Felipe
Brito: O que se continua buscando no bolsonarismo!?
Eram
dezenove horas e cinquenta e seis minutos, naquele domingo, dia 30 de outubro
de 2022: decorrida a apuração de 98,91% das urnas, o então candidato à
presidência, Luís Inácio Lula da Silva, foi considerado matematicamente eleito.
Naquela eleição, Lula obteve 60.345.999 votos – o equivalente a 50,99% dos
votos válidos. 58.206.354 eleitores (as) votaram em Bolsonaro – número
correspondente a 49,10% dos votos válidos. Não obstante a derrota eleitoral do
então Presidente da República Jair Bolsonaro, impressionam o alcance e a
capilaridade do bolsonarismo. Sim: em um país devastado, 58.206.354 brasileiros
(as) votaram em Bolsonaro. Milhões de pessoas aderiram, referenciaram-se ou
identificaram-se, de algum modo, com o campo político da extrema direita (que,
na prática, se confunde com o bolsonarismo).
Decorridos
cerca de 3 anos e meio daquele 30 de outubro de 2022, foi divulgada uma
pesquisa para a eleição presidencial de outubro de 2026 que apresentou empate
técnico, no segundo turno, entre Lula e o candidato bolsonarista. Várias outras
pesquisas subsequentes também o fizeram, exceto a pesquisa CNT/MDA, divulgada
em 14 de abril de 2026, que indicou vitória do Presidente Lula no primeiro e no
segundo turnos. Deixo a cargo dos especialistas a análise da validade dessas
pesquisas em contexto pré-eleitoral e sublinho que, no tocante às contendas
eleitorais, muita água vai rolar! Por exemplo, no momento inicial dos
preparativos da redação deste texto, o governo federal, a rigor, ainda não
havia “entrado em campo” dessas contendas, e uma série de outras ressalvas
circunstanciais poderiam ser elencadas, sem nos desviar, entretanto, da
estarrecedora constatação do alcance, capilaridade, mas também da renitência do
bolsonarismo. Estarrecedora, mas não surpreendente. Fato é que milhões de
pessoas continuam aderindo, referenciando-se ou identificando-se, de algum
modo, com o bolsonarismo. Afinal, o que estão buscando e o que o bolsonarismo
tem a oferecê-las!?
Construir
caminhos (plausíveis) para responder às referidas questões é uma tarefa
desafiadora, que requer empenho de complexificação das análises. Na esteira da
construção desses caminhos, cabe averiguar um fenômeno agregado ao
bolsonarismo, que transparece nessas pesquisas pré-eleitorais não apenas nas
intenções de voto do candidato da extrema direita, mas também nos índices de
aprovação/reprovação do governo Lula (sobretudo quando se compara os índices
computados nos governos anteriores do Presidente Lula e da Presidenta Dilma
Rousseff – nesse caso, pelo menos, até as turbulências de junho de 2013). Tal
fenômeno, em resumo, pode ser caracterizado da seguinte maneira: inobstante o
contexto de menor desemprego da série histórica, inflação (relativamente) baixa
e controlada, política de valorização continuada do salário mínimo, isenção do
Imposto de Renda para pessoas com rendimento mensal até 5 mil reais, aumento da
renda do trabalho, recorde de créditos e garantias para empréstimos (via BNDES)
voltados às micro, pequenas e médias empresas, ampliação do Farmácia Popular
etc., verifica-se relutâncias abrangentes em se estabelecer correspondências
entre efeitos econômicos e sociais virtuosos (mesmo que pontualmente) e
ações/posicionamentos do governo federal.
Na
averiguação desse fenômeno, é importante considerar a premissa segundo a qual
conexão intelectiva/cognitiva requer conexão afetiva: sem o esteio da
confiança, não se junta “lé com cré”. Ato contínuo, considerar que um dos
principais combustíveis do bolsonarismo é uma desconfiança (anti)social
(crônica), que impregna o tecido societário do país, e pode servir como uma
espécie de “armadura”/“blindagem” à permeabilidade dessas melhorias de
indicadores econômicos em sensações e enquadramentos compatíveis ou, pelo
menos, não discrepantes. E, aqui, especificamente, reporto-me a algo bem
básico, que diz respeito a algum tipo de eco, a algum grau mínimo de
ressonância e reconhecimento diante dos influxos de políticas públicas
provenientes do governo federal petista (que não implique no efeito colateral
de “pintar com cores idílicas” as agruras estruturais de um capitalismo
periférico).
Como as
supracitadas relutâncias e desconfianças abastecem o arsenal de insumos
objetivos e subjetivos de incremento do bolsonarismo, é preciso aprofundar as
elaborações e é interessante que seja feito tomando como fios condutores as
questões registradas no segundo parágrafo do texto: o que milhões de pessoas no
Brasil atual estão buscando no bolsonarismo e o que o bolsonarismo tem a
oferecê-las!? Farei isso nos parágrafos subsequentes. Antes, vale elencar
alguns fatores epidérmicos que, segundo consta, estão perturbando a
permeabilidade dessas melhorias de indicadores econômicos em sensações e
enquadramentos correspondentes: de início, é importante levar em conta os
impactos decorrentes da sedimentação de dois polos militantes na sociedade
brasileira atual – um deles vinculado ao campo de esquerda, cuja hegemonia
pertence ao petismo, mais especificamente ao lulismo (que é mais amplo do que o
petismo); o outro, à extrema direita que, no universo de pessoas comuns
interpeladas pelo bolsonarismo, corresponde a uma fração minoritária, porém,
ainda sim, numerosa. No bojo da conversão militante de extrema direita,
aciona-se uma espécie de dispositivo rechaçador de qualquer influxo e/ou
representação advindo do governo federal petista – dispositivo, ao que parece,
empurrado por largas dosagens de automatismo. Ademais, pesquisadores
identificaram outros fatores, como, por exemplo, a associação de endividamento
elevado em cheque especial, consignado, cartão de crédito etc., concentrado
majoritariamente em fintechs, e encarecimento do crédito. Dentro dessas teias
de endividamento, cabe registrar o enredamento com as bets, que já é
considerado, inclusive, um problema de saúde pública. Atravessando esse bloco
de fatores, uma disseminação em massa de fake news, ligada à lógica de guerra
que perpassa o universo (semiótico) de formação de coordenadas para se “ler” e
“escrever” a realidade circundante, injetando muita perturbação nas vinculações
de situações concretas com posicionamentos e ações concretas do governo federal.
Perseguindo
o objetivo de complexificar as elaborações, em conformidade com os propósitos
do texto, estabeleço como demarcação o âmbito urbano e metropolitano, visto que
a capilarização do bolsonarismo envolveu, também, o espalhamento para
municípios médios e menos populosos pelo “interior” do país. E, aqui,
“interior” está grafado com aspas não aleatoriamente. Nas últimas três décadas,
é possível verificar reposicionamentos no eixo de poder econômico e político do
país, articulados a profundas transformações demográficas e territoriais no
“interior”, decorrentes do peso que a especialização primário-exportadora de
commodities adquiriu na dinâmica econômica (pari passu com a
desindustrialização que atingiu, em maior grau, as regiões metropolitanas,
sobretudo as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre). Como apontou
André Singer, o bolsonarismo revelou grande aderência em um cinturão
territorial cujo alcance pode abarcar até 40% do país, indo do norte do Rio
Grande do Sul até a região Norte, passando pelo interior de São Paulo, Minas
Gerais e por faixas expressivas da região Centro-Oeste. Inclusive, em 2022, um
candidato sem nenhuma conexão com São Paulo, estado com um Produto Interno
Bruto superior ao de muitos países no mundo, elegeu-se governador pelo empuxo
bolsonarista, sobretudo no interior.
Logo, o
escopo do texto abrange um recorte urbano, metropolitano, mas também
periférico, almejando direcionar o foco de análises na localização social da
massa de trabalhadores(as) não assalariados(as) e pós-assalariados(as), em
grande parte “plataformizados(as)” e “uberizados(as)”. Uma primeira dimensão
estrutural, referente à universalização da forma mercadoria nas sociedades
contemporâneas, impele trabalhadores (as) a acessar dinheiro para sobreviver,
cimentando a base da dominação econômica. Tratando-se, especificamente, desse
amálgama de não assalariamento e pós-assalariamento, esse dinheiro perseguido é
proveniente de rendas não ou pós-salariais, obtidas em contextos nos quais os
custos econômicos e subjetivos são externalizados aos próprios trabalhadores(as),
perpassados por ausências de direitos trabalhistas, previdenciários e de
respaldos sindicais. Nesses contextos, ademais, as partilhas de vivências (no e
pelo trabalho), quando acontecem, são rarefeitas. Logo, não é hiperbólico
considerar que essa massa de pessoas se encontra, de alguma forma, assujeitada
a uma realidade objetivada “do cada um por si e todos contra todos”. Tal
assujeitamento carrega exigências de adestramentos, de preparos corporais e
psíquicos em registros maquinais, que favorecem formas de agir-sentir-pensar
hiperindividualistas, impulsionadas por agregados de sentimentos/afetações
misturados de insegurança, medo, ódio (destrutivo), ressentimento.
Aprofundando
a argumentação, milhões de pessoas comuns no Brasil atual vivenciam, de algum
modo, a sociedade como “selvageria do cada um por si e todos contra todos”.
Junto aos solavancos da dominação econômica, amontoam-se nas montagens dessas
vivências os efeitos decorrentes das segregações urbanas; da precarização das
mobilidades urbanas; dos eventos climáticos extremos; das disputas/gestões
armadas de territórios periféricos perpetrados pelo narcotráfico e/ou milícia;
das violências dos aparatos repressivos estatais; de desvalias institucionais
(como a fila do INSS – que o governo federal, está tentando, pelo menos,
amenizar); de abandonos, negligências e/ou invasividades afetivas (nos âmbitos
familiares) etc. Esse amontoado de situações, contextos, eventos é impregnado
por bombardeios semióticos, que disseminam desinformações em massa com
propósitos conturbadores. Ademais, carrega cargas
traumatizantes/traumatofílicas que, diante de agenciamentos de fatores
objetivos e subjetivos, ficam suscetíveis de se manifestarem (em formatos
incomensuráveis, conforme milhões de singularidades subjetivas).
Traumatizante/traumatofílico, para os objetivos do texto, refere-se a
transbordamentos dos recursos psicofísicos de assimilação, processamento,
elaboração do peso, ostensividade, velocidade, impregnação dos componentes
desse amontoado de situações, contextos, eventos. Nesses termos
traumatizantes/traumatofílicos, a vivência da “selvageria do cada um por si e
todos contra todos” é, também, em algum sentido, a interpretação e a sensação
da sociedade como um todo hostil, comandado por poderes implacáveis e
indecifráveis. Frente ao achatamento de canais coletivos e pessoais de
enfrentamento, processamento, elaboração, uma das reações acionadas reside em
um dispositivo de defesa psicofísico voltado à proteção da ameaça/iminência de
emergência de efeitos tomados como devastadores desses poderes (sentidos e
interpretados como implacáveis e indecifráveis). Tal dispositivo de defesa
opera por meio da introjeção da coerção, opressão1. Contudo, esse caráter
submisso de reatividade e acuamento também irrompe como ataque (insultuoso). A
“balbúrdia” golpista de 8 de janeiro de 2023, que misturou pretensões políticas
de ruptura golpista (envolvendo variados atores e setores) com descargas de
destrutividade (performáticas, “pirotécnicas”, “estetizantes”), revelou isso.
Com
efeito, uma das funções engendradas pelo bolsonarismo foi a de tecnologia de
governança. Enquanto tal, serviu como um fator pró-cíclico de catalisação da
desintegração econômica, da erosão política, de perturbação semiótica/cultural
e de negligência/invasividade afetivas. Na própria montagem como campo político
de extrema direita e tecnologia de governança, incorporou uma teia de
interesses das classes dominantes, cujo eixo gravita em torno da
espoliação/expropriação de fundo público, ativos públicos, recursos naturais e
socioculturais. Nessa tecnologia de governança, consta o rechaçamento a
qualquer iniciativa de (re)atualização de um projeto de desenvolvimento
nacional (considerado no que for possível, diante da fronteira tecnocientífica
nas alturas), especialmente se pautada pelas metas de distribuição direta de
renda/riqueza e participação popular. Fato é que o bolsonarismo não oferece
nenhuma promessa de transcendência dos propulsores dos escombros sociais e
ecológicos. Logo, sob a égide desse movimento político e dessa tecnologia de
governança, sai de cena a gramática da transformação da realidade externa, que
podemos chamar de práxis. O campo de referências da práxis, no qual
transformações da realidade externa engendram autotransformações e vice-versa,
é proscrito. Como “não está” ao alcance mudar a realidade circundante, no lugar
entra uma fixação nos limites societários vigentes, pari passu com um movimento
direcionado ao próprio Eu, dirigido a “amoldar” o próprio Eu, promovendo um
“ensimesmamento” para percorrer os solavancos das “virações” do dia a dia,
vivenciados, de algum modo, conforme já registrado, como “selvageria do cada um
por si e todos contra todos”.2
Subjaz
a esses protótipos de circuitos de agir-sentir-pensar uma desconfiança
(anti)social, que não está solta no ar, mas enquadrada no sistema categorial da
formação social brasileira. Essa desconfiança (anti)social mantém
correspondência com o caráter (estrutural) de descomprometimento ou
desimplicação social generalizada; sentimento recrudescido pela tecnologia
bolsonarista de governança, que se manifesta enredado com as raízes coloniais,
escravocratas, latifundiárias da formação social brasileira e com os resíduos
da modernização concentradora de renda/riqueza (com todo o apanágio de
truculências, “soluções” oligárquicas pelo alto, bloqueio à participação
popular etc.). Aqui, cabe inserir uma questão que anaboliza esses protótipos de
desconfiança (anti)social e abastece as interpelações bolsonaristas: milhões de
pessoas no Brasil atual que habitam periferias urbanas se encontram emparedadas
por “normatividades” territoriais armadas do narcotráfico e das milícias, bem
como da “prerrogativa” estatal de “tocar o terror” (como ocorreu na
megaoperação de 28 de outubro de 2025, nos Complexos da Penha e do Alemão, e
tantas outras). Essas “normatividades” abarcam um vasto rol de atividades,
eventos e mercadorias que perfazem os agenciamentos cotidianos de vidas dessas
pessoas, cuja radicalidade da incidência pode ser dimensionada, por exemplo,
pelo encarecimento do preço dos pãezinhos de sal vendidos nas padarias, em
virtude do domínio da distribuição da farinha de trigo que ocorre em alguns
territórios periféricos da Baixada Fluminense. Tanto as “normatividades”
territoriais armadas quanto a “prerrogativa” estatal de “tocar o terror”, com
suas subjacentes cargas traumatofílicas/traumatizantes, não apenas municiam um
entrincheiramento (hiper)individualista, mas fornecem a ele um contorno
securitário (que conduz, por exemplo, ao armamentismo, um dos baluartes do
bolsonarismo). E, assim, anaboliza os protótipos de desconfiança (anti)social e
abastece as interpelações bolsonaristas.
A
extrema direita propaga, com alarido, uma imagem de “interesse enfático”, de
“aproximação amiúde” no trato da “segurança pública” e milhões de pessoas
(incluindo moradores de territórios periféricos) recepcionam e interpretam essa
propagação como um gesto de “escuta”, “implicação”, “comprometimento”, enquanto
os posicionamentos do campo da esquerda, nessa seara, são interpretados como
“ausência de escuta”, “distanciamento”, “desimplicação” (e, até mesmo,
“privilégio” de classe). Isso é uma questão desafiadora para o campo de
esquerda e precisa ser (re)elaborada para uma condução virtuosa dos objetivos
de reaproximações com as pessoas comuns. Nesse quesito, postular o
enfrentamento das cúpulas criminosas (incluindo os respectivos tentáculos na
economia formal e nas instituições governamentais) é um passo amplamente
suscetível de obter compreensão e adesão. Aí, vale assinalar a Operação Carbono
Oculto (que pode ser considerada a maior operação, até então, contra o crime
organizado do país) e o trato a ela conferido pelo campo de esquerda como
paradigma contrastante à megaoperação que empilhou cadáveres em nível
recordista – a Operação Contenção. Conforme já citado, em áreas periféricas da
região metropolitana do Rio de Janeiro, até o acesso ao pãozinho de sal já
sofre interferências diretas da “governança” territorial armada. As vidas
cotidianas de milhões de pessoas que habitam as periferias urbanas se encontram
atravessadas pelas “gestões” e disputas armadas de territórios. Com isso, a
veiculação pública do paradigma de combate às cúpulas criminosas, para não ser
algo distanciado dessas pessoas que, no máximo, suscite entendimentos
protocolares, “desafetados”, com vieses abstratos, precisa assegurar pontes com
as vidas cotidianas delas, de modo a estimular, de fato, confiabilidade e
sensações de pertencimento e implicação, capazes de exprimir um direcionamento
ativo de aproximações e conexões. Uma correta concatenação lógica de enunciados
não, necessariamente, basta para fomentar implicações (afetivas e efetivas) e
adesões (de fato). Conexão intelectiva/cognitiva requer conexão afetiva. A
extrema direita, no bojo das contendas pré-eleitorais, já usa e abusa da
“ênfase” na “segurança pública” que, segundo várias pesquisas, figura como a
maior preocupação atual dos(as) brasileiros(as).
Fonte:
Blog da Boitempo

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