quarta-feira, 3 de junho de 2026

Milei transformou Argentina em um dos piores países para trabalhadores, afirma entidade

A Argentina passou a integrar, pela primeira vez, o grupo dos dez piores países do mundo para os trabalhadores. É o que revela o Índice Global dos Direitos 2026, relatório anual produzido pela Confederação Sindical Internacional (CSI), que reúne sindicatos de mais de 160 países.

Em apenas dois anos, a gestão de Javier Milei levou ao rebaixamento do país da Categoria 3 para a Categoria 5, o nível mais baixo da classificação da CSI, reservado a nações onde os direitos fundamentais dos trabalhadores “não são garantidos”.

Segundo a entidade, trata-se de um dos retrocessos mais acentuados já registrados pelo levantamento. O país agora ocupa a mesma categoria que Egito, Turquia, Bielorrússia e Mianmar.

O estudo anual, que avalia o grau de respeito aos direitos trabalhistas e sindicais em diversos países com base em convenções internacionais da Organização Internacional do Trabalho (OIT), aponta uma tendência global de enfraquecimento democrático.

Luc Triangle, secretário-geral da entidade, alerta para um “golpe de Estado dos multimilionários contra a democracia”, financiado pelas elites e executado por líderes autoritários.

<><> Efeito Milei

Segundo a CSI, o governo Milei vem implementando medidas consideradas “radicalmente antissindicais” e contrárias ao direito de protesto desde o início de sua gestão, em 2023. Com seu discurso radical, o presidente argentino estaria incentivando empresas privadas a ampliar cortes de pessoal e a dificultar a organização dos trabalhadores.

Diante do agravamento da situação dos trabalhadores no país vizinho, as duas principais centrais sindicais argentinas, a Confederação Geral do Trabalho (CGT) e a CTA, apresentaram uma denúncia formal à OIT, em Genebra, com o respaldo da Confederação Sindical das Américas.

No relatório, a CSI acusa o governo Milei de impor restrições ao direito de greve e à negociação coletiva em sua reforma laboral, além de ampliar as exigências de serviços mínimos obrigatórios em diversos setores e promover medidas que tratam o trabalho apenas como um custo a ser reduzido.

A entidade aponta, ainda, o aumento da repressão a protestos e manifestações, destacando que os protocolos de segurança adotados pelo governo ampliaram os poderes das forças policiais e resultaram em mais de 1.350 feridos durante mobilizações realizadas em 2025.

O texto cita também casos de demissões consideradas discriminatórias na Administração Nacional da Seguridade Social (Anses), que atingiram 84,6% dos trabalhadores com representação sindical. O relatório menciona ainda o caso do dirigente sindical Federico Giuliani, da ATE-CTA Autónoma de Córdoba, que foi preso e posteriormente deixou o país denunciando perseguição política.

¨      Comando Sul, narcotráfico e migração: como os EUA ampliam influência militar na América Latina

No marco das diretrizes que orientam a atuação de estruturas como o Comando Sul dos EUA, a Estratégia Nacional de Contraterrorismo apresentada pela Casa Branca em 6 de maio último deve ser lida não como um documento isolado, mas como a terceira peça de uma arquitetura estratégica mais ampla iniciada com a Estratégia de Segurança Nacional de novembro de 2025 e continuada com a Estratégia de Defesa Nacional de janeiro de 2026.

Em conjunto, estes textos mostram uma reorientação explícita de Washington para o que denomina de “Hemisfério Ocidental”, reivindicando a proeminência estadunidense na região e colocando a América Latina e o Caribe no centro de uma agenda que funde segurança fronteiriça, luta contra o narcotráfico, concorrência geopolítica com atores extra hemisféricos e uma renovada lógica de pressão sobre governos de perfil progressista considerados não alinhados.

A importância desta guinada radica em que transforma problemas complexos — como o crime transnacional, a migração, a debilidade institucional e a influência de potências externas — em assuntos de segurança nacional dos Estados Unidos, habilitando assim instrumentos políticos, financeiros, de inteligência e potencialmente militares de maior alcance.

<><> Lógica hemisférica

A Estratégia de Segurança Nacional de 2025 formula o marco ideológico e geopolítico do novo enfoque. Seu traço distintivo é a afirmação de que a segurança e a prosperidade dos Estados Unidos dependem de recuperar a primazia no Hemisfério Ocidental e de impedir que atores não hemisféricos consolidem posições estratégicas na região. Neste contexto, o documento recupera de forma explícita a referência à Doutrina Monroe e afirma que o controle do entorno regional é condição para a defesa do território estadunidense, a proteção de cadeias de fornecimento críticas e o acesso a espaços e ativos considerados estratégicos.

A Estratégia de Defesa Nacional de 2026 operacionaliza esse marco ao adotar uma postura de “defesa do território e do hemisfério” como primeira linha de esforço. O documento apresenta os “narcoterroristas” e outros inimigos no Hemisfério Ocidental como parte do entorno prioritário de ameaça, associa a segurança regional ao resguardo de acessos estratégicos e legitima uma maior disponibilidade de capacidades militares, navais, de vigilância e interdição para atuar no espaço hemisférico. Ainda que seu eixo global continue incluindo a concorrência com a China, a estratégia reordena prioridades e sugere que a consolidação do controle regional é um requisito prévio para sustentar a projeção internacional de Washington.

A Estratégia Nacional de Contraterrorismo de maio de 2026 encerra o triângulo doutrinário ao redefinir o mapa de ameaças e colocar os cartéis e gangues transnacionais do hemisfério entre as prioridades centrais do contraterrorismo estadunidense.

O texto afirma que a administração Trump designou os cartéis como organizações terroristas e que utilizará “todo o aparato do Estado” para neutralizar suas finanças, redes logísticas e capacidades operativas.

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Além disso, o capítulo dedicado a “Nosso Hemisfério” afirma que os Estados Unidos reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar sua proeminência regional, e levanta a possibilidade de atuar com governos locais quando estejam dispostos e sejam capazes de cooperar, ou de adotar medidas necessárias ainda quando não o façam.

Esta formulação amplia sensivelmente a margem de ação unilateral e aproxima o combate ao narcotráfico à linguagem, à doutrina e aos instrumentos do contraterrorismo.

<><> Repercussão na América Latina e no Caribe

A primeira repercussão para América Latina e Caribe é de ordem soberana. Ao elevar os cartéis e redes criminosas ao nível de ameaça terrorista, Washington amplia a base política e jurídica interna para justificar operações extraterritoriais, maiores exigências de cooperação, sanções financeiras e pressão diplomática sobre governos da região.

Ainda que a colaboração em segurança não seja nova, a mudança de categoria — de crime organizado para terrorismo — implica em uma mutação qualitativa: habilita narrativas de exceção, reduz as margens de negociação política e aumenta o risco de que as prioridades de segurança dos Estados Unidos se imponham sobre agendas nacionais de desenvolvimento, paz e fortalecimento institucional.

A segunda repercussão é o aprofundamento da militarização da agenda regional. A combinação entre a Estratégia de Defesa Nacional e a Estratégia de Contraterrorismo sugere um aumento de patrulhas, interdições marítimas, cooperação de inteligência, assessoria operativa, exercícios conjuntos com forças locais.

A curto prazo, isso pode traduzir-se em maior capacidade para golpear rotas logísticas e fluxos ilícitos; no entanto, na ausência de políticas integrais sobre corrupção, lavagem de dinheiro, exclusão social, controle de armas e reforma policial-judiciária, a pressão militar tende a deslocar geograficamente as economias ilegais em vez de desmantelá-las de maneira sustentável.

O risco é a repetição de ciclos de violência adaptativa em que as organizações criminosas se fragmentam, mudam ou mudam de lugar, elevando os custos humanos em territórios periféricos e fronteiriços.

A terceira repercussão é geopolítica. As três estratégias articulam segurança regional com concorrência por influência frente a autores extra hemisféricos, especialmente a China, e em menor medida Rússia e Irã.

Desta ótica, América Latina e Caribe deixam de ser unicamente um espaço de vizinhança para transformarem-se em um teatro de denegação estratégica: Washington busca impedir que competidores consolidem presença em infraestrutura crítica, energia, minerais estratégicos, portos, corredores logísticos e telecomunicações. O que pode incrementar a pressão sobre governos latino-americanos para redefinir alianças, rever investimentos, condicionar contratos e alinhar-se a prioridades estadunidenses, reduzindo sua margem de autonomia externa e tornando mais complexas suas estratégias de diversificação econômica.

A quarta repercussão diz respeito à securitização da migração e das fronteiras. Nestas estratégias, os fluxos migratórios, o tráfico ilícito, o tráfico de pessoas e o crime organizado aparecem entrelaçados em uma mesma matriz de ameaça. Esse enquadramento favorece respostas de contenção e externalização de fronteiras, assim como maiores exigências a países de trânsito e origem.

Para América Latina e Caribe, isto pode traduzir-se em novas pressões para enviar forças às fronteiras, endurecer controles, aceitar mecanismos de devolução e ampliar esquemas de vigilância, mesmo quando os determinantes estruturais da mobilidade humana continuem radicando na desigualdade, na violência, na mudança climática e na fragilidade do Estado.

<><> Cenários para a região

>>> Cenário 1: alinhamento reforçado com Washington. Neste cenário, vários governos aceitam ampliar a cooperação em inteligência, interdição, controle fronteiriço e perseguição financeira de redes ilícitas. A vantagem imediata seria uma maior assistência técnica, apoio logístico e reconhecimento político por parte dos Estados Unidos. Não obstante, o custo provável seria uma maior subordinação das agendas nacionais a prioridades definidas externamente, tensões internas pela militarização da segurança pública e uma possível deterioração de relações com sócios extra hemisféricos.

>>> Cenário 2: resistência soberanista e fricção diplomática. Aqui, governos da região rejeitam a ampliação do enfoque contraterrorista estadunidense, questionam a designação de atores criminosos locais como ameaça terrorista com consequências extraterritoriais e tratam de preservar margens de autonomia. Este cenário poderia traduzir-se em disputas diplomáticas, sanções seletivas, maior pressão financeira e narrativa de deslegitimação contra governos considerados resistentes ou “cúmplices”. Ao mesmo tempo, incentivaria novos esforços de articulação regional, ainda que não necessariamente com capacidade suficiente para substituir a assimetria de poder hemisférica.

>>> Cenário 3: adaptação híbrida e fragmentada. É o cenário mais provável. Alguns países cooperarão intensamente com Washington em determinadas áreas, enquanto outros tentarão limitar esta cooperação ou equilibrá-la com vínculos econômicos e políticos com outras potências. O resultado seria uma região mais fragmentada, com respostas desiguais ao crime transnacional e com dificuldades adicionais para construir posições comuns em matéria de soberania, segurança, comércio e inserção internacional. Neste contexto, a capacidade de cada Estado para negociar dependerá de sua força institucional, de seu peso geopolítico e do grau de dependência econômica em relação aos Estados Unidos.

<><> Implicações estratégicas para a região

  • Soberania e direito internacional: maior risco de normalização de medidas unilaterais, extraterritoriais ou de exceção com a justificativa de combater ameaças terroristas.
  • Segurança interna: provável expansão da militarização, com efeitos ambíguos sobre a redução sustentável da violência e altos custos sociais em territórios vulneráveis.
  • Economia política do narcotráfico: reforço de estratégias de interdição e perseguição financeira, sem que isso garanta por si só o enfraquecimento estrutural de mercados ilícitos transnacionais.
  • Autonomia regional: maior pressão para alinhar-se à política hemisférica de Washington e menor margem para estratégias de diversificação com outros sócios globais.
  • Integração latino-americana: incentivos contraditórios para a coordenação regional; enquanto as ameaças comuns poderiam impulsionar cooperação, a fragmentação política e a assimetria com os Estados Unidos tenderiam a debilitar respostas coordenadas.

