Marcio
Pochmann: Capitalismo sem povo
O
neoliberalismo no Brasil aprofundou a expansão do “circuito inferior” da
economia e, ao mesmo tempo, reduziu relativamente a capacidade integradora do
“circuito superior” produtivo. A modernização neoliberal mostrou-se regressiva,
pois sem eliminar o atraso, terminou por expandi-lo, transformando-o em modelo
funcional da própria acumulação rentista.
Conforme
originalmente evidenciado por Milton Santos, o capitalismo urbano-industrial
brasileiro havia construído um núcleo econômico dinâmico e crescente, capaz de
absorver parcelas ampliadas da população. Entre as décadas de 1930 e 1980,
apesar das enormes desigualdades, o Brasil conseguiu, por meio do avanço do
setor industrial, das empresas estatais, da infraestrutura, dos bancos, da
administração pública e dos serviços organizados, integrar enormes contingentes
da classe trabalhadora ao inédito emprego assalariado com direitos sociais e
trabalhistas.
Um novo
e moderno “circuito superior” da economia cresceu apoiado na consolidação da
nova sociedade urbana e industrial. Simultaneamente, a predominância
generalizada do “circuito inferior”, marcada pela subsistência, por pequenos
negócios de baixa produtividade, por reduzida modernidade tecnológica e pela
oferta de baixos rendimentos aos trabalhadores, foi sendo significativamente
contida.
Mas com
a inflexão neoliberal dos anos 1990, parte dessa engrenagem superior do
circuito econômico do capitalismo brasileiro foi sendo enfraquecida, quando não
totalmente desmontada. A abertura comercial acelerada, a desregulação da
financeirização, as privatizações, a terceirização, a flexibilização
trabalhista e a desindustrialização reduziram a capacidade do setor moderno de
gerar emprego de massa com maior produtividade e melhores rendimentos.
O
resultado foi paradoxal. A economia nacional tornou-se mais integrada ao
capitalismo global, porém crescentemente menos capaz de integrar socialmente a
sua própria população a empregos decentes, compatível com a geração de um novo
sujeito coletivo sobrante aso requisitos do capitalismo sem povo.
É
verdade que o circuito superior da economia não desapareceu totalmente. Mas
tornou-se mais sofisticado tecnologicamente, mais financeirizado e mais
concentrado, empregando proporcionalmente cada vez menos trabalhadores. Os
grandes bancos, plataformas digitais, agronegócio altamente mecanizado,
logística automatizada e cadeias globais produzem um certo dinamismo econômico
assentado em baixa absorção de mão de obra.
Enquanto
isso, o excedente humano urbano foi sendo empurrado para um circuito inferior
ampliado pela informalidade, “uberização”, microempreendedorismo de
sobrevivência, pequenos negócios de baixíssima produtividade, microtrabalho
intermitente, comércio ambulante, prestação precária de serviços e ocupações
sem proteção social. O desemprego apareceu cada vez mais oculto por estratégias
de sobrevivência à margem de um capitalismo sem povo.
A
periferia urbana tornou-se um enorme espaço de produção e reprodução da
auto-ocupação forçada. O neoliberalismo transformou o desempregado em
“empreendedor de si mesmo”, deslocando para o indivíduo os riscos da
sobrevivência socioeconômica.
Nesse
contexto, uma mudança histórica importante encontra-se em curso. Após meio
século de construção da sociedade urbana e industrial, o circuito inferior
deixou de ser marginal para se tornar estruturalmente dominante nas vastas
áreas metropolitanas brasileiras. Em muitos bairros populares, a economia
cotidiana gira mais em torno da informalidade e da sobrevivência do que do
emprego formal clássico.
Além
disso, a tecnologia digital não eliminou a precariedade, pois frequentemente
tem a reorganizado em torno dos aplicativos que controlam trabalhadores sem
vínculo, das plataformas que extraem renda de microempreendedores, dos
algoritmos que administram a informalidade, do consumo popular dependente do
crédito caro e do endividamento ampliado.
Milton
Santos percebeu precocemente que a globalização desregulada produziria uma
modernização conservadora e concentradora, com cidades altamente conectadas,
mas socialmente fragmentadas. O neoliberalismo aprofundou exatamente esse
processo, produzindo um capitalismo avançado nos fluxos financeiros e
tecnológicos, mas regressivo nas relações de trabalho e na integração social.
O
desafio do Brasil, ao ingressar no segundo quarto do século XXI, é o de
enfrentar uma economia moderna quase exclusiva no topo e uma massa crescente
vivendo em amplo circuito inferior, agora digitalizado, financeirizado e
permanentemente precarizado. Trata-se de uma enorme contradição histórica que
parecia parcialmente superada durante a industrialização do século XX, quando a
permanência estrutural da massa sobrante produzida pelo capitalismo periférico
estava em considerável redução.
A velha
massa inorgânica descrita por Caio Prado Júnior no passado da sociedade agrária
brasileira e que parecia desaparecer com a industrialização nacional, passou a
ser reconfigurada pela financeirização digital do capitalismo neoliberal
contemporâneo em uma nova sociedade de serviços hiperconectada na era digital.
Hoje, o entregador por aplicativo, a cozinheira informal do bairro, o camelô
conectado por pix, o motorista endividado, o vendedor online sem proteção
social e o trabalhador multitarefa da periferia representam a inédita
morfologia da questão social brasileira.
O
neoliberalismo produziu algo historicamente perverso. Uma sociedade altamente
conectada tecnologicamente, mas profundamente precarizada economicamente e
desorganizada socialmente. O país ampliou o consumo digital sem universalizar a
proteção trabalhista. Expandiu o acesso financeiro sem democratizar a riqueza.
Modernizou os meios de circulação enquanto precarizava as formas de vida.
A
questão central já não é apenas garantir direitos ao trabalhador fordista
clássico, cuja centralidade diminuiu com a desindustrialização. O desafio
contemporâneo é proteger socialmente a multidão fragmentada do capitalismo de
plataforma, da informalidade urbana e da economia de sobrevivência.
A
legislação social construída no século XX estava organizada em torno do emprego
formal na sociedade urbana e industrial. Mas o capitalismo neoliberal
periférico dissolveu parcialmente essa base material em plena sociedade de
serviços. A consequência é brutal, com parcela crescente da classe trabalhadora
ocupada sem acessar plenamente os direitos concebidos para uma estrutura
econômica que foi abandonada.
O novo
direito coletivo precisa ser repensado. A proteção universal deve ser
desvinculada do emprego tradicional, com renda básica, seguridade para
trabalhadores de plataforma, regulação algorítmica, redução da jornada, novas
formas de organização sindical, proteção ao trabalho fragmentado,
democratização tecnológica e reconstrução da capacidade produtiva nacional.
• Pós-verdade, democracia e o julgamento
da política. Por João Antonio da Silva Filho
Na
filosofia, o certo e o errado representam juízos de valor formulados a partir
de fatos, ideias ou atitudes. Em grande medida, é o ponto de vista do
observador que condiciona sua interpretação da realidade e influencia a
percepção do que lhe parece correto ou equivocado. Pode-se afirmar, portanto,
que o certo e o errado são frequentemente mediados pelas circunstâncias
históricas, culturais e sociais em que os indivíduos estão inseridos.
Fico a
pensar: se o ponto de onde parte o olhar do observador é elemento fundamental
para definir a sua visão de mundo, e se essa visão orienta a precisão — ou os
limites — de sua análise, então a própria história também se constrói a partir
de diferentes pontos de vista, ou mesmo da convergência entre múltiplas
perspectivas. Nesse sentido, as narrativas exercem papel decisivo na construção
histórica. Em outros termos: os fatos acabam sendo interpretados e
relativizados pelas narrativas que os cercam; e, quando determinadas narrativas
passam a ser compartilhadas por uma maioria, frequentemente assumem a condição
de verdade socialmente aceita.
Vivemos,
assim, tempos marcados pela chamada pós-verdade — fenômeno social em que fatos
objetivos perdem força diante de apelos emocionais, crenças pessoais e
percepções subjetivas. Nesse contexto, a emoção frequentemente se sobrepõe à
razão, e a narrativa passa a importar mais do que a própria veracidade dos
acontecimentos. O grande risco desse processo é transformar a política em um
espaço onde a persuasão emocional substitui o compromisso com a verdade,
fragilizando o debate público e tensionando os próprios fundamentos da
democracia.
A
pergunta inquietante que emerge desse cenário é a seguinte: como distinguir o
certo do errado em um ambiente político profundamente polarizado? Talvez exista
apenas um critério minimamente seguro para essa verificação: o compromisso real
— não apenas retórico, mas demonstrado por gestos concretos — com os interesses
coletivos. É preciso perguntar, permanentemente, se a condução do Estado está
comprometida com as conquistas civilizatórias acumuladas ao longo da história,
com a preservação dos direitos fundamentais e com a implementação de políticas
públicas capazes de ampliar a cidadania e reduzir desigualdades. Ou, ao
contrário, se o poder político encontra-se capturado por interesses meramente
patrimonialistas, subordinado às conveniências de elites econômicas incapazes
de enxergar o bem comum para além de seus próprios privilégios.
O certo
e o errado na política estão, portanto, diretamente relacionados aos objetivos
finalísticos de cada projeto de poder. Em tempos de pós-verdade, nos quais o
mercado dos algoritmos impulsiona a proliferação de versões e narrativas
fragmentadas da realidade, descobrir a verdadeira intenção do proponente
torna-se elemento decisivo para a busca da verdade política. Já não basta
confiar apenas no discurso ou na habilidade retórica dos líderes. É necessário
desenvolver critérios objetivos de verificação, capazes de confrontar palavras
com práticas concretas, promessas com resultados efetivos e narrativas com a
realidade social. Afinal, sem mecanismos críticos de discernimento, a sociedade
torna-se vulnerável à manipulação, à desinformação e às sofisticadas formas
contemporâneas de enganação coletiva.
Dois
ditados populares ilustram bem a necessidade dessa permanente verificação entre
o certo e o errado: “o papel aceita tudo” e “mais vale um gesto do que dezenas
de palavras”. Há profunda sabedoria nessas expressões. Um texto escrito pode
transformar-se em mera retórica ou simples carta de intenções desprovida de
compromisso concreto. Da mesma forma, palavras são apenas sons lançados ao
vento quando não encontram correspondência nas atitudes. Gestos, ao contrário,
revelam intenções, desnudam propósitos e tornam visível aquilo que o discurso
muitas vezes tenta ocultar. Por isso, em tempos de escolhas decisivas sobre os
rumos da sociedade, é indispensável cautela nas conclusões. Mais do que ouvir
promessas, é preciso observar práticas; mais do que aderir a narrativas, é
necessário examinar coerências; mais do que acreditar em discursos emocionais,
é fundamental verificar, concretamente, a serviço de quem o poder está sendo
exercido.
E é
exatamente isso que está em jogo em todo processo eleitoral. A pergunta
decisiva que a sociedade brasileira precisa fazer é simples, mas profundamente
reveladora: a quem desejamos que o Estado brasileiro sirva? A Constituição
Federal de 1988 oferece uma resposta clara por meio de seu artigo 3º, ao
estabelecer como objetivos fundamentais da República a construção de uma
sociedade livre, justa e solidária; a garantia do desenvolvimento nacional; a
erradicação da pobreza e da marginalização; a redução das desigualdades sociais
e regionais; e a promoção do bem de todos, sem preconceitos ou quaisquer formas
de discriminação. Em essência, a Constituição de 1988 não concebe o Estado como
instrumento de privilégios, mas como mecanismo de realização da dignidade
humana, de promoção da cidadania e de concretização da justiça social.
À luz
do artigo 3º da Constituição da República, para não serem enganados,
brasileiros e brasileiras precisam apenas formular uma indagação objetiva:
dentre os diferentes projetos políticos que estiveram — ou estão — à frente da
condução do Estado brasileiro, quais mais contribuíram, concretamente, para a
realização dos objetivos constitucionais? Quais políticas públicas efetivamente
ampliaram a inclusão social? Quais reduziram desigualdades? Quais promoveram
maior acesso à cidadania, à educação, à saúde, à renda e à dignidade humana?
Se é a
verificação concreta dos fatos que aproxima a sociedade da verdade — e,
consequentemente, daquilo que é correto —, então o julgamento político não pode
se limitar a discursos inflamados, slogans emocionais ou guerras de versões
produzidas nas redes sociais. A história de um governo se mede pelos efeitos
reais produzidos na vida do povo. O critério decisivo não deve ser o volume da
propaganda, mas a profundidade das transformações sociais realizadas.
No fim,
a democracia exige mais do que paixão política: exige memória, discernimento
crítico e compromisso com a verdade concreta dos fatos. Sociedades que perdem a
capacidade de comparar narrativas com resultados tornam-se presas fáceis da
manipulação. Por isso, diante das escolhas que definirão os rumos do país,
talvez a pergunta mais honesta e necessária seja esta: quem, de fato, governou
para ampliar direitos, reduzir desigualdades e aproximar o Brasil do projeto
civilizatório desenhado pela Constituição de 1988? É na resposta sincera a essa
pergunta — e não na força das narrativas — que reside a possibilidade de uma
escolha política verdadeiramente consciente.
Fonte:
A Terra é Redonda

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