Como
o Japão tenta manter a memória de Hiroshima e Nagasaki
O Japão
rememora nesta quarta-feira (06/08) os 80 anos do lançamento da bomba atômica
sobre a cidade japonesa de Hiroshima. O primeiro ataque nuclear da história,
nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, matou cerca de 80 mil pessoas na
explosão inicial.
Eram
esperadas dezenas de milhares de pessoas do mundo todo para as cerimônias de
homenagem às vítimas em Hiroshima e, três dias depois, em Nagasaki, também alvo
nuclear naquela semana de 1945.
No
entanto, oito décadas depois dos ataques, as cerimônias vão contar com menos
sobreviventes — conhecidos como
hibakusha — do que em eventos passados.
À
medida que os relatos em primeira pessoa sobre os ataques estão se perdendo,
museus, organizações e indivíduos vêm se mobilizando para manter suas histórias
vivas.
Nesta
quarta-feira, horas antes da cerimônia oficial, enquanto o sol nascia sobre
Hiroshima, alguns sobreviventes e suas famílias começaram a prestar homenagem
às vítimas no Parque Memorial da Paz, próximo ao hipocentro da explosão
nuclear.
Às
08h15 — hora em que um bombardeiro americano U.S. B-29 lançou a bomba atômica
sobre Hiroshima — tocou o tradicional Sino da Paz e houve um minuto de
silêncio.
O
primeiro-ministro japonês, Shigeru Ishiba, o prefeito de Hiroshima, Kazumi
Matsui, e outras autoridades depositaram flores no monumento que homenageia os
mortos.
O total
de mortos na cidade subiria a 140 mil até o fim de 1945, em consequência de
severas queimaduras ou doenças relacionadas à radiação. Até hoje, o número de
vítimas permanece controverso, uma vez que a população sofreu com sequelas de
longo prazo.
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Contra armas nucleares
Vocal
defensor da abolição das armas nucleares, o prefeito fez um alerta sobre a
atual corrida armamentista global, citando as guerras na Ucrânia e no Oriente
Médio.
"Esses
acontecimentos desconsideram flagrantemente as lições que a comunidade
internacional deveria ter aprendido com as tragédias da história", disse
ele. "Eles ameaçam derrubar as estruturas de construção da paz que tantos
trabalharam arduamente para construir."
Ele
instou ainda as gerações mais jovens a reconhecerem que tais "políticas
equivocadas" podem causar consequências "completamente
desumanas" para o seu futuro. Dezenas de pombas brancas, símbolo da paz,
foram soltas após o seu discurso.
Kazuo
Miyoshi, um aposentado de 74 anos, foi ao local homenagear seu avô e dois
primos que morreram no bombardeio. Ele rezou para que o "erro nunca se
repita". "Não precisamos de armas nucleares", disse.
Do lado
de fora do parque, sob forte esquema de segurança, mais de 200 manifestantes se
reuniram, segurando cartazes e bandeiras com mensagens contra o desenvolvimento
de armas nucleares e a guerra em Gaza.
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Pressão sobre governo japonês
Ishiba,
por sua vez, reiterou em seu discurso o compromisso do governo de trabalhar por
um mundo sem armas nucleares, mas não mencionou o Tratado sobre a Proibição de
Armas Nucleares. Sobreviventes, ativistas e parte das autoridades pressionam o
governo a assiná-lo e ratificá-lo.
Em uma
entrevista coletiva, o primeiro-ministro expressou confiança na disuassão
nuclear dos EUA. Ele afirmou que o Japão segue um princípio não nuclear e está
cercado por vizinhos que possuem armas nucleares. A postura, disse ele, não
contradiz a busca do Japão por um mundo livre destes armamentos.
Mais
cedo neste ano, parte dos sobreviventes expressou decepção com o que
consideraram uma resposta branda do governo japônes, neste ano, a uma
observação do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre o ataque contra o Irã em
junho. O republicano comparou o bombardeio americano aos ataques contra
Hiroshima e Nagasaki.
Ex-primeiros-ministros
enfatizaram o status do Japão como o único país do mundo a ter sofrido ataques
nucleares e expressaram determinação em buscar a paz. Mas, para parte dos
sobreviventes, estas são promessas vazias.
O
governo japonês pagou indenizações apenas aos veteranos de guerra e suas
famílias, embora os sobreviventes tenham buscado reparação para vítimas civis.
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Menos sobreviventes
No
entanto, este ano já conta com menos sobreviventes — conhecidos como hibakusha
— do que 2023.
Um
relatório do governo divulgado em março confirmou que agora existem apenas
99.130 hibakusha vivos — 7.695 a menos que no ano passado. A idade média dos
sobreviventes hoje é de 86 anos.
Em
contrapartida, museus, organizações e indivíduos se mobilizam para manter suas
histórias vivas.
Em
Hiroshima, um deles é Shun Sasaki, que ajuda a transmitir o horror do ataque à
sua cidade natal e suas consequências. Desde agosto de 2021, o menino de 12
anos conversa com turistas estrangeiros no Parque Memorial da Paz de Hiroshima.
"Eu
estava guiando um americano e ele disse que agora acha que devemos proibir
todas as armas nucleares. Isso me deixou feliz, porque, se ele for embora e
contar a verdade sobre Hiroshima para alguém, e depois essa pessoa contar para
outra pessoa, a mensagem de paz se espalhará", disse.
Sasaki
foi escolhido para falar na cerimônia desta quarta-feira, como representante
das crianças comprometidas com a paz no Japão.
Esforços
semelhantes transmitem as experiências dos hibakusha em Nagasaki, que foi alvo
de uma bomba de plutônio ainda mais poderosa em 9 de agosto de 1945. A contagem
de mortos chegou a 80 mil pessoas, em decorrência da detonação original e de
efeitos de longo prazo.
O Museu
da Bomba Atômica de Nagasaki lançou uma nova campanha internacional sobre o
tema. "Hiroshima ficará para sempre gravada na história como o primeiro
local de bombardeio atômico", disse Takuji Inoue, diretor do museu.
"No entanto, se Nagasaki permanecerá como o último depende do futuro que
criarmos."
"Estamos
nos aproximando de uma era em que os hibakusha não estarão mais entre
nós", disse Inoue. 'No entanto, como cidade bombardeada por uma bomba
atômica, estamos profundamente preocupados com o risco crescente do uso de
armas nucleares, alimentado pela turbulência das guerras na Ucrânia e no
Oriente Médio e outros eventos preocupantes."
Fonte:
DW Brasil

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