<><> Etapa de maior ingerência

A Estratégia Nacional de Contraterrorismo de 2026 aprofunda e radicaliza a reorientação hemisférica já traçada pela Estratégia de Segurança Nacional e a Estratégia de Defesa Nacional. Sua principal novidade não está só em priorizar os cartéis como ameaça central, mas em fundir contraterrorismo, segurança fronteiriça, concorrência geopolítica e pressão diplomática em um mesmo marco de ação.

Para América Latina e Caribe, isto anuncia uma etapa de maior ingerência potencial, mais exigências de alinhamento e maior risco de securitização de problemas sociais e políticos complexos.

De uma ótica prospectiva, a região enfrentará o desafio de evitar que a luta legítima contra as redes criminosas derive em uma perda adicional de soberania, em novas formas de dependência estratégica e em um aprofundamento da violência.

A resposta mais eficaz não será meramente reativa: requererá fortalecer capacidades estatais, cooperação regional, políticas de desenvolvimento e marcos de segurança democráticos capazes de enfrentar o crime organizado sem aceitar, de maneira acrítica, doutrinas externas que subordinam o futuro latino-americano aos imperativos de poder de Washington.

¨      Sheinbaum alerta que Departamento de Justiça dos EUA pode se tornar ‘principal eleitor’ no México

A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, fez um forte alerta sobre a possibilidade de o Departamento de Justiça dos EUA se tornar “o principal eleitor” nas eleições de seu país.

“Sejamos claros: primeiro vêm buscar alguns, depois outros, até que os escritórios do Ministério Público se tornem o principal eleitorado no México. Não podemos permitir isso”, declarou a presidente, em um contexto marcado pelo pedido de extradição dos Estados Unidos contra diversos políticos de seu país, incluindo o governador de Sinaloa, Rubén Rocha, afastado do cargo, por supostos crimes de narcotráfico.

Nessa mesma linha, Sheinbaum criticou duramente a interferência internacional, afirmando que a história do México “sabe aonde esse caminho leva”. “Intervenções nunca trazem justiça e bem-estar ao povo; não podemos nos deixar enganar”, disse ela no domingo (31/05), no Monumento à Revolução, diante de aproximadamente 130 mil pessoas, segundo o jornal Milenio.

Lá, ele também afirmou que os pedidos dos EUA “são sem precedentes na relação bilateral” e, portanto, perguntou: “Será que existe um interesse genuíno em ajudar o México e combater o crime organizado, ou será que estamos testemunhando como setores da extrema-direita estadunidense estão usando nosso país para se posicionarem para as eleições de 2026? Ou será que pretendem influenciar as eleições de 2027?”.

Para além dos alertas, a presidente mexicana sublinhou que o seu governo nunca defenderá “a corrupção ou a conivência com o crime”, mantendo, contudo, a cooperação com os EUA em matéria de segurança e combate ao narcotráfico, mas apenas em condições de igualdade e respeito pela soberania.

A este respeito, afirmou que o combate ao crime organizado é uma responsabilidade partilhada por todos os Estados, mas que “não pode servir de pretexto para enfraquecer os princípios fundamentais do direito internacional”.

Sheinbaum enfatizou que agências estrangeiras e poderosos interesses econômicos não tomam decisões no México e, portanto, convocou os cidadãos a realizarem assembleias em praças públicas para defender a nação. A convocação, que entrará em vigor na próxima semana, foi interpretada como uma demonstração de força diante da ofensiva dos EUA.

De fato, a presidente também denunciou as campanhas multimilionárias nas redes sociais e na imprensa contra seu governo, promovidas por setores conservadores estrangeiros e nacionais, que, em sua opinião, se intensificaram após a morte acidental de dois agentes da CIA dos EUA que atuavam ilegalmente no México em uma suposta operação contra o narcotráfico.

“Nem os funcionários corruptos do passado que querem voltar ao poder, nem aqueles que pretendem usar o movimento para proteger interesses pessoais, nem qualquer agente estrangeiro serão capazes de quebrar a dignidade do México “, declarou ele.

 

Fonte: Opera Mundi

 

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