quarta-feira, 3 de junho de 2026

Joaquim de Carvalho: As perguntas que ainda não foram respondidas sobre o financiamento do filme de Bolsonaro

A operação deflagrada nesta segunda-feira pela Polícia Civil de São Paulo adicionou um novo elemento à crescente rede de investigações que hoje orbitam o filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro. A ação policial teve como alvo o Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização comandada pela empresária Karina Ferreira da Gama, ex-assessora no governo Bolsonaro e também proprietária da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo longa.

Segundo a investigação, a polícia apura suspeitas de fraude, superfaturamento e desvio de recursos públicos em um contrato firmado entre o ICB e a Prefeitura de São Paulo para implantação de pontos de internet gratuita na periferia da capital.

A investigação teve origem em um caso de feminicídio, quando um subcontratado do ICB, dono da empresa Favela Conectada, Alex Leandro Bispo dos Santos, foi acusado de matar a esposa, a influenciadora Maria Katiane Gomes da Silva.

Na quebra de sigilo de Alex, foram descobertos repasses milionários do Instituto dirigido pela jornalista Karina para a Favela Conectada, que não teria cumprido as cláusulas contratuais. No contrato, aliás, a influenciadora Maria Katiane aparece como testemunha.

O contrato, originalmente estimado em R$ 108 milhões, teria alcançado R$ 157,1 milhões após aditivos. Os investigadores afirmam que pelo menos R$ 26 milhões teriam sido pagos sem a efetiva prestação dos serviços contratados.

O aspecto mais sensível da investigação é que a Polícia Civil passou a apurar se parte desses recursos públicos pode ter sido desviada para estruturas ligadas à produção do filme sobre Jair Bolsonaro.

Em representação encaminhada à Justiça, os investigadores apontaram suspeitas de “confusão patrimonial” entre o Instituto Conhecer Brasil e a Go Up Entertainment e pediram análise das movimentações financeiras justamente para verificar se recursos do programa municipal teriam sido utilizados para custear atividades relacionadas ao longa-metragem.

<><> O braço fluminense do suposto esquema

A relevância dessa nova investigação decorre do fato de que o financiamento de “Dark Horse” já estava no centro de outra controvérsia nacional, a revelação de que US$ 10,6 milhões — cerca de R$ 61 milhões à época — teriam sido transferidos entre fevereiro e maio de 2025 para estruturas vinculadas ao filme.

A cronologia conhecida hoje chama atenção.

Em outubro de 2023 começaram os aportes do Rioprevidência em produtos financeiros ligados ao Banco Master, instituição controlada por Vorcaro. Em novembro do mesmo ano surge o contrato do projeto cinematográfico, então chamado “O Capitão do Povo”. Em janeiro de 2024, Eduardo Bolsonaro assina digitalmente o documento como produtor-executivo.

Ao longo de 2024, segundo a Polícia Federal, os investimentos do Rioprevidência em estruturas ligadas ao Master cresceram até alcançar aproximadamente R$ 3 bilhões sob investigação. Nesse mesmo período, a PF descreve sucessivos encontros entre o então governador Cláudio Castro e Daniel Vorcaro, incluindo reuniões em instalações oficiais do governo do Rio de Janeiro e encontros privados no exterior. Segundo os investigadores, alguns desses encontros foram seguidos por novos aportes milionários do fundo previdenciário estadual.

Paralelamente, consolidava-se a aliança política entre Cláudio Castro e Flávio Bolsonaro. Desde o início do governo Castro, o grupo político do senador ampliou sua influência sobre a administração fluminense por meio de alianças eleitorais, indicações políticas e apoio mútuo na construção do campo bolsonarista no estado.

No final de 2024 surgem as tratativas para financiamento do filme. Em fevereiro de 2025 aparecem os primeiros repasses conhecidos publicamente atribuídos ao projeto. Agora, em junho de 2026, a Polícia Civil de São Paulo passa a investigar se outra fonte de recursos públicos — desta vez vinculada a um contrato municipal de internet — também pode ter sido utilizada para financiar estruturas relacionadas ao mesmo filme.

Nenhuma dessas investigações provou até o momento que recursos públicos do Rioprevidência, da Cedae ou da Prefeitura de São Paulo tenham financiado diretamente “Dark Horse”. Porém, o que emerge é um padrão que exige apuração aprofundada: diferentes estruturas abastecidas por recursos públicos aparecem conectadas, em momentos distintos, a pessoas, empresas ou organizações relacionadas ao financiamento e à produção da obra.

A questão central deixa de ser apenas quem financiou o filme. A pergunta que as autoridades agora precisam responder é se os recursos empregados na produção tiveram origem exclusivamente privada ou se parte deles percorreu circuitos financeiros alimentados, direta ou indiretamente, por contratos públicos, fundos estatais ou instituições beneficiadas por aportes governamentais.

A operação desta segunda-feira amplia significativamente o escopo dessa pergunta. O que antes parecia restrito às relações entre o Banco Master, o Rioprevidência e o grupo político bolsonarista passa agora a alcançar também a produtora responsável pelo filme e contratos públicos firmados em outra esfera de governo.

Por isso, a reconstrução completa dos fluxos financeiros deixou de ser apenas uma questão de interesse político. Tornou-se uma necessidade institucional para esclarecer se diferentes investigações hoje dispersas tratam, na realidade, de partes distintas de uma mesma engrenagem financeira.

Os sigilos de todos os envolvidos, inclusive o de Flávio Bolsoanro, precisam ser que brados, pelo bem da investigação.

•        "Vamos desbaratar essa quadrilha", afirma Lindbergh após operação contra ONG ligada à produtora de Dark Horse

O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) cobrou nesta segunda-feira (1) uma investigação mais ampla sobre o fluxo financeiro ligado ao filme Dark Horse, produção biográfica sobre Jair Bolsonaro (PL). Em postagem divulgada na rede social X, antigo Twitter, o parlamentar afirmou que as apurações precisam alcançar os responsáveis políticos e financeiros ligados ao projeto. O petista mencionou o ex-mandatário, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o deputado federal Mário Frias (PL-SP) e o deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

O petista comentou a operação da Polícia Civil contra a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade de propriedade de Karina Gama, que também aparece como sócia da Go UP, produtora responsável pelo filme. Investigadores apuram suspeita de fraudes em contratos de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo. O contrato sob investigação foi firmado pela Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) com o objetivo de instalar 5 mil pontos de acesso à internet sem fio em comunidades periféricas da capital paulista.

"O cerco está se fechando. Karina Gama vai ser presa, mas quem está por trás dela é Flávio Bolsonaro, Mário Frias e Eduardo Bolsonaro. Muita coisa precisa ser explicada por essa turma", escreveu Lindbergh em referência à operação da Polícia Civil, deflagrada nesta segunda-feira, que teve a ONG como alvo pela suspeita de irregularidades em um contrato firmado com a Prefeitura de São Paulo.

"A PC investiga suspeita de fraudes em contratos de R$ 108 milhões sem efetivação do serviço. Muita coisa precisa ser explicada por essa turma. Já pedimos à Interpol para investigar onde estão os 61 milhões que o Flávio pediu ao Vorcaro. Vamos seguir o caminho do dinheiro e desbaratar essa quadrilha", acrescentou Lindbergh.

Ao falar sobre a operação contra a ONG, o prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB), fez críticas à investigação da Polícia Civil e sinalizou que a apuração é consequência de perseguição política.

Além da nova operação contra a ONG, o Intercept Brasil divulgou em 13 de maio uma reportagem mostrando que o senador Flávio Bolsonaro negociou com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, um financiamento de R$ 134 milhões para o filme. Do valor total pedido pelo parlamentar, R$ 61 milhões foram repassados.

Detido e em processo de colaboração premiada, o empresário é investigado pela Polícia Federal após acusações de envolvimento em um esquema de fraudes financeiras que, segundo a PF, movimentou ao menos R$ 12 bilhões. Inicialmente, a proposta de delação feita pela equipe do ex-banqueiro foi rejeitada pela PF. A corporação apontou "seletividade" dos fatos que envolvem as irregularidades.

Quem também está detido, em prisão domiciliar, é Jair Bolsonaro, após ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos de reclusão no inquérito da trama golpista. Foi a pena mais alta entre as 29 condenações anunciadas pela Corte.

•        Prefeitura de SP ampliou contrato com ONG ligada a produtora de filme sobre Bolsonaro após identificar "irregularidade grave"

A Prefeitura de São Paulo ampliou em 50% o contrato firmado com o Instituto Conhecer Brasil, organização social ligada à empresária Karina Ferreira da Gama, responsável também pela produtora do filme "Dark Horse", sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro (PL).

Segundo o jornal O Globo, documentos de processos administrativos da administração municipal apontam que o valor total do contrato alcançou R$ 143 milhões após um aditivo assinado em dezembro de 2025. A ampliação ocorreu mesmo depois de a área técnica da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia apontar uma "irregularidade grave" na prestação de contas da entidade referente ao exercício de 2024.

<><> Polícia investiga possível desvio de recursos

A Polícia Civil de São Paulo deflagrou nesta segunda-feira (1) uma operação para investigar supostos desvios de recursos públicos relacionados ao contrato. Uma das linhas de apuração busca esclarecer se parte dos recursos destinados ao projeto de instalação de pontos públicos de wifi na capital paulista foi utilizada para financiar a produção cinematográfica sobre Bolsonaro.

O contrato com a prefeitura tem validade até o fim de 2026 e prevê a manutenção da rede pública de conectividade da cidade. Antes da assinatura do aditivo, a ONG já havia recebido R$ 93,5 milhões da administração municipal. Com a ampliação, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) comprometeu-se a repassar mais R$ 49,2 milhões ao longo deste ano. Atualmente, os pagamentos mensais à organização somam cerca de R$ 4,1 milhões, de acordo com a reportagem.

<><> Parecer técnico apontou "irregularidade grave"

A área técnica da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia identificou problemas na execução financeira da parceria, incluindo a falta de devolução integral de valores considerados indevidos. Entre os apontamentos está um pagamento duplicado de R$ 925 mil realizado pela ONG a um fornecedor.

No parecer assinado em fevereiro deste ano, os técnicos registraram que "verifica-se que a Organização da Sociedade Civil não promoveu a restituição integral dos valores glosados dentro do exercício analisado, tampouco sanou todas as inconformidades apontadas pela área técnica. A permanência de valores expressivos pendentes de devolução caracteriza irregularidade grave na execução financeira da parceria, comprometendo a regularidade da prestação de contas." O documento recomendava a formalização da devolução de quase R$ 1 milhão considerado irregular.

<><> Prefeitura afirma que recursos foram devolvidos

Em nota, a Prefeitura de São Paulo afirmou que os valores apontados foram integralmente restituídos pela organização em 2025 e negou qualquer relação entre os recursos municipais e a produção do filme sobre Bolsonaro.

"Portanto, não há o que se falar em prejuízo à Prefeitura. O aditamento ao Termo de Colaboração mencionado pela reportagem teve como finalidade garantir a continuidade da prestação de serviços já em operação, com a manutenção dos 3.200 pontos (de wifi). Portanto, a administração repudia qualquer tentativa de criar relações entre ações do Município e a produção cinematográfica do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A produção do filme não recebeu recursos municipais."

Apesar disso, a formalização administrativa da restituição só foi registrada em maio de 2026, após cobranças da própria área técnica da secretaria.

<><> Aprovação das contas gerou questionamentos

De acordo com a reportagem, o secretário municipal de Inovação e Tecnologia, Humberto de Alencar, aprovou a prestação de contas da ONG em despacho datado de 11 de maio de 2026, antes da conclusão formal dos procedimentos de regularização apontados pelos técnicos.

A decisão ocorreu dias antes da divulgação de reportagem do site The Intercept Brasil sobre articulações para captar recursos destinados à produção do filme em homenagem ao ex-mandatário.

<><> Relação com Mario Frias e emendas parlamentares

A reportagem também destaca a proximidade entre Karina Ferreira da Gama e o deputado federal Mario Frias (PL-SP), um dos envolvidos no projeto cinematográfico. Em 2022, ela recebeu R$ 54 mil da campanha eleitoral do parlamentar por serviços de assessoria de imprensa.

Posteriormente, Frias destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil. Parte dos recursos foi utilizada em projetos como o "Jovem Empreendedor" e o "Lutando pela Vida", voltado à oferta de aulas de jiu-jitsu para crianças e adolescentes.

Documentos citados pela reportagem indicam ainda a contratação de pessoas ligadas à própria organização ou a entidades associadas à sua direção. Entre elas está Rudyge Alex Scatolini, ex-integrante do conselho fiscal da ONG, contratado para coordenar um dos projetos financiados com recursos das emendas.

Outro caso envolve o publicitário Marcelo Machado, vice-presidente da Academia Nacional de Cultura, entidade também dirigida por Karina. Sua empresa, MM7 Comunica, recebeu um contrato de R$ 50 mil em projeto financiado por recursos destinados pelo deputado.

Karina Ferreira da Gama não respondeu aos questionamentos feitos pela reportagem sobre os repasses e as contratações. Mario Frias e Marcelo Machado também não retornaram os contatos. Rudyge Alex Scatolini não foi localizado.

•        Líder do PT, Uczai cita Dark Horse e repudia ‘enredo criminoso pago por todos os brasileiros’

O líder do PT na Câmara dos Deputados, Paulo Uczai, afirmou que a suspeita de desvio envolvendo uma ONG ligada à produção do filme Dark Horse reforça a necessidade de investigação sobre o financiamento do filme biográfico de Jair Bolsonaro (PL). A Polícia Civil deflagrou nesta segunda-feira (1) uma operação para apurar contratos suspeitos que começaram em R$ 108 milhões por ano, chegaram a R$ 157,1 milhões com aditivos e podem envolver ao menos R$ 26 milhões sem a devida prestação de serviços à cidade de São Paulo.

O parlamentar criticou a relação entre a produção do longa e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG de propriedade de Karina Gama, também produtora do filme sobre Bolsonaro. O parlamentar relacionou a operação policial às suspeitas sobre recursos usados na obra e apontou uma possível conexão política e financeira.

"A suspeita é de que a população de São Paulo também pode ter sido saqueada para financiar esse filme tosco. Quanto mais se investiga, mais escandaloso fica o roteiro desse filme, o enredo criminoso pago por todos os brasileiros, e o povo está descobrindo a verdade", afirmou Uczai.

O deputado também alertou para o que chamou de "relação promíscua" da família Bolsonaro com o dinheiro investido em Dark Horse. A fala ocorre em meio ao avanço das apurações sobre o ICB, entidade contratada pela Prefeitura de São Paulo para a instalação de wi-fi na capital paulista.

<><> Investigação mira contrato com a Prefeitura de São Paulo

A Polícia Civil investiga o contrato entre o Instituto Conhecer Brasil e a Prefeitura de São Paulo, firmado inicialmente no valor de R$ 108 milhões por ano. A apuração indica que o montante subiu para R$ 157,1 milhões após aditivos assinados pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) e repassados à ONG para a instalação de pontos de internet na capital paulista.

A investigação parte da 2ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública, Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro (DICCA), vinculada ao Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC). Os investigadores apuram se a ONG utilizou ao menos R$ 26 milhões sem entregar o serviço previsto à cidade de São Paulo, o que pode configurar desvio de recursos públicos.

O caso ganhou peso político adicional porque Karina Gama, dona do ICB, também atuou na produção de Dark Horse. O filme retrata a trajetória de Jair Bolsonaro (PL) e entrou no centro de questionamentos após revelações sobre negociações financeiras envolvendo aliados do ex-mandatário.

<><> Financiamento de R$ 134 milhões amplia pressão sobre o caso

Além da operação contra a ONG, o site The Intercept Brasil divulgou, em 13 de maio, uma reportagem segundo a qual o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negociou com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, um financiamento de R$ 134 milhões para o filme Dark Horse.

Do valor total pedido pelo parlamentar, R$ 61 milhões chegaram a ser repassados. A revelação ampliou a pressão sobre os envolvidos na produção do longa e abriu nova frente de cobrança por explicações sobre a origem e o destino dos recursos.

Daniel Vorcaro está detido e tenta avançar em um processo de colaboração premiada. A PF (Polícia Federal) investiga o empresário por suspeita de participação em um esquema de fraudes financeiras que, segundo a corporação, movimentou ao menos R$ 12 bilhões.

A proposta inicial de delação apresentada pela equipe do ex-banqueiro foi rejeitada pela PF. A corporação apontou seletividade nos fatos apresentados sobre as irregularidades, o que manteve o empresário sob investigação em uma das frentes que cercam o financiamento do filme.

 

Fonte: Brasil 247

 

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