A
perigosa banalização de hormônios entre jovens nas academias
O preço
pelo "shape inexplicável" tem cobrado de jovens um padrão quase
inalcançável. Impulsionado pelas redes sociais, as academias modernas vivem,
hoje, uma enorme pressão estética para que os recém-chegados nesse espaço
tenham corpos milimetricamente esculpidos. E o fisiculturismo, esporte que
historicamente lapidou atletas na base da disciplina e da genética, agora serve
de moldura para uma epidemia silenciosa: o uso indiscriminado e precoce de
hormônios e esteroides anabolizantes.
De
acordo com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), de
1996 até 2024, houve um crescimento de 39% no uso de anabolizantes entre os
estudantes do nível fundamental, 67% entre os primeiros anos do ensino médio e
84% entre os do último ano do ensino médio. Essa estimativa mostra, ainda, que
um em cada 16 alunos já utilizou anabolizantes. No século passado, nomes como
Ronnie Coleman e Arnold Schwarzenegger encantaram um mundo que celebrava os
limites da força e do potencial humano.
Na
maior competição do fisiculturismo, o Mr.Olympia, as poses bem elaboradas e o
caminho até o êxito corporal traziam a ideia de que, com esforço, dedicação e
treino, é possível alcançar o lugar mais alto do universo bodybuilder. Hoje,
inclusive, o atual campeão do torneio é o brasileiro Ramon Dino, o primeiro do
país a vencer o campeonato. Contudo, a máxima de um esporte que nasceu com uma
premissa tão relevante, vê-se agora
lutando para não normalizar ou banalizar um assunto que, se antes era pouco
debatido, hoje faz muito barulho.
E isso,
sobretudo, entre aqueles que nem sequer vivem rotinas de atletas, muito pelo
contrário, querem resultados imediatos somente para fins estéticos. O psicólogo
esportivo e neurocientista Miguel Avellar explica que as plataformas digitais
fundiram o conceito de "corpo ideal" com o de "corpo
padrão". O resultado é uma insatisfação crônica. "As redes sociais
têm um papel central. Um jovem pode ter um shape saudável e musculoso, mas por
não ter o físico de um fisiculturista, carrega consigo uma sensação de
insuficiência", afirma o profissional.
De
acordo com o psicólogo, o cérebro dos jovens — que só se desenvolve por
completo entre os 25 e 27 anos — é recompensado com doses massivas de dopamina
ao consumir esses conteúdos, criando expectativas irreais. "Muitos
influencers utilizam substâncias que não somente não compartilham com o
público, mas também negam utilizar, o que torna a busca de quem está do outro
lado da tela ainda mais irrealista. Estamos incentivando o desenvolvimento de
uma geração emocionalmente doente", alerta.
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A realidade de quem usa
Erick
Prado, 23 anos, pratica musculação desde os 15 e decidiu iniciar o uso de
esteroides anabolizantes este ano para entrar no circuito de competições de
fisiculturismo. Ele reconhece a força da pressão social quanto aos padrões
estéticos, especialmente sobre aqueles que estão entrando na academia.
"Existe hoje uma cobrança muito forte para que o homem tenha um físico
musculoso e extremamente definido, como se apenas assim ele tivesse valor ou
reconhecimento social. Comparo isso à pressão que as mulheres sofreram nos anos
2000 em relação à magreza excessiva."
Para
proteger o organismo, Erick mantém uma estrutura de acompanhamento médico e
psicológico, embora ressalte que o controle final acaba sendo dele.
"Considero necessário tentar preservar o máximo de saúde possível.
Acredito que, quando uma pessoa faz uso de esteroides anabolizantes, não dá
para dizer que ela está sendo totalmente saudável e concordo plenamente com
essa afirmação. No fim, é uma troca. Tenho consciência de que estou trocando
parte da minha saúde e, possivelmente, alguns anos de vida por performance
atlética", desabafa Erick.
Mesmo
utilizando, ele entende os perigos que a popularização do uso de substâncias
representa para a saúde pública. Isso, somado ao fato de que o Brasil tem um
índice elevado quanto ao uso de anabolizantes, ao lado do cenário bodybuilder a
nível nacional, que cresce nas redes sociais a cada ano. Dessa forma, mais
jovens são cooptados a entrar nesse universo. No início, pelo motivo certo:
atividade física. Mas, depois, caem cedo nas armadilhas da pressão estética.
"Passei
cerca de oito anos treinando de forma natural. Vejo muitos garotos com pouco
tempo de treino já pensando em usar. Falta um entendimento maior sobre tentar
extrair o máximo do próprio corpo antes", alerta Erick. Há uma semana, o
influenciador fitness e fisiculturista Gabriel Ganley chocou o Brasil após
morrer precocemente, aos 22 anos, acometido por uma doença cardíaca, a
cardiomiopatia hipertrófica, que pode ser agravada pelo uso de anabolizantes.
Erick acredita que essa morte prematura traz reflexões necessárias e debates
que não podem ser silenciados.
"Existe
uma percepção muito equivocada de que o uso de esteroides anabolizantes seria
algo 'imortal' ou sem efeitos colaterais, e eu acredito que esse caso traz
justamente um nível de conscientização importante sobre esse tema. Estava
conversando com um amigo sobre isso e comentei que, infelizmente, talvez ele
tenha se tornado uma espécie de mártir de uma conversa que precisava acontecer
no Brasil: a discussão sobre a banalização da aplicação de esteroides
anabolizantes", completa Erick.
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O vazio da comparação
E essa
situação, naturalmente, desembarca diariamente nas salas de musculação,
desafiando os profissionais de educação física. Emanuel Victor, professor da
área, relata que o perfil dos alunos mudou drasticamente. "Antes, muitas
pessoas entravam com o objetivo de condicionamento físico ou saúde. Agora,
mudou; muitos entram com a perspectiva de ter um shape", conta. O
imediatismo e a frustração são os principais obstáculos no manejo dos novos
praticantes. Segundo o especialista, é comum que iniciantes exijam resultados
imediatos baseados em ilusões digitais.
"Influenciadores
usam recursos diferentes, como cirurgias, hormônios, luz, sombras, poses e até
mesmo edições. Isso cria uma visão distorcida de um resultado normal, o que faz
o praticante comum pensar que está fazendo algo de errado", esclarece o
professor. Ele reforça que é possível conquistar um físico estético de forma
100% natural, mas pondera: "O caminho é mais longo e, o grande desafio,
hoje, é que o padrão visual das redes sociais distorce o que é considerado
normal", destaca.
Dentro
da academia, em especial nos lugares em que trabalha, Emanuel ressalta que há
sempre sinais a serem observados para descobrir quem está tomando substâncias.
A evolução de força e ganho de massa em um curto espaço de tempo, além dos
efeitos colaterais, como aumento da acne e o forte odor, estão entre os
indícios. "Na hora de conversar, a melhor maneira é não constranger o
aluno e perguntar no privado sobre. E se estiver realmente fazendo o uso é
tentar educar e transmitir a informação necessária para que faça o uso somente
se necessário e com acompanhamento."
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As reflexões que ficaram
O
nutricionista Bruno Correia, 29 anos, sabe bem o que essa realidade significa.
Há uma década, movido pelo desejo de ser fisiculturista, começou a usar
hormônios. No entanto, ao perceber que não tinha a genética privilegiada,
acabou tomando rumos diferentes — mas sem deixar de tomar as doses. Por quase
oito anos, ele fez uso de trembolona, hemogenin, proviron, dianabol,
oxandrolona, masteron, deca e estano. "Os colaterais do começo eram mais
espinha e mudanças de humor", relembra.
Atualmente,
ele relata que tem muito pelo corporal e sente calor excessivo. "Alguns
exames nunca mais voltam ao normal", revela. Contudo, o cenário de momento
é diferente. Bruno, agora, faz apenas uso de testosterona. E assim que virou um
profissional da saúde, tornou-se mais criterioso quanto à utilização de
substâncias, principalmente em jovens.
"Prefiro
nunca indicar, ainda mais como nutricionista. Nunca recomendo, a não ser que
conheça os riscos e que pretenda usar por um tempo mais prolongado do que só um
ciclo. Não vale a pena, sempre se perde no pós-uso. O alto desempenho físico
não é natural, ele vem com um recurso a mais. A reflexão é clara: cuidado com o
exagero, não há dose segura, não há como usar sem risco, mas tem formas de
amenizá-lo", acrescenta.
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O que a medicina diz?
Para
Érika Fernanda de Faria, médica endocrinologista do Hospital Santa Lúcia Norte,
da Asa Norte, o maior perigo da normalização é transformar uma intervenção
hormonal (com critérios específicos de uso) em hábitos de academia.
"Creatina é um nutriente estudado; anabolizante é uma droga hormonal que
interfere no cérebro, testículos e ovários, fígado, coração, pele, fertilidade
e comportamento", alerta a especialista. Em jovens, segundo ela, o risco é
maior porque o corpo ainda está calibrando o eixo hormonal.
"Esteroides
podem desligar o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal: o cérebro reduz LH e FSH, os
testículos diminuem produção de testosterona e espermatozoides, podendo haver
atrofia testicular, infertilidade, disfunção erétil e queda importante de testosterona
ao parar. Em alguns homens, o eixo pode recuperar em três a seis meses, mas
isso não é garantido. O uso prolongado, doses altas e combinações aumentam
risco de hipogonadismo persistente e infertilidade", acrescenta.
Danos
potencialmente irreversíveis incluem ginecomastia, calvície androgenética
acelerada, acne cicatricial, alterações de voz e virilização em
meninas/mulheres, fechamento precoce das cartilagens de crescimento em
adolescentes, infertilidade prolongada, lesão hepática, piora de colesterol,
hipertensão, aumento do risco cardiovascular e dependência. Além disso, existem
efeitos psiquiátricos, como agressividade, paranoia, irritabilidade e episódios
maníacos, assim como depressão na retirada.
Para
fins puramente estéticos em jovens saudáveis, não existe "uso seguro"
reconhecido pela medicina. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM) veda
a prescrição de testosterona e anabolizantes para estética, ganho de massa ou
performance esportiva por falta de comprovação suficiente de benefício e
segurança. "A Sociedade Brasileira de Endocrinologia também se posiciona
contra esse uso fora de deficiência hormonal comprovada", reforça a
profissional.
Ao
interromper as aplicações, o jovem pode ficar num "buraco hormonal",
explica a médica: testosterona baixa; libido baixa; fadiga; perda de massa;
insônia; ansiedade; irritabilidade e depressão. Em alguns casos, segundo ela,
há ideação suicida, especialmente quando existe dependência, dismorfia muscular
ou transtornos prévios. A retirada não é só física, é também psicológica,
porque a pessoa perde o corpo artificialmente mantido e pode entrar em
compulsão por novo ciclo.
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Contraste histórico
Para
além dos anabolizantes amplamente conhecidos, dessa vez a insulina virou
ferramenta no fisiculturismo. Segundo Érika Fernando, por ser um hormônio
anabólico, ela facilita a entrada de glicose e nutrientes nas células e é usada
para tentar aumentar o volume muscular, muitas vezes ao lado de hormônios do
crescimento. "O problema é que, em não diabéticos, ela pode derrubar
rapidamente a glicose no sangue. Isso pode causar tremor, confusão, convulsão,
coma, lesão cerebral e morte. Há relatos de coma hipoglicêmico em
fisiculturistas por uso oculto de insulina", alerta a endocrinologista.
Na
visão da médica, a mensagem central é: músculo ganho com sabotagem hormonal
pode custar fertilidade, saúde mental, coração e anos de vida saudável.
Pacientes com sintomas após uso devem procurar endocrinologista ou pronto
atendimento se houver depressão intensa, ideação suicida, dor no peito, falta
de ar, desmaio, confusão ou sinais de hipoglicemia. Fato é que, mesmo com todos
esses riscos, a internet tem sido o palco da vaidade instantânea, contribuindo
para a fomentação de uma realidade que estava concentrada apenas nos corredores
das academias.
E se no
mundo contemporâneo não trazer luz ao tema é impossível, no passado, não era
bem assim. Cícero Lourenço, 45, lembra da experiência com a pressão estética no
meio LGBTQIA e o risco do uso clandestino de anabolizantes que acabou vivendo,
mais de duas décadas atrás. "Sou gay e, por aqui, a pressão é enorme. Ter
um corpo que consideram bonito funciona como alavanca para a paquera. Se você
não for padrão, os relacionamentos ficam escassos", conta.
Após um
período de uso acompanhado por profissionais, os custos financeiros elevados o
empurraram para o mercado ilegal. O resultado, de acordo com ele, foi severo.
"Voltei a usar de forma clandestina testosterona com oxandrolona. Tive uma
infecção em uma das aplicações, tive vários abscessos e precisei drenar. Foi
horrível. Em uma semana, fui de 82 para 70 quilos. Mexeu com a autoestima e
tive medo de morrer", recorda Cícero.
Hoje,
ele defende a necessidade urgente de exames e conscientização. "Às vezes,
estamos lindos esteticamente falando, mas por dentro podemos ter um problema
que nos leve à morte", afirma. Cícero entrou nesse mundo não porque era
apaixonado por fisiculturismo, mas pela ânsia de caber dentro de um padrão. E
isso, muito antes de a internet pressionar tantos jovens com corpos irreais. De
certa forma, a história de Cícero é a ilustração do que sempre existiu, mas que
agora não pode ser ignorado.
Fonte:
Correio Braziliense

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