“O
agronegócio é hegemônico na mídia, no interior do Estado e também é hegemônico
no governo”
"Nós
mudamos nossa concepção sobre a reforma agrária. Durante os 30 primeiros anos
do MST a visão que nós tínhamos era da reforma agrária clássica, ou seja,
distribuir as áreas de latifúndio para os trabalhadores sem-terra e com isso
desenvolver o mercado interno, a indústria e o desenvolvimento do país",
afirma João Pedro Stedile, economista, uma das lideranças do Movimento dos
Trabalhadores Sem Terra – MST.
Segundo
ele, "agora, nós dizemos que a reforma agrária mudou de características,
de natureza. É preciso fazer mudanças no campo que atendam a toda a população,
e não apenas os trabalhadores sem-terra. Por isso que chamamos de reforma
agrária popular, para se diferenciar da outra. E essa reforma agrária popular
incorpora a necessidade da democratização da propriedade da terra, mas também a
defesa da natureza".
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Eis a entrevista.
• Abril, que est um mês de Mobilização
para o MST e esse ano o movimento lembrou o 30º. aniversário do massacre de
Eldorado de Carajás. Qual foi a dimensão dessa jornada de mobilização e quais
foram as principais reivindicações do movimento nessa jornada?
Em
primeiro lugar, a jornada de abril já é uma tradição histórica do nosso
movimento há 30 anos, desde quando houve aquele massacre em abril de 96. Na
sequência, em 1997, nós fizemos uma grande marcha à Brasília que partiu de três
estados brasileiros: Minas Gerais, Mato Grosso e São Paulo. Posteriormente,
todos os anos aproveitamos a lembrança dos mártires que perdemos para nos
manifestarmos.
O
principal objetivo das nossas mobilizações é seguir conscientizando a sociedade
brasileira sobre a necessidade da reforma agrária e, evidentemente, convencer a
sociedade brasileira que agora a reforma agrária não é apenas um problema do
Movimento de Trabalhadores Sem Terra, mas é uma necessidade de resolver os
problemas do povo brasileiro, como a fome, a desigualdade. A necessidade de
produzir alimentos saudáveis e de estabelecer a agroecologia como uma
alternativa ao modelo predador do agronegócio.
Nós
também conformamos uma comissão que foi à Brasília negociar com o governo
federal. Os pontos de negociação foram alguns dos problemas mais urgentes que
temos no momento, como alguns conflitos que ainda perduram. Sobretudo, no
estado no Pará, na região amazônica, onde nós temos um acampamento com 7 mil
famílias. Essa a maior ocupação da história do MST e, acredito, da América
Latina, senão de todo o sul global.
Denunciamos
ao governo que a reforma agrária está paralisada, ao contrário do que diz a sua
propaganda, e que, na verdade, nós continuamos com quase 100 mil famílias
acampadas em todo o Brasil.
• Desde a sua fundação, há 40 anos, o MST
luta pela reforma agrária e contra a concentração de terras no Brasil. Qual é a
situação hoje dessa reforma agrária? Vocês consideram que ela é… Ela existe,
ela é inexistente, ela avança, não avança? Você já falou um pouco, mas se você
puder aprofundar.
Nós
mudamos nossa concepção sobre a reforma agrária. Durante os 30 primeiros anos
do MST a visão que nós tínhamos era da reforma agrária clássica, ou seja,
distribuir as áreas de latifúndio para os trabalhadores sem-terra e com isso
desenvolver o mercado interno, a indústria e o desenvolvimento do país. Porém,
para que aquela reforma agrária clássica se viabilizasse, como aconteceu em
todos os países da Europa, nos Estados Unidos e no Japão seria necessário que a
burguesia industrial também se interessasse por esse plano. Não foi o que
aconteceu no Brasil. O momento mais próximo que nós tivemos de uma reforma
agrária clássica no Brasil foi na década de 60, durante o governo de João
Goulart. E a resposta que a burguesia deu foi um golpe militar que durou 20
anos.
Agora,
nós dizemos que a reforma agrária mudou de características, de natureza. É
preciso fazer mudanças no campo que atendam a toda a população, e não apenas os
trabalhadores sem-terra. Por isso que chamamos de reforma agrária popular, para
se diferenciar da outra. E essa reforma agrária popular incorpora a necessidade
da democratização da propriedade da terra, mas também a defesa da natureza.
Isso é importante para enfrentar as agressões que o capital faz e que provocam
as mudanças climáticas, a produção de alimentos saudáveis, a adoção da
agroecologia como tecnologia necessária para produzir alimentos saudáveis e a
difusão da agroindústria como uma maneira de levar desenvolvimento para as
áreas conquistadas que nós chamamos de assentamentos.
• Quais são principais desafios dessa
reforma agrária popular não avança?
Infelizmente,
nos últimos anos, consolidou-se a hegemonia do modelo do capital, que é o
agronegócio, que se baseia em grandes fazendas, monocultoras, que se dedicam
apenas à produção de commodities agrícolas para exportação. Ele tem um discurso
que é hegemônico na mídia, ele faz propaganda todos os dias, inclusive nos
telejornais. Mas ele é hegemônico também no interior do Estado brasileiro e em
toda a sua estrutura. Infelizmente é hegemônico também no governo, que apesar
de ser um governo progressista, ele abandou a ideia de fazer reforma agrária e
adotou apenas políticas específicas que atendem os conflitos pontuais e da
assistência à população mais pobre das zonas rurais. Mas não há dentro do
governo Lula um engajamento, um comprometimento político e a destinação
recursos para de fato implementar um plano de reforma agrária.
• Houve algum avanço nas políticas
destinadas aos pequenos camponeses no atual governo Lula?
Os
avanços que houve no último governo foram de políticas complementares, que
ajudam, mas não afetam a estrutura injusta da propriedade da terra. De certa
forma, as políticas que existem atualmente atendem a um segmento do campesinato
mais consolidado, como os camponeses dos nossos assentamentos (terrenos com
instalações permanentes de famílias). Mas não os acampamentos (ocupações,
instalações provisórias). Para os trabalhadores pobres que estão nos
acampamentos a única política que chega do governo é a Bolsa Família, que é uma
renda assistencial, que não resolve o problema. Existem outras políticas que
são positivas e que relacionadas com o incentivo à produção. Como é o caso do
Programa de Compra Antecipada de Alimentos.
Ele
tinha sido abandonado pelos governos anteriores, de Michel Temer e Jair
Bolsonaro, e foi revitalizado pelo governo do presidente Lula. Isso deu um
alento à produção de alimentos. Mas ainda assim é aquém das necessidades.
Existe também o programa de merenda escolar, que faz com que as escolas
públicas passem a comprar produtos da agricultura familiar. Não se resume à
simplesmente fazer editais e comprar multinacionais, como acontecia no passado.
• Mas esse é um governo que também teve
que lidar com um parlamento que foi hostil na maior parte do período. Houve
avanços para o campo popular para além das pautas da reforma agrária?
A
conjuntura da luta de classe no Brasil ainda é de uma correlação de forças que
não atende às necessidades da classe trabalhadora em geral. Isso está
relacionado com vários fatores que não dependem do governo. Por um lado, o
avanço do capitalismo, que, de certa forma, está recolonizando a economia
brasileira. O único objetivo do capitalismo internacional é fazer com o Brasil
produza exclusivamente commodities agrícolas, como soja, milho, algodão,
cana-de-açúcar e pecuária bovina. Assim como commodities minerais para
exportação. Nós estamos sofrendo um processo de desindustrialização do país.
Pior ainda, nós não temos um projeto de país. Isso dificulta você aglutinar
forças em todos os espaços. Por outro lado, também nós estamos vivendo já há
décadas um período histórico adverso de descenso do movimento de massas. De
certa forma, a classe trabalhadora não tem tido a força necessária de realizar
grandes mobilizações de massa para influenciar os poderes públicos. A política
brasileira caiu na mediocridade e é controlada pelo Congresso, que é de
direita, ou pelo Poder Judiciário, que também é conservador. De maneiras que,
no contexto geral, nós estamos vivendo um período adverso para os interesses da
classe trabalhadora e a classe trabalhadora não tem tido forças de se reerguer
e retomar a ofensiva.
• Mas, de toda maneira, você considera que
a vitória do Lula depois de um governo Bolsonaro tenha sido, de alguma maneira,
uma vitória para o campo popular, mesmo que não seja um governo de esquerda no
sentido clássico?
O MST
enfrentou o governo Temer, que já era um governo de cunho fascista, e enfrentou
o governo Bolsonaro. Foram dois governos controlados pelo capital financeiro e
estrangeiro. Eles não tinham força própria e o grande capital se impôs. Eles
derrubaram a Dilma, prenderam o Lula e colocaram dois governos fascistas.
Evidentemente que cabia ao MST e às forças populares não só resistir, mas lutar
para a libertação do Lula, que aconteceu, e depois a sua eleição. A eleição do
Lula era uma necessidade para frear o avanço das ideias fascistas e da
dominação do capital estrangeiro sobre a nossa economia.
• E quais são os desafios que você vê para
as eleições presidenciais do Brasil esse ano na conjuntura e também na
conjuntura latino-americana? O que representa essa eleição?
Nós
seguiremos enfrentando o desafio de reeleger o Lula. Mas nós acreditamos que é
preciso, nos próximos meses, fazer uma campanha eleitoral que ajude a
esclarecer o povo e a educar a população para os graves problemas do Brasil,
como a desigualdade e as injustiças. Para fazer esse trabalho não basta
simplesmente dizer: “o Lula é melhor que o Bolsonaro. O Bolsonaro é fascista e
o Lula é progressista”. Isso é óbvio, mas nós temos que aproveitar a campanha
para fazer uma política de educação. Motivar a população a lutar para resolver
os seus problemas imediatos, como, por exemplo, defender a tarifa zero para o
transporte público. Nós defendemos a jornada de trabalho seja reduzido para 36
horas por semana. Assim como defendemos a necessidade de que haja políticas
públicas para reindustrializar o país, para com isso criar empregos com renda
mais elevada e uma política mais ofensiva para a construção de moradias
populares. Também temos que ampliar o acesso da população à escola, à educação
pública e gratuita, em todos os níveis, desde a creche infantil até a
universidade.
• Por isso que o Lula corre risco de não
ganhar as eleições, porque apesar de três anos e meio de um governo
progressista, não alterou a intenção de voto da população.
Isso é
grave. Para superar e motivar, sobretudo, o convencimento dos que estão
indefinidos, que é 10% da população e que vai definir a eleição. Nós precisamos
debater com essa população as medidas concretas que o governo Lula tem que se
comprometer quando ganhar as eleições. E isso ajudará a politizar o debate,
ajudará a conscientizar a população do que simplesmente cair num reducionismo
de Lula é melhor que o Bolsonaro porque o Bolsonaro é fascista e o Lula é
progressista. A participação dos movimentos sociais nas eleições será, nesse
sentido, de animar esse debate e vocês vão se engajar na campanha, de qualquer
maneira.
Claro,
todos os movimentos populares como o MST e o movimento sindical, estão
engajados na campanha. A nossa tarefa vai ser no trabalho de base, lá na
periferia. Ir de casa em casa, produzir subsídios didáticos que ajudem a
população a entender o período que nós estamos vivendo, senão a própria
população vai botar a culpa dos seus problemas no Lula. O papel do movimento
popular é justamente dialogar com essas camadas da sociedade, em especial os
mais pobres, que são os que vivem nas periferias, onde os partidos de esquerda
muitas vezes não chegam.
• Agora, a extrema-direita continua com
uma base de votos importante, apesar da derrota do Bolsonaro. Como explicar
essa parcela importante de intenção de voto que a extrema-direita ainda tem?
A
sondagem de votos está equilibrada: 40% dos eleitores fazem parte da base do
Lula e outros 40% com a direita. Essa base da direita se consolidou por várias
razões. Primeiro, na minha opinião, é porque não houve mudanças estruturais na
política do governo Lula que melhorasse devido à população. Todas as medidas,
mesmo que positivas, foram paliativas. Programas sociais não altera a vida das
pessoas. Segundo, é porque a direita tem força organizada, pois ela tem os
aparatos de reprodução ideológica. Porque a direita controla a televisão, as
rádios, os jornais. A direita tem uma grande influência na classe média, dos
médicos, dos professores. Que todo dia falam com o povo. A direita tem muita
influência no uso de pastores pentecostais, que fazem a sua propaganda semanal.
Nós
trabalhamos com a hipótese de que o Lula tem mais chance de ganhar no primeiro
turno das eleições, desde que a direita se dívida, que ela tenha vários
candidatos. Além de Flávio Bolsonaro existe a possibilidade outros três
candidatos da direita que podem receber entre 3% a 5%, o que poderia
representar uma divisão da direita. Nesse caso, amplia as chances de Lula
ganhar no primeiro turno. Se a disputa for para a segundo turno, toda a direita
se junta contra ele e deixa a situação mais difícil.
• Você acha que o Flávio realmente tem
chance de ganhar? E quais seriam os impactos dessa vitória dele?
A
candidatura do Bolsonaro, é claro que tem chance de ganhar, mas se fosse para
fazer apostas, o Lula tem mais chance de ser reeleito. Agora, se o Flávio
Bolsonaro se eleger vai ser a reedição do governo fascista, totalmente aliado
com o Donald Trump. Por isso outro fator que pode influenciar nossas eleições e
é o comportamento do Trump nos Estados Unidos. Porque a imagem de Bolsonaro
está muito ligada à de Trump. Si Flávio Bolsonaro ganhar vai ter um governo de
uma colônia, a serviço dos interesses dos Estados Unidos. Todos esses
candidatos da direita falam, por exemplo, que os minérios chamados de “terras
raras” vão ser entregues às empresas americanas, até mesmo a Petrobras, empresa
pública de petróleo. Eles não têm pudor nenhum, como está fazendo o Milley, de
pendurar o futuro do Brasil apenas nos interesses das empresas americanas
• Agora, entrando no tema Mercosul, os
movimentos sociais, a MST, Via Campesina, movimentos trabalhadores rurais, são
contra os acordos da União Europeia com o Mercosul. Quais as principais razões?
Nos
anos 90, o neoliberalismo prometia desenvolvimento pelo livre comércio, a ALCA
chegou a cogitar o dólar como moeda regional. Três décadas depois, ficou claro
que essa lógica falha: não desenvolve forças produtivas, não combate a
desigualdade e ainda fortalece oligopólios. Embarcar nessa tese ultrapassada
seria um erro grave, especialmente quando o mundo inteiro caminha no sentido
oposto, protegendo sua indústria e apostando em tecnologia e emprego. O segundo
erro é criar dependência da Europa, uma economia em declínio. Se acordos de
livre comércio fizessem sentido, deveriam ser com China, Índia e Indonésia, as
grandes economias emergentes que hoje dominam a economia global.
Os
únicos reais beneficiários seriam as indústrias europeias, sobretudo alemãs,
que inundariam o mercado brasileiro sem pagar impostos, enquanto o mercado
agrícola europeu, já abastecido, não precisa de tarifas menores. O impacto mais
crítico recai sobre a agricultura familiar: 3 milhões de famílias dependem do
leite, e empresas europeias destruiriam cooperativas com leite em pó, queijo e
derivados, o que já ocorre no Rio Grande do Sul, onde uma cooperativa de 30
anos faliu recentemente pela entrada de produtos europeus sem taxação. Da mesma
forma, 50 mil famílias produtoras de uva serão diretamente atingidas pela
concorrência de vinhos e sucos europeus isentos de impostos.
• Como explicar esse divórcio, nessa
questão entre os movimentos, entre os pequenos produtores, movimentos sociais e
o governo?
Ninguém
consegue explicar. Primeiro porque é aquela vaidade do Itamaraty. Fazia 20 anos
que esse acordo estava sendo negociado. Então existe a expetativa de contar
isso como uma conquista dessa gestão. Segundo, porque o Lula tem, eu acho, sei
lá, qual é a visão que ele tem. Mas ele se baseia muito na política externa por
amizades. Para o Brasil seria muito mais interessante assinar um acordo de
livre comercio com a África. A África compra tudo. Então aí sim valeria a pena.
• Você acha que corre o risco de aumentar
a violência no campo, devido à expansão do agronegócio nessa questão do
Mercosul?
O
agronegócio, especialmente da soja e da pecuária bovina, está se expandindo não
por causa do mercado europeu. Ele derrubando florestas para abrir novas áreas
de cultivo e criação. É nessas regiões de expansão que se concentra a maior
parte da violência no campo. As principais vítimas, segundo dados da Comissão
Pastoral da Terra, são povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, populações
que vivem nessas florestas e resistem à ocupação de seus territórios.
Além do
agronegócio, a mineração também impulsiona essa violência, disputando terras
para a extração e exportação de commodities minerais. Portanto, essas são as
causas de violência no campo nesse momento no Brasil: exportação de commodities
minerais e agrícolas.
Fonte:
Entrevista com Joao Pedro Stedile, para jornal suíço Le Courrier/IHU

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