria convencido autoridades americanas a enquadrar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras. A partir daí, o ex-deputado tenta deslocar o debate: sai o cerco da PF sobre aliados do bolsonarismo, entra uma acusação sem prova contra Lula e o PT.

“Quando o Bolsonaro, quando o Flávio Bolsonaro, pede de maneira enfática e consegue convencer as autoridades americanas da necessidade de você colocar o CV e o PCC como FTOs, Foreign Terrorist Organizations, organizações estrangeiras terroristas, isso daí traz também um problema para aquele cara que ganha muito dinheiro com o tráfico”, afirmou Eduardo.

Eduardo diz que a medida atingiria não apenas integrantes das facções, mas também operadores do mercado financeiro responsáveis por lavar dinheiro do tráfico. Segundo ele, bancos com clientes ligados ao PCC e ao CV poderiam sofrer sanções.

“Bancos que tenham como clientes pessoas ligadas ao CV e PCC serão sancionados, sofrerão consequências com relação a essa medida agora que o Flávio Bolsonaro conseguiu”, disse.

<><> Flávio Bolsonaro vira peça da propaganda

A fala tenta apresentar Flávio Bolsonaro como protagonista de uma ofensiva internacional contra o crime organizado. Eduardo chega a dizer que o irmão “marcou um grande gol” nos Estados Unidos.

“O Flávio Bolsonaro marcou um grande gol. O Flávio Bolsonaro teve ali, em dois dias de viagem, algo muito satisfatório, e eu vou aqui cravar que não vai parar por aí”, afirmou.

A operação política tem alvo definido: Lula. A Fórum já mostrou que Flávio Bolsonaro pretende usar PCC e CV na campanha eleitoral contra o presidente. O vídeo de Eduardo reforça essa linha ao tentar transformar uma decisão de Washington em munição contra o governo brasileiro.

O problema para o clã é o contexto. Enquanto Eduardo fala em combate ao crime organizado, uma foto de Flávio Bolsonaro com TH Joias voltou a circular após a publicação de Marco Rubio sobre PCC e CV. Como revelou a Fórum, Flávio aparece ao lado de TH Joias e Rodrigo Bacellar em imagem que viralizou depois da ofensiva americana.

<><> PT, bancos e Hezbollah no mesmo pacote

Eduardo Bolsonaro também incluiu o Hezbollah na narrativa. Ele afirmou que o grupo teria “grande presença” na Tríplice Fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina e citou os governos de Javier Milei e Santiago Peña como parceiros dos Estados Unidos.

Na sequência, fez a associação política que estrutura o vídeo.

“E isso tudo daí entra no ecossistema do PT”, disse Eduardo.

A frase é o centro da cortina de fumaça. Eduardo mistura PCC, CV, Hezbollah, bancos, lavagem de dinheiro e PT em uma mesma acusação, mas não exibe documento, investigação, decisão judicial ou dado oficial que comprove ligação do governo Lula com facções ou grupo estrangeiro.

Ao final, o ex-deputado ainda sugeriu que novas ações envolvendo Brasil e Estados Unidos podem ocorrer.

“Mais ações que dizem respeito a Estados Unidos e Brasil podem ir adiante”, afirmou.

A mensagem é política. Eduardo tenta usar Washington como palco contra Lula, blindar Flávio Bolsonaro e reposicionar o clã como protagonista do combate ao crime organizado. Na prática, o vídeo funciona como cortina de fumaça diante do avanço das apurações que cercam aliados da extrema direita.

•        Estadão chama Flávio Bolsonaro de “mordomo da Casa Branca” por foto com Trump

Editorial publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo fez duras críticas ao senador Flávio Bolsonaro após seu encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O texto classificou o parlamentar como um “mordomo da Casa Branca” e afirmou que a imagem ao lado do republicano transmitiu “subserviência” ao governo americano.

“O que interessa, para o clã Bolsonaro, é que aconteceu e foi registrado numa imagem que pode dar sobrevida a uma candidatura questionada”, escreveu o jornal ao comentar a foto divulgada do encontro.

Em um dos trechos mais contundentes, o editorial afirma: “Na pose de mordomo da Casa Branca, Flávio transpira subserviência a Trump”. Segundo o Estadão, o comportamento do senador “é o exato oposto do que se espera de um presidente da República”.

O jornal também sustenta que Flávio Bolsonaro não estaria representando os interesses do Brasil, mas apenas os da própria família. “O único propósito de Flávio é representar sua família, sobretudo seu pai”, diz o texto, em referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

O editorial ainda relaciona a viagem à atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Segundo o Estadão, Eduardo trabalha para aproximar o bolsonarismo da extrema direita americana e pressionar Trump a agir em favor de Jair Bolsonaro.

<><> Piada nas redes

Ao ironizar os resultados da visita, o jornal afirma que “todo esse esforço resultou apenas numa foto que rapidamente serviu de matéria-prima para todo tipo de piada nas redes sociais”. O texto acrescenta ainda que, caso a imagem tivesse sido produzida por inteligência artificial ou com “um Trump de papelão”, “teria obtido o mesmo resultado”.

O Estadão também questiona a versão apresentada por Flávio Bolsonaro sobre a reunião com Trump. “Considerando-se que o senador mentiu seguidas vezes sobre suas relações com Daniel Vorcaro, é muito difícil acreditar em qualquer coisa que ele diga a respeito do encontro com Trump”, afirma o editorial.

Por fim, o jornal destaca que nem o site oficial da Casa Branca nem as redes sociais de Trump registraram o encontro, sugerindo que a reunião teve relevância apenas para a estratégia política do senador brasileiro.

 

Fonte: Fórum

 

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