Aldo
Fornazieri: PCC e CV terroristas - qual a tática?
A
classificação do PCC e CV como organizações terroristas por parte do governo
Trump, estimulada por Flávio Bolsonaro e familiares, tornou mais complexa a
conjuntura política e eleitoral e criou um grau maior de dificuldade para o
governo definir uma tática adequada. A classificação está sendo vendida como um
grande feito por Flávio Bolsonaro, que agrega a ideia de que “Lula defende a
soberania do PCC e do CV”.
A
questão da definição de uma tática adequada pelo governo e pelas esquerdas
envolve três elementos principais: 1) como contra-atacar Flávio Bolsonaro e a
direita em torno do tema; 2) qual centralidade o discurso político-eleitoral
deve adotar; 3) como tratar a classificação por parte do governo dos Estados
Unidos.
A
iniciativa de Flávio Bolsonaro junto ao governo Trump teve três objetivos
principais: tentar sair do corner por conta da relação com Vorcaro, buscar
ativos para atacar a campanha de Lula e valorizar sua imagem ao aparecer junto
com o presidente americano. Do ponto de vista da conjuntura eleitoral, o
segundo aspecto é o mais importante para ele e é o que merece maior atenção por
parte do governo e dos partidos de esquerda.
A
resposta a ataques políticos comporta duas táticas principais: a tática do
confronto e a tática da moderação. Não há consenso entre analistas e
marqueteiros acerca da melhor tática. A escolha, no entanto, não deve ser
definida em abstrato, mas por uma análise da conjuntura e das circunstâncias.
É
preciso entender que o enfrentamento do bolsonarismo e da extrema-direita não
ocorre nos parâmetros democráticos normais do debate de ideias e de propostas,
mas nos da guerra política. A característica principal da atual conjuntura
político-eleitoral é a da polarização extremada. Explicar ou justificar-se num
ambiente como este emite uma imagem de hesitação, quando não de culpa.
Numa
conjuntura deste tipo, não há dúvida de que a confrontação é a melhor tática,
embora não exclusiva. Em comunicação política, Maquiavel ensinou isso à
exaustão: a percepção é mais forte do que a realidade. O contra-ataque deve ser
mais forte do que o ataque. Assim, mudam-se não só os termos da relação
atacante-atacado, mas também o foco do embate.
Deve-se
atacar as ações do adversário, suas intenções, sua história. O objetivo do
contra-ataque consiste em retomar o controle da narrativa, otimizar a
capacidade persuasiva, dominar a agenda pública e da mídia e obrigar o
adversário a adotar uma posição defensiva. Por exemplo: deve-se mostrar que
Flávio protege o PCC, o CV e o crime organizado, já que o enquadramento como
organizações terroristas dificulta a ação da polícia e a própria colaboração
com os Estados Unidos, como argumentam vários especialistas.
No
contra-ataque, dever-se-ia dizer que Vorcaro operou com dinheiro do PCC, que
Flávio usou dinheiro de Vorcaro e que o grupo do Master é a maior organização
criminosa do Brasil. Além de todos os crimes cometidos, articula-se com o PCC,
com o jogo do bicho e com as milícias. Flávio Bolsonaro não tem moral para
fazer demagogia com esses temas.
Quanto
ao ponto 2, não há dúvida de que a centralidade da tática a ser adotada deve
ser o contra-ataque e a confrontação de Flávio Bolsonaro. Além do que já foi
indicado, cabe subsidiar essa centralidade com elementos de reforço. O governo
e seus apoiadores deveriam enfatizar as iniciativas práticas de combate ao
crime organizado e prometer que, na próxima gestão, ele será enfrentado de
forma implacável, com inteligência, tecnologias, estrangulamento financeiro,
desarmamento e prisões.
Deve-se
agregar ainda todos os prejuízos econômicos e financeiros que as iniciativas de
Flávio provocam para o Brasil: fuga de capitais, queda na bolsa,
desinvestimentos estrangeiros, possibilidade de penalizações de empresas
brasileiras etc.
Quanto
ao ponto 3, é preciso observar que, até agora, o governo e as esquerdas
adotaram o discurso da defesa da soberania como tática principal. Não é que a
soberania não deva ser defendida. Mas, do ponto de vista político-eleitoral,
não é o ponto principal.
Soberania
é um conceito abstrato e complexo. A maior parte da população não sabe o seu
significado. Não é uma afirmação e noção autoevidente e autoexplicativa. Assim,
tem menos eficácia política e eleitoral do que o contra-ataque. O governo
deveria dizer, ainda, que, embora não concorde com a classificação, vai
continuar colaborando com os Estados Unidos nos termos das definições das
autoridades brasileiras. E que vai cobrar do governo Trump a prisão e a
deportação para o Brasil dos criminosos brasileiros que lá se refugiam e vivem
livremente.
A
temática da segurança pública, das organizações criminosas e do narcotráfico
tornou-se central e, em grande medida, definidora dos processos eleitorais
latino-americanos nos últimos tempos. Foi assim no Equador, Chile, Bolívia,
Paraguai e está sendo assim na Colômbia e no Peru. Deverá ser assim também no
Brasil. É a temática que instrumentaliza o governo Trump para justificar
intervenções na região.
A
extrema-direita tem radicalizado e bukelizado (Nagib Bukele) o seu discurso. As
esquerdas estão na defensiva porque esses temas nunca lhes foram prioritários.
O governo Lula acordou tardiamente para o problema e, ainda mais, priorizando a
legislação do que a operação. Só nos últimos meses incrementou mais as
operações. O problema é grave e as notícias acerca do PCC e do CV mostram o
alcance que essas organizações atingiram. Estão infiltradas em várias
instâncias políticas e institucionais, em vários ramos de negócios e na Faria
Lima.
A
campanha de Lula precisa de uma estratégia competitiva e afirmativa acerca
dessa temática. Caso contrário, ficará na defensiva numa difícil e polarizada
disputa eleitoral. Deveria aumentar as operações contra as organizações
criminosas desde já.
A
campanha deveria construir um discurso forte e afirmativo, enfatizando soluções
operacionais em detrimento das letargias explicativas. Os governos precisam
resolver. As explicações devem ser deixadas para os sociólogos. Se a segurança
pública é um direito dos cidadãos, o governo deve garanti-la.
Nessa
temática não há meio-termo. Ganha mais quem é mais contundente, afirmativo,
inteligente, capaz de persuadir o eleitor de que as soluções que apresenta
serão mais eficazes do que aquelas dos adversários. A hesitação e a tibieza
transmitem a imagem de que não se têm soluções para o problema.
• Trump declarou Sergio Moro terrorista?
Por Oliveiros Marques
Na
última sexta-feira, 29 de maio, Sergio Moro lançou sua pré-candidatura ao
governo do Paraná em Curitiba, ao lado de Flávio Bolsonaro. No palco, Flávio
exibiu com orgulho sua participação nas articulações que levaram o governo
Trump a classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas
estrangeiras. Para ele, trata-se de uma vitória política. Para quem acompanha o
cenário político-eleitoral com um pouco mais de atenção, a cena lembra um
mágico que pede aplausos por encontrar um problema depois de anos ajudando a
ignorá-lo.
Moro
foi ministro da Justiça de Jair Bolsonaro entre janeiro de 2019 e abril de
2020. Foram 16 meses à frente da principal estrutura de combate ao crime
organizado do país, com Polícia Federal, orçamento, inteligência e autoridade
institucional. O PCC e o Comando Vermelho não surgiram ontem. Eram, à época,
organizações amplamente conhecidas e monitoradas. Ainda assim, não houve
nenhuma estratégia estrutural capaz de alterar significativamente seu poder
econômico, territorial ou financeiro. Moro deixou o cargo acusando Bolsonaro de
interferir na Polícia Federal. As facções, porém, permaneceram onde estavam.
A
ironia ganha contornos ainda mais interessantes quando se observa a companhia
escolhida por Moro para essa cruzada moral. Flávio Bolsonaro declarou
publicamente que Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, é seu “irmão para
todo o sempre”. Não parceiro. Não aliado. Irmão. Trata-se do mesmo Vorcaro que
se tornou personagem central de investigações da Polícia Federal e de um
escândalo que envolve suspeitas de relações financeiras com estruturas
utilizadas para movimentação de recursos ligados ao crime organizado.
Curiosamente,
quando o assunto é proximidade com pessoas investigadas por possíveis conexões
com organizações criminosas, alguns setores da direita parecem defender uma
interpretação bastante flexível do conceito de segurança pública. A régua que
serve para adversários políticos frequentemente desaparece quando se aproxima
dos próprios aliados.
O caso
não se limita a Vorcaro. Em outro episódio que passou quase despercebido pelos
paladinos da moralidade, veio à tona a relação entre integrantes do clã
Bolsonaro e figuras como TH Joias, apontado em investigações como operador
ligado ao Comando Vermelho. É curioso observar como aqueles que agora defendem
a ampliação do conceito de terrorismo para enquadrar facções criminosas
raramente demonstram o mesmo entusiasmo quando surgem questionamentos
envolvendo pessoas de seu círculo político.
Mas o
aspecto mais preocupante dessa discussão talvez não esteja na política
eleitoral. Está na economia e na imagem externa do Brasil.
Classificar
PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas pode parecer uma medida
dura e eficaz em um primeiro momento. O problema é que facções criminosas e
grupos terroristas não são a mesma coisa. Organizações terroristas possuem
motivação política, ideológica ou religiosa e buscam alterar a ordem
institucional por meio do terror. PCC e CV são organizações criminosas voltadas
fundamentalmente ao lucro. Traficam drogas, armas, dinheiro e influência. Não
reivindicam revoluções, não apresentam manifestos ideológicos globais e não
possuem objetivos políticos comparáveis aos de grupos tradicionalmente
enquadrados como terroristas.
Essa
distinção não é mero preciosismo acadêmico. Ela produz efeitos concretos.
Ao
associar o Brasil ao vocabulário do terrorismo, abre-se espaço para riscos
econômicos relevantes. Fundos estrangeiros, bancos e investidores
institucionais costumam reagir de forma extremamente sensível a classificações
dessa natureza. O aumento da percepção de risco pode elevar custos de
financiamento, gerar barreiras adicionais para investimentos estrangeiros e
reforçar narrativas de instabilidade institucional. Em um momento em que o país
busca atrair capital produtivo, indústria e infraestrutura, a rotulagem
simplista de um problema complexo pode acabar produzindo efeitos colaterais que
atingem toda a economia nacional.
Ou
seja, Moro, Flávio e sua turma, mais uma vez, jogam contra o Brasil.
Além
disso, cria-se um precedente delicado. A legislação antiterrorismo
norte-americana foi utilizada historicamente para justificar sanções
extraterritoriais, intervenções e operações em diferentes regiões do mundo.
Ainda que uma ação desse tipo contra o Brasil seja pouco provável, o debate não
deveria ser tratado com a leviandade de um slogan eleitoral.
Diante
disso, a pergunta que fica é inevitável: como alguém que ocupou o Ministério da
Justiça sem apresentar resultados estruturais capazes de enfraquecer PCC e
Comando Vermelho, e que hoje se alia a políticos cercados de personagens
investigados por possíveis relações com estruturas financeiras ligadas ao crime
organizado, pode se apresentar como a grande novidade no combate à
criminalidade?
Trump
não declarou Sergio Moro terrorista. Mas, sem querer, lançou luz sobre uma
contradição difícil de ignorar: os mesmos atores políticos que mais gostam de
discursar sobre combate ao crime parecem conviver com notável conforto quando
os suspeitos estão ao seu lado no palco.
• Pesquisa joga custo de Flávio Bolsonaro
no palanque de Moro. Por Esmael Morais
O
presidente Lula (PT) aparece com 45% contra 40% do senador Flávio Bolsonaro
(PL-RJ) em eventual segundo turno, segundo pesquisa Real Time Big Data
divulgada pela Veja nesta segunda-feira (1º). O número mede o custo nacional do
caso Dark Horse dias depois de Curitiba receber o pré-candidato bolsonarista no
palanque de Sergio Moro, Deltan Dallagnol, Filipe Barros e Paulo Martins.
O
levantamento ouviu 2.000 eleitores entre sexta-feira (29) e sábado (30), com
margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e 95% de
confiança. A pesquisa está cadastrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o
protocolo BR-05864/2026.
Lula
cresceu dois pontos e Flávio Bolsonaro perdeu quatro em relação à rodada
anterior do Real Time Big Data. A mesma pesquisa aponta 8% de votos brancos e
nulos e 7% de eleitores que não souberam ou não responderam no confronto direto
entre os dois.
O dado
não prova causalidade entre o caso Dark Horse e a queda do senador. Prova,
porém, que a primeira medição divulgada depois da crise chegou ruim para quem
tentou transformar Flávio Bolsonaro em trunfo presidencial da direita.
Em
março, Lula tinha 42% e Flávio Bolsonaro marcava 41%. Em maio, o senador
aparecia numericamente à frente, com 44% contra 43% do petista. Em junho, Lula
foi a 45% e Flávio Bolsonaro recuou para 40%.
O
problema para a direita paranaense é que Curitiba entrou nessa história como
vitrine. Na sexta-feira (29), Moro lançou sua pré-candidatura ao governo do
Paraná ao lado de Flávio Bolsonaro, Deltan Dallagnol e Filipe Barros, enquanto
Paulo Martins, vice-prefeito de Curitiba pelo Novo, também participou do ato.
A
aposta era simples: usar Curitiba como selo político para juntar bolsonarismo,
lavajatismo e a direita local em torno de 2026. A pesquisa muda o peso da foto.
O que parecia demonstração de força passa a ser cobrado como associação com um
candidato nacional sob desgaste.
Flávio
Bolsonaro virou centro da crise depois da divulgação de áudio envolvendo Daniel
Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e a busca de recursos para o filme
Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. O senador afirma que procurava patrocínio
privado, nega irregularidade e sustenta que não havia suspeitas públicas contra
Vorcaro quando o contato começou.
A
defesa política não eliminou o dano eleitoral. O Real Time Big Data mostra que
Flávio Bolsonaro continua competitivo, mas perdeu a dianteira que havia
aparecido em maio. Para Moro, Deltan e Filipe Barros, o recado é direto: o
palanque paranaense herdou uma conta que não nasceu no Paraná.
O
levantamento também mostra que outros nomes da direita chegam ao segundo turno
com desempenho menos ruim contra Lula. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado
(PSD-GO), aparece empatado com o petista em 43% a 43%. O governador de Minas
Gerais, Romeu Zema (Novo-MG), marca 40% contra 43% de Lula, dentro da margem de
erro.
Esse
contraste abre uma disputa interna na oposição. Se Flávio Bolsonaro carrega o
sobrenome, Caiado e Zema oferecem à direita uma rota sem o peso imediato do
caso Dark Horse. A pergunta que chega ao Paraná é se Moro vai manter sua
candidatura estadual amarrada ao projeto nacional do filho zero um de Jair
Bolsonaro.
A
pesquisa também mediu a percepção sobre o encontro de Flávio Bolsonaro com
Donald Trump. De acordo com o levantamento, 42% dos eleitores viram a reunião
como neutra, 29% como positiva e 29% como negativa. O dado impede a campanha
bolsonarista de vender a agenda internacional como vitória majoritária no
eleitorado.
No
Paraná, esse ponto tem consequência concreta. Moro elogiou a articulação
internacional de Flávio Bolsonaro sobre PCC e Comando Vermelho, enquanto
deputados da base do governo acionaram a Procuradoria-Geral da República para
questionar se a ofensiva externa atingiu a soberania nacional. A pesquisa
mostra que a agenda não blindou o senador.
A conta
política agora passa por três nomes no Paraná. Moro precisa explicar se seu
projeto para o Palácio Iguaçu depende de Flávio Bolsonaro. Deltan Dallagnol
precisa dizer se sua candidatura ao Senado vai carregar a crise nacional do PL.
Filipe Barros terá de defender no estado uma chapa que foi atingida por
pesquisa, PGR e caso Master na mesma semana.
Curitiba
foi escolhida para mostrar unidade da direita. A pesquisa Real Time Big Data
transformou o ato em termômetro de risco. Flávio Bolsonaro ainda tem voto,
partido e sobrenome, mas já não chega ao Paraná como ativo sem custo para seus
aliados.
Fonte:
Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário