Por
que PIX incomoda tanto o governo Trump?
O
governo dos Estados Unidos voltou a atacar o sistema de pagamentos Pix nesta
terça-feira (02/06) ao concluir uma grande investigação
sobre práticas comerciais do Brasil.
Uma
investigação comercial com base na chamada Seção 301 da Lei de Comércio de 1974
— um instrumento legal que permite a Washington apurar práticas estrangeiras
consideradas injustas ou discriminatórias contra empresas e produtos americanos
— concluiu que práticas comerciais do Brasil são "irrazoáveis" e
"oneram ou restringem o comércio dos EUA".
Um dos
alvos do documento americano — produzido pelo Escritório do Representante
Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) — é o sistema de
pagamentos Pix.
"O
Brasil tem prejudicado injustamente as empresas americanas que atuam em
serviços concorrentes de pagamento eletrônico, inclusive por meio de políticas
que favorecem seu campeão nacional, o Pix", afirma o documento.
O
governo americano acusa o Banco Central brasileiro de exercer papel duplo no
Pix — "como regulador e proprietário/operador" do Pix — criando um
"conflito de interesses, na ausência de salvaguardas processuais
adequadas".
"O
banco tem atuado como regulador para desfavorecer provedores de serviços de
pagamento eletrônico dos EUA e privilegiar o Pix. Por exemplo, o Banco Central
exige o uso do Pix por instituições financeiras com mais de 500 mil contas e
requer que o Pix seja exibido na tela principal do aplicativo das instituições
participantes com destaque igual ou superior a qualquer outra funcionalidade de
pagamento ou transferência."
Além
disso, há críticas pelo fato de o Banco Central exigir que o Pix seja ofertado
sem taxas aos clientes. Segundo a conclusão da investigação, as autoridades
brasileiras obrigam empresas americanas a promover o competidor brasileiro
(Pix) sem compensações às instituições americanas.
"Os
atos, políticas e práticas do Brasil relacionados ao tratamento preferencial
dado ao Pix são injustos e discriminatórios. É injusto exigir que os
concorrentes ofereçam vantagens ao Pix, como disponibilidade, visibilidade e
limites de taxas, e o Brasil discrimina os fornecedores de serviços de
pagamento eletrônico dos EUA ao conceder essas vantagens apenas a seu campeão
nacional do Brasil."
Por
ora, ainda não há definição sobre as consequências da conclusão das
investigações americanas sobre as práticas comerciais e sobre o Pix.
O
documento americano propõe tarifas retaliatórias de 25% a produtos brasileiros
— mas essas medidas ainda não foram definidas e serão discutidas ao longo das
próximas semanas.
Algumas
datas já foram definidas:
- O governo
americano ainda está recebendo consultas do público até o dia 1º de julho
sobre as medidas.
- No dia 6 de
julho, haverá uma audiência pública nos EUA.
- O governo
americano disse que estará em diálogo com o brasileiro até o dia 15 de
julho, antes de anunciar qualquer decisão.
Este
não foi o primeiro ataque dos EUA ao Pix.
O Pix
foi mencionado em outro relatório do USTR de 31
de março em que os EUA listam o que consideram barreiras comerciais de mais de
60 países contra empresas americanas.
Na
ocasião, o governo brasileiro reagiu e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
(PT) afirmou que o "o Pix é do Brasil". "Ninguém vai fazer a
gente mudar o Pix", ele declarou em entrevista na semana passada.
Até o
presidente da Colômbia saiu em defesa do sistema de pagamentos brasileiro.
Gustavo Petro elogiou o modelo e, em uma longa publicação nas redes sociais,
pediu que o sistema fosse estendido a seu país.
Com a
conclusão das investigações sobre o Pix, surge agora uma pergunta: o que os EUA
podem fazer de concreto contra o sistema de pagamentos brasileiro?
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As armas dos EUA
Os especialistas em comércio exterior e
regulação econômica ouvidos pela reportagem frisaram que os EUA não têm
jurisdição para agir diretamente contra o Pix.
As
ferramentas à disposição dos americanos se concentram no âmbito comercial e
estão descritas na própria legislação que foi usada para abrir a investigação
contra o Brasil, a seção 301 da Lei de Comércio de 1974.
Vão
desde a suspensão de benefícios e acordos comerciais à restrição de importações
de produtos e serviços ou imposição de tarifas sobre esses bens e serviços.
Ou
seja, os EUA poderiam, por exemplo, dar início a um novo tarifaço sobre as
exportações brasileiras com destino aos portos americanos ou retirar o Brasil
do Sistema Geral de Preferências (SGP), um programa de benefícios tarifários
instituído nos anos 1970 para países em desenvolvimento.
"Trata-se,
portanto, mais de um mecanismo de pressão externa e econômica sobre o Estado
brasileiro do que um poder regulatório sobre a infraestrutura de pagamentos em
si", disse Camila Villard Duran, especialista em direito econômico e
regulação do mercado monetário.
Duran
destaca que no relatório de março do USTR a linguagem usada no capítulo do
Brasil é semelhante à que descreve supostas "práticas desleais" no
setor de pagamentos em diversos outros países que também são criticados pelos
EUA.
"O
caso brasileiro, nesse sentido, não é isolado, mas integrado a uma estratégia
política mais ampla de contestação de práticas nacionais em serviços
financeiros digitais", diz ela, que é professora associada de direito da
ESSCA School of Management, na França, e cofundadora do Instituto Mulheres na
Regulação.
"Assim,
a consequência mais plausível não é uma medida direcionada tecnicamente ao Pix,
mas sim alguma forma de retaliação comercial mais ampla", avalia Duran.
Nesse
sentido, uma fonte brasileira próxima às negociações diz ser difícil arriscar
dizer o que exatamente virá após a investigação.
Historicamente,
pondera a fonte, os EUA pouco usaram o instrumento da seção 301 da Lei de
Comércio de 1974 e, no caso específico da investigação contra o Brasil, o
escopo de temas analisados pelo USTR é amplo e vai bem além do Pix.
Também
inclui, por exemplo, as tarifas a que os produtores de etanol americanos estão
submetidos para acessar o mercado brasileiro e até o desmatamento ilegal,
acusado de dar vantagem competitiva injusta às exportações agrícolas
brasileiras.
Renê
Medrado, sócio do escritório Pinheiro Neto Advogados, faz avaliação semelhante
e exemplifica: ainda que os EUA por ventura optassem por uma retaliação
comercial ampla, é difícil estimar se as eventuais tarifas seriam colocadas
para uma lista ampla de produtos ou se seriam seletivas.
"E
tem isso de que o governo americano às vezes fala que vai [fazer alguma coisa],
depois volta atrás…", ele acrescenta, ao comentar sobre o desafio de se
traçar possíveis cenários.
"O
alcance dessas medidas dependerá muito mais da dinâmica da política bilateral e
da eficácia da diplomacia brasileira", comenta a professora Camila Villard
Duran.
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O que está em jogo
Por que
então os EUA estão atacando o Pix este ano? No relatório do USTR de março do
ano passado, o sistema de pagamentos instantâneo brasileiro não havia nem sido
mencionado diretamente, ao contrário do que aconteceu no deste ano.
Mesmo
no documento em que formalizou a investigação contra o Brasil, a agência não
citou o Pix nominalmente, apesar de ter feito referência indireta a ele
("O Brasil também parece se envolver em uma série de práticas desleais com
relação a serviços de pagamento eletrônico, incluindo mas não se limitando a
favorecer seus serviços de pagamento eletrônico desenvolvidos pelo
governo", diz o texto).
A fonte
ouvida pela BBC News Brasil que tem proximidade com as negociações comenta que
uma das hipóteses para o endurecimento no tom agora foi o desfecho de uma
reunião recente da Organização Mundial do Comércio (OMC) em que o Brasil
bloqueou uma proposta dos EUA e outros países para estender a moratória de
tarifas aduaneiras sobre transmissões eletrônicas, que inclui serviços digitais
como streamings, softwares e jogos.
E há
ainda a grande derrota que o tarifaço de Trump sofreu no judiciário americano
em fevereiro deste ano, quando a Suprema Corte considerou que o instrumento que
vinha sendo usado para embasar as medidas (a Lei de Poderes Econômicos de
Emergência Internacional, ou IEEPA, na sigla em inglês), na verdade não
autorizava o governo americano a instituir as tarifas.
Em
um artigo de março deste
ano, duas analistas do centro de pesquisas americano Brookings Institute
pontuaram que, diante desse revés, a Seção 301, usada na investigação contra o
Brasil, pode entrar no cardápio do governo americano como opção para voltar a
taxar seus parceiros comerciais.
Do lado
do setor financeiro, a jurista Camila Villard Duran chama atenção para a
expansão do Pix no Brasil, "que altera diretamente o equilíbrio
competitivo para empresas americanas, como Visa e Mastercard", mas
especialmente para o fenômeno mais amplo no qual ele está inserido, de
transformação estrutural e reorganização da ordem monetária e financeira
internacional.
"O
Pix já não é apenas um sistema de pagamentos eficiente. Ele representa um
modelo de infraestrutura pública, que reduz a dependência de redes privadas
estrangeiras e concentra, no âmbito doméstico, o controle jurisdicional sobre
dados e fluxos financeiros", destaca Duran.
A
professora aponta que, no relatório do USTR, os EUA fazem críticas semelhantes
às feitas ao Brasil a países como Índia, Tailândia e Paquistão, "onde
políticas públicas nacionais promovem sistemas domésticos de pagamento, impõem
requisitos de localização de dados ou criam barreiras regulatórias à atuação de
empresas estrangeiras".
"Em
todos esses casos, o argumento dos EUA é semelhante: tais medidas seriam
discriminatórias e restringiriam o acesso de empresas americanas a mercados
nacionais", completa.
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Da economia à política
Diante
desse panorama, Duran avalia que a pressão sobre o Pix e sobre sistemas de
pagamentos de outros países também está ligada a uma questão ainda mais ampla,
de soberania.
O que
está em jogo, diz ela, já não é apenas a concorrência entre empresas, "mas
o controle sobre infraestruturas consideradas como críticas".
"Nas
minhas pesquisas, tanto sobre a criação do euro digital como sobre os projetos
de plataformas alternativas para transações financeiras transfronteiriças, noto
que a ideia de 'soberania monetária' está se deslocando muito rapidamente da
autonomia da política monetária para o controle jurisdicional sobre as
infraestruturas de pagamento e dos dados monetários que elas geram",
afirma Duran.
"A
moeda, na economia digital, torna-se cada vez mais informação e, nesse
contexto, o controle jurisdicional sobre esses dados passa a ser um elemento
central do poder monetário estatal."
¨ As reações à ameça de
novo tarifaço de Trump contra o Brasil
Se tarifas de 25% sobre determinados produtos
brasileiros forem
implementadas pelos Estados Unidos, o Brasil pode
enfrentar aumento de custos, redução de competitividade e obstáculos ao
comércio e aos investimentos bilaterais.
Essa é
a visão compartilhada pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham)
após a publicação das conclusões de uma longa investigação realizada pelo
escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR).
Em um
documento publicado na segunda-feira (1/6), o governo americano disse que
certas práticas do governo brasileiro são "irrazoáveis" e
"oneram ou restringem o comércio dos EUA" e, por isso, tarifas
retaliatórias de 25% devem ser instauradas contra produtos brasileiros.
Apesar
de se tratar apenas de uma recomendação do USTR – as tarifas ainda serão
discutidas ao longo das próximas semanas –, a Amcham afirma que são necessários
esforços diplomáticos das duas nações para "evitar um tratamento tarifário
mais oneroso para as exportações brasileiras no mercado norte-americano em
relação a seus concorrentes de outros países".
"O
relatório não é final e reforça que ainda há tempo para evitar a adoção de
novas tarifas. O setor empresarial espera que os dois governos intensifiquem
seus esforços nas próximas semanas e alcancem uma solução que enderece as
questões em discussão, preservando as condições necessárias para a evolução do
comércio e dos investimentos nos dois países", afirmou Abrão Neto,
presidente da organização, em nota.
Ainda
segundo a Amcham, deve ser publicado nas próprias semanas o relatório de uma
segunda investigação conduzida pelos Estados Unidos sob a Seção 301,
relacionada a importações de produtos elaborados com trabalho forçado, que
poderia resultar em tarifas adicionais para cerca de 60 países, incluindo o
Brasil. Por isso, diz a organização, uma solução negociada é ainda mais
importante.
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As conclusões da investigação
Em
julho do ano passado, o governo dos Estados Unidos abriu uma investigação
comercial contra o Brasil com base na chamada Seção 301 da Lei de Comércio de
1974, um instrumento legal que permite a Washington apurar práticas
estrangeiras consideradas injustas ou discriminatórias contra empresas e
produtos americanos.
O
relatório de conclusão divulgado nesta segunda tem 107 páginas e traz
conclusões da investigação em seis áreas distintas.
Entre
outras coisas, o documento sustenta que determinadas políticas e práticas
brasileiras relacionadas a comércio digital, meios eletrônicos de pagamento,
propriedade intelectual, combate à corrupção, acesso a mercado e outras
matérias afetam negativamente interesses comerciais dos Estados Unidos.
Um dos
alvos da investigação americana é o sistema de pagamentos Pix. "O Brasil
tem prejudicado injustamente as empresas americanas que atuam em serviços
concorrentes de pagamento eletrônico, inclusive por meio de políticas que
favorecem seu campeão nacional, o Pix", afirma o relatório.
Como
respostas às conclusões, o USTR propõe que "a ação adequada incluiria a
aplicação de tarifas de 25% sobre todos os produtos brasileiros", mas com
diversas exceções que são listadas em um anexo.
Essas
exceções incluem produtos que poderiam afetar negativamente a economia
americana se fossem submetidos a aumento de tarifas, produtos que não podem ser
cultivados e produzidos nos EUA e artigos cuja tributação "não
contribuiria" para encerrar as práticas brasileiras condenadas na
investigação.
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Incerteza pode deter investimentos
Para o
economista Guilherme Klein Martins, professor da Universidade de Leeds, no
Reino Unido, a lista de exceções às tarifas que podem ser implementadas protege
setores cruciais para as economias brasileira e americana e, portanto, o
impacto imediato da taxação deve ser limitado.
"Exemplos
incluem o setor de café e a indústria aeronáutica, cuja exclusão visa evitar a
inflação e problemas na cadeia de suprimentos nos Estados Unidos. No entanto,
setores de manufatura de média complexidade, que ainda exportam para os EUA,
podem ser mais afetados por não estarem contemplados nessas exceções",
avalia o professor.
O
economista ressalta, porém, que a discussão sobre o Pix tem um potencial efeito
negativo maior para o Brasil. "Embora não vislumbre efeitos imediatos, o
simples fato de o tema estar em pauta e poder se tornar motivo de disputa é um
fator complicado. Contudo, não parece provável que o governo altere sua postura
por causa disso no curto prazo", diz.
Guilherme
Klein Martins chama atenção ainda para o aumento da incerteza para investidores
multinacionais. O especialista ressalta que a decisão vem dias depois dade os
Estados Unidos classificarem as facções criminosas
brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como
organizações terroristas.
Esse
momento de tensão em diferentes áreas, diz, pode levar empresas a segurarem
investimentos no curto prazo enquanto aguardam desdobramentos.
"Vale
ressaltar que o relatório ainda passará por consulta popular e não foi
implementado. Portanto, a permanência dessas medidas dependerá do que for
efetivamente aplicado e de como o cenário político brasileiro evoluirá após as
eleições, momento em que tudo pode ser revisto", opina.
Fonte:
BBC News Brasil

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