Luís
Nassif: As entregas do próximo governo Lula
Se o
governo Lula pretende preparar as ‘entregas’ do próximo mandato, a receita é
objetiva: organizar, ainda neste ciclo, os grupos de trabalho que vão mapear,
projetar e executar as cadeias produtivas dos novos setores estratégicos da
economia brasileira — com ênfase nas terras raras, nos datacenters e
inteligência artificial, e na bioeconomia da Amazônia.
Todos
os elementos estão à mão. Basta organizá-los em grupos de trabalho, com
determinações objetivas e sob o comando do próprio Presidente da República.
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Passo 1 — Constituição dos Grupos de Trabalho
Os
grupos de trabalho devem reunir os principais atores institucionais capazes de
traduzir visão estratégica em capacidade produtiva real. A arquitetura proposta
articula quatro conjuntos de atores:
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1.1 Associações Setoriais da Indústria
de Base
• ABDIB — Associação Brasileira da
Infraestrutura e Indústrias de Base
• ABIMAQ — Associação Brasileira da
Indústria de Máquinas e Equipamentos
• ABINEE — Associação Brasileira da
Indústria Elétrica e Eletrônica
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1.2 Centros de Inteligência Estratégica
do Governo
• BNDES — Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social
• IPEA — Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada
• FINEP — Financiadora de Estudos e
Projetos
• CGCEE — Comitê de Gestão da
Competitividade e Eficiência Energética
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1.3 Grupos de Apoio às Pequenas e Médias
Empresas
• Sistema S (SENAI, SEBRAE, SESI e
correlatos)
• Organização Brasileira das Cooperativas
(OCB)
• MST — Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra
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1.4 Ministérios Estratégicos
Participação
dos principais ministérios ligados à economia, ciência e tecnologia,
desenvolvimento social e meio ambiente — com coordenação transversal por
especialistas em política industrial, análise setorial e tecnologia.
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Eixos Temáticos dos Grupos de Trabalho
Cada
grupo de trabalho será organizado em torno de metas específicas,
correspondentes aos novos vetores de desenvolvimento:
# Eixo
1 — Cadeia Produtiva das Terras Raras
Mapeamento
completo da cadeia, da extração ao processamento e à manufatura de insumos
estratégicos, com identificação de parceiros internacionais e empresas
nacionais aptas a operar em cada elo.
# Eixo
2 — Datacenters, Energia Verde e IAs Nacionais
Desenvolvimento
de infraestrutura de processamento de dados de escala soberana, acoplada à
expansão de energia renovável e ao fomento de iniciativas nacionais de
inteligência artificial.
# Eixo
3 — Bioeconomia da Amazônia
Estruturação
de cadeias produtivas sustentáveis baseadas na biodiversidade amazônica, com
ênfase em produtos de alto valor agregado, carbono, biotecnologia e mercados
internacionais.
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Passo 2 — Definição dos Objetivos e Entregas por Grupo
Cada
grupo de trabalho deverá produzir, ao final de seu ciclo, um conjunto definido
de entregas concretas e mensuráveis. São oito dimensões de trabalho:
1. Construção do mapa completo da cadeia
produtiva do setor, com identificação dos elos ausentes e das interdependências
críticas.
2. Identificação das empresas nacionais com
capacidade técnica e financeira para desenvolver projetos em cada elo da
cadeia.
3. Identificação de empresas internacionais
parceiras — com foco em transferência de tecnologia e co-investimento
produtivo.
4. Montagem do pacote de estímulos
financeiros e tributários (crédito subsidiado, desoneração, desonerações
setoriais, fundos de venture capital público).
5. Inclusão, em cada grupo de trabalho, de
agenda específica para pequenas e médias empresas — mapeando segmentos com
maior potencial de absorção por MPEs e cooperativas.
6. Identificação dos setores prioritários
dentro de cada cadeia, com critérios de seleção baseados em valor estratégico,
geração de emprego e potencial exportador.
7. Identificação dos benefícios regionais
por estado — especialmente aqueles onde as empresas serão instaladas,
articulando federalismo fiscal e desenvolvimento regional.
8. Montagem de políticas de estímulo à
transição do capital financeiro para os novos setores produtivos, reduzindo a
dependência do carry trade e da rentabilidade puramente financeira.
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Nota de Método
O êxito
do programa depende de que os grupos de trabalho não sejam consultivos — mas
executivos. A diferença está na clareza das metas, na autoridade de coordenação
e no compromisso de que cada eixo produz, no prazo definido, um plano setorial
aprovado pelo governo e com dotação orçamentária correspondente. O modelo
histórico mais próximo são os Grupos Executivos do governo JK: estruturas
ágeis, centradas em metas, com capacidade de transitar entre governo, setor
privado e academia.
A
simples montagem dos grupos e o início dos trabalhos ajudará no início da
construção de uma perspectiva de futuro, capaz de trazer de volta o otimismo em
relação ao país.
A
diferença para 2026 é que os novos setores são mais intensivos em conhecimento,
mais distribuídos territorialmente e mais dependentes de redes de PMEs e
cooperativas do que a industrialização pesada dos anos 1950. A arquitetura dos
grupos deve refletir essa especificidade.
• Lula 4 e os ensinamentos da história.
Por Luís Nassif
Marcos
Nobre é um cientista político bastante articulado, um dos melhores observadores
da cena política. Em entrevista à BBC ele analisa as eleições, à luz da
descoberta das relações Master-Flávio Bolsonaro. E diz, acertadamente, que o
timing do escândalo foi bom para Flávio, porque dará tempo de corrigir
problemas de comunicação e, até às eleições, haverá a diluição do escândalo.
Traz,
também, um bom diagnóstico dos governos Lula, mas com uma conclusão discutível.
Em
linhas gerais, ele divide a polarização brasileira, pós-Lula, em dois campos:
os distributivistas (sem afrontar os interesses do andar de cima) e os
não-distributivistas. Lula teve sucesso na primeira fase do distributivismo,
contando com folga no orçamento, em função do boom das commodities. Essa folga
permitiu o Bolsa Família sem afrontar os interesses das classes altas.
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Em Lula
3 não havia mais esse espaço, e houve a necessidade das trocas: isenção de
Imposto de Renda para quem ganha menor em troca de tributação sobre os altos
ganhos e sobre os dividendos.
Um Lula
4 teria que aprofundar esse conflito, se não quiser perder a base eleitoral.
A
grande questão é: como enfrentar essa batalha sendo minoritário no Congresso e
com um Supremo Tribunal Federal disposto a desconstruir a legislação
trabalhista?
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Os pactos políticos
A
história não recomenda esse tipo de confronto.
O
segundo governo Vargas conseguiu lançar as bases da industrialização e
conquistar o apoio de grandes grupos empresariais, como os Matarazzo, os
Klabin, os Lafer, Walther Moreira Salles. Sua bancada apoiou a CPI da Última
Hora, sabendo que os demais grupos jornalísticos haviam recebido muito mais
favores do que o jornal de Samuel Wainer.
De nada
adiantou. A CPI gerava uma profusão de notícias, mas o controle das narrativas
era do cartel de jornais. Com todos esses apoios, Vargas terminou esmagado pela
campanha midiática, liderada pela rádio Globo, aliada ao militarismo golpista.
Já
Juscelino Kubitscheck recorreu a uma estratégia absolutamente inovadora, para
períodos democráticos.
No
Brasil, a emergência de setores empresariais novos sempre acaba esmagado pela
ação da mídia, empenhada em defender os setores já estabelecidos. O que JK fez
foi cooptar os donos do dinheiro, para que participassem da empreitada de
industrialização.
O Plano
de Metas foi desenhado por técnicos, abrigados no recém-criado BNDE. Eles
planejavam os novos setores e o espaço que caberia ao capital nacional, com o
apoio adicional do BNDE.
O Plano
criou três camadas distintas de beneficiários nacionais: (1) as estatais
herdadas de Vargas, que foram expandidas e capitalizadas; (2) as empreiteiras
de obras públicas, que cresceram institucionalmente com o rodoviarismo e
Brasília; e (3) a indústria de base privada nacional em setores como cimento,
celulose e metais.
O
capital estrangeiro ficou concentrado nos bens de consumo duráveis — e mesmo
aí, como no caso da Vemag, havia sócios nacionais. A Instrução 113 da SUMOC
beneficiou multinacionais, mas os incentivos cambiais, fiscais e creditícios
beneficiaram a todos, inclusive aos estados onde se localizariam os
empreendimentos.
Os
exemplos:
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1. Energia (Furnas, Três Marias, Paulo Afonso)
JK
investiu maciçamente em energia, realizando as obras de Três Marias,
multiplicando o potencial da hidrelétrica de Paulo Afonso e cuidando da
primeira etapa de Furnas. O setor de energia elétrica tinha dois grandes
projetos: a construção da barragem de Três Marias (480 MW) e a Central Elétrica
de Furnas S.A. (1.100 MW), ambas em Minas Gerais, num projeto de interligação
da produção e distribuição no Centro-Sul.
Beneficiários
nacionais: Estado diretamente, via Chesf, Furnas e Cemig — empresas de capital
nacional estatal. O setor de engenharia pesada nacional se capitalizou nas
obras civis das barragens.
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2. Transportes (rodovias)
A
construção de Brasília ampliou a malha rodoviária, gerando a Belém-Brasília
(2.400 km), a Brasília-Rio via Belo Horizonte (1.200 km), a São Paulo via
Goiânia (1.150 km), além de eixos para o Acre e Fortaleza. Esse conjunto
estimulou a engenharia brasileira em todas as suas vertentes e multiplicou as
atividades das empresas construtoras e empreiteiras.
Beneficiários
nacionais: Beneficiamento e fortalecimento do componente privado na relação
entre o sistema DNER/DER e as empreiteiras de obras públicas. Os crescentes
contatos levaram à capitalização das empresas, que puderam comprar
equipamentos, incrementar produtividade e ampliar seu poder de influência com a
burocracia. É nesse período que empreiteiras como Camargo Corrêa, Andrade
Gutierrez e Queiroz Galvão dão um salto qualitativo de porte e articulação
institucional.
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3. Siderurgia e Indústria de Base
O setor
siderúrgico recebeu investimentos na Companhia Siderúrgica Nacional e na
Belgo-Mineira (capital misto), com crescimento de 80%. A indústria de base
abrangia siderurgia, alumínio, cimento, álcalis, papel e celulose, borracha,
metais não ferrosos, mecânica e material elétrico.
Beneficiários
nacionais: A siderurgia se montou com capitais nacionais estatais (BNDE) e
japoneses (Usiminas). Ao final do governo JK, os principais setores industriais
brasileiros, à exceção de automóveis, autopeças e farmacêuticas, tinham
participação majoritária de capital nacional. Além disso, não houve
desnacionalização de nenhuma das empresas estatais criadas por Vargas:
Petrobras, Vale do Rio Doce, BNDE, FNM, CSN, Cosipa e Álcalis permaneceram
estatais e foram fortalecidas, sendo cruciais para o êxito do Plano.
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4. Indústria Automobilística (GEIA)
Um dos
maiores legados do Plano de Metas foi a criação do parque industrial
automotivo. Empresas como Volkswagen, Ford e General Motors se estabeleceram no
país. O governo incentivou a produção nacional por meio de políticas de isenção
fiscal e construção de estradas.
Beneficiários
nacionais: A automobilística se montou predominantemente com capitais alemães
(Volkswagen), franceses (Simca) e nacionais (Vemag), mas com participação de
capital nacional em todas as montadoras. O setor de autopeças, por exigência de
índice de nacionalização progressivo estabelecido pelo GEIA, gerou um amplo
parque nacional de fornecedores no ABC paulista. Entre as empresas responsáveis
figuravam também a Fábrica Nacional de Motores, de capital estatal.
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5. Construção Naval (GEICON)
A
indústria de construção naval se montou com capitais japoneses, holandeses e
brasileiros. O GEICON tinha como objetivo coordenar e aprovar as medidas
necessárias à realização dos projetos de estaleiros.
Beneficiários
nacionais: estaleiros de capital misto, especialmente no Rio de Janeiro (Ilha
do Governador), com participação do Lloyd Brasileiro e da Petrobras como
âncoras da demanda.
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6. Brasília (meta-síntese)
Setor
de maior acumulação concentrada de capital nacional, com o Estado como
contratante exclusivo via NOVACAP. O DNER promoveu a adjudicação dos serviços
por concorrências públicas por especialidade, agrupando firmas para
pavimentação, terraplanagem e obras de arte especiais, em várias frentes
simultâneas para adequar ao cronograma. A acusação de corrupção nas contratadas
foi constante desde o início — mas o resultado estrutural foi a formação das
grandes empreiteiras nacionais como atores políticos permanentes.
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A nova indústria
O
segredo está em desenhar o Plano de Metas do Lula 4, para terras raras,
datacenters e energia verde, economia da Amazônia, indústria de defesa,
indústria de bem estar, e abrir espaço para dois atores relevantes: o capital
industrial nacional e a transição do capital financeiro para as novas
oportunidades. Tratando de incluir em cada plano metas para pequenas e médias
empresas e para emprego.
Fonte:
Jornal GGN

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