Emerson
Aguiar: O mito da honestida da direita
Uma das
grandes farsas políticas da história é a ideia de que a direita representa
honestidade, eficiência e meritocracia, enquanto o Estado seria apenas um
estorvo atrapalhando os “verdadeiros produtores de riqueza”. É a narrativa
neoliberal.
A maior
parte dos setores empresariais que passam o dia berrando contra o Estado
sobreviveria menos de seis meses sem ele.
O
liberal de vitrine costuma falar como um aventureiro solitário do Velho Oeste,
mas vive pendurado em subsídio, isenção fiscal, refinanciamento de dívida,
crédito público, proteção alfandegária, perdão tributário e lobby parlamentar.
É um sujeito que faz discurso contra mamata enquanto mama com as duas mãos.
No
Brasil, então, essa hipocrisia atingiu níveis barrocos. Empresários financiam
campanhas milionárias, elegem bancadas inteiras e depois recebem o retorno em
forma de contratos, obras, privatizações desenhadas sob medida, renúncias
fiscais e legislação conveniente. Chamam isso de “livre mercado”, essa
expressão elegante usada para descrever capitalismo de compadres.
O
mercado adora a concorrência, desde que ela não ameace seus próprios
privilégios. Quando um pobre recebe auxílio do governo, chamam de
assistencialismo. Quando um conglomerado bilionário recebe incentivo fiscal,
chamam de “obrigação do Estado”.
O
sujeito passa o dia dizendo que o Estado é ineficiente, mas depende dele para
construir estrada, porto, aeroporto, hidrelétrica, financiar exportação, salvar
banco quebrado e garantir segurança jurídica para os seus negócios. Odeia o
Estado como o carrapato odeia o cachorro.
A
suposta eficiência da direita muitas vezes nasce de um truque simples:
privatizar o lucro e socializar o prejuízo. Se dá certo, o empresário aparece
na capa da revista como gênio visionário. Se dá errado, corre para Brasília
pedindo socorro.
E
sempre aparece algum patriota de terno disposto a transferir dinheiro público
para “salvar empregos”, “preservar o setor estratégico” ou “evitar
instabilidade econômica”. O capitalismo liberal brasileiro frequentemente
funciona como um socialismo exclusivo para ricos.
A
corrupção estrutural nasce exatamente aí: no casamento promíscuo entre poder
econômico e poder político. Empresários financiam candidatos não por amor à
democracia, mas por investimento. Deputados tornam-se representantes comerciais
de setores empresariais dentro do Estado. Bancadas inteiras passam a legislar
para grupos específicos enquanto fazem discursos inflamados sobre patriotismo,
moralidade e família.
Tudo
muito casto até abrir o cofre. E talvez o mais impressionante seja a
persistência do mito. Muita gente ainda imagina empresários como criaturas
quase místicas, gênios autossuficientes produzindo riqueza num vácuo, quando
boa parte das grandes fortunas nacionais foi construída em íntima associação
com o Estado, favores políticos, crédito subsidiado e relações privilegiadas.
O
capitalismo brasileiro raramente foi competitivo. Foi cartorial. Uma elite
acostumada a lucrar sob proteção estatal enquanto culpa o próprio Estado pelos
males que ela ajudou a produzir.
O
discurso moralista da direita funciona muitas vezes como perfume caro borrifado
sobre um sistema velho de clientelismo, lobby e captura do poder público. Mudam
os slogans, os partidos e os porta-vozes. O mecanismo permanece quase intacto.
Um dos
mitos que mais precisam ser desconstruídos no Brasil é o de que havia menos
corrupção durante o regime militar. A impressão de “honestidade” da ditadura
nasceu menos da ausência de roubalheira e mais da ausência de liberdade para
investigá-la, denunciá-la ou sequer comentá-la em voz alta. É fácil parecer
moralmente puro quando jornalistas são censurados, opositores perseguidos e
documentos escondidos sob sigilo militar.
A
corrupção da ditadura não desapareceu. Apenas vestiu farda, ganhou proteção
institucional e passou a operar longe dos olhos do público. Enquanto estudantes
eram presos por distribuir panfletos, empreiteiras enriqueciam com obras
bilionárias superfaturadas, empresários recebiam empréstimos generosos de
bancos públicos e aliados do regime transformavam patriotismo em negócio
altamente lucrativo.
O
chamado “milagre econômico” brasileiro foi também um milagre para grandes
grupos privados alimentados pelo Estado. Havia uma íntima associação entre
militares, tecnocratas, empreiteiras, bancos e multinacionais. A repressão
ajudava inclusive a manter sindicatos enfraquecidos, greves sufocadas e
trabalhadores sob medo permanente — um ambiente excelente para maximização de
lucros.
A
ditadura criou uma forma particularmente eficiente de corrupção: a corrupção
blindada pelo medo. Sem imprensa livre, sem tribunais independentes e sem
transparência pública, escândalos dificilmente vinham à tona. E quando surgiam
sinais de irregularidade, o próprio aparato autoritário tratava de abafá-los.
Não existia liberdade suficiente para fiscalizar o poder.
A
nostalgia daquele período revela muitas vezes um equívoco perigoso: confundir
silêncio com honestidade. Ditaduras costumam parecer “organizadas” porque
controlam a informação, intimidam críticos e escondem sujeira atrás da censura.
Mas um governo que precisa prender, torturar e censurar para preservar sua
imagem moral já fracassou eticamente antes mesmo de abrir os cofres públicos.
A
ditadura brasileira nunca foi apenas militar. Foi um grande condomínio entre
fardas, empresários e parasitas de gravata. Enquanto os generais discursavam
sobre Deus, pátria e civilização ocidental, muita gente enriquecia
silenciosamente nos bastidores, mamando no Estado com a sofreguidão de ratos
diante de um celeiro aberto.
Havia
torturadores nos porões e ladrões nos escritórios. Uns arrancavam unhas; outros
arrancavam verbas públicas, contratos superfaturados, incentivos, terrenos,
empréstimos subsidiados e obras bilionárias. Tudo em nome do combate ao
comunismo, esse espantalho útil que permitia transformar saque em patriotismo.
A
repressão não servia apenas para perseguir estudantes, jornalistas,
sindicalistas e professores. Servia também para proteger negócios. O medo era
um excelente guarda-costas para a corrupção. Num país onde pessoas
desapareciam, ninguém fazia muitas perguntas sobre licitações.
Criou-se
uma irmandade obscena entre coturno e capital. Empresários financiavam
repressão, forneciam veículos, listas de funcionários “subversivos”, dinheiro,
apoio logístico e jantares elegantes para homens que passavam o dia espancando
presos em quartéis abafados.
Enquanto
isso, a propaganda vendia ao povo a imagem de um Brasil forte, moderno e
moralizado. Era mentira. Por trás dos slogans ufanistas existia um país
governado por uma elite voraz, alcoolizada de poder e dinheiro público.
A
ditadura não limpou a corrupção. Ela profissionalizou a corrupção sob proteção
armada. E talvez essa seja sua herança mais duradoura: convencer parte da
população de que brutalidade é sinônimo de honestidade.
O
chamado “milagre econômico brasileiro”, vendido até hoje por saudosistas como
prova da eficiência moral dos generais, foi também um gigantesco laboratório de
concentração de renda, favorecimento empresarial e endividamento público. O
país crescia, mas crescia para poucos. Grandes empreiteiras tornaram-se
impérios graças à intimidade com o regime. Prosperaram alimentadas por obras
faraônicas financiadas com dinheiro público, sem fiscalização séria, sem
transparência e sob censura pesada. Enquanto operários morriam em canteiros
abafados e migrantes enchiam favelas urbanas, executivos brindavam em
restaurantes luxuosos ao lado de ministros e oficiais.
A
Transamazônica tornou-se talvez o símbolo máximo dessa megalomania corrupta.
Vendida como epopeia nacional, devorou recursos públicos em proporções
monumentais. Estradas abertas às pressas no meio da floresta apodreceram sob
chuva e lama, muitas sem utilidade prática, enquanto contratos milionários
irrigavam empresas amigas do regime. O mesmo aconteceu com Itaipu, projeto
gigantesco cercado de denúncias históricas de superfaturamento, favorecimentos
políticos e negociações opacas entre governos e corporações. O gigantismo das
obras servia menos ao povo do que à fabricação de fortunas privadas sob a
proteção da bandeira nacional.
Havia
ainda a promiscuidade direta entre multinacionais e repressão política.
Empresas estrangeiras colaboraram ativamente com os órgãos de vigilância do
regime. A Volkswagen tornou-se um dos casos mais conhecidos. Investigações
posteriores revelaram colaboração de setores da empresa com a repressão,
incluindo monitoramento de funcionários e repasse de informações a órgãos de
segurança. Operários suspeitos de simpatia sindical ou atividade política eram
observados como inimigos internos. Em alguns casos, trabalhadores foram presos
após denúncias feitas dentro do próprio ambiente empresarial. A fábrica deixava
de ser apenas local de produção para se transformar em extensão do aparelho
repressivo.
Não era
exceção. Grandes grupos empresariais compreendiam perfeitamente a utilidade da
ditadura: sindicatos enfraquecidos, imprensa censurada, greves reprimidas e
trabalhadores aterrorizados criavam um ambiente ideal para maximização de
lucros. A tortura não era apenas instrumento ideológico; era também ferramenta
econômica. Cada estudante espancado, cada jornalista silenciado e cada líder
sindical desaparecido ajudavam a manter intacto um modelo de acumulação baseado
em medo e submissão.
Enquanto
isso, os generais cultivavam a imagem pública de austeridade patriótica.
Falavam contra a corrupção como padres moralistas pregando castidade dentro de
um bordel. Na prática, multiplicavam-se escândalos abafados pela censura. O
Caso Capemi, envolvendo a Caixa de Pecúlios dos Militares, revelou esquemas
financeiros nebulosos, favorecimentos e desvios milionários. O escândalo da
Coroa-Brastel mostrou ligações perigosas entre especulação financeira,
interesses políticos e figuras próximas ao poder. Mas a maioria dessas
histórias jamais alcançava plenamente a população, porque jornais eram
censurados, redações intimidadas e jornalistas perseguidos.
A
ditadura criou uma espécie de capitalismo de compadrio armado. O Estado
escolhia vencedores, distribuía empréstimos generosos através de bancos
públicos, concedia incentivos fiscais seletivos e financiava conglomerados
privados com dinheiro da população. Nacionalismo e anticomunismo funcionavam
como cobertura ideológica para uma gigantesca transferência de riqueza.
Privatizavam-se lucros; socializavam-se dívidas.
E havia
ainda a corrupção invisível, talvez a mais profunda: a corrupção moral. Uma
geração inteira foi ensinada a acreditar que violência podia ser virtude
política. Que censura era proteção. Que tortura era necessidade histórica. Que
obedecer cegamente ao poder era patriotismo. A brutalidade ganhou verniz de
ordem. O medo ganhou uniforme.
Por
isso a memória da ditadura continua tão disputada. Porque admitir a podridão
daquele sistema significa desmontar um mito muito conveniente para setores que
ainda hoje lucram política ou economicamente com a fantasia de um passado
“honesto” e “disciplinado”. A nostalgia da ditadura não nasce apenas da
ignorância histórica. Muitas vezes nasce também da saudade de hierarquias
rígidas, privilégios protegidos e silêncios impostos à força.
A
ditadura brasileira foi uma imensa sociedade entre porões e cofres. Uma
ilustração perfeita da associação entre interesse privado e Estado. Alguns
sujavam as mãos de sangue. Outros enchiam as mãos de dinheiro. E ambos se
protegiam mutuamente sob a mesma bandeira verde e amarela. É disse que a
plutocracia tem saudade, apesar de todos os privilégios que continua a ter.
Fonte:
Brasil 247

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