quarta-feira, 3 de junho de 2026

Clã Bolsonaro acumulou episódios com suspeitos ligados ao crime organizado

A defesa feita por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) da classificação do PCC e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos reacendeu o debate sobre a trajetória política do clã Bolsonaro e suas relações com personagens acusados de envolvimento com o crime organizado, especialmente no Rio de Janeiro.

As informações são da Folha de S.Paulo. Segundo a reportagem, o senador e outros integrantes da família Bolsonaro mantiveram, ao longo dos anos, relações políticas, homenagens públicas, vínculos de gabinete ou alianças com pessoas posteriormente acusadas de ligação com milícias, grupos armados ou organizações criminosas.

A decisão norte-americana de enquadrar o PCC e o CV como grupos terroristas foi comemorada por Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência da República. O anúncio ocorreu após uma visita do senador a Donald Trump, nos Estados Unidos, e passou a ser tratado por aliados como um trunfo político na área de segurança pública.

Em nota, a assessoria de Flávio negou qualquer conivência da família com grupos criminosos e atacou o governo Lula. "A família Bolsonaro e Flávio Bolsonaro não compactuam com facções ou grupos armados e criminosos. Diferentemente do governo Lula [PT], que recebeu a primeira-dama do tráfico no Ministério da Justiça e fez lobby nos Estados Unidos a favor de facções narcoterroristas", afirmou a assessoria do pré-candidato do PL à Presidência.

A declaração faz referência à ida de Luciane Farias ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, em 2023. Ela é esposa de um homem apontado como líder do Comando Vermelho no Amazonas e ficou conhecida como "dama do tráfico". A pasta reconheceu que Luciane foi recebida em reuniões, mas afirmou que desconhecia sua identidade. O presidente Lula não se reuniu com ela.

A assessoria de Flávio também afirmou que "não há um único boletim de ocorrência ou processo que corrobore a tese da reportagem". A nota ainda acusou o governo Lula de manter "relações próximas com uma integrante do PCC recentemente presa e que pode estar à frente de um plano de atentado contra a vida de Flávio", mas não apresentou detalhes sobre a acusação nem citou indícios.

Um dos episódios mais conhecidos envolve o ex-policial militar Adriano da Nóbrega, apontado pelo Ministério Público como integrante da milícia de Rio das Pedras e do grupo de extermínio Escritório do Crime. Em 2005, Adriano recebeu, na cadeia, a visita de Flávio e Jair Bolsonaro, que lhe entregaram a Medalha Tiradentes, honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

A homenagem ocorreu a pedido de Flávio, então deputado estadual. Antes disso, em 2003, ele já havia feito outra homenagem a Adriano da Nóbrega. Jair Bolsonaro afirmou à imprensa, em 2020, que essa primeira homenagem teria ocorrido a pedido dele.

Adriano foi morto em 2020 durante uma operação da Polícia Militar da Bahia. Ele estava foragido havia mais de um ano e era acusado de homicídios no Rio de Janeiro e de envolvimento com máquinas caça-níqueis, atividade proibida no país.

A ligação política também passou pelo gabinete de Flávio na Alerj. Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, respectivamente mãe e esposa de Adriano da Nóbrega, foram empregadas no gabinete do então deputado estadual até 2018.

Segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro, as duas teriam participado de um esquema de "rachadinha", prática em que parte dos salários de assessores é devolvida ao parlamentar. Flávio sempre negou as acusações.

De acordo com os investigadores, Danielle repassou ao menos R$ 150 mil a Fabrício Queiroz, policial militar aposentado que atuava como assessor de Flávio. Desse total, R$ 115 mil teriam sido transferidos por meio de contas controladas por Adriano da Nóbrega. Também teriam sido usadas contas de dois restaurantes ligados à família do ex-policial e de Raimunda, antes da nomeação dela no gabinete.

As apurações sobre o caso foram encerradas depois que o STF (Supremo Tribunal Federal) e o STJ (Superior Tribunal de Justiça) anularam, em 2021, as provas coletadas. Flávio sustenta que foi alvo de uma ofensiva política para atingir sua imagem.

"[Houve] toda essa espuma, todo esse ataque para tentar destruir minha reputação, e nunca teve início um processo criminal contra mim. Sabe quantas ligações financeiras tem com meus assessores? Zero. Sabe quantos assessores disseram que cobrei salário de volta para empregar no meu gabinete? Zero", afirmou Flávio Bolsonaro ao podcast Inteligência Ltda em março deste ano.

Outro ponto citado pela reportagem é o histórico de declarações públicas de Jair e Flávio Bolsonaro sobre milícias. Esses grupos, formados sobretudo por ex-agentes de segurança, são classificados como organizações criminosas e atuam em áreas do Rio de Janeiro com controle territorial, cobrança de taxas e intimidação de moradores.

Em 2018, Jair Bolsonaro associou a presença de milícias a uma suposta redução da violência. "Naquela região onde a milícia é paga, não tem violência", afirmou.

Flávio Bolsonaro também já fez declarações que minimizaram a atuação desses grupos. Em discurso na Alerj em 2007, chamou as milícias de "nova forma de policiamento, entre aspas". Ele também disse que "não raro é constatada" a felicidade de moradores de comunidades controladas por milicianos.

A reportagem também menciona que Jair Bolsonaro, durante seu mandato como presidente, entre 2019 e 2022, não adotou movimento para classificar grupos como o PCC como organizações terroristas. O ex-presidente também foi preso por integrar uma organização criminosa que tentou dar um golpe de Estado.

Outro episódio envolve a campanha de Flávio Bolsonaro ao Senado em 2018. Naquele ano, a Operação Quarto Elemento prendeu policiais suspeitos de participar de uma quadrilha especializada em extorsões. Entre os detidos estavam os irmãos gêmeos Alan e Alex Rodrigues Oliveira, policiais militares que teriam atuado na segurança da campanha de Flávio.

Os dois são irmãos de Valdenice de Oliveira Meliga, que foi assessora da liderança do PSL, antigo partido de Bolsonaro, na Alerj e tesoureira da legenda no Rio de Janeiro. Na época, Flávio negou ao jornal O Estado de S. Paulo que os policiais integrassem sua campanha. Valdenice afirmou que os irmãos atuavam como voluntários.

Em outubro de 2017, Flávio publicou uma foto ao lado de Valdenice e dos gêmeos em uma rede social. Na legenda, escreveu: "Parabéns Alan e Alex pelo aniversário, essa família é nota mil!!!".

A lista de relações políticas citadas pela Folha inclui ainda Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj. A partir de 2024, Bacellar se aproximou da família Bolsonaro com o objetivo de se viabilizar como possível candidato ao Governo do Rio de Janeiro na sucessão de Cláudio Castro (PL).

Em julho daquele ano, Bacellar se reuniu com Jair, Flávio e Carlos Bolsonaro para discutir as eleições municipais. Na ocasião, recebeu do clã uma medalha com os dizeres "imorrível, imbroxável e incomível".

Depois de se tornar potencial candidato apoiado pela família Bolsonaro no Rio, Bacellar perdeu o mandato e foi preso sob suspeita de participar de uma organização criminosa e de vazar informações para beneficiar o Comando Vermelho.

A reportagem também cita a proximidade de Flávio Bolsonaro com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, acusado de crimes relacionados a fraudes no Banco Master, incluindo organização criminosa, corrupção e lavagem de dinheiro.

Segundo áudio divulgado pelo site The Intercept Brasil, Flávio mantinha contato com Vorcaro. O site afirmou que o ex-banqueiro combinou o pagamento de R$ 134 milhões para financiar o filme "Dark Horse", produção sobre Jair Bolsonaro.

Posteriormente, Flávio afirmou que Vorcaro pagou cerca de R$ 60 milhões ao longa-metragem e reconheceu ter cobrado parcelas restantes. O senador justificou que se tratava de recursos privados, não públicos. Ele também admitiu ter se encontrado pessoalmente com Vorcaro para, segundo afirmou, "colocar um ponto final" na relação.

Os episódios reunidos pela reportagem contrastam com o discurso atual de Flávio Bolsonaro em defesa de medidas mais duras contra facções criminosas. Ao mesmo tempo em que celebra a decisão dos Estados Unidos sobre PCC e CV, o senador e sua família voltam a ser cobrados sobre relações políticas passadas com personagens acusados de vínculos com milícias, grupos armados e organizações criminosas.

•        Alencar Santana aciona PF para investigar Flávio Bolsonaro por suposta ligação com crime organizado

O deputado federal Alencar Santana (PT-SP) afirmou nesta segunda-feira (1) que está apresentando uma denúncia contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e pedirá investigação sobre possíveis vínculos do parlamentar com integrantes do crime organizado.

Santana afirmou, em entrevista à TV 247, que diversos políticos foram afastados de seus cargos no Rio de Janeiro por supostas ligações com o Comando Vermelho e sustentou que há indícios de relações entre o senador e algumas dessas pessoas. Entre os nomes citados pelo deputado estão os ex-deputados TH Joias e Rodrigo Bacellar; o traficante Gabriel Dias, conhecido como "Índio do Lixão"; Alessandro Pitombeira, ex-secretário de Esportes e subsecretário do Rio de Janeiro; e Gutemberg Fonseca, ex-secretário de Defesa do Consumidor do Rio de Janeiro.

"Quero que a PF investigue se o senador Flávio Bolsonaro tem relação com o crime organizado. Lembrando que ele já nomeou no seu gabinete milicianos, familiares de milicianos, já condecorou quando era deputado estadual milicianos na Assembleia Legislativa, já defendeu publicamente milicianos. Agora a suspeita é de participação dele e de relação com pessoas, que estão sendo investigadas e foram afastadas de seus cargos e mandatos parlamentares por terem algum tipo de vínculo com o Comando Vermelho", disse Santana.

Na entrevista, o parlamentar também criticou a decisão dos Estados Unidos de classificar as facções criminosas Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. A medida do Departamento de Estado norte-americano ocorreu após um encontro entre Flávio Bolsonaro e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Washington.

Os aliados teriam sido indicados por Flávio Bolsonaro. "Flávio Bolsonaro também tem esse vínculo (com o crime organizado)?", indagou.

•        'Filhos do Bolsonaro encontraram um jeito de enriquecer: ficar amigo do Vorcaro', diz Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta terça-feira (2) que os filhos de Jair Bolsonaro (PL) teriam enriquecido após se aproximarem de Daniel Vorcaro, ex-banqueiro e dono do liquidado Banco Master.

Em declaração pública, Lula citou o Banco Master, os filhos de Bolsonaro e também parlamentares ao criticar o que classificou como uma forma de enriquecimento ligada à proximidade com Vorcaro. “Tem outra forma de ficar rico, o Banco Master encontrou uma forma de ficar rico. Os filhos do Bolsonaro encontraram um jeito de ficar rico, alguns senadores e deputados encontraram um jeito de ficar rico. O que que é? Ficar amigo de Daniel Vorcaro. Aí é fácil, mas é muito complicado roubar, porque você pode ser preso, você pode cair, você pode ser morto”, afirmou Lula.

A declaração do presidente amplia o tom político em torno do caso Banco Master e coloca Daniel Vorcaro novamente no centro do debate público. Ao mencionar filhos de Bolsonaro, senadores e deputados, Lula vinculou a crítica à relação de agentes políticos com o ex-banqueiro.

A manifestação ocorre em um contexto de forte disputa política em torno das relações entre figuras públicas e o ex-dono do Banco Master.

       Moro passa vergonha quando Flávio Bolsonaro é questionado sobre seu pedido de dinheiro a Vorcaro

Ex-juiz declarado suspeito pelo Supremo Tribunal Federal, o senador Sergio Moro (União Brasil-PR) ficou sem resposta quando Flávio Bolsonaro (PL-RJ) recebeu questionamento sobre a origem do dinheiro destinado a Dark Horse, filme biográfico de Jair Bolsonaro (PL), em meio a suspeitas sobre um financiamento de R$ 134 milhões negociado com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.

A pergunta expôs o constrangimento de Moro e Flávio durante uma coletiva de imprensa. Em vez de explicar a origem dos recursos citados na reportagem do Intercept Brasil, os dois senadores passaram a atacar o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e tentaram ligar a atual gestão aos escândalos envolvendo o Banco Master.

O ex-juiz acompanhava Flávio Bolsonaro no momento da abordagem. A falta de resposta sobre o dinheiro do filme marcou a cena e ampliou a pressão sobre o senador do PL, que aparece no centro das revelações sobre a busca de recursos para a produção.

Dark Horse retrata a trajetória de Jair Bolsonaro, condenado pelo STF a 27 anos de prisão no inquérito da trama golpista. O longa entrou no foco do debate político após a divulgação de informações sobre valores milionários negociados para viabilizar a obra.

<><> Reportagem do Intercept apontou financiamento milionário

Em 13 de maio, o Intercept Brasil revelou que Flávio Bolsonaro negociou com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, um financiamento de R$ 134 milhões para Dark Horse. Segundo a reportagem, R$ 61 milhões teriam chegado à produção.

