Luís
Nassif: Caso Master - A Captura dos Reguladores
A
invasão do mercado financeiro brasileiro pelo crime organizado não foi um golpe
de sorte. Foi uma operação metódica de captura institucional, conduzida em duas
frentes simultâneas: o Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários. Em
cada uma dessas frentes, o mecanismo foi o mesmo — a substituição da função
pública de controle por uma função privada de proteção.
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O Banco Central e a porta aberta para Vorcaro
A
história começa com uma recusa. Quando Daniel Vorcaro tentou pela primeira vez
adquirir o Banco Máxima, a gestão de Ilan Goldfajn disse não. O motivo era
técnico e direto: falhas na comprovação da origem do dinheiro e problemas
reputacionais. Não havia como aprovar a operação sem que as perguntas mais
elementares sobre a procedência do capital fossem respondidas.
Meses
depois, com a chegada de Roberto Campos Neto à presidência do Banco Central, o
cenário mudou. Vorcaro fez ajustes contábeis e regularizou pendências fiscais.
Não havia, naquele momento, condenações judiciais definitivas contra ele — e o
BC entendeu que isso bastava. Os alertas internos sobre a reputação do
banqueiro, classificado por ex-servidores como “picareta” e “golpista
conhecido” em Belo Horizonte, não foram formalizados nos documentos oficiais.
Os problemas de reputação foram deixados de lado. A compra foi aprovada.
O que
veio depois é história conhecida: 216 fundos de investimento, 143 empresas
interligadas, patrimônio mapeado em R$ 102,4 bilhões, o maior rombo bancário da
história do país. Paulo Sérgio Neves de Souza, então diretor de fiscalização do
Banco Central, participou da aprovação. Investigações recentes da PF apontam
que ele teria sido cooptado por Vorcaro para fornecer informações privilegiadas
sobre processos internos. A defesa nega, e sustenta que a decisão foi coletiva.
Mesmo
após a Polícia Federal ter alertado o BC por escrito, em julho de 2024, sobre
fraudes e a presença de donos ocultos no Master, a resposta interna da gestão
Campos Neto foi o arquivamento das suspeitas, sem submetê-las ao colegiado. Em
novembro de 2024, o BC limitou-se a assinar um termo de compromisso com Vorcaro
para “correções” — medida que se provou ineficaz diante da magnitude do colapso
que se avizinhava.
O mesmo
diretor de Fiscalização que presidiu o colegiado que aprovou o acordo com
Campos Neto integrou a supervisão do Master durante o período em que as fraudes
não foram detectadas. Paulo Sérgio Neves de Souza, o ex-diretor de
Fiscalização, estava encarregado de checar as carteiras de crédito de empresas
e fundos ligados ao banco de Vorcaro entre 2022 e 2023, mas não acusou nenhuma
irregularidade — e a PF aponta que tinha interlocução direta e regular com o
dono do Master, passando a atuar informalmente em favor dos interesses da
instituição financeira
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A CVM e o xerife capturado
A
segunda frente foi a Comissão de Valores Mobiliários. Aqui o mecanismo de
captura foi mais direto: a indicação política para a cúpula do órgão.
Em
abril de 2022, o presidente Jair Bolsonaro indicou João Pedro Barroso do
Nascimento para a presidência da CVM. Nascimento é amigo de infância do senador
Flávio Bolsonaro. Ao ser questionado, o advogado confirmou conhecer Flávio e
admitiu que o senador pode ter participado do processo de indicação. Mas foi
além da amizade: Nascimento atuou como advogado pessoal de Flávio Bolsonaro e
em 2016 costurou um acordo entre o parlamentar e uma incorporadora para a
entrega de uma cobertura em Laranjeiras, no Rio — imóvel que foi objeto de um
capítulo da denúncia do Ministério Público no caso das rachadinhas.
O
mandato de Nascimento se estendeu até 2027, atravessando o início do governo
Lula. Durante esse período, o esquema de fraudes do Master operou com os fundos
como infraestrutura de lavagem — e a CVM, o órgão constitucionalmente
responsável por fiscalizar esses produtos, permaneceu inerte.
O
mecanismo do esquema era sofisticado: o Master concedia empréstimos fictícios a
empresas, que direcionavam os recursos para fundos administrados pela Reag —
gestora investigada na Operação Carbono Oculto por suspeita de ligação com o
crime organizado. Nesses fundos, o dinheiro circulava por várias camadas, com
ativos de difícil venda registrados por valores inflados, até retornar ao
próprio sistema financeiro de origem, fechando o circuito fraudulento.
A CVM
não viu nada. Ou não quis ver. O órgão regulador do mercado de capitais deixou
passar ao largo da sua fiscalização o esquema de fraudes praticado pelo Master
com apoio de fundos de investimento, criando somente em fevereiro de 2026 um
grupo de trabalho para buscar falhas na atuação do banco — meses após a
liquidação. Apesar dos indícios de vazamento de informações de dentro do órgão
diretamente para Vorcaro, investigados pela Polícia Federal e pela CGU, a CVM
só abriu uma sindicância depois que o caso estourou publicamente.
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A arquitetura da impunidade
O caso
Master não é um escândalo financeiro. É um escândalo institucional. O que ele
revela é uma arquitetura de captura regulatória construída em três camadas: a
fratura jurisdicional entre BC e CVM, que cria zonas onde ninguém fiscaliza; o
déficit estrutural de pessoal que tornava a fiscalização impossível mesmo com
boa-fé; e a infiltração política nas cúpulas dos dois órgãos, que garantia que
as brechas permanecessem abertas.
O
delegado-chefe de repressão a crimes financeiros da PF, Guilherme Siqueira, foi
direto: o crime organizado vem migrando deliberadamente para o sistema
financeiro nacional, usando fundos de investimento, fintechs, instituições de
pagamento, corretoras e gestoras para lavar dinheiro — explorando lacunas
normativas e fragilidades na fiscalização. Quando o órgão regulador opera com
déficit de capacidade humana ou tecnológica, a PF passa a receber provas de
forma tardia, incompleta e muitas vezes já comprometida.
Os
FIDCs foram o veículo técnico ideal para esse projeto: estruturas legítimas,
pouco fiscalizadas, opacas por natureza, com múltiplas camadas que dificultam o
rastreamento. A Operação Carbono Oculto e as conexões da Reag com o crime
organizado mostram que não se tratou de oportunismo. Foi uma estratégia
deliberada — e contou com a cooperação, por omissão ou por ação, dos órgãos que
deveriam impedi-la.
• Caso Master reforça rede internacional
de mentiras da extrema direita. Por Eliara Santana
O
escândalo do Banco Master e as relações perigosas com a família Bolsonaro
ganharam contornos mais escandalosos após nova reportagem do Intercept Brasil
informando que o dinheiro dado por Daniel Vorcaro a Flávio não havia ido para o
filme, mas sim para um fundo gestor administrado pelo advogado de Eduardo
Bolsonaro e que o grande administrador era, na verdade, o próprio deputado
cassado, foragido nos EUA. Desde então, explodiram memes e piadas dizendo que
os filhos de Bolsonaro conseguiram enganar até um banqueiro preso por
corrupção.
Todas
as especulações são importantes, e os memes são bem engraçados – não fosse essa
realidade trágica para a saúde democrática. Mas as pulgas atrás da orelha
ficaram ouriçadas demais com fios soltos, conexões e alguns aspectos que acabam
passando despercebidos.
Desde
2018, jamais se pode menosprezar o potencial perigoso dessa família. Façamos o
exercício da ligação de alguns pontinhos:
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Primeiro ponto: há uma articulação da extrema direita no mundo que usa pautas
conservadoras, a defesa de valores e o nome de Deus para camuflar o interesse
pela disputa política e pelo estabelecimento de um projeto de poder
ultraconservador. Esse movimento, fortalecido pelo nacionalismo cristão dos
EUA, que blindou Donald Trump e garantiu também sua eleição, nos Estados
Unidos, tem os dois olhos voltados para o Brasil. Essa articulação envolve
atores políticos, estrategistas que atuam em vários países e têm cartilhas
muito orientadoras (como Olavo de Carvalho e Steve Bannon), diversas
estratégias de mobilização e criação de mentiras (como campanhas coordenadas de
desinformação, campanhas de ódio contra determinadas personalidades, firehose),
uso de ferramentas de ponta como IA e disseminação multiplataforma de suas
criações.
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Segundo ponto: com a instauração do Gabinete do Ódio em 2019, o Brasil se
tornou uma vitrine de desinformação para o mundo, gostemos ou não dessa
realidade. É um case muito bem-sucedido de produção e disseminação de
narrativas mentirosas, discurso de ódio, estratégias de destruição de
reputações, narrativas distópicas, um verdadeiro laboratório de realidade
paralela. No Consórcio Internacional de Países Produtores de Fake News, o
Brasil tem assento cativo e posição de destaque. Exatamente por isso, as eleições
brasileiras excitam as nações talvez mais do que a Copa do Mundo. Só para
lembrar um dado nesse cenário: segundo a pesquisa “O Ambiente da desinformação
em torno das eleições”, desenvolvido pelo International Institute for Democracy
Electoral Assistance (IDEA) e publicado no final de 2022, que fez uma abordagem
relativa aos impactos da desinformação nos processos eleitorais, o Brasil só
perde para a Índia em termos de desinformação eleitoral.
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Terceiro ponto: a família Bolsonaro mantém muito viva a interlocução com
religiosos cristãos e movimentos conservadores fora do Brasil, sobretudo nos
EUA, e marca forte presença na constituição dessa articulação internacional da
extrema direita. Em fevereiro de 2023, Jair Bolsonaro teve um encontro com
integrantes da Universidade Cristã da
Flórida (FCU) e com lideranças religiosas da comunidade brasileira. Na pauta,
valores conservadores, valores cristãos e… o futuro da direita no mundo.
Eduardo
Bolsonaro, por sua vez, manteve sempre uma fina articulação com líderes
religiosos ultraconservadores nos EUA e em outros países. Desde 2023, ele
participa de muitos eventos nesse escopo, além de cultos como orador. Em
Orlando está localizada a igreja Lagoinha Orlando Church, que se dedica aos
brasileiros no exterior e é liderada pelo pastor André Valadão – amigo de Daniel Vorcaro e
líder da Igreja batista da Lagoinha. A pauta de Eduardo, nesse espaço religioso
vai da guerra cultural a falas sobre valores cristãos e moral conservadora,
passando, claro, pela política brasileira, quando ele recebe apoio para tramar
contra o país.
Em
janeiro de 2022, segundo reportagem de Guilherme Amado no Metrópoles, Eduardo
foi convidado por André Valadão a falar na Orlando Church. A igreja já havia
recebido o foragido Allan dos Santos, que continua nos EUA arquitetando contra
a democracia brasileira. O convite a Eduardo foi feito como preparação para “os
tempos de guerra” que viriam, no dizer do pastor Brasil.
Após o
segundo turno das eleições daquele ano, segundo reportagem da Agência Pública,
Eduardo manteve uma agitada agenda de viagens internacionais e encontros com
estrategistas e representantes de plataformas para garantir a narrativa de que
as eleições haviam sido fraudadas, levada aos quatro ventos pela hashtag
“Brazil was stolen”. Nos EUA, informou a reportagem, ele se reuniu com o então
ex-presidente Donald Trump, conversou com o estrategista Steve Bannon e almoçou
com o antigo porta-voz de Trump, Jason Miller, fundador da rede social
Gettr.
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Quarto ponto: esse mix valores conservadores + suposta pregação do Evangelho +
defesa dos valores cristãos + religião + prática política é muito bem
trabalhado por aqui. Um exemplo é o livro de Nikolas Ferreira, “O cristão e a
política” (por favor, não leiam rsrs), em que ele afirma que o cristão deve sim
ocupar seu lugar na política porque, se não o fizer, o capeta ocupa. Fica o
recado. As articulações feitas não são apenas por afinidade religiosa e com
vistas a garantir a observação de valores pelos candidatos. Isso é o que se
vende. Na verdade, trata-se de um projeto de poder que passa pelo combo
desinformação + religião + política + financiamento.
Talvez mais adiante, com o avanço das
investigações sobre o escândalo revelado recentemente, vamos descobrir que o
filme sobre Jair Bolsonaro foi usado não apenas como um carinho de filhinho
para papai ou para manter Eduardo Bolsonaro nos EUA tramando contra o Brasil e
as instituições brasileiras.
O
filme, quem sabe, foi uma peça para garantir os recursos iniciais para um
Gabinete do Ódio Made in USA. Poderoso e capaz de garantir uma sobrevivência
decente e atuante da família Bolsonaro, vinculada a essa articulação
internacional de extrema direita.
Fonte:
Jornal GGN

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