Aline
Souza: O império das big techs
Enquanto
o mundo debate saúde mental, menos tempo de tela e mais democracia, as empresas
de tecnologia estão fazendo de tudo para barrar, com forte influência política,
as tentativas de regulação para sua atuação no mercado. No paralelo, permitem
circular um estrondoso fluxo de desinformação, toda sorte de conteúdos
misóginos e com discurso de ódio capazes de minar a confiança democrática das
pessoas, influenciar eleições e incentivar crimes violentos contra grupos
sociais.
Estamos
falando principalmente de empresas como Grupo Alphabet (que controla
a Google, YouTube e outras empresas de tecnologia), Meta (Instagram, Facebook,
WhatsApp), Amazon, Apple e Microsoft, conglomerados transnacionais que, com
seus data centers, cabos submarinos, provedores de nuvem e algoritmos, dominam
os dados de bilhões de pessoas e influenciam seus interesses, hábitos e
opiniões.
Para se
ter ideia desse poderio, quando a Google rodou seu primeiro anúncio baseado em
palavras-chave (AdWords), em 2000, Mark Zuckerberg ainda era um jovem de 16
anos. Duas décadas e meia e muitos trilhões de dólares depois, a Meta,
controlada por Zuckerberg, deve alcançar um marco histórico e ultrapassar a
Google em receita de publicidade. Uma pesquisa realizada pela Emarketer e
publicada pelo Wall Street Journal em abril de 2026 projetou uma receita
líquida de US$ 243,46 bilhões da Meta para este ano e um crescimento de 24,1%.
Se a estimativa for confirmada, a empresa irá ultrapassar a Google, com receita
prevista de US$ 239,54 bilhões e um crescimento estável de 11,9%.
De
acordo com o professor e sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira, que conduz o
podcast Tecnopolítica, esse “colonialismo de dados” impõe aos países do Sul
Global uma condição de dependência através do consumo de tecnologias que não
são controladas por essas nações e com o fornecimento de dados que são
monetizados em outros lugares. Assim, segundo o pesquisador, que é um grande
defensor de softwares livres e da inclusão digital no Brasil, tais países
possuem pouca ou nenhuma incidência sobre as decisões regulatórias que moldam a
vida digital.
A falta
de autonomia tecnológica do Brasil aumenta a dependência do país em relação às
plataformas estrangeiras. Dados de saúde pública e serviços de acesso a
políticas como o GovBr, por exemplo, passando por informações de produções e
pesquisas acadêmicas, estão sob o controle de empresas estrangeiras,
comprometendo a soberania informacional e trazendo riscos às estratégias
nacionais.
<><>
Regulação das plataformas digitais
Em todo
o mundo, as ameaças de um ambiente digital “sem lei” têm provocado o debate
sobre a regulamentação das plataformas digitais. No entanto, movimentos sociais
e entidades civis concordam que regular não é o suficiente. De acordo com o
comunicador Bruno Torturra, que apresenta o podcast Calma Urgente, regular
significa fazer parte do modelo econômico imposto pelas empresas que estão
ditando as regras de como e o que deve ser feito nesse campo regulatório.
Durante o episódio “A política das telas”, Torturra chama a atenção de que é
preciso buscar a soberania digital, a quebra dos códigos e das interfaces de
programação de aplicativos (API) e a criação de outras redes que sirvam a um
propósito comunitário.
Segundo
Letícia Cesarino, antropóloga e professora da Universidade Federal de Santa
Catarina (UFSC), é necessário construir infraestruturas digitais próprias, que
sejam soberanas e nacionais para fazer frente ao monopólio das plataformas e
aos riscos de uma dependência tecnológica. “Desde quando os computadores
começaram a chegar aqui no Brasil, na primeira fase da internet no final dos
anos 1990, já havia o domínio de empresas estrangeiras que entraram no mercado
de forma muito agressiva no Sul Global, não sendo um problema só do Brasil.
Isso durou uns vinte anos de ocupação monopolista e os problemas só apareceram
recentemente. Hoje temos a nossa vida pública e privada nas mãos de empresas
estrangeiras de tecnologia, boa parte da infraestrutura do Estado brasileiro
passa por essas empresas, algo que se intensificou durante a pandemia de
Covid-19, quando a grande totalidade dos nossos serviços e atividades se
digitalizaram”, afirma.
<><>
Rachaduras aparentes
As big
techs também têm sido alvo de críticas e denúncias por parte de antigos
funcionários das principais empresas. A pesquisadora Zoe Hitzig, por exemplo,
pediu demissão da Open AI após a empresa anunciar que pretende monetizar os
dados dos usuários do ChatGPT. O alerta é sobre o potencial de manipulação dos
usuários que confiam na inteligência artificial (IA) e entregam informações
sensíveis, como dados médicos, de relacionamento e crenças espirituais.
Da
mesma empresa, Caitlin Kalinowski, diretora de robótica, pediu demissão após a
Open IA anunciar um acordo com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos que
envolvia o uso de programas para vigilância em massa e sem supervisão judicial
e utilização de armas letais autônomas. Em outros exemplos, ex-funcionários
manifestaram preocupação com a tendência “bajuladora” das IAs, que costumam
reforçar crenças dos usuários, chamando a atenção para conflitos éticos e
legais.
Em
2026, a Justiça dos Estados Unidos condenou a Meta e o Google por contribuírem
para uma crise de saúde mental entre adolescentes, sobretudo a partir da
utilização do Instagram e YouTube. A decisão considerou que as empresas tinham
como objetivo aumentar o tempo diário dos usuários nos aplicativos, levantando
a discussão sobre a negligência e responsabilidade das empresas no uso de
estratégias para viciar os jovens. Outro caso, conhecido como o “Facebook
Papers”, revelou, em 2021, que as empresas tinham conhecimento sobre os riscos
à saúde mental de adolescentes, além da disseminação de discurso de ódio e
desinformação em suas plataformas.
<><>
A receita do império é ódio rentável
Pesquisas
também apontam para o grande crescimento de comunidades misóginas em ambientes
virtuais. De acordo com o estudo “A machosfera é política: construção
ideológica e ataques a políticas de gênero”, realizado pela Fundação Getúlio
Vargas, nos últimos anos se multiplicaram nas redes os grupos com conteúdos de
ódio às mulheres e discurso de superioridade masculina. A pesquisa acompanhou
85 grupos abertos do Telegram no Brasil, entre 2015 e 2025, reunindo 221 mil
usuários e mais de 7 milhões de conteúdos publicados nesse período.
O
estudo também chama a atenção para a “monetização do ódio”: foram identificadas
mais de 20 mil referências a mentorias, cursos, workshops e infoproduto nesses
grupos da “machosfera”. Além da misoginia, essas comunidades também costumam
defender um modelo identitário supremacista, com viés racista, classista e
transfóbico, além de disseminar teorias da conspiração e “fake news”.
Fica
evidente que a misoginia não cresceu por acaso. Ela se organizou, ganhou
linguagem, público e modelo de negócio, chegando ao noticiário pela violência e
discurso de ódio contra as mulheres. Enquanto isso, homens estão lucrando com a
misoginia e utilizando as plataformas digitais para influenciar milhares de
jovens, ameaçando a vida de meninas e mulheres.
Pesquisadores
também apontam que a machosfera não se limita a grupos de extrema-direita ou
compreendida apenas como um conjunto de fóruns sobre masculinidade ou
relacionamentos. Trata-se também de um espaço de socialização ideológica, em
que circulam e se consolidam visões de mundo sobre autoridade, hierarquias de
gênero, vitimização masculina, guerra cultural, antiesquerdismo e
deslegitimação de direitos.
Exemplos
de grupos escolares que criavam rankings misóginos de meninas ou trends no
TikTok e Instagram sobre “como reagir se ela disser não” revelam a banalização
de uma cultura de violência machista cada vez mais organizada e estratégica. E
tudo isso sob o consentimento das plataformas digitais, que lucram com a
produção, circulação e consumo desses conteúdos, ainda que eles deslegitimem
políticas de proteção e igualdade ou ponham em risco a vida de outras pessoas.
<><>
Interferência política
O
Brasil está no radar das big techs – é um dos maiores mercados de rede social
no mundo, com cerca de 165 milhões de usuários, que colocam o país em um dos
que passam mais tempo na internet. E as instituições brasileiras também têm
debatido as regras do jogo. O Marco Civil da Internet (2014), a Lei Geral de
Proteção de Dados (2018), o ECA Digital (2026) e a tramitação do Projeto de Lei
896/2023, que criminaliza a misoginia, representam marcos importantes e
pioneiros, mas enfrentam a resistência concreta das corporações e de alguns
setores da sociedade.
A
incidência política das plataformas digitais não se limita ao lobby para barrar
projetos no Congresso ou servir a centros de comando de uma guerra de
narrativas, mas também na influência eleitoral explícita. Isso ficou evidente
no envolvimento de Elon Musk (dono do X) no governo de Donald Trump, investindo
mais de US$ 250 milhões para impulsionar sua campanha presidencial de 2024 nos
Estados Unidos, além de ter feito parte do governo eleito.
A
influência das big techs no processo eleitoral e no exercício da democracia
também é sentida no Brasil. O relatório “Amazônia Livre de Fake” (2024),
lançado pelo Intervozes, em parceria com outras entidades, revelou uma cadeia
de desinformação que envolve políticos e candidatos da região amazônica, boa
parte ligados ao agronegócio, que utilizam as redes sociais para promover
discurso de ódio ou disseminar conteúdos falsos e negacionistas sobre pautas
ambientais e que deslegitimam defensores dos direitos humanos. Além do
consentimento das plataformas digitais, o uso de anúncios pagos também é
recorrente para ampliar o alcance dos conteúdos.
O
crescente uso de inteligência artificial amplia ainda mais os riscos para as
disputas eleitorais, que convive com um cenário de intensa violência política e
de gênero. A guerra de desinformação e criação de conteúdos falsos a partir da
IA já é uma realidade no Brasil, com o potencial de influenciar ainda mais a
decisão da população. Da parte das big techs, falta transparência sobre os
critérios para derrubada ou manutenção de perfis e conteúdos e a manutenção de
um modelo de negócio que se beneficia da disseminação de informações, sejam
elas falsas, violentas ou criminosas.
<><>
Possíveis saídas para um novo mundo
Alternativas
existem. Além do fortalecimento de mídias independentes e comunitárias,
fundamentais no combate à desinformação, diversas redes também promovem o
chamado “feminismo tecnológico”. O projeto “Dados contra Feminicídio”, por
exemplo, vem sendo realizado por pesquisadoras das Américas e apresenta
ferramentas tecnológicas desenvolvidas por ativistas feministas, jornalistas e
pesquisadoras para apoiar a produção de dados, contribuir com a prática
jornalística e incidir por uma cobertura responsável de notícias sobre
feminicídios – uma forma de “hackear” o sistema de IA e o domínio masculino na
criação de tecnologias com vieses misóginos.
A Rede
Feminista de Inteligência Artificial na América Latina e no Caribe mapeou
exemplos de experiências de IA feminista. No Brasil, já existem bots que emitem
alertas para propostas de leis que ferem direitos das mulheres. Seguindo a
mesma linha, buscando romper com padrões hegemônicos na arte, na música e nas
recomendações de pesquisas acadêmicas, foi criada a AfroféminasGPT, uma IA que
é definida pelo projeto como “uma ferramenta de consulta e formação criada para
responder desde a perspectiva do pensamento negro, o afrofeminismo e as
pedagogias de empoderamento”.
Em
2026, a ex-chefe de políticas públicas do WhatsApp no Brasil, Daniela da Silva,
criou a organização CTRL+Z para colher denúncias contra as big techs e oferecer
apoio jurídico aos usuários. A plataforma também criou um mecanismo para
recebimento de denúncias anônimas por parte de funcionários, através do
programa #VazaBigTech.
As
ações em torno da responsabilização de plataformas digitais e construção de
tecnologias autônomas se somam ao debate sobre soberania digital. Com a
promessa de trilhar um caminho de independência tecnológica a longo prazo, o
governo federal anunciou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial,
prevendo investimentos de R$ 23 bilhões em inteligência artificial e
desenvolvimento de supercomputadores, chips nacionais e armazenamento em
nuvens.
De
acordo com a antropóloga Letícia Cesarino, para o Brasil enfrentar a
dependência tecnológica, é preciso dedicação do poder público e parcerias entre
empresas, universidades e instituições de pesquisa. “Os bancos de dados
nacionais estão em nuvens dessas grandes empresas espalhados pelo mundo. A
Europa já está criando esses mecanismos para manter dentro de casa seus dados
mais estratégicos”, lembra Letícia. A União Europeia também tem pautando
discussões sobre a regulamentação e responsabilidades das plataformas digitais.
Em 2024, a comunidade aprovou a Lei dos Serviços Gerais, com regras para o
ambiente digital e metas para reduzir a dependência tecnológica.
No
entanto, movimentos sociais chamam a atenção para uma política de soberania
tecnológica responsável, acompanhada de uma regulação democrática das
plataformas digitais, direcionada para garantir: transparência algorítmica;
combate à desinformação sem censura prévia; responsabilização das empresas por
conteúdos que circulam em suas plataformas; proteção de dados e privacidade dos
usuários; garantia de liberdade de expressão; governança participativa, com
conselhos multissetoriais de regulação digital; sanções com penalidades
proporcionais ao porte e impacto da empresa; investimento em infraestrutura
pública digital, fomento à tecnologia nacional e ao jornalismo
comunitário.
Portanto,
é urgente debater a governança das plataformas, seus critérios de moderação e
desenvolvimento dos algoritmos, além da responsabilidade socioeconômica dessas
empresas, afinal, tecnologia carrega interesses, valores e hierarquias. Na
história, todos os impérios caíram por dentro. Avante!
Fonte:
Le Monde

Nenhum comentário:
Postar um comentário