Proibidos
no Brasil, Polymarket e Kalshi viralizam na direita como alternativa às
pesquisas eleitorais
Em
abril, o governo brasileiro bloqueou ao menos 27 sites do chamado mercado de
previsão, como Kalshi e Polymarket — plataformas onde se compram e vendem
contratos apostando se um evento vai ou não acontecer, de eleições a jogos
esportivos. No jargão do mercado financeiro, são chamados de derivativos.
Mesmo
proibidas, essas plataformas continuam a ser tratadas nas redes sociais
brasileiras como termômetro político e uma espécie de "alternativa"
às pesquisas eleitorais tradicionais — embora especialistas ressaltem que não
são uma boa forma de estimar intenções de voto nem de traçar um cenário da
disputa ou prever seu resultado, apesar do nome dado a esse mercado.
O
discurso é puxado, em grande parte, por uma rede de políticos e influenciadores
de direita que apresenta os números das apostas como contraponto aos institutos
de pesquisa, sugerindo que o senador Flávio Bolsonaro (PL) lideraria a corrida
presidencial, conforme uma análise de publicações feitas pela BBC News Brasil
na rede social X.
A
análise identificou um aumento no número de menções ao Polymarket e Kalshi em
português em 2026, com alguns dos posts mais populares feitos depois da
proibição.
A
reportagem fez buscas em que os nomes das plataformas apareciam ligados a
candidatos à Presidência da República e à eleição de 2026. No topo da lista das
medidas de engajamento nas redes, como curtidas, comentários e
compartilhamentos, predominam contas ligadas ao bolsonarismo e à direita.
A
publicação mais engajada do recorte é do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro
(PL) é um post de 6 de maio de 2026.
Em
referência à decisão do governo brasileiro de bloquear as plataformas, o
deputado escreveu: "Lula proibiu o Polymarket no Brasil, mas não quer só
te impedir de ver que Flávio Bolsonaro lidera a corrida presidencial",
junto de um vídeo. O post recebeu 16,7 mil curtidas e 5,6 mil
compartilhamentos.
Na
mesma linha, o empresário Paulo Figueiredo, apoiador da família Bolsonaro,
publicou em sua conta no X três dias depois, em 9 de maio, a seguinte mensagem:
"Por que o Dario Durigan (atual ministro da Fazenda) e Lula proibiram a
plataforma de tecnologia preditiva Polymarket? Porque eles têm um histórico de
acerto eleitoral de 90% em mercados de alta liquidez e Flávio já abriu quase 5
pontos de vantagem. Censura." O texto teve 11,6 mil curtidas e 3 mil
compartilhamentos.
O
cenário descrito por eles, no entanto, mudou no fim de maio, quando postagens
no X que destacavam a "virada" de Lula na plataforma Polymarket
passaram a ter mais engajamento na rede social.
Essas
novas publicações associam a queda de Flávio nas apostas do site à revelação de
áudios entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro com pedidos de
financiamento para o filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro
(PL), pai do senador.
Contratos
ligados à eleição presidencial brasileira de 2026 no Polymarket somavam cerca
de US$ 86,8 milhões (cerca de R$ 435 milhões) em volume negociado na última
semana de maio — com Lula (US$ 5,79 milhões), Flávio Bolsonaro (US$ 5,98
milhões) e Renan Santos (US$ 5,80 milhões) à frente em movimentação financeira.
Lula
aparecia na plataforma com cerca de 44% de chances de vitória. Por sua vez,
Flávio Bolsonaro tinha perto de 28%. Renan Santos, em terceiro, tinha 13%.
Como o
acesso ao site está bloqueado no Brasil, uma forma de entrar nas plataformas é
por meio de VPN, um serviço de rede privada virtual que mascara o endereço IP
do usuário e criptografa sua conexão, permitindo acessar conteúdos em uma dada
localização.
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'Pesquisa e mercado de apostas respondem perguntas diferentes'
Para
especialistas ouvidos pela reportagem, o mercado de apostas e as pesquisas
eleitorais não medem a mesma coisa. Raphael Nishimura, estatístico da
Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, explica a distinção.
"A
pesquisa eleitoral está tentando estimar qual vai ser a intenção de voto de
cada candidato. Já essas plataformas de apostas estão literalmente respondendo
qual é a probabilidade de um candidato vencer a eleição. São perguntas
diferentes que vão dar resultados diferentes."
Ou
seja, um candidato aparecer com 40% ou 50% no Polymarket não significa que ele
terá aquela proporção de intenção de votos. Significa que o mercado está
calculando a probabilidade de vitória com base no quanto os usuários desse tipo
de plataforma estão dispostos a pagar para apostar naquele desfecho.
O
estatístico observa que o mercado de previsão, na prática, se alimenta das
sondagens eleitorais.
"Assim
que sai uma pesquisa, principalmente dependendo do resultado, tem uma mudança
nas probabilidades. Os apostadores estão absorvendo as informações da pesquisa
e atualizando aquilo que eles acreditam ser de quem vai ser o vencedor",
explica.
Josilmar
Cordenonssi, professor de Ciências Econômicas da Universidade Presbiteriana
Mackenzie, observa que pesquisas e sites de apostas operam em ritmos
diferentes: as pesquisas exigem coleta de campo em amostra representativa e
levam dias entre apuração e divulgação, enquanto os contratos se movem em tempo
real, reagindo a fatos novos.
"Quem
usa esses mercados está apostando, colocando o próprio dinheiro lá. Não é
simplesmente uma opinião desinteressada", diz Cordenonssi.
"Eles
estão apostando naquilo que é mais provável, porque o objetivo é ganhar
dinheiro, não é ganhar politicamente, manipular o eleitorado."
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Quem aposta — e quem ganha
A
reação rápida do mercado a novos fatos que ainda não foram captados por
pesquisas é, para Nishimura, o que essas plataformas têm de diferente. Mas ele
alerta que essa mesma característica abre uma janela para riscos.
Segundo
uma análise da Bloomberg News, entre o início de 2025 e o fim de abril deste
ano, o número de contas da Polymarket que perderam dinheiro após apostar mais
de US$ 1 mil (cerca de R$ 5,6 mil) foi quase o dobro do total de contas que
tiveram lucro.
Outro
levantamento, publicado pelo jornal americano The Wall Street Journal, mostrou
que 67% dos ganhos da Polymarket estão concentrados em apenas 0,1% das contas.
De acordo com o jornal, quase US$ 500 milhões (cerca de R$ 2,8 bilhões) foram
parar nas mãos de menos de 2 mil usuários.
A
análise também indicou que quem costuma se sair melhor nessas plataformas são
empresas com equipes especializadas, capazes de pagar por recursos que ajudam a
embasar suas apostas, como ter acesso a dados em tempo real e usar servidores e
robôs de inteligência artificial para analisar um grande volume de informações.
Os
dados sugerem que o que se vende como "termômetro coletivo" pode, na
prática, refletir mais o comportamento de poucos operadores sofisticados do que
uma intuição pública coletiva.
Há
ainda o risco do uso de informação privilegiada — situação em que apostadores
com acesso antecipado a um fato que ainda não veio a público fazem
movimentações de vulto que alteram o cálculo das probabilidades informadas por
uma plataforma.
Em
janeiro deste ano, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos denunciou
Gannon Ken Van Dyke, militar das forças especiais americanas, por suposto uso
de informação privilegiada.
Van
Dyke teria ganho mais de US$ 409 mil (cerca de R$ 2 milhões) apostando no
Polymarket sobre a captura do então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro,
antes de a operação se tornar pública. Ele se declarou inocente.
Para
Nishimura, o caso ilustra o problema. "Aquela pessoa que sabia [da captura
de Maduro] era usuário dessa plataforma, acabava fazendo apostas de valores
muito grandes, que acabaram puxando a probabilidade de aquele evento ocorrer,
porque tinha ali uma informação interna."
Outro
risco apontado pelo estatístico é a manipulação direta. "Por serem
cálculos de probabilidade feitos com base em volumes de apostas, de fato existe
ali uma janela em que, se uma pessoa ou grupo de pessoas com muito dinheiro
quiserem, de alguma forma, manipular aqueles números."
Isso
não acontece nas pesquisas eleitorais, ressalta o estatístico. "Os
institutos têm seus métodos para averiguar as questões de voto da população
para estimar aquilo que é o mais próximo possível. Não vai haver um grupo de
pessoas que vai conseguir manipular o resultado das pesquisas. Institutos não
têm interesse em vender um resultado distorcido, porque isso fere a própria
reputação deles."
Nishimura
também faz um contraponto sobre o que se espera de uma pesquisa. "Pesquisa
não serve como prognóstico. O papel dela é retratar um momento do eleitorado,
que pode continuar ou não. Pode haver mudanças."
Como
exemplo, cita as eleições estaduais de 2018, quando pesquisas divulgadas na
véspera apontavam Romeu Zema (Novo) em terceiro lugar na disputa pelo governo
de Minas Gerais, e Wilson Witzel (então no PSC, hoje DC), no Rio de Janeiro,
fora da liderança. Ambos acabaram à frente no primeiro turno após uma arrancada
associada à onda bolsonarista na reta final.
O
estatístico aponta uma alternativa a quem busca a probabilidade de vitória de
cada candidato — sem precisar recorrer a plataformas de aposta.
"Existem
agregadores que calculam probabilidades com base em pesquisas eleitorais
apenas. Não só agrega e tira a média das pesquisas de intenção de voto, mas
também tem um modelo por trás para calcular qual a probabilidade do Lula vencer
a eleição, ou do Flávio vencer, ou de ter um segundo turno."
Segundo
um levantamento do site Núcleo, de 190 canais de política no YouTube
monitorados, 20 citavam o Polymarket como balizamento para intenções de voto.
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Por que as plataformas foram proibidas no Brasil
O
bloqueio feito pelo governo federal partiu de uma resolução aprovada pelo
Conselho Monetário Nacional (CMN), orgão que regula o sistema financeiro
brasileiro.
Na
ocasião, o ministro Dario Durigan afirmou que o setor "sofreu um espaço de
anarquia" entre 2018 e 2022 e que esse tipo de aposta não pode ser tratado
como derivativo regular no Brasil.
"A
gente não vai ter aqui previsão de chuva, morte de uma determinada celebridade,
como possibilidade de ser encarado como derivativo regular no Brasil",
disse Durigan.
Hoje, é
permitido no país o mercado de apostas em eventos esportivos reais, conhecidas
como bets, e jogos online com regras definidas.
A
pressão pelo bloqueio veio também do próprio mercado regulado, segundo noticiou
a imprensa brasileira.
A Folha
de S. Paulo afirmou que as bets brasileiras — que pagaram outorgas de R$ 30
milhões cada para operar legalmente no país — solicitaram ao governo, em
reuniões com o Ministério da Fazenda, que plataformas como a Kalshi fossem
bloqueadas.
O
argumento das bets é que essas empresas não poderiam operar no Brasil por não
terem sede no país nem terem pago por outorgas. Em entrevista ao jornal Valor
Econômico, a fundadora da Kalshi disse que a empresa está em expansão e que
estuda a possibilidade de abrir um escritório no Brasil.
Para
Cordenonssi, do Mackenzie, o problema central é regulatório. "Eles driblam
toda a regulamentação do mercado financeiro", diz o professor sobre as
plataformas do mercado de previsão.
"Acharam
melhor proibir esse tipo de aposta, deixando para o mercado financeiro
organizar esse tipo de atividade aqui no Brasil."
Fonte:
BBC News Brasil

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