Crime
organizado na Faria Lima: por que fintechs viraram meio 'fácil' de lavar
dinheiro?
O crime
organizado continuou lavando dinheiro e ocultando patrimônio no coração
financeiro de São Paulo mesmo depois da deflagração da Carbono Oculto, a
operação que chamou atenção para a entrada do Primeiro Comando da Capital (PCC)
na economia formal.
Nove
meses depois, a segunda fase da operação, batizada de Fluxo Oculto, cumpriu
parte dos 59 mandados de busca e apreensão na última quinta-feira (29/5) em
seis fintechs, empresas de tecnologia que oferecem serviços financeiros, e
quatro fundos de investimentos.
Eles
eram a ponta final de um esquema de desvio de nafta, um solvente químico,
importado por empresas de fachada e repassado para distribuidoras e postos de
gasolina para adulteração de combustíveis.
O papel
crescente da Faria Lima nos negócios do crime organizado chama atenção. Nos
últimos anos, organizações criminosas se aproveitaram de exigências
regulatórias e de transparência mais brandas às quais as fintechs eram sujeitas
para movimentarem bilhões de reais com contas e operações de difícil
rastreamento, segundo apontam as investigações.
As
práticas acenderam um alerta entre as autoridades, que têm tentado fechar essas
brechas e o fluxo de dinheiro.
E
também podem mobilizar o próprio mercado financeiro, especialmente depois que
os Estados Unidos passaram a classificar o PCC e o Comando Vermelho (CV) como
organizações terroristas, medida que, para alguns analistas, pode trazer
consequências para empresas de diversos segmentos.
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As engrenagens do esquema
De
acordo com porta-vozes do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), da
Receita Federal e da Agência Nacional do Petróleo (ANP), as fintechs alvo da
Fluxo Oculto funcionavam como "bancos paralelos", responsáveis por
introduzir dinheiro de origem ilícita no sistema financeiro. Por elas, passaram
mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025.
"Nesse
caminho do dinheiro sujo — tanto das atividades da organização criminosa quanto
aquele ganho com a própria venda do combustível adulterado —, ele entra no
sistema financeiro via fintech", afirmou o secretário da Receita Federal
Robinson Barreirinhas em coletiva de imprensa logo após a deflagração da
operação.
"A
fintech é a porta de entrada."
Os
fundos de investimentos eram o elo da etapa seguinte, para ocultar o patrimônio
dos criminosos.
"O
valor é investido em um fundo de investimento, que investe em outro, que
investe outro, buscando nessa cadeia dificultar o rastreamento", explicou
o secretário.
"E,
na ponta final, o próprio fundo faz os investimentos, e pode investir em
empresas, adquirir bens ou inclusive remeter recursos ao exterior, que depois
voltam e beneficiam o próprio criminoso", afirmou Barreirinhas.
Provas
colhidas nos últimos meses, inclusive os celulares de contadores do PCC,
apontaram que essas seis fintechs haviam substituído as três que foram alvo da
Carbono Oculto em agosto de 2025 e foram usadas para que o crime continuasse
lavando dinheiro mesmo depois da primeira operação.
"Identificamos
toda uma movimentação dos principais líderes do esquema redirecionando todo o
dinheiro pra essas novas fintechs", afirmou o promotor do Grupo de Atuação
Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPSP João Paulo Gabriel.
Outro
ponto que chamou atenção foi o fato de que a estrutura não era usada apenas por
uma organização criminosa — no caso, o PCC. "O eixo que talvez seja o mais
preocupante é o fenômeno que a gente vem identificando das convergências
criminosas", destacou Gabriel.
"Essas
fintechs estão sendo exploradas não apenas por essa organização criminosa, como
também por outros grupos criminosos. [São] diversas organizações criminosas
compartilhando os mesmos espaços de fluxo financeiro."
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Como fintechs viraram 'duto' para dinheiro ilícito
Ainda
que atuem no setor financeiro, as fintechs não são bancos, de acordo com a
classificação do Banco Central — e essa é uma diferença relevante.
Ao
contrário dos bancos, instituições de pagamentos não podem usar o dinheiro
depositado pelos clientes para oferecer empréstimos, por exemplo. Também é
exigida das fintechs uma reserva financeira de segurança bem menor para poderem
operar do que as regras estipulam para bancos tradicionais.
Nos
últimos anos, as organizações criminosas se aproveitaram de uma série de
particularidades da regulamentação das fintechs para lavar bilhões de reais em
dinheiro ilícito, de acordo com as investigações. Entre elas, exigências mais
brandas de transparência e a possibilidade de criação de contas de difícil
rastreamento.
Desde a
Carbono Oculto, as autoridades têm tentado bloquear algumas dessas vias. Em
agosto de 2025, a Receita Federal equiparou o tratamento de fintechs ao de
bancos, obrigando-as a apresentarem informações detalhadas sobre suas
movimentações por meio da e-Financeira, um conjunto de arquivos digitais que
bancos, corretoras, seguradoras e administradoras de consórcios enviam para a
Receita.
"A
Receita passou a exigir a identificação de cada pessoa que fazia uma
movimentação bancária, isso antes não era necessário", diz a professora do
Insper Juliana Facklmann.
A norma
deveria ter começado a valer em janeiro do ano passado, mas foi alvo de uma
onda de desinformação, que ficou conhecida como a "fake news do Pix",
e acabou sendo temporariamente suspensa.
"Fomos
vítimas da maior onda de fake news da história da Receita", afirmou o
secretário da Receita durante a coleta.
"Mentiras
dizendo que a Receita iria monitorar ou tributar o Pix, que volta e meia tentam
emplacar novamente. Vimos quem era o interessado nisso: as organizações
criminosas que se valiam e valem ainda dessas fintechs para lavagem de
dinheiro."
Um dia
depois da deflagração da Carbono Oculto, quando as investigações revelaram o
uso das fintechs como braços financeiros do crime organizado, a norma passou a
valer.
Três
meses depois, a Receita institui também a DeCripto, uma declaração que as
prestadoras de serviços de ativos financeiros virtuais passaram a ter que
enviar todos os meses, informando sobre as transações realizadas em
criptomoedas.
Esse
tipo de ativo também é popular entre criminosos, porque é fácil de ser
movimentado internacionalmente, e seus donos são mantidos em relativo
anonimato. A Fluxo Oculto identificou a movimentação de R$ 365 milhões em
criptoativos nas instituições alvo da operação.
O Banco
Central também divulgou medidas no mesmo sentido. Em setembro do ano passado,
determinou que todas as novas instituições de pagamento peçam autorização
formal do BC para começar a operar.
Dois
meses depois, fechou o cerco contra as chamadas contas-bolsão, modalidade que
reúne recursos de várias pessoas em uma única conta, sem identificação
individualizada dos titulares.
Juliana
Facklmann ressalta que essa modalidade foi bastante explorada por grupos
criminosos.
Eles se
aproveitavam do fato de que muitas fintechs não têm acesso direto ao sistema de
liquidação do Banco Central e precisam de um terceiro (um banco tradicional,
por exemplo) para acessar essa infraestrutura, onde a transferência de fato dos
recursos entre bancos e instituições de pagamentos é realizada todos os dias.
A
conta-bolsão entrava aí. Era a modalidade que a fintech usava para movimentar
recursos com a instituição que tinha acesso ao sistema de liquidação do Banco
Central. Como as operações não eram detalhadas por titular, mas um bolo só, o
BC não conseguia fiscalizá-las.
"Era
quase como se tudo o que estivesse ali fosse da fintech em si", ilustra a
professora.
"Da
parte dela, [para evitar que o dinheiro que circulava por ela tivesse origem
ilícita], a fintech deveria ter todos os mecanismos de prevenção à lavagem de
dinheiro e financiamento ao terrorismo e seguir o princípio do 'conheça o seu
cliente' para saber quem está movimentando o que ali dentro", acrescenta
Facklmann.
"Então,
foi esse mecanismo que esses grupos criminosos utilizaram para conseguir
infiltrar dinheiro dentro da Faria Lima: essa questão de não identificação das
contas-bolsões, mais o ponto de que fintechs — mais especificamente
instituições de pagamento — não tinham bons controles de prevenção à lavagem de
dinheiro."
Ela
considera "importantes" as medidas tomadas pelo Banco Central e pela
Receita nos últimos meses e avalia que elas devem evitar muitas situações
parecidas com as reveladas pela Carbono Oculto e pela Fluxo Oculto.
"Agora,
o Banco Central consegue fazer os cruzamentos que ele precisa, as verificações
e as análises que ele precisa para entender que a 'padaria do seu Francisco'
está movimentando muito mais do que deveria e ir atrás para questionar",
ilustra ela.
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Repressão e fiscalização
O
superintendente-adjunto da Receita Federal em São Paulo, Claudio Ferrer de
Souza, ressaltou que, das seis fintechs alvo da Fluxo Oculto, três cumpriam as
obrigações com a e-Financeira. Ou seja, submetiam dados detalhados ao Fisco.
As
outras três não enviavam as informações, chamando atenção para outro ponto
importante no problema da infiltração do crime na Faria Lima: a fiscalização.
À
reportagem da BBC News Brasil, Souza comentou após a coletiva de imprensa que a
fiscalização é fundamental e que o problema não vai ser resolvido apenas com
repressão.
No
início de abril, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse à
Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do crime organizado que a autarquia não
tem recursos suficientes para supervisionar de forma satisfatória as empresas
do setor financeiro.
A
Comissão de Valores Mobiliários (CVM), por sua vez, responsável pela regulação
do mercado de capitais, sobre quem recai a responsabilidade sobre os fundos de
investimentos, tem se visto no centro de diversas polêmicas e é acusada por
críticos de falhar em sua missão.
Questiona-se,
por exemplo, por que ela não foi capaz de identificar as diversas
irregularidades cometidas pelo Banco Master no que se desenha como a maior
fraude bancária do país.
O
delegado-chefe de repressão a crimes financeiros da Polícia Federal (PF),
Guilherme Siqueira, disse em audiência pública no Supremo Tribunal Federal
(STF) no início de maio que a CVM opera com déficit de capacidade humana e
tecnológica e não consegue acompanhar a expansão do mercado. Essas
fragilidades, segundo ele, são exploradas pelo crime organizado.
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Efeito Trump
A
pressão para melhorar a fiscalização e fechar as brechas regulatórias ganhou
novo impulso quando os Estados Unidos anunciaram que passariam a classificar
PCC e CV como organizações terroristas.
De um
lado, especialistas alertam que a medida pode abrir possibilidade para que o
governo Trump promova intervenções militares em território brasileiro. De
outro, para que imponha, por meio do Departamento do Tesouro, sanções a
organizações financeiras que mantenham relação com as facções.
Para
alguns analistas, é aí que o mercado financeiro brasileiro e empresas de outros
segmentos poderiam ser impactados.
Pedro
Henrique Rezende, sócio especialista em compliance (mecanismo para garantir que
a operação esteja de acordo com as normas legais) e investigações do Aroeira
Salles Advogados, avalia que a medida "tem potencial para ampliar
significativamente o risco regulatório para empresas brasileiras com exposição
ao sistema financeiro internacional ou com relações comerciais com os Estados
Unidos".
Ele
recomenda a empresas que tenham negócios com vínculos com os EUA que façam uma
análise minuciosa das organizações com as quais trabalham para conhecer de fato
seus beneficiários finais e garantir que estes não tenham qualquer relação com
o crime organizado para que não estejam sujeitas a punições como bloqueio de
recursos aplicados no sistema bancário americano.
A
professora do Insper Juliana Facklmann, por sua vez, avalia que "quem já
está trabalhando da forma correta não vai ter maiores impactos".
"Não
vejo como algo que vai aumentar as regras de compliance", ela opina.
"Acho
que seria somente sobre o aumento da eficácia das regras de compliance, ou
seja, ter certeza, por exemplo, que uma fintech conhece o cliente que está
entrando, que tem um monitoramento eficiente, que percebe a movimentação de
grandes fluxos e se pergunta: 'Mas por que esse cliente está movimentando
grandes fluxos?' E vai atrás do cliente para entender."
Fonte:
BBC News Brasil

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