quinta-feira, 4 de junho de 2026

Luiz Fernando de Paula: A caixa de pandora da direita

A proximidade das eleições tem levado economistas ortodoxo-liberais a abrirem uma verdadeira Caixa de Pandora, do qual sai todos os males, neste caso atribuído ao Presidente Lula e Dilma Roussef e as políticas adotadas pelos governos do PT. A análise desses analistas, entretanto, se revela frequentemente não consensuais e por vezes superficiais. Este me parece ser o caso do artigo de Leonardo Weller, “O elefante na sala”, publicado neste Folha em 17/05/2026, que em resposta ao ensaio de Laura Car¬va¬lho e Gui¬lherme Klein (“Por que o desempenho econômico de Lula 3 não se converte em popularidade”), sus¬tenta que a esquerda se recusa a olhar para os efei¬tos da crise eco¬nô¬mica durante o governo Dilma Rous¬seff e que as polí¬ti¬cas expan¬si¬o¬nis¬tas do PT ges¬ta¬ram a reces¬são de 2014-2016.

O autor atribui ainda a suposta impopularidade do Presidente Lula a crise de 2014/2016, resultante de políticas inconsistentes adotadas pelo Governo Dilma, crise que segundo ele seria ainda pouco analisada e compreendida, em que pese haja uma ampla literatura sobre o assunto (ver, por exemplo, o livro do André Singer, “Os Sentidos do Lulismo”). Para ele é falso atribuir a crise externa a desaceleração econômica no Governo Dilma. Ademais a crise econômica no Governo Dilma teria suas origens nos estímulos econômicos pelo lado da demanda, via expansão do crédito e via gastos públicos nos governos Lula 1 e Lula 2.

O artigo tem vários pontos questionáveis.

Em primeiro lugar, assume que qualquer estímulo do governo pelo lado da demanda é contraprodutivo para o crescimento econômico e gera distorções na economia. Esta é uma visão – baseada na abordagem monetarista e novo-clássica – que não é consensual na economia. Economistas keynesianos sustentam que empresários estão dispostos a mobilizar fatores de produção (trabalho, capital e tecnologia) somente se tiverem expectativas de vendas futuras (princípio da demanda efetiva), e não há uma mão invisível de mercado em economias monetárias que garanta que o que o empresário produz vai ser vendido no mercado. Nisto resulta que em momentos em que os gastos privados estão declinantes, em função de expectativas deterioradas dos empresários quanto ao futuro (como vivemos nos tempos atuais), o gasto público pode ser usado como um instrumento contracíclico eficaz, já que pode ter efeitos multiplicadores sobre a renda sobretudo em conjunturas recessivas, como atestam vários trabalhos empíricos feitos na academia nos EUA e no Brasil sobre multiplicadores fiscais.

Leonardo Weller parece acreditar na polêmica tese do Alberto Alesina da “contração fiscal expansionista”, segundo o qual o ajuste fiscal feito com corte nos gastos públicos gera crescimento econômico, pois ao sinalizar um compromisso crível com a sustentabilidade da dívida pública  ocasiona uma queda nas taxas de juros de longo prazo, melhorando a confiança dos agentes de modo a estimular investimento privado e consumo das famílias, mais que compensando queda na demanda agregada gerada pelo menor gasto do governo. Esta tese, entretanto, foi fortemente questionada empiricamente no mainstream norte-americano.

Do ponto de vista empírico, diversos estudos questionaram a metodologia utilizada por Alesina e seus coautores para identificar episódios de ajuste fiscal e seus efeitos sobre o crescimento, mostrando que muitos dos casos considerados “expansionistas” ocorreram em contextos favoráveis, marcados por forte crescimento das exportações, desvalorizações cambiais ou políticas monetárias expansionistas, e não pelos cortes de gastos públicos em si. Além disso, outras pesquisas empíricas – como já indicado neste artigo – mostram que os multiplicadores fiscais costumam ser elevados em momentos de crise, de modