O
risco de um super El Niño aumentou?
Novas
previsões divulgadas em maio aumentaram a preocupação de cientistas sobre a
possibilidade de um El Niño forte — e possivelmente muito forte — se
desenvolver nos próximos meses, embora especialistas ressaltem que ainda seja
cedo para afirmar que o fenômeno atingirá nível de "super El Niño".
O
Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos (CPC/NOAA) elevou o status para
"alerta de El Niño" e afirmou haver 82% de chance de o fenômeno
surgir entre maio e julho de 2026 e 96% de probabilidade de ele persistir até o
inverno do hemisfério norte, entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027.
Ao
mesmo tempo, modelos meteorológicos internacionais passaram a indicar um
cenário de aquecimento cada vez mais intenso no Pacífico tropical. Segundo
análise da Climatempo, "tudo indica que o El Niño que entrará em ação, em
breve, deve ser no mínimo forte".
As
novas projeções reacenderam discussões sobre a possibilidade de um "super
El Niño" — termo usado informalmente para descrever eventos
excepcionalmente intensos, como os registrados em 1997-98 e 2015-16.
Mas,
apesar dos alertas, cientistas afirmam que ainda é cedo para previsões
definitivas e pedem cautela para evitar alarmismo.
"O
histórico mostra que previsões feitas nesta época do ano ainda carregam
incertezas importantes", afirmou à BBC a cientista atmosférica Kimberley
Reid, da Universidade de Melbourne, na Austrália.
O
coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, José Marengo,
afirmou à BBC News Brasil concordar que ainda há muita incerteza sobre a
intensidade que o fenômeno poderá atingir.
"Neste
momento, o que podemos dizer é que o El Niño está se configurando, sim, e que
esperamos talvez uma intensidade moderada a forte. Mas ainda é muito cedo para
afirmar que será um super El Niño ou o pior do século", disse.
Segundo
ele, previsões feitas com muitos meses de antecedência enfrentam o que
meteorologistas chamam de "barreira da previsibilidade", o que reduz
a confiança sobre cenários extremos.
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O que é o El Niño?
El Niño
e La Niña são fenôenos climáticos naturais que fazem parte de um mesmo sistema
de variações no oceano Pacífico tropical e na atmosfera.
Durante
o El Niño, as águas da superfície do oceano Pacífico central e oriental ficam
mais quentes do que o normal. Já durante o La Niña ocorre o oposto: essas águas
ficam mais frias do que a média.
Essas
mudanças alteram a circulação da atmosfera e influenciam padrões climáticos em
diferentes regiões do planeta.
Os
fenômenos geralmente acontecem a cada dois a sete anos e podem durar meses — às
vezes mais de um ano.
Atualmente,
as águas do Pacífico tropical já apresentam aquecimento consistente.
Segundo
a NOAA, o aquecimento das águas subsuperficiais do Pacífico Equatorial aumentou
pelo sexto mês consecutivo, com temperaturas significativamente acima da média
em partes próximas à costa do Peru — um dos sinais monitorados pelos
meteorologistas para detectar a formação do El Niño.
Em nota
técnica divulgada na última semana, o Cemaden afirmou haver mais de 80% de
probabilidade de ocorrência do fenômeno na segunda metade de 2026,
possivelmente a partir do trimestre agosto-setembro-outubro. O órgão estima,
por enquanto, intensidade entre moderada e forte.
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O que significa um 'super El Niño'?
Meteorologistas
acompanham especialmente o aquecimento de uma faixa do oceano Pacífico próxima
à linha do Equador (chamada de 3.4), entre a costa oeste da América do Sul e a
região central do Pacífico, usada internacionalmente como principal referência
para medir a intensidade do El Niño.
Quando
a temperatura média nessa área permanece mais de 1,5 °C acima do normal por
vários meses, o fenômeno costuma ser classificado como forte — ou,
informalmente, como um "super El Niño".
Na
última atualização semanal, a região Niño 3.4 registrou temperatura 0,4 °C
acima da média histórica, ainda ligeiramente abaixo do aumento de 0,5 °C usado
para oficializar o evento.
As
projeções mais recentes aumentaram a preocupação porque vários modelos passaram
a convergir para um cenário de aquecimento intenso.
Segundo
o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), mais da
metade de seus modelos climáticos indicam temperaturas acima de 2,5 °C até o
outono no hemisfério norte.
Algumas
projeções mais extremas sugerem até aquecimento superior a 3 °C — acima do
recorde estimado de 2,7 °C registrado em 1877.
Mas
pesquisadores destacam que projeções feitas entre março e maio historicamente
apresentam maior margem de erro — um fenômeno conhecido como "barreira de
previsibilidade da primavera".
Por
isso, cientistas dizem que ainda não é possível afirmar com segurança que o
fenômeno atingirá intensidade recorde.
O
próprio CPC afirmou em seu boletim mais recente que ainda há "incerteza
substancial" sobre o pico de intensidade do fenômeno e destacou que
nenhuma categoria de força supera, por enquanto, 37% de probabilidade.
O órgão
ressaltou ainda que eventos mais fortes não garantem automaticamente impactos
mais severos, apenas aumentam a chance de determinados efeitos climáticos
ocorrerem.
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Quais podem ser os impactos?
Um dos
efeitos mais claros do El Niño é o aumento da temperatura média global.
Especialistas
afirmam que um evento muito forte poderia adicionar cerca de 0,2 °C à média
global — o suficiente para aumentar ainda mais o risco de recordes de calor em
2027.
Após o
El Niño de 2023-24, por exemplo, o planeta registrou o ano mais quente da
história.
Os
impactos, porém, variam muito de região para região.
Países
do oeste do Pacífico, como Austrália, Indonésia e Filipinas, tendem a enfrentar
condições mais secas, aumentando o risco de secas severas e incêndios
florestais.
Já
partes da América do Sul, especialmente Peru e Equador, costumam registrar
chuvas intensas e enchentes.
Também
podem ocorrer alterações nas monções da Índia, aumento de chuvas em partes da
África Oriental e mudanças na atividade de furacões no Atlântico.
Segundo
cientistas, o fenômeno também pode afetar a agricultura global e pressionar
preços de alimentos.
A
professora Liz Stephens, especialista em risco climático da Universidade de
Reading, afirmou à BBC que secas e enchentes associadas ao El Niño podem
agravar crises humanitárias em regiões já vulneráveis.
"Se
houver redução da produção agrícola por causa de seca ou enchentes, isso faz os
preços subirem ainda mais", afirmou.
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E no Brasil?
Os
impactos do El Niño no Brasil variam conforme a intensidade do fenômeno e
também de acordo com a região do país.
Historicamente,
eventos de El Niño costumam provocar aumento das chuvas no Sul do Brasil e
condições mais secas e quentes no Norte e Nordeste.
Isso
pode elevar o risco tanto de enchentes quanto de estiagens, dependendo da
região.
Segundo
a Climatempo, os impactos mais relevantes do novo El Niño devem começar a
aparecer principalmente a partir da primavera de 2026, período em que o
fenômeno normalmente ganha força e passa a influenciar mais diretamente o clima
no Brasil.
A nota
técnica do Cemaden aponta que o fenômeno pode elevar o risco de chuvas
extremas, deslizamentos e enchentes no Sul do país, enquanto Norte e Nordeste
podem enfrentar agravamento da seca e maior risco de incêndios florestais. Já a
região central do Brasil deve registrar ondas de calor mais frequentes e
períodos de baixa umidade.
Marengo
afirmou à BBC News Brasil que, independentemente da intensidade final do
fenômeno, governos e autoridades já deveriam começar ações preventivas.
"Independentemente
de o El Niño ser moderado, forte ou muito intenso, nós teremos impactos. Ainda
não sabemos exatamente a magnitude, mas já conhecemos, com base em eventos
anteriores, quais regiões podem ser mais afetadas", disse.
Segundo
ele, medidas preventivas simples podem ajudar a reduzir danos causados por
eventos extremos associados ao fenômeno. "Se houver previsão de mais chuva
no Sul, por exemplo, é preciso limpar galerias pluviais e bueiros para reduzir
o risco de inundações urbanas."
Mas
especialistas alertam que o El Niño não explica sozinho todos os eventos
climáticos extremos.
"O
El Niño é apenas uma peça de um sistema climático muito mais complexo",
afirmou Kimberley Reid à BBC.
Ela
compara o fenômeno ao índice de massa corporal (IMC): um indicador útil, mas
insuficiente para explicar toda a situação.
Por
isso, cientistas ressaltam que, embora as previsões recentes mereçam atenção,
ainda existe incerteza significativa sobre a intensidade final do fenômeno e
seus impactos específicos em cada região do planeta.
Fonte:
BBC News Brasil

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