quarta-feira, 3 de junho de 2026

Luís Nassif: As entregas do próximo governo Lula

Se o governo Lula pretende preparar as ‘entregas’ do próximo mandato, a receita é objetiva: organizar, ainda neste ciclo, os grupos de trabalho que vão mapear, projetar e executar as cadeias produtivas dos novos setores estratégicos da economia brasileira — com ênfase nas terras raras, nos datacenters e inteligência artificial, e na bioeconomia da Amazônia.

Todos os elementos estão à mão. Basta organizá-los em grupos de trabalho, com determinações objetivas e sob o comando do próprio Presidente da República.

<><> Passo 1 — Constituição dos Grupos de Trabalho

Os grupos de trabalho devem reunir os principais atores institucionais capazes de traduzir visão estratégica em capacidade produtiva real. A arquitetura proposta articula quatro conjuntos de atores:

>>> 1.1  Associações Setoriais da Indústria de Base

•        ABDIB — Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base

•        ABIMAQ — Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos

•        ABINEE — Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica

>>> 1.2  Centros de Inteligência Estratégica do Governo

•        BNDES — Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social

•        IPEA — Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada

•        FINEP — Financiadora de Estudos e Projetos

•        CGCEE — Comitê de Gestão da Competitividade e Eficiência Energética

>>> 1.3  Grupos de Apoio às Pequenas e Médias Empresas

•        Sistema S (SENAI, SEBRAE, SESI e correlatos)

•        Organização Brasileira das Cooperativas (OCB)

•        MST — Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

>>> 1.4  Ministérios Estratégicos

Participação dos principais ministérios ligados à economia, ciência e tecnologia, desenvolvimento social e meio ambiente — com coordenação transversal por especialistas em política industrial, análise setorial e tecnologia.

<><> Eixos Temáticos dos Grupos de Trabalho

Cada grupo de trabalho será organizado em torno de metas específicas, correspondentes aos novos vetores de desenvolvimento:

# Eixo 1 — Cadeia Produtiva das Terras Raras 

Mapeamento completo da cadeia, da extração ao processamento e à manufatura de insumos estratégicos, com identificação de parceiros internacionais e empresas nacionais aptas a operar em cada elo.

# Eixo 2 — Datacenters, Energia Verde e IAs Nacionais 

Desenvolvimento de infraestrutura de processamento de dados de escala soberana, acoplada à expansão de energia renovável e ao fomento de iniciativas nacionais de inteligência artificial.

# Eixo 3 — Bioeconomia da Amazônia 

Estruturação de cadeias produtivas sustentáveis baseadas na biodiversidade amazônica, com ênfase em produtos de alto valor agregado, carbono, biotecnologia e mercados internacionais.

>>> Passo 2 — Definição dos Objetivos e Entregas por Grupo

Cada grupo de trabalho deverá produzir, ao final de seu ciclo, um conjunto definido de entregas concretas e mensuráveis. São oito dimensões de trabalho:

1.       Construção do mapa completo da cadeia produtiva do setor, com identificação dos elos ausentes e das interdependências críticas.

2.       Identificação das empresas nacionais com capacidade técnica e financeira para desenvolver projetos em cada elo da cadeia.

3.       Identificação de empresas internacionais parceiras — com foco em transferência de tecnologia e co-investimento produtivo.

4.       Montagem do pacote de estímulos financeiros e tributários (crédito subsidiado, desoneração, desonerações setoriais, fundos de venture capital público).

5.       Inclusão, em cada grupo de trabalho, de agenda específica para pequenas e médias empresas — mapeando segmentos com maior potencial de absorção por MPEs e cooperativas.

6.       Identificação dos setores prioritários dentro de cada cadeia, com critérios de seleção baseados em valor estratégico, geração de emprego e potencial exportador.

7.       Identificação dos benefícios regionais por estado — especialmente aqueles onde as empresas serão instaladas, articulando federalismo fiscal e desenvolvimento regional.

8.       Montagem de políticas de estímulo à transição do capital financeiro para os novos setores produtivos, reduzindo a dependência do carry trade e da rentabilidade puramente financeira.

<><> Nota de Método

O êxito do programa depende de que os grupos de trabalho não sejam consultivos — mas executivos. A diferença está na clareza das metas, na autoridade de coordenação e no compromisso de que cada eixo produz, no prazo definido, um plano setorial aprovado pelo governo e com dotação orçamentária correspondente. O modelo histórico mais próximo são os Grupos Executivos do governo JK: estruturas ágeis, centradas em metas, com capacidade de transitar entre governo, setor privado e academia.

A simples montagem dos grupos e o início dos trabalhos ajudará no início da construção de uma perspectiva de futuro, capaz de trazer de volta o otimismo em relação ao país.

A diferença para 2026 é que os novos setores são mais intensivos em conhecimento, mais distribuídos territorialmente e mais dependentes de redes de PMEs e cooperativas do que a industrialização pesada dos anos 1950. A arquitetura dos grupos deve refletir essa especificidade.

•        Lula 4 e os ensinamentos da história. Por Luís Nassif

Marcos Nobre é um cientista político bastante articulado, um dos melhores observadores da cena política. Em entrevista à BBC ele analisa as eleições, à luz da descoberta das relações Master-Flávio Bolsonaro. E diz, acertadamente, que o timing do escândalo foi bom para Flávio, porque dará tempo de corrigir problemas de comunicação e, até às eleições, haverá a diluição do escândalo.

Traz, também, um bom diagnóstico dos governos Lula, mas com uma conclusão discutível.

Em linhas gerais, ele divide a polarização brasileira, pós-Lula, em dois campos: os distributivistas (sem afrontar os interesses do andar de cima) e os não-distributivistas. Lula teve sucesso na primeira fase do distributivismo, contando com folga no orçamento, em função do boom das commodities. Essa folga permitiu o Bolsa Família sem afrontar os interesses das classes altas.

Play Video

Em Lula 3 não havia mais esse espaço, e houve a necessidade das trocas: isenção de Imposto de Renda para quem ganha menor em troca de tributação sobre os altos ganhos e sobre os dividendos.

Um Lula 4 teria que aprofundar esse conflito, se não quiser perder a base eleitoral.

A grande questão é: como enfrentar essa batalha sendo minoritário no Congresso e com um Supremo Tribunal Federal disposto a desconstruir a legislação trabalhista?

<><> Os pactos políticos

A história não recomenda esse tipo de confronto.

O segundo governo Vargas conseguiu lançar as bases da industrialização e conquistar o apoio de grandes grupos empresariais, como os Matarazzo, os Klabin, os Lafer, Walther Moreira Salles. Sua bancada apoiou a CPI da Última Hora, sabendo que os demais grupos jornalísticos haviam recebido muito mais favores do que o jornal de Samuel Wainer.

De nada adiantou. A CPI gerava uma profusão de notícias, mas o controle das narrativas era do cartel de jornais. Com todos esses apoios, Vargas terminou esmagado pela campanha midiática, liderada pela rádio Globo, aliada ao militarismo golpista.

Já Juscelino Kubitscheck recorreu a uma estratégia absolutamente inovadora, para períodos democráticos.

No Brasil, a emergência de setores empresariais novos sempre acaba esmagado pela ação da mídia, empenhada em defender os setores já estabelecidos. O que JK fez foi cooptar os donos do dinheiro, para que participassem da empreitada de industrialização.

O Plano de Metas foi desenhado por técnicos, abrigados no recém-criado BNDE. Eles planejavam os novos setores e o espaço que caberia ao capital nacional, com o apoio adicional do BNDE.

O Plano criou três camadas distintas de beneficiários nacionais: (1) as estatais herdadas de Vargas, que foram expandidas e capitalizadas; (2) as empreiteiras de obras públicas, que cresceram institucionalmente com o rodoviarismo e Brasília; e (3) a indústria de base privada nacional em setores como cimento, celulose e metais.

O capital estrangeiro ficou concentrado nos bens de consumo duráveis — e mesmo aí, como no caso da Vemag, havia sócios nacionais. A Instrução 113 da SUMOC beneficiou multinacionais, mas os incentivos cambiais, fiscais e creditícios beneficiaram a todos, inclusive aos estados onde se localizariam os empreendimentos.

Os exemplos:

>>> 1. Energia (Furnas, Três Marias, Paulo Afonso)

JK investiu maciçamente em energia, realizando as obras de Três Marias, multiplicando o potencial da hidrelétrica de Paulo Afonso e cuidando da primeira etapa de Furnas. O setor de energia elétrica tinha dois grandes projetos: a construção da barragem de Três Marias (480 MW) e a Central Elétrica de Furnas S.A. (1.100 MW), ambas em Minas Gerais, num projeto de interligação da produção e distribuição no Centro-Sul.

Beneficiários nacionais: Estado diretamente, via Chesf, Furnas e Cemig — empresas de capital nacional estatal. O setor de engenharia pesada nacional se capitalizou nas obras civis das barragens.

>>> 2. Transportes (rodovias)

A construção de Brasília ampliou a malha rodoviária, gerando a Belém-Brasília (2.400 km), a Brasília-Rio via Belo Horizonte (1.200 km), a São Paulo via Goiânia (1.150 km), além de eixos para o Acre e Fortaleza. Esse conjunto estimulou a engenharia brasileira em todas as suas vertentes e multiplicou as atividades das empresas construtoras e empreiteiras.

Beneficiários nacionais: Beneficiamento e fortalecimento do componente privado na relação entre o sistema DNER/DER e as empreiteiras de obras públicas. Os crescentes contatos levaram à capitalização das empresas, que puderam comprar equipamentos, incrementar produtividade e ampliar seu poder de influência com a burocracia. É nesse período que empreiteiras como Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão dão um salto qualitativo de porte e articulação institucional.

>>> 3. Siderurgia e Indústria de Base

O setor siderúrgico recebeu investimentos na Companhia Siderúrgica Nacional e na Belgo-Mineira (capital misto), com crescimento de 80%. A indústria de base abrangia siderurgia, alumínio, cimento, álcalis, papel e celulose, borracha, metais não ferrosos, mecânica e material elétrico.

Beneficiários nacionais: A siderurgia se montou com capitais nacionais estatais (BNDE) e japoneses (Usiminas). Ao final do governo JK, os principais setores industriais brasileiros, à exceção de automóveis, autopeças e farmacêuticas, tinham participação majoritária de capital nacional. Além disso, não houve desnacionalização de nenhuma das empresas estatais criadas por Vargas: Petrobras, Vale do Rio Doce, BNDE, FNM, CSN, Cosipa e Álcalis permaneceram estatais e foram fortalecidas, sendo cruciais para o êxito do Plano.

>>> 4. Indústria Automobilística (GEIA)

Um dos maiores legados do Plano de Metas foi a criação do parque industrial automotivo. Empresas como Volkswagen, Ford e General Motors se estabeleceram no país. O governo incentivou a produção nacional por meio de políticas de isenção fiscal e construção de estradas.

Beneficiários nacionais: A automobilística se montou predominantemente com capitais alemães (Volkswagen), franceses (Simca) e nacionais (Vemag), mas com participação de capital nacional em todas as montadoras. O setor de autopeças, por exigência de índice de nacionalização progressivo estabelecido pelo GEIA, gerou um amplo parque nacional de fornecedores no ABC paulista. Entre as empresas responsáveis figuravam também a Fábrica Nacional de Motores, de capital estatal.

>>> 5. Construção Naval (GEICON)

A indústria de construção naval se montou com capitais japoneses, holandeses e brasileiros. O GEICON tinha como objetivo coordenar e aprovar as medidas necessárias à realização dos projetos de estaleiros.

Beneficiários nacionais: estaleiros de capital misto, especialmente no Rio de Janeiro (Ilha do Governador), com participação do Lloyd Brasileiro e da Petrobras como âncoras da demanda.

>>> 6. Brasília (meta-síntese)

Setor de maior acumulação concentrada de capital nacional, com o Estado como contratante exclusivo via NOVACAP. O DNER promoveu a adjudicação dos serviços por concorrências públicas por especialidade, agrupando firmas para pavimentação, terraplanagem e obras de arte especiais, em várias frentes simultâneas para adequar ao cronograma. A acusação de corrupção nas contratadas foi constante desde o início — mas o resultado estrutural foi a formação das grandes empreiteiras nacionais como atores políticos permanentes.

<><> A nova indústria

O segredo está em desenhar o Plano de Metas do Lula 4, para terras raras, datacenters e energia verde, economia da Amazônia, indústria de defesa, indústria de bem estar, e abrir espaço para dois atores relevantes: o capital industrial nacional e a transição do capital financeiro para as novas oportunidades. Tratando de incluir em cada plano metas para pequenas e médias empresas e para emprego.

 

Fonte: Jornal GGN

 

Nenhum comentário: