Do
tormento ao feminicídio
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mulheres foram presas no Rio de Janeiro entre 1700 e 1740. Eram cristãs-novas,
mulheres convertidas ao catolicismo. Embora batizadas, crismadas,
considerando-se católicas, eram suspeitas de heresia, de cultuar secretamente o
judaísmo, as “Leis de Moisés”. Foram perseguidas no Brasil durante três séculos
pelo Tribunal do Santo Ofício. Obrigadas a se apresentar ao Tribunal, as
cristãs-novas, sem ter nenhuma informação sobre suas eventuais culpas, eram
julgadas e condenadas ao cárcere, tinham todos seus bens confiscados e
obrigadas a usar o hábito penitencial perpétuo (o sambenito), traje que as
desqualificava publicamente.
Os
Oficiais da Inquisição usavam mecanismos crueis para obter informações dentre
eles o tormento, sinônimo da conhecida tortura. Encarceradas, algumas
cristãs-novas resistiram meses, anos; outras morreram no cárcere; algumas
pereceram “no mar” a caminho de Lisboa; várias tiveram como pena o açoite
seguido de degredo para Algarve ou Angola. Apenas uma conseguiu não ser
condenada.
Quem
eram essas mulheres? Quem eram os 150 homens cristãos-novos que no mesmo
período foram julgados e condenados como hereges, traidores do cristianismo,
que tinham um superficial conhecimento das “Leis de Moisés”?
A
colonização portuguesa trouxe para o Brasil uma imagem polêmica dos judeus
amplamente difundida pela historiografia brasileira. A sede do reino enviou
para a colônia brasileira navios com “degredados”, supostamente ladrões e
assassinos. Deixavam de esclarecer que entre os degredados havia “prisioneiros
políticos” e “judeus” perseguidos pela Inquisição por razões de fé.
No fim
do século XVI havia, calcula-se, 20.000 pessoas no Rio de Janeiro. Destas,
cerca de 600 seriam cristãos-novos. Os judeus, conhecidos como “gente da
nação”, estavam espalhados por Pernambuco e Bahia, onde tiveram liberdade
religiosa durante a dominação holandesa e francesa. Ao retomar Pernambuco, em
1654, Portugal imediatamente envia as Visitações do Santo Ofício para verificar
o cumprimento dos princípios éticos e morais pregados pela Igreja.
Eram
severamente punidos casos de práticas sexuais “contra a natureza”, bruxaria,
insultos a igreja católica e atos judaizantes, luteranismo, descumprimento das
rezas, desobediência aos dias santos e relações afetivas com os portadores de
“sangue impuro”, isto é, judeus. Além de proibir uniões com católicos, os
cristãos-novos estavam excluídos de exercer cargos e atividades públicas.
Estes, por outro lado, desenvolveram atividades ligadas ao comércio, exploração
de madeiras e sobretudo cultivo e exportação do açúcar, ocuparam terras,
produziram bens para consumo e para exportação.
As
inovadoras pesquisas de Anita Novinsky e seu grupo de investigadoras/es, Lina
Gorenstein, Arnold Wiznitzer e Eva Alterman Blay revelam que essas mulheres,
sobretudo as que ficavam na área rural, eram ativas nos negócios agrícolas, na
venda e compra de produtos. Os testamentos mostram que elas sabiam bem o que
era produzido, a verba que entrava, eventuais dívidas e cuidavam dos escravos
ligados à propriedade.
A Coroa
tinha relação hostil com os invasores holandeses e franceses e sofria elevada
resistência à coleta de impostos cobrados da população local. Concorrendo com a
Coroa recursos eram cobrados compulsoriamente dos cristãos-novos pelos Oficiais
da Inquisição, os Visitadores. Em 1591 veio a 1ª Visitação do Santo Ofício para
Bahia e Pernambuco.
Em 1618
veio a 2ª Visitação para a Bahia. Surpreende a rápida ação do Visitador: o
primeiro, Mendonça, chega à Bahia no dia 9 de junho de 1591. E nove dias depois
(28 de junho) ele fez publicar um Auto da Fé para a cidade da Bahia e
arredores, divulgou uma Carta Monitória e um termo da Graça. Com isso a
população tinha 30 dias para confessar e denunciar outras pessoas.
O tempo
era curto e a população amedontrada, tendo a tortura e a fogueira em
perspectiva, procurava “espontaneamente” o Visitador para se confessar sem
saber do que eram acusadas. Abster-se de confessar era fatal. Encurraladas pelo
poder absoluto da Inquisição, as pessoas obedeciam às ordens do Santo Ofício
denunciando as cristãs-novas que moravam no Brasil ou em Portugal, o braço se
estendendo nos dois sentidos.
As três
primeiras cristãs-novas presas no Rio de Janeiro foram Leonor, Catarina e
Brites. Assim começava um processo de denúncia absolutamente aleatório. A
partir dessas três a Inquisição obtém nomes de outras acusadas, parentes ou
conhecidos. Os nomes apareciam circunstancialmente, sem nenhuma prova e, uma
vez denunciados, eram submetidos ao tormento e depois de horas ou dias
supliciados e antevendo a pena de morte, para se livrar, citavam outros nomes.
Em
resumo, filhas denunciavam mães, mães denunciavam filhas, maridos esposas,
irmãs, irmãos, ou pessoas conhecidas além de outras “por ouvir dizer”. Famílias
inteiras eram denunciadas. Apesar de batizados e crismados, frequentando a
Igreja, tendo oratórios em suas casas ou nas propriedades, eram denunciados de
concomitantemente seguir as “Leis de Moisés” o que ficava caracterizado por
certos comportamentos: jogar fora a água mantida numa casa quando houvesse uma
morte; ao limpar varriam a casa de fora para dentro; não comiam peixe sem
escama, e vestiam roupas limpas na sexta-feira. Sabiam que em setembro se
iniciava um novo ano.
Esses
saberes, que os judeus milenarmente transmitem de forma oral, também chegaram
aos cristãos-novos. O ensino poderia vir de diferentes pessoas como a mãe, um
irmão, um conhecido. Seguramente era transmitido de maneira velada pois, caindo
nas malhas da Inquisiçao, as punições iam do cárcere ao açoite, da tortura a
morte na fogueira como foi o caso do dramaturgo brasileiro Antonio José da
Silva, “o judeu” que morreu queimado em Lisboa num auto de fé.
Parte
desses cristãos-novos espalharam-se pelo território brasileiro, abrindo novos
espaços, se instalando e fixando. Rastros dessa origem étnica têm sido
encontrados com relativa frequência no interior do Amazonas e nos estados do
nordeste. Sítios com túmulos, fontes de água pura usada para rituais, espaços
em casas-grandes onde um templo é ocultado.
A
Inquisição agiu formalmente até que o Marquês de Pombal em 1774 retirou a
autonomia das Igrejas e passou a recolher impostos ao Estado.
Em 1889
instalou-se no Brasil uma República laica marcada por contradições. O
calendário brasileiro tem interrupções provocadas por festividades católicas
como os dias santos; em todos os edifícios parlamentares há uma cruz
desmentindo a laicidade do espaço. Essa contradição se revela quando se
perseguem símbolos de outros cultos especialmente da umbanda e do candomblé
trazidos pela população negra. A convivência da religião católica com as demais
religiões não é pacífica.
Durante
todo o século XX e duas décadas do XXI, as religiões de origem africana foram
perseguidas, discriminadas e vistas como bruxaria com picos de alta violência,
assassinatos, destruição de objetos de culto. No entanto, não se tem observado
reação policial ou mesmo pública coibindo essas violências.
O
“sábado de aleluia”, festividade que pretende condenar o delator de jesus, é
comemorado nas capitais e principalmente nas cidades do interior ensinando
violência às crianças: munidas com paus são levadas a atacar um boneco
construído com trapos que simboliza o judeu que delatou Cristo ou,
circunstancialmente, um político ou um personagem que no momento desagrada à
população.
O ato
de malhar publicamente uma imagem lembra o negro escravizado, amarrado ao
tronco sendo açoitado. Judeus e negros simbolicamente são (ou se sentem)
agredidos. Qual o sentido de incentivar a violência e a morte em data religiosa
senão normalizar que uns têm mais direitos que outros?
Da
herança colonial herdamos princípios que deveriam reger práticas sexuais, punir
relações homossexuais e obediência a outras religiões, proibir uniões com
pessoas de “sangue impuro” (judeus). Esses mandamentos foram reinterpretados na
sociedade contemporânea, patriarcal, capitalista, em que os homens têm poder
sobre as mulheres reproduzindo a desigual relação: homens dominam, mulheres
obedecem.
A
dominação masculina tem encontrado forte resistência dos movimentos feministas,
contudo, os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que cerca de
cinco mulheres são assassinadas por dia no Brasil em 2026 e 64,2% das vítimas
são mulheres negras. Samira Bueno (Fórum Brasileiro de Segurança Pública)
aponta que “Quando a gente fala de violência no Brasil, precisa considerar a
seletividade racial.
As
mulheres negras estão proporcionalmente mais expostas. A desigualdade de
condições de vida e trabalho da população negra eleva as relações de risco
posteriores.
Casos
esporádicos como o assassinato da Mãe de Santo Maria Bernardete revolta a
comunidade negra. Mãe Bernadete foi assassinada a tiros por traficantes que
usavam o terreiro – seu local de culto. O julgamento dos assassinos foi
intensamente acompanhado até a prisão e condenação dos autores. É uma incógnita
se esse julgamento indica mudança na relação de forças entre segmentos da
população negra e demais setores da sociedade: um evento esporádico não permite
avaliar se houve enfraquecimento nas relações de poder entre gêneros e grupos
raciais.
Padrões
do passado colonial resistem a quaisquer mudanças como nas relações de poder na
família. A partir da década de 1960 foram anos de luta para romper com a
hegemonia do casamento cristão consagrado pela Igreja. Em 26 de dezembro de
1977 foi finalmente aprovada a lei do divórcio depois de várias alterações
legais. Contudo, a mudança legal não abalou o significado dado à união: o
parceiro continua se considerando o “dono da companheira”. Em consequência age
violentamente quando ela expressa o desejo de romper a união.
As
pesquisas revelam que antes do assassinato a mulher viveu anos de violência.
Cerca de 11 milhões de mulheres no Brasil tinham sofrido, em 2023, violência de
parceiro íntimo (Global Burden of Disease, apud The Lancet). Essa violência se
inicia na infância e 64,2% das vítimas são mulheres negras, conforme o Fórum
Brasileiro de Segurança Pública. A desigualdade de condições de vida e trabalho
da população negra vai incrementar as condições de risco. É irônico concluir
que já conhecíamos o feminicídio e hoje temos condição de dimensioná-lo.
A
reprodução da violência contra meninas e mulheres poderia ser atenuada através
da educação sexual nas escolas. A implantação desse programa encontra oposição
de pais e de professores conservadores que alegam que o tema é privado e
deveria ser tratado “em casa”. Porém a Fundação Casa, por várias razões, se
exime de cuidar da questão. Resta às crianças a ignorância. Assim expostas,
resulta elevação da gravidez na adolescência e aumento da mortalidade de jovens
conforme estudos da Fundação ABRINQ. “A gravidez na adolescência segue sendo um
problema de saúde pública no Brasil. Em 2024, 273.213 bebês nasceram de mães
com até 19 anos no Brasil. Desse total, 12.004 eram filhos de meninas entre 10
e 14 anos” (Cenário da Infância e Adolescência no Brasil 2026, publicação da
Fundação Abrinq).
O
conhecimento da sexualidade, a distribuição de métodos que controlem a
reprodução e sobretudo os direitos sobre a interrupção da gestação, são
questões que os setores conservadores e religiosos da sociedade tem impedido de
se atualizarem. Ao se oporem aos movimentos sociais democráticos estas ações
tem provocado consequências fatais como a elevação da mortalidade materna. Em
2024 mulheres pretas e pardas eram 63,8% dos óbitos maternos decorrentes das
condições do parto ou pós-parto.
Mulheres
que vivem na região norte e nordeste enfrentam situação semelhante aos países
de menor desenvolvimento humano. Dados referentes a 2022 apontam que, enquanto
o número de mortes maternas era 46,56 para mulheres brancas, no caso das
mulheres pretas, é mais que o dobro: 100,38 óbitos (p/c 100 mil nascidos
vivos). Entre as pardas a incidência é de 50,36. Ou seja, conforme a “Rede
Alyne de cuidado integral” do Ministério da Saúde, enquanto para população em
geral há redução da mortalidade materna, para a população preta e indígena, ela
aumenta.
Percorrendo
os obstáculos que levam a as altas taxas de mortalidade materna de adultas e de
adolescentes, encontramos um labirinto de conselhos federais, estaduais, e
coordenadorias tradicionalistas e conservadoras. Acresçam-se as punições aos
abortos inadequados e os partos de mulheres negras e pobres supliciadas pela
recusa de certos profissionais em usar medicamentos para redução da dor.
Movimentos
feministas, entidades sindicais e associações profissionais, grupos religiosos,
partidos políticos, todos os segmentos da sociedade procuram interferir sobre
os direitos reprodutivos, especialmente sobre o direito de interromper a
gestação. No Brasil, o aborto é crime, exceto em três situações permitidas por
lei: risco de vida da gestante, gravidez resultante de estupro ou anencefalia
fetal. Nessas hipóteses, não é necessário boletim de ocorrência para o
procedimento, mas certos hospitais e profissionais os exigem postergando o
atendimento. São tantos os entraves que em pleno século XXI a interrupção da
gestação mobiliza todos os setores da sociedade e é usado como argumento
eleitoral.
Análises
dos aspectos estruturais da sociedade brasileira – classes sociais, gênero,
cor, sistema político – não aprofundam as tensões e conflitos da vida social.
Dentre eles destaquem-se dois segmentos: judeus e negros. Ambos são
discriminados, sofrem violências físicas, morais, e psicológicas como os dados
mostraram e têm sido revelados pela mídia e pela literatura. A trajetória da
comunidade negra e da judaica se assemelha: ambos são segmentos alienados da
cidadania brasileira.
A
população negra escravizada, teve educação e profissionalização retardada,
atravessada por línguas e cultos diversos, está dispersa no território. Nessas
condições foi sujeita ao poder político e pelas instituições de segurança,
impossibilitada de reunir forças para resistir a todo tipo de violência e
arbitrariedade exercida pelo poder instituído e por parte da população branca.
Os
judeus, discriminados desde o início perderam o próprio nome, receberam uma
marca: “cristãos-novos”, pessoas de “sangue impuro”. Superaram a marginalização
por ser um grupo letrado, articulado a outros grupos sociais dentro e fora do
Brasil. Na etapa republicana, excluídos da classe alta, os “creitoas-novos
passam a se auto-identificar como israelitas. As crianças na escola pública se
diziam “israelitas”, nome menos pejorativo.
A
integração social foi retardada até que os inter casamentos se tornaram mais
frequentes ao serem superados dois entraves: dos católicos, após o Concílio
Vaticano II e das sinagogas, as liberais aceitando a conversão ao judaísmo
Judeus e negros são discriminados e ocupam posições subalternas. Os velhos
preconceitos reaparecem e atualmente, devido a disputas bélicas, os
“israelitas” passaram à sociedade brasileira. A marginalização não é formal,
depende de barreiras socialmente construídas para os dois grupos. Instituições
dos dois grupos são atacadas, os preconceitos medievais reutilizados.
Ataques
a instituições judaicas encontram reações organizadas e políticas enquanto a
comunidade negra recorre a mídia e às redes sociais para denunciar. Os judeus,
com a experiência do nazismo, criaram suas próprias organizações de defesa e
recorrem aos poderes instituídos, o que provoca um acirramento dos opositores
identificados como antissemitas. Percorrendo esses quinhentos anos encontramos
uma sociedade cuja estrutura se move lentamente, mantém as mulheres em posição
subordinada e sujeita a violências.
Sob a
aparência de nebulização a estrutura e a organização brasileiras mantêm as
mulheres numa posição subordinada. O cume da subordinação se reflete no elevado
nível de feminicídios e se comprova em todas as dimensões da vida social como
se constatou.
Fonte:
Por Eva Alterman Blay, em A Terra é Redonda

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