Elías
Jaua diz que governo venezuelano aceita tutela dos EUA sobre petróleo, Cuba,
Irã e Palestina
Ex-vice-presidente
da Venezuela, ex-ministro das Relações Exteriores e uma das principais
lideranças históricas do chavismo, Elías Jaua avalia que os
acontecimentos de 3 de janeiro marcaram uma mudança qualitativa na relação
entre Caracas e Washington.Nesta entrevista à Socialist Renewal,
Jaua sustenta que o país vive uma situação de tutela sob coerção dos Estados
Unidos, analisa as responsabilidades políticas que abriram caminho para a atual
conjuntura e defende a construção de um amplo acordo nacional em defesa da
soberania venezuelana.Ao longo da conversa, ele também faz um balanço crítico
dos últimos anos da Revolução Bolivariana, discute o papel do Partido
Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e reflete sobre os desafios colocados para
a esquerda internacional diante da crise.
·
Depois do ataque imperialista de 3 de janeiro, você
referiu-se à situação na Venezuela como uma «ocupação militar». Poderia explicar
por que?
Elías
Jaua: Disse
isso em função do que declararam oficialmente tanto o governo na Venezuela,
como Donald Trump e Marco Rubio. O governo dos Estados Unidos disse que, sob a
ameaça de uma destruição massiva de infraestrutura e da liderança na Venezuela,
tinha sido aceito o esquema proposto por Trump.
Então,
sem dúvida alguma, há uma ameaça pública de um ataque militar de maior escala e
isto implica em uma coerção militar. Isto também explica o que vem ocorrendo
posteriormente.
·
Qual é o esquema de Trump para a Venezuela?
O mais
visível, declarado por Trump e seus funcionários, é que a comercialização da
produção petroleira venezuelana está nas mãos deles e que a renda proveniente
da venda desse produto vai para um fundo administrado pelo Departamento do
Tesouro, liberando alguns recursos para o funcionamento do Estado venezuelano.
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Isto
não necessita de maiores explicações para compreender a gravidade que implica
uma situação em que um país, uma nação, um Estado, tem que aceitar que seu
principal recurso para geração de renda seja administrado por outro país. Isto
não tem outro nome senão uma tutela sob coerção e uma administração neocolonial
de um governo por outro, que é o esquema implantado na Venezuela.
Depois,
suas intenções escalaram para o tema do ouro e outros minerais estratégicos. E
a política exterior da Venezuela foi condicionada, em temas como a
solidariedade com Cuba, Irã e Palestina. O que o governo dos
EUA está fazendo com a Venezuela é uma agressão muito grave e está à margem de
qualquer marco do direito internacional. Deveria gerar uma séria preocupação na
comunidade internacional que um país seja submetido às condições a que está
sendo submetida a Venezuela.
·
Você escreveu
recentemente que
a «incapacidade ou a falta de vontade de gerir de maneira nacional e
democrática o conflito político» abriu as portas a esta intromissão
estrangeira. Que fatores internos ajudam a explicar o 3 de janeiro?
Bem, é
longa a trajetória para chegar ao 3 de janeiro de 2026, mas podemos resumir da
seguinte maneira. Desde o início da Revolução Bolivariana, um setor da
oposição optou por apelar à ingerência estrangeira para tentar frear o processo
democrático revolucionário que se iniciara em 1998 com a vitória eleitoral do
comandante Hugo Chávez.
A
partir de 2001-2002 [quando a oposição fez uma tentativa de golpe de estado em
abril de 2002 e depois organizou uma greve patronal petroleira em dezembro de
2002 e janeiro de 2003] foi introduzida a presença de um agente externo no
conflito político nacional, o que marcou a história por mais de 20 anos.
E o
conflito se agravou com a morte do Comandante Chávez, dada a falsa crença,
naquele momento, de que sua morte debilitara as bases da Revolução Bolivariana
e que eles podiam rapidamente resolver o assunto derrubando o presidente
Nicolás Maduro, eleito em 2013.
Por
isso, em 2014, vimos a chamada «Saída» [uma onda de protestos violentos entre
janeiro e fevereiro daquele ano], que foi uma estratégia insurrecional para
derrubar o governo. Depois, ante o fracasso desta estratégia, passamos à
participação aberta do governo dos EUA como um ator na política interna. Isto
ocorre quando o governo do Presidente Barack Obama declara a Venezuela uma
ameaça «inusual e extraordinária».
·
O que muda, especificamente?
Aqui
creio que é quando se perde o controle do que eu chamo a gestão nacional do
conflito porque, com toda a ingerência estrangeira que havia desde 2002, pelo
menos até 2013, o conflito pôde ser gerido democraticamente e entre atores
domésticos.
Em 2004
resolveu-se mediante um acordo político entre o chavismo e todos os setores da
oposição. Isto permitiu um longo período de estabilidade política e, claro, de
crescimento econômico, de superação da pobreza, de redução da brecha de
desigualdade. Tudo isso ocorre depois de 2004, depois do referendo revocatório,
uma saída constitucional venezuelana que acabou reafirmando Chávez.
Mas a
partir de 2014-15, o conflito sai da gestão política nacional e os EUA começam
a participar diretamente das tentativas de resolução política dentro do país, a
condicionar estes acordos, a boicotá-los. Fui parte da mesa de negociação na
República Dominicana, onde estivemos a ponto de assinar um acordo com a
oposição para as eleições de 2018, mas que foi abortado por instruções dos
Estados Unidos. Depois veio a administração Trump e o estabelecimento e
reconhecimentos do governo paralelo de Juan Guaidó.
·
Qual foi a resposta do governo de Maduro?
É
precisamente neste ponto que o governo nacional tenta assumir uma interlocução
direta — que vai construir e conseguir — com o governo dos EUA. Então, a
negociação deixa de ser nacional, e tanto a oposição (que pediu, estimulou e
abriu as portas para a intervenção estrangeira) como o governo (que só quer
reconhecer como interlocutor os EUA) fazem que se perca a gestão nacional do
conflito.
A
partir dali deriva-se para a situação de 3 de janeiro, com a grave consequência
de ter-se produzido um ataque militar aleivoso e a posterior ocupação e tutela
do governo dos EUA sobre a Venezuela.
Além da
tutela econômica, da administração ilegal e arbitrária de nossos recursos, hoje
em dia podemos dizer que as decisões fundamentais sobre o cenário político na
Venezuela não se resolvem ou não se dilucidam na Venezuela. Todos os atores
políticos, ou pelo menos a maioria, olham hoje para a Casa Branca para ver o
que decidem, para ver quando vão convocar eleições, para ver quem será o
candidato.
A
responsabilidade principal pela situação política atual foi ter permitido que a
direção, a regulamentação, a contenção do conflito escapassem das mãos dos
venezuelanos, especialmente nos últimos 10 anos. Isto facilitou a entrada do
governo dos EUA para lograr seus objetivos, reservar para si os recursos
energéticos e mineiros e dar um golpe na rebeldia dos povos, em seu afã de
reposicionar-se como potência hegemônica.
·
Qual é o estado de ânimo da população depois de 3 de
janeiro?
São
vários os sentimentos. Há sentimento em relação ao tema do sequestro do
presidente Nicolás Maduro: uma parte da população condena e se sente afetada
sentimentalmente pelo ocorrido; mas há outra parte que celebra, que se
identifica com esses acontecimentos. Isto é um nível.
Mas
depois vem o nível da percepção sobre a agressão militar, a tutela que apenas
começa, e que gera angústia, dor, um sentir que estamos perdendo a República. A
população não consegue compreender qual é nosso status com os Estados Unidos,
mas cada dia a realidade vai demonstrando que este status não é outro senão o
de um Estado tutelado. O que gera um sentimento de vergonha, que cada dia
cresce mais.
Mas
também há outro nível, um sentimento de expectativa, de que a situação
econômica e social do país vai melhorar. Nesses primeiros dias, entre a
confusão, a dor, os que celebravam, os que repudiavam, no fundo era: «Olha,
tudo vai melhorar». Já nos imaginávamos na prosperidade econômica. Foi assim
porque é um povo que foi submetido, especialmente depois da morte de Chávez, a
uma agressão sistemática que vulnerou todo o sistema de direitos sociais, de
participação política, de esperança na construção de algo diferente.
No
fundo de todos os sentimentos que se estão expressando de um lado ou de outro
em relação ao país e ao governo, todo o mundo quer que a situação melhore. Mas
a realidade é que não houve uma mudança significativa. Já se passaram quatro
meses e podemos dizer que o dia a dia econômico da família venezuelana é pior
do que antes de 3 de janeiro de 2026.
·
Apesar de que se falou muito de uma possível mudança de
regime, Trump deixou o governo no poder. Por que acha que foi assim?
Creio
que responde, primeiro, a um assunto de política interna dos Estados Unidos.
Trump joga muito com vincular a política doméstica com a política internacional
e vice-versa, a chamada interdoméstica. Parte importante de seu programa era
que os EUA não deveriam seguir promovendo mudanças de regimes em outros países.
Então, conseguir o que conseguiu com o governo em Caracas caiu como uma luva em
seu discurso e em sua promessa eleitoral. Por isso tentou repetir o esquema no
Irã: assassinar o Aiatolá e deixar a direção iraniana, entender-se com ela e
dizer que não houve mudança de regime. Creio que esta foi a intenção.
Segundo,
a necessidade de estabilidade política que requeria, e o reconhecimento de que
a oposição venezuelana não tinha nem a liderança, nem a força, nem a autoridade
para garantir esta estabilidade política a curto prazo.
Sobretudo,
porque o ataque à Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores deve
ser entendido como o passo prévio ao ataque ao Irã. Trump avaliou que, ao
controlar as reservas petroleiras da Venezuela, poderia aventurar-se a entrar
em uma guerra com o Irã sem que, pelo menos para os EUA afetasse sua segurança
energética o fechamento do Estreito de Ormuz.
No
entanto, deixou de lado em sua avaliação o dano que haviam causado as sanções
aplicadas por eles, na capacidade de produção da indústria petroleira nacional,
cuja recuperação plena levará pelo menos quatro anos, segundo especialistas, se
forem levantadas todas as sanções e houver investimentos bilionários, que por
ora não aparecem.
Creio
que aí está um pouco a explicação de porque se reconhece a sucessão
constitucional que se produz de maneira temporária, como está prevista na
Constituição, e porque, sob coerção e ameaça, se estabelece uma relação de
tutela com o governo atual da Venezuela.
·
Como ficou a oposição tradicional depois de 3 de janeiro?
A
oposição ficou bastante desconcertada, porque desde 2002 sonhavam com uma
ocupação militar, inclusive de maiores proporções, uma ocupação com tropas e o
aniquilamento de todas as forças populares. Que viriam em um helicóptero do
ocupante e seriam colocados na cadeira do governo no Palácio de Miraflores. De
maneira que isto os deixou um pouco perdidos. No entanto, ativaram todos os
seus mecanismos de lobby nos EUA para tentar forçar um processo eleitoral na
Venezuela, de sua perspectiva acreditando-se vencedores nesse eventual processo
eleitoral.
·
Claramente há opiniões diversas sobre o novo governo da
Presidenta Encarregada Delcy Rodríguez. Em sua opinião, como podemos
caracterizar o governo atual e suas ações?
É
preciso caracterizar e compreender o governo atual e suas ações na base do fato
de que é um governo submetido a uma coerção militar e cujos recursos nacionais
são administrados por um governo estrangeiro. Esta é a realidade.
Agora,
o conjunto de políticas, sobretudo em matéria petroleira e mineira, sem dúvida
alguma significam um retrocesso em relação às conquistas e ao alcance que em
matéria de soberania a Venezuela tinha conseguido ao longo de quase 100 anos, e
que tinham se consolidado e ampliado especialmente durante o governo do
Comandante Chávez.
A Lei
de Hidrocarburos, por exemplo, depois de sua reforma poucos dias antes do
ataque militar, é uma lei que estabelece que se pode entregar o controle
operacional de todo o processo de produção petroleira, desde a extração até a
comercialização. Isso é um retrocesso que nos coloca em uma situação similar à
que tivemos nos anos 30 do século XX.
Há
fatos muito graves, como o estabelecimento dos royalties petroleiro até zero;
agora pode haver uma concessão petroleira em que a concessionária não entregue
nem um centavo por royalties ao proprietário do recurso, que é a nação
venezuelana. Este é um dos elementos que implicam em graves retrocessos na
soberania petroleira venezuelana, entre outros.
·
Mas dada a situação, poderia o governo estar fazendo algo
diferente? e se fosse o caso, o que se poderia fazer?
Na
verdade, eu evito dar conselhos ao governo ou especular sobre o que deveria
fazer ou não. Estive no governo e sei que quando se está no governo há
informação que não é pública, tem-se dados mais precisos, que o obrigam a tomar
tais ou quais decisões.
Só
posso dizer-lhe que a decisão de 3 de janeiro, de não responder ao ataque
militar, me parece uma decisão adequada naquele momento para evitar a
destruição total de nossa Força Armada e um dano massivo à população civil,
como sem dúvida alguma teria ocorrido. Mas quatro meses depois, o Estado
venezuelano deveria denunciar internacionalmente a coerção de que está sendo
objeto.
·
Em seu «Manifesto pela
República Democrática», você propõe um «acordo nacional» para
«manifestar ao mundo que a imensa maioria dos venezuelanos e venezuelanas não
aceitamos ser um Estado tutelado, nem uma colônia». Pode explicar sua proposta?
Você me
perguntou o que se poderia fazer? Bem, a resposta está no documento a que se
refere.
A
realidade é que o governo sozinho não pode. Tem que ser a nação em seu conjunto
— todos os fatores políticos e sociais, e uma ampla maioria da população — que
se una em uma demanda política e diplomática. Inclusive nas instâncias
internacionais, independentemente de que sabemos que estas instâncias e o
direito internacional hoje não tem aplicação, mas está vigente. A República
deveria criar os precedentes para que no futuro possa fazer as reclamações
respectivas sobre os graves fatos que se cometeram contra a Venezuela.
Primeiro:
um ataque militar não justificado, não provocado, desproporcionado, pondo em
risco amplas camadas da população civil na cidade de Caracas e outras
populações.
Segundo:
a ocupação, absolutamente proibida por resoluções das Nações Unidas com relação
a que nenhum país pode espoliar seus recursos. Nenhum governo pode se atribuir
o direito de administrar os recursos econômicos de outro país. Nenhum país pode
ser coagido a tomar decisões políticas, econômicas, legislativas, sob ameaça
militar.
A Nação
em seu conjunto, todas as forças políticas, deveriam expor isso imediatamente
ante as instâncias internacionais e ante os povos livres do mundo.
Deve
demandar o retorno do controle sobre a renda nacional ao Estado venezuelano
para que o Estado possa enfrentar os graves problemas que todo este confronto
político, o bloqueio, as sanções, as perturbações sociais, a violência etc.,
provocaram, gerando um dano estrutural à economia. É a única maneira de atender
aos temas mais importantes para a população: o salário, a educação, a saúde, os
serviços públicos. Não haverá prosperidade sem República.
Este
acordo nacional implica em uma resolução, ou pelo menos em uma regulamentação,
do conflito político na Venezuela e no estabelecimento de um caminho
democrático, eleitoral, político, pacífico. Deve ser uma decisão da nação
venezuelana de resolver internamente e de maneira democrática o conflito, e não
imposta pela potência ocupante.
A
última coisa que digo é que a Venezuela possa ter a autonomia de gerar uma
política exterior independente, que é um elemento fundamental para que um
Estado seja soberano.
·
Sem dúvida o governo de Maduro teve que lidar com uma
situação extremamente difícil: sanções, violência opositora, uma profunda crise
econômica etc. Não obstante, foi criticado por setores de esquerda, que acusam
o governo de buscar governar para setores capitalistas e implementar medidas
antioperárias. Qual é seu balanço do governo de Maduro?
Desde
2018, muitos fixamos posição crítica sobre a política econômica, especialmente
quanto à política salarial adotada pelo governo desde aquele ano. Também foram
expressas diferenças acerca dos métodos políticos que estavam sendo empregados,
que não contribuem para a coesão nacional necessária para um conflito da
magnitude que se previa. E sobre outros aspectos também, expressos em
documentos internos e, também, em publicações abertas. Lamentavelmente não
houve espaço para uma discussão fraterna sobre estes e outros temas.
·
Que papel está desempenhando o PSUV em tudo isto? De fora
parece que não há muito debate nem discussão e até pouca vida política dentro
do partido. É assim?
Há
muito tempo que no partido perderam-se os espaços autênticos de discussão e
debate. Justificou-se essa clausura dos espaços políticos de debate, no
contexto de um agravamento da agressão estrangeira, que levou a uma lógica de
guerra de inimigos. No entanto, muitos continuamos considerando que em uma
situação de agressão é quando mais se tem que ouvir as pessoas, quando mais se
tem que abrir o debate, para ouvir a pluralidade de opiniões sobre como abordar
esta situação.
Depois
destes espaços de deliberação, de pluralismo das opiniões, efetivamente se
teria fortalecido a coesão: primeiro do chavismo como força revolucionária, e
depois do chavismo como motor da coesão social necessária para enfrentar uma
agressão como a que viveu e continua vivendo a Venezuela.
·
A Venezuela caracterizou-se por seu alto nível de
politização e organização popular, em particular quanto às comunas. Em que
estado se encontra o nível de politização e organização hoje?
Tanto
nas comunas como no partido, conserva-se uma importante estrutura organizativa.
E mais, o PSUV é a única estrutura organizativa realmente existente hoje,
porque tem uma presença territorial, uma presença setorial.
Parte
da situação que vive o país é que os partidos da oposição não são assim. Não
são partidos que tenham uma presença no território, em setores operários etc.
A
maioria dos dirigentes da oposição são simplesmente operadores das redes
sociais com um alto financiamento estrangeiro, dos EUA e de países europeus. E,
particularmente nos últimos seis anos, a principal ação política de boa parte
da direção opositora na Venezuela não foi construir partidos, nem movimentos, e
sim promover a agressão militar que finalmente conseguiram que acontecesse em 3
de janeiro.
No
entanto, a deterioração das condições materiais e sociais diminuiu, não os
níveis de politização porque a sociedade venezuelana não está despolitizada, e
sim os níveis de participação política. Tanto que o próprio nível de
politização de boa parte da população, tanto na base opositora como na base
chavista, permitiu-lhe compreender o que estava acontecendo depois de 2018. Que
o que fora um conflito de caráter de luta social por transformar as condições
materiais de existência da população, e em que as vitórias sucessivas do
chavismo se traduziam em melhoras e em ampliação de direitos, tornou-se
novamente um clássico conflito entre fatores de poder, em que a imensa maioria
não ganhava nada, pelo contrário, cada dia perdia mais.
Isso
diminuiu a participação política. A partir dali uma democracia que obtivera
níveis de participação eleitoral de mais de 80%, a mobilização permanente
massiva de setores da população a favor de uma proposta ou outra, o entusiasmo
por participar no territorial, no setorial etc., começou a retroceder.
Este
retrocesso se expressou nos altos níveis de abstenção em todos os processos
eleitorais que ocorreram posteriormente a 2015. Também se expressou na
diminuição do ativismo político, social, territorial. Entre outras coisas,
porque as pessoas têm estado muito ocupadas com a sobrevivência: «tenho que ter
três ou quatro trabalhos, já não tenho tempo de ir a uma assembleia, de ir a
uma marcha, de participar do autogoverno». A situação econômica também teve uma
consequência política na participação.
Por
isso, sem dúvida alguma, o ataque militar de 3 de janeiro se faz contra uma
sociedade esgotada pelo conflito, de lado a lado. Porque independentemente do
que os EUA tinham se proposto, sim, aqui se a oposição tivesse tido a força
política organizada que dizia ter, esse dia era o dia exato para tomar o poder
pela via insurrecional, e isso não aconteceu. Mas também é preciso reconhecer
que houve uma espécie de inibição dos setores que historicamente tinham
acompanhado o processo revolucionário naquele dia aziago.
·
A questão da solidariedade com a Venezuela foi um ponto
de debate entre a esquerda internacional. Que tipo de solidariedade necessita o
povo venezuelano hoje?
Neste
momento, solidariedade com a Venezuela, com o país, com um povo agredido e
espoliado. Fundamentalmente, a esquerda internacional deve compreender que —
além do governo e da leitura que se tenha sobre o governo — a Venezuela é hoje
um país que foi invadido militarmente, que foi ocupado militarmente, que está
sendo submetido a uma política de tutelagem sob coerção, e que, portanto, o
dever da esquerda internacional é denunciar isso, qualquer que seja o governo.
Sempre
me lembro que éramos jovens militantes de esquerda quando houve a invasão do
Panamá e não havia nada mais distante de nossa simpatia do que Manuel Noriega.
Mas não era Noriega, era um povo irmão que estavam invadindo, massacrando, e
nós, a juventude latino-americana de esquerda, nos levantamos durante meses,
marchando, protestando etc., contra esta intervenção militar.
Então,
a esquerda internacional não deve descartar de sua agenda a luta pela
libertação da Venezuela. Porque cabe ao povo da Venezuela travar uma luta de
libertação nacional nos próximos meses, nos próximos anos. E esta luta pela
libertação nacional de nosso país, da tutela do governo dos EUA deve contar com
a solidariedade de toda a esquerda internacional, e muito além da esquerda, dos
setores que consideram que o mundo não pode ser o mundo de Trump.
É hoje
o momento de levantar, com muito mais força do que nunca, as bandeiras
anti-imperialistas e denunciar que estão acabando com o direito internacional,
que estão esmagando os estados nacionais, que estão cometendo crimes de lesa
humanidade, genocídios, como o que vimos em Gaza e que continua acontecendo
ante os olhos do mundo, ou como vemos com o ataque contra o Irã.
Independentemente do que se possa pensar do regime que governa o Irã, é
inaceitável o que está acontecendo.
Isto
obriga a esquerda internacional a elevar a capacidade de organização,
comunicação e mobilização, porque a luta contra o imperialismo e a agressão
militar dos impérios contra os povos foram as bandeiras históricas da esquerda.
Hoje a causa humana exige de nós lutar.
Fonte:
Diálogos do Sul Global

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