A revelação colocou o financiamento do filme no centro das cobranças por explicações. O questionamento feito a Flávio buscava justamente esclarecer a origem dos recursos e o papel de Vorcaro na operação financeira associada ao longa.

A reação dos senadores deslocou o foco da pergunta. Sem responder diretamente sobre o repasse, Flávio Bolsonaro e Sergio Moro usaram a entrevista para atacar o governo Lula e tentar associar a gestão federal aos problemas do Banco Master.

<><> Eduardo Bolsonaro também discutiu recursos para o filme

O caso envolve ainda o deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), irmão de Flávio. Segundo as informações fornecidas, Eduardo discutiu o financiamento de Dark Horse com Daniel Vorcaro por meio de Thiago Miranda, sócio do Portal Leo Dias.

•        Entorno de Lula vê cerco contra clã Bolsonaro "se fechando" após operação da Polícia Civil de SP

Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmaram nesta segunda-feira (1º) que as investigações envolvendo uma organização não governamental ligada à produção de um filme sobre Jair Bolsonaro (PL) representam mais um capítulo do avanço das apurações sobre o entorno político e financeiro da família Bolsonaro. As informações são do jornal Valor Econômico.

Nesta segunda-feira, a Polícia Civil de São Paulo realizou uma operação contra o Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade presidida por Karina Ferreira da Gama, produtora do filme Dark Horse, cinebiografia de Bolsonaro. Segundo os investigadores, o ICB é alvo de apurações relacionadas a um contrato de R$ 108 milhões firmado com a Prefeitura de São Paulo para a instalação de pontos de wi-fi na capital paulista.

As suspeitas envolvem possíveis irregularidades na contratação e na execução do serviço, além de eventual desvio de recursos públicos. A prefeitura nega qualquer irregularidade e afirma colaborar com as investigações.

Interlocutores do governo e parlamentares da base aliada repercutiram a operação nas redes sociais, relacionando-a a outras investigações que envolvem pessoas próximas ao ex-presidente.

<><> Lindbergh fala em avanço das investigações

O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) afirmou que os fatos investigados exigem esclarecimentos e associou o caso às denúncias envolvendo o financiamento do filme Dark Horse.

"Muita coisa precisa ser explicada por essa turma. Já pedimos à Interpol para investigar onde estão os R$ 61 milhões que Flávio pediu ao Vorcaro. Vamos seguir o caminho do dinheiro e desbaratar essa quadrilha", escreveu o parlamentar na rede X. A publicação foi compartilhada pela deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR).

No domingo (31), Lindbergh informou que acionou o escritório central da Interpol no Brasil para solicitar cooperação internacional em uma investigação sobre possíveis crimes de lavagem de dinheiro, ocultação de beneficiários finais e triangulação internacional de recursos relacionados ao filme.

<><> Negociações para financiar Dark Horse

As declarações do deputado fazem referência a reportagens divulgadas pelo site The Intercept Brasil sobre mensagens e áudios atribuídos ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e ao empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

Segundo as revelações, as negociações teriam alcançado R$ 134 milhões. Até o momento registrado nos diálogos, cerca de R$ 61 milhões já haviam sido transferidos para um fundo sediado no Texas, nos Estados Unidos. Karina Ferreira da Gama, presidente do Instituto Conhecer Brasil, também é sócia da Go UP Entertainment, produtora responsável pelo filme Dark Horse.

<><> Polícia apura possível financiamento cruzado

De acordo com documento da Polícia Civil obtido pela reportagem, investigadores trabalham com a hipótese de que recursos públicos recebidos pelo Instituto Conhecer Brasil possam ter sido utilizados para financiar a produção do filme.

O relatório menciona suspeitas de "financiamento cruzado ilícito" e considera a possibilidade de que verbas vinculadas ao contrato com a Prefeitura de São Paulo tenham sido desviadas para custear a obra audiovisual. O orçamento estimado de Dark Horse varia entre R$ 8 milhões e R$ 20 milhões, segundo informações citadas pelos investigadores.

<><> Boulos critica Ricardo Nunes

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (Psol), também comentou a operação nas redes sociais. Sem mencionar diretamente a família Bolsonaro, ele direcionou críticas ao prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), seu adversário político na disputa pela administração municipal. "É impressionante, onde tem contrato suspeito, tem o dedo de Nunes", escreveu.

 

Fonte: Brasil 247

 

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