Monges
de Pinheirinho: como movimento messiânico no Rio Grande do Sul acabou em
massacre esquecido
Dono de
um hotel na vila de Encantado (RS), em maio de 1902 João Ferri se recuperava de
ferimentos sofridos em um ataque que lhe custara um naco da orelha direita e
cortes pelo corpo. Ele havia perdido dois amigos e outros três estavam feridos,
um deles gravemente.
Ainda
com dores, recebeu um embrulho com um "presente" e um bilhete:
"Para substituir a que perdeste". A mutilação vinha de um homem
abatido a tiros de fuzil pela Brigada Militar no dia anterior, quase no final
da Guerra de Pinheirinho, uma represália que virou massacre de pelo menos 28
pessoas no Vale do Alto Taquari, no sopé da Serra Gaúcha.
A
brincadeira macabra se tornou lendária na comunidade e ilustra um confronto
alimentado por medo, preconceito religioso e impiedosa reação policial. Apesar
de descendentes dos envolvidos de ambos os lados ainda viverem na região, o
episódio caiu no esquecimento após 124 anos, citado quase só em trabalhos
historiográficos.
Grande
parte do registro nasceu do livro Os Monges de Pinheirinho, de 1975, do
historiador local Gino Ferri (1922-2016). A partir de meados dos anos 1960 ele
entrevistou alguns dos envelhecidos participantes. Quase todos entre os
vencedores, como o autor lamentaria décadas depois da publicação. "Naquela
época eu sabia muito pouco sobre o outro lado", comentou Ferri no início
dos anos 2000.
Tudo
começou com a presença incômoda e provocativa de miseráveis que abriram roçados
e ergueram palhoças em uma terra sem dono às margens do rio Taquari, hoje
dentro dos limites de Roca Sales. O grupo contava com uns 60 desgarrados,
incluídas mulheres e crianças.
Eles
praticavam rezas e curandeirismo — recorrente em comunidades sem acesso mínimo
a médicos e remédios. No ápice, reuniram duas centenas de pessoas das
redondezas, muitas delas agricultores, além de viajantes de passagem.
<><>
Monge furioso
O líder
era um certo João Francisco Maria de Jesus, um agressivo curandeiro andarilho
que pregava uma guerra santa e profetizava um futuro menos miserável aos que o
cercavam. Ele falava até na ressurreição dos que defenderiam sua visão
messiânica do cristianismo.
Como em
outros episódios da época, foi morto à espera de um apoio que nunca chegou.
Acabou em uma cova rasa à beira de uma estrada perto de onde hoje fica um campo
de futebol na cidade de Muçum.
Por
capricho vingativo da polícia, foi jogado de costas e com os tornozelos e pés
de fora. Para que seus restos expostos não fossem alvo de animais carniceiros,
foram cobertos com paus e pedras por sete seguidores aprisionados que serviram
de coveiros. "Assim não há de voltar nunca mais", diziam os curiosos.
De
origem desconhecida e sem registros fotográficos confirmados, ele teria razões
para odiar autoridades em geral e colonos em particular. Nove anos antes havia
escapado de um linchamento em um acampamento em Colônia Bastos (hoje parte de
Marques de Souza), no Rio Forqueta. Cinco foram mortos na noite de Ano Novo de
1893.
Na fuga
de canoa, foi conduzido pelo mateiro João Enéias, que vivia em uma cabana à
beira do Taquari, a 60 quilômetros de distância. Atento, ali por 1900 Enéias
ajudaria o monge a se instalar em Pinheirinho, onde este também passaria a ser
chamado de São João Maria — um nome genérico, adotado por personagens que
apareceram em diferentes épocas, na Revolta dos Muckers (1873-1874), em Canudos
(1896-1897), na Guerra do Contestado (1912-1916) e no Massacre dos Barbudos, em
Soledade (1938).
Os
observadores mais atentos relataram que Enéias ajudava em milagres de pescador.
Chamado de apóstolo, pegava bagres e pintados de antemão e os amarrava em uma
linhada oculta submersa.
De
acordo com o que Gino Ferri ouviu de testemunhas, depois o pregador reunia os
fiéis e anunciava que Deus mandaria uma farta pescaria. Daí puxava a linha
colocada. O amigo mateiro também fingiria transes para ser curado com uma reza
ou benzedura. Era um jeito fácil de arrecadar donativos, já que a vida era
precária.
Já
apelidados de monges, os discípulos de vez quando cometiam pequenos furtos de
ferramentas e mantimentos. Eles eram caboclos e ex-escravizados que antes de
serem expulsos das terras vendidas aos colonos se dedicavam à colheita de
erva-mate nas bordas do Sertão dos Bugres, como era chamada a Serra Gaúcha.
O mais
provável é que João Maria fosse um destes desalojados, principalmente após as
matanças e perseguições da Revolução Federalista (1893-1895).
O
episódio atraiu a professora de história do ensino médio Mircele Giaretta em
sua graduação na Universidade do Alto Taquari (Univates), em Lajeado, distante
115 quilômetros de Porto Alegre.
Para
ela, o conflito desenrolado no caminho que pega todos os dias pela RS-129,
entre sua casa, em Muçum, e o trabalho, em Encantado, foi rascunhado em boa
parte pela Lei de Terras de 1850, que dificultou a legalização fundiária por
parte de posseiros tradicionais.
O
resultado abriu caminho para consolidação de latifúndios ou de projetos de
colonização. Ela completa: "O governo acabou contribuindo para que essas
populações não tivessem para onde ir".
<><>
O confronto
Diante
dos relatos conflitantes e da falta de policiais em Encantado, onde viviam
cerca de 300 famílias, dois subdelegados, um sargento e mais nove voluntários
foram tirar satisfações dos suspeitos, seguindo as ordens do subchefe regional
da polícia, coronel Ramiro de Oliveira.
Com a
chegada do inverno e as cheias do rio, corria o boato que mercados e pequenos
comércios em áreas afastadas seriam saqueados — o que nunca ocorreu.
O que
seria um alerta virou luta desesperada. Na manhã de 4 de maio, a comitiva
cruzou o rio até o acampamento. Monge Chico saiu de sua barraca com uma
garrucha de dois canos e um facão na cintura para encarar o subdelegado
Napoleão Maiolli, de 37 anos, um veterano duro perseguido durante a
Federalista.
Após
uma troca áspera de palavras, foi dada voz de prisão. Maiolli pensava que o
local estava quase vazio, pois fora informado que o líder mandara buscar armas
para iniciar a sua reduzida de guerra santa — o milagreiro charlatão também
queria evitar um ataque como o vivenciado em Linha Bastos.
Antes
de apontar a garrucha para Maiolli, Monge Chico rogou: "De hoje em diante
queremos matar e roubar. E vamos começar já. Tu serás o primeiro". O tiro
só não abriu o peito do subdelegado por ação do sargento Vispo, que desviou a
arma com um golpe de sabre. Do mato saíram dúzias de asseclas armados de
porretes, adagas e algumas espingardas.
"Matai
os demônios", gritou o monge (os sobreviventes diziam que ele falava assim
mesmo). Como algumas armas da patrulha falharam, em vez de conter a multidão
foi criada uma batalha na proporção de 3 contra 1. O resultado foram dois
colonos mortos (o caixeiro viajante Eduardo Satler, de 30 anos, e o fabricante
de bebidas João Lucca, de 28 anos), assim como dois monges, além de feridos de
ambos os lados.
Um dos
atingidos foi o irmão de João Lucca, o subdelegado Guerino. Cercado por três e
esfaqueado, foi dado como morto. Caído na mata, de tão ensanguentado seu
pretenso matador errou o golpe final sem saber. A lâmina da adaga foi barrada
por um botão de ouro no colarinho. Guerino só voltaria para casa na noite
seguinte, após se arrastar em busca de ajuda.
Já o
ferreiro Pedro Mottin, de 23 anos, levou um golpe de facão no rosto que lhe
rendeu uma cicatriz da orelha ao queixo. Pelo resto da vida ele fez daquela
data seu feriado pessoal, afirmando que havia renascido.
<><>
Reação e perseguição
Com os
sobreviventes e os corpos dos abatidos retirados no dia seguinte, as
autoridades em Porto Alegre foram alertadas. O presidente do Estado (como os
governadores eram chamados na época), Borges de Medeiros (1863–1961), caudilho
que ficou 25 anos no poder (1898-1908 e 1913-1928), enviou um barco com 100
policiais sob o comando do major Juvêncio Maximiliano Lemos.
Conforme
relatório apresentado por Medeiros à assembleia provincial, a missão era
simples: "Liquidar com os fanáticos e fazer voltar a paz à região".
A fé de
Monge Chico foi sua sentença. Em vez de fugir, se instalou em uma gruta elevada
a poucos quilômetros dali, esperando ajuda e abastecido de comida. Com ele
estavam cerca de 70 pessoas, mas as armas e munições eram poucas. A seu favor,
o terreno, o frio e a lama criada pelas chuvas.
O
ataque final veio em 22 de maio, após dias de cerco. Com o tempo firme, a
polícia saiu de sua base, a uns 500 metros de distância da gruta. Alguns
fugiram, mas um núcleo mais aguerrido ficou ao lado do chefe.
Dos 100
brigadianos, 60 subiram o morro atirando divididos em duas colunas. Ao
encontrarem uma cabana, a tropa do tenente Juvenal Joaquim Teixeira abriu fogo
contra as paredes finas de madeira. Sete do bando saíram sem resistência e
aparentando desnutrição (na imagem). No interior, João Francisco Maria de Jesus
foi encontrado morto em uma cama ao lado de outros corpos.
Foram
enterrados 22 monges na mata, incluindo a última vítima, Cananea, alvejada
pelas costas. Ela era a esposa de João Enéias, que desaparecera. Sob a desculpa
de buscar reforços, ele fugiu para a localidade de Arvorezinha, distante 50
quilômetros, onde se instalaria.
Por
ironia, anos depois o hoteleiro ferido João Ferri muda para o mesmo lugar, o
que cria uma aberta inimizade até a morte do antigo mateiro.
Quatro
outros fugitivos do bando foram localizados nas estradas da região e abatidos
em diferentes circunstâncias. Pelo menos dez adultos e crianças ficaram
escondidos nas matas por dias, passando privações enquanto esperavam a retirada
das tropas.
Entre
eles estava Manuel Lisboa, de apenas 12 anos. Filho de Luiz Lisboa, que
trabalhava entregando roupas para um caixeiro, ele frequentava o acampamento
com o pai, que era chamado de apóstolo. Manuel e o pai tiveram que comer o
couro de arreios do cavalo cozido para enganar a fome naqueles dias. Tudo para
preservar a montaria, um instrumento de trabalho essencial.
Já os
soldados foram elogiados pelo comando na volta à capital. Nos registros
oficiais consta que fizeram 1.560 disparos de fuzil. Para cada revoltoso
eliminado foram dados 70 tiros. O que dá uma dimensão da reação.
Já os
sobreviventes aos poucos se espalharam discretamente pela região, deixando o
passado para trás. Adulto, Manuel Lisboa se instalou em Encantado após
andanças. Ele viveu na pobreza e transmitiu sua história aos filhos que teve em
idade avançada.
Um
deles, Olímpio, de 74 anos, guarda a memória da penúria relatada pelo pai. Ele
é o único entre os descendentes que fala abertamente sobre o massacre.
<><>
Lei de Terras e preconceitos
Para os
colonizadores, a Guerra de Pinheirinho se mostrou um ato de resistência das
forças da ordem. Mas não é o que pensa o professor Luís Fernando Laroque,
também da Univates.
Para
ele, a religião teve um peso enorme, mas pouco percebido. Em uma sociedade
extremamente católica, o messianismo popular surgido com o fim do Império era
visto como uma ameaça à transição de poder, já que a figura ungida de D. Pedro
2º havia saído de cena, criando um vazio no imaginário social. Algo também
visto em outros movimentos, como Canudos. "Me parece que esse foi um forte
elemento, pois eles [os monges] não se enquadravam", reflete.
Na
dissertação Monges de Pinheirinho – A outra face (2010), Maria Lisane Machado
ofereceu uma explicação direta e essencial, baseada em parte nos relatos de sua
avó. "Não eram perigosos, eles na verdade eram falsários, que se diziam
poderosos curadores de doenças que dificilmente seriam curadas, dada a
dificuldade da medicina na época".
Olímpio,
o filho de Manoel, só pensa no que ouviu: "Meu pai sofreu muito. Era uma
criança".
Fonte:
BBC News Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário