quarta-feira, 3 de junho de 2026

Aldo Fornazieri: PCC e CV terroristas - qual a tática?

A classificação do PCC e CV como organizações terroristas por parte do governo Trump, estimulada por Flávio Bolsonaro e familiares, tornou mais complexa a conjuntura política e eleitoral e criou um grau maior de dificuldade para o governo definir uma tática adequada. A classificação está sendo vendida como um grande feito por Flávio Bolsonaro, que agrega a ideia de que “Lula defende a soberania do PCC e do CV”.

A questão da definição de uma tática adequada pelo governo e pelas esquerdas envolve três elementos principais: 1) como contra-atacar Flávio Bolsonaro e a direita em torno do tema; 2) qual centralidade o discurso político-eleitoral deve adotar; 3) como tratar a classificação por parte do governo dos Estados Unidos.

A iniciativa de Flávio Bolsonaro junto ao governo Trump teve três objetivos principais: tentar sair do corner por conta da relação com Vorcaro, buscar ativos para atacar a campanha de Lula e valorizar sua imagem ao aparecer junto com o presidente americano. Do ponto de vista da conjuntura eleitoral, o segundo aspecto é o mais importante para ele e é o que merece maior atenção por parte do governo e dos partidos de esquerda.

A resposta a ataques políticos comporta duas táticas principais: a tática do confronto e a tática da moderação. Não há consenso entre analistas e marqueteiros acerca da melhor tática. A escolha, no entanto, não deve ser definida em abstrato, mas por uma análise da conjuntura e das circunstâncias.

É preciso entender que o enfrentamento do bolsonarismo e da extrema-direita não ocorre nos parâmetros democráticos normais do debate de ideias e de propostas, mas nos da guerra política. A característica principal da atual conjuntura político-eleitoral é a da polarização extremada. Explicar ou justificar-se num ambiente como este emite uma imagem de hesitação, quando não de culpa.

Numa conjuntura deste tipo, não há dúvida de que a confrontação é a melhor tática, embora não exclusiva. Em comunicação política, Maquiavel ensinou isso à exaustão: a percepção é mais forte do que a realidade. O contra-ataque deve ser mais forte do que o ataque. Assim, mudam-se não só os termos da relação atacante-atacado, mas também o foco do embate.

Deve-se atacar as ações do adversário, suas intenções, sua história. O objetivo do contra-ataque consiste em retomar o controle da narrativa, otimizar a capacidade persuasiva, dominar a agenda pública e da mídia e obrigar o adversário a adotar uma posição defensiva. Por exemplo: deve-se mostrar que Flávio protege o PCC, o CV e o crime organizado, já que o enquadramento como organizações terroristas dificulta a ação da polícia e a própria colaboração com os Estados Unidos, como argumentam vários especialistas.

No contra-ataque, dever-se-ia dizer que Vorcaro operou com dinheiro do PCC, que Flávio usou dinheiro de Vorcaro e que o grupo do Master é a maior organização criminosa do Brasil. Além de todos os crimes cometidos, articula-se com o PCC, com o jogo do bicho e com as milícias. Flávio Bolsonaro não tem moral para fazer demagogia com esses temas.

Quanto ao ponto 2, não há dúvida de que a centralidade da tática a ser adotada deve ser o contra-ataque e a confrontação de Flávio Bolsonaro. Além do que já foi indicado, cabe subsidiar essa centralidade com elementos de reforço. O governo e seus apoiadores deveriam enfatizar as iniciativas práticas de combate ao crime organizado e prometer que, na próxima gestão, ele será enfrentado de forma implacável, com inteligência, tecnologias, estrangulamento financeiro, desarmamento e prisões.

Deve-se agregar ainda todos os prejuízos econômicos e financeiros que as iniciativas de Flávio provocam para o Brasil: fuga de capitais, queda na bolsa, desinvestimentos estrangeiros, possibilidade de penalizações de empresas brasileiras etc.

Quanto ao ponto 3, é preciso observar que, até agora, o governo e as esquerdas adotaram o discurso da defesa da soberania como tática principal. Não é que a soberania não deva ser defendida. Mas, do ponto de vista político-eleitoral, não é o ponto principal.

Soberania é um conceito abstrato e complexo. A maior parte da população não sabe o seu significado. Não é uma afirmação e noção autoevidente e autoexplicativa. Assim, tem menos eficácia política e eleitoral do que o contra-ataque. O governo deveria dizer, ainda, que, embora não concorde com a classificação, vai continuar colaborando com os Estados Unidos nos termos das definições das autoridades brasileiras. E que vai cobrar do governo Trump a prisão e a deportação para o Brasil dos criminosos brasileiros que lá se refugiam e vivem livremente.

A temática da segurança pública, das organizações criminosas e do narcotráfico tornou-se central e, em grande medida, definidora dos processos eleitorais latino-americanos nos últimos tempos. Foi assim no Equador, Chile, Bolívia, Paraguai e está sendo assim na Colômbia e no Peru. Deverá ser assim também no Brasil. É a temática que instrumentaliza o governo Trump para justificar intervenções na região.

A extrema-direita tem radicalizado e bukelizado (Nagib Bukele) o seu discurso. As esquerdas estão na defensiva porque esses temas nunca lhes foram prioritários. O governo Lula acordou tardiamente para o problema e, ainda mais, priorizando a legislação do que a operação. Só nos últimos meses incrementou mais as operações. O problema é grave e as notícias acerca do PCC e do CV mostram o alcance que essas organizações atingiram. Estão infiltradas em várias instâncias políticas e institucionais, em vários ramos de negócios e na Faria Lima.

A campanha de Lula precisa de uma estratégia competitiva e afirmativa acerca dessa temática. Caso contrário, ficará na defensiva numa difícil e polarizada disputa eleitoral. Deveria aumentar as operações contra as organizações criminosas desde já.

A campanha deveria construir um discurso forte e afirmativo, enfatizando soluções operacionais em detrimento das letargias explicativas. Os governos precisam resolver. As explicações devem ser deixadas para os sociólogos. Se a segurança pública é um direito dos cidadãos, o governo deve garanti-la.

Nessa temática não há meio-termo. Ganha mais quem é mais contundente, afirmativo, inteligente, capaz de persuadir o eleitor de que as soluções que apresenta serão mais eficazes do que aquelas dos adversários. A hesitação e a tibieza transmitem a imagem de que não se têm soluções para o problema.

•        Trump declarou Sergio Moro terrorista? Por Oliveiros Marques

Na última sexta-feira, 29 de maio, Sergio Moro lançou sua pré-candidatura ao governo do Paraná em Curitiba, ao lado de Flávio Bolsonaro. No palco, Flávio exibiu com orgulho sua participação nas articulações que levaram o governo Trump a classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras. Para ele, trata-se de uma vitória política. Para quem acompanha o cenário político-eleitoral com um pouco mais de atenção, a cena lembra um mágico que pede aplausos por encontrar um problema depois de anos ajudando a ignorá-lo.

Moro foi ministro da Justiça de Jair Bolsonaro entre janeiro de 2019 e abril de 2020. Foram 16 meses à frente da principal estrutura de combate ao crime organizado do país, com Polícia Federal, orçamento, inteligência e autoridade institucional. O PCC e o Comando Vermelho não surgiram ontem. Eram, à época, organizações amplamente conhecidas e monitoradas. Ainda assim, não houve nenhuma estratégia estrutural capaz de alterar significativamente seu poder econômico, territorial ou financeiro. Moro deixou o cargo acusando Bolsonaro de interferir na Polícia Federal. As facções, porém, permaneceram onde estavam.

A ironia ganha contornos ainda mais interessantes quando se observa a companhia escolhida por Moro para essa cruzada moral. Flávio Bolsonaro declarou publicamente que Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, é seu “irmão para todo o sempre”. Não parceiro. Não aliado. Irmão. Trata-se do mesmo Vorcaro que se tornou personagem central de investigações da Polícia Federal e de um escândalo que envolve suspeitas de relações financeiras com estruturas utilizadas para movimentação de recursos ligados ao crime organizado.

Curiosamente, quando o assunto é proximidade com pessoas investigadas por possíveis conexões com organizações criminosas, alguns setores da direita parecem defender uma interpretação bastante flexível do conceito de segurança pública. A régua que serve para adversários políticos frequentemente desaparece quando se aproxima dos próprios aliados.

O caso não se limita a Vorcaro. Em outro episódio que passou quase despercebido pelos paladinos da moralidade, veio à tona a relação entre integrantes do clã Bolsonaro e figuras como TH Joias, apontado em investigações como operador ligado ao Comando Vermelho. É curioso observar como aqueles que agora defendem a ampliação do conceito de terrorismo para enquadrar facções criminosas raramente demonstram o mesmo entusiasmo quando surgem questionamentos envolvendo pessoas de seu círculo político.

Mas o aspecto mais preocupante dessa discussão talvez não esteja na política eleitoral. Está na economia e na imagem externa do Brasil.

Classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas pode parecer uma medida dura e eficaz em um primeiro momento. O problema é que facções criminosas e grupos terroristas não são a mesma coisa. Organizações terroristas possuem motivação política, ideológica ou religiosa e buscam alterar a ordem institucional por meio do terror. PCC e CV são organizações criminosas voltadas fundamentalmente ao lucro. Traficam drogas, armas, dinheiro e influência. Não reivindicam revoluções, não apresentam manifestos ideológicos globais e não possuem objetivos políticos comparáveis aos de grupos tradicionalmente enquadrados como terroristas.

Essa distinção não é mero preciosismo acadêmico. Ela produz efeitos concretos.

Ao associar o Brasil ao vocabulário do terrorismo, abre-se espaço para riscos econômicos relevantes. Fundos estrangeiros, bancos e investidores institucionais costumam reagir de forma extremamente sensível a classificações dessa natureza. O aumento da percepção de risco pode elevar custos de financiamento, gerar barreiras adicionais para investimentos estrangeiros e reforçar narrativas de instabilidade institucional. Em um momento em que o país busca atrair capital produtivo, indústria e infraestrutura, a rotulagem simplista de um problema complexo pode acabar produzindo efeitos colaterais que atingem toda a economia nacional.

Ou seja, Moro, Flávio e sua turma, mais uma vez, jogam contra o Brasil.

Além disso, cria-se um precedente delicado. A legislação antiterrorismo norte-americana foi utilizada historicamente para justificar sanções extraterritoriais, intervenções e operações em diferentes regiões do mundo. Ainda que uma ação desse tipo contra o Brasil seja pouco provável, o debate não deveria ser tratado com a leviandade de um slogan eleitoral.

Diante disso, a pergunta que fica é inevitável: como alguém que ocupou o Ministério da Justiça sem apresentar resultados estruturais capazes de enfraquecer PCC e Comando Vermelho, e que hoje se alia a políticos cercados de personagens investigados por possíveis relações com estruturas financeiras ligadas ao crime organizado, pode se apresentar como a grande novidade no combate à criminalidade?

Trump não declarou Sergio Moro terrorista. Mas, sem querer, lançou luz sobre uma contradição difícil de ignorar: os mesmos atores políticos que mais gostam de discursar sobre combate ao crime parecem conviver com notável conforto quando os suspeitos estão ao seu lado no palco.

•        Pesquisa joga custo de Flávio Bolsonaro no palanque de Moro. Por Esmael Morais

O presidente Lula (PT) aparece com 45% contra 40% do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em eventual segundo turno, segundo pesquisa Real Time Big Data divulgada pela Veja nesta segunda-feira (1º). O número mede o custo nacional do caso Dark Horse dias depois de Curitiba receber o pré-candidato bolsonarista no palanque de Sergio Moro, Deltan Dallagnol, Filipe Barros e Paulo Martins.

O levantamento ouviu 2.000 eleitores entre sexta-feira (29) e sábado (30), com margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e 95% de confiança. A pesquisa está cadastrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo BR-05864/2026.

Lula cresceu dois pontos e Flávio Bolsonaro perdeu quatro em relação à rodada anterior do Real Time Big Data. A mesma pesquisa aponta 8% de votos brancos e nulos e 7% de eleitores que não souberam ou não responderam no confronto direto entre os dois.

O dado não prova causalidade entre o caso Dark Horse e a queda do senador. Prova, porém, que a primeira medição divulgada depois da crise chegou ruim para quem tentou transformar Flávio Bolsonaro em trunfo presidencial da direita.

Em março, Lula tinha 42% e Flávio Bolsonaro marcava 41%. Em maio, o senador aparecia numericamente à frente, com 44% contra 43% do petista. Em junho, Lula foi a 45% e Flávio Bolsonaro recuou para 40%.

O problema para a direita paranaense é que Curitiba entrou nessa história como vitrine. Na sexta-feira (29), Moro lançou sua pré-candidatura ao governo do Paraná ao lado de Flávio Bolsonaro, Deltan Dallagnol e Filipe Barros, enquanto Paulo Martins, vice-prefeito de Curitiba pelo Novo, também participou do ato.

A aposta era simples: usar Curitiba como selo político para juntar bolsonarismo, lavajatismo e a direita local em torno de 2026. A pesquisa muda o peso da foto. O que parecia demonstração de força passa a ser cobrado como associação com um candidato nacional sob desgaste.

Flávio Bolsonaro virou centro da crise depois da divulgação de áudio envolvendo Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e a busca de recursos para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. O senador afirma que procurava patrocínio privado, nega irregularidade e sustenta que não havia suspeitas públicas contra Vorcaro quando o contato começou.

A defesa política não eliminou o dano eleitoral. O Real Time Big Data mostra que Flávio Bolsonaro continua competitivo, mas perdeu a dianteira que havia aparecido em maio. Para Moro, Deltan e Filipe Barros, o recado é direto: o palanque paranaense herdou uma conta que não nasceu no Paraná.

O levantamento também mostra que outros nomes da direita chegam ao segundo turno com desempenho menos ruim contra Lula. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD-GO), aparece empatado com o petista em 43% a 43%. O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo-MG), marca 40% contra 43% de Lula, dentro da margem de erro.

Esse contraste abre uma disputa interna na oposição. Se Flávio Bolsonaro carrega o sobrenome, Caiado e Zema oferecem à direita uma rota sem o peso imediato do caso Dark Horse. A pergunta que chega ao Paraná é se Moro vai manter sua candidatura estadual amarrada ao projeto nacional do filho zero um de Jair Bolsonaro.

A pesquisa também mediu a percepção sobre o encontro de Flávio Bolsonaro com Donald Trump. De acordo com o levantamento, 42% dos eleitores viram a reunião como neutra, 29% como positiva e 29% como negativa. O dado impede a campanha bolsonarista de vender a agenda internacional como vitória majoritária no eleitorado.

No Paraná, esse ponto tem consequência concreta. Moro elogiou a articulação internacional de Flávio Bolsonaro sobre PCC e Comando Vermelho, enquanto deputados da base do governo acionaram a Procuradoria-Geral da República para questionar se a ofensiva externa atingiu a soberania nacional. A pesquisa mostra que a agenda não blindou o senador.

A conta política agora passa por três nomes no Paraná. Moro precisa explicar se seu projeto para o Palácio Iguaçu depende de Flávio Bolsonaro. Deltan Dallagnol precisa dizer se sua candidatura ao Senado vai carregar a crise nacional do PL. Filipe Barros terá de defender no estado uma chapa que foi atingida por pesquisa, PGR e caso Master na mesma semana.

Curitiba foi escolhida para mostrar unidade da direita. A pesquisa Real Time Big Data transformou o ato em termômetro de risco. Flávio Bolsonaro ainda tem voto, partido e sobrenome, mas já não chega ao Paraná como ativo sem custo para seus aliados.

 

Fonte: Brasil 247

 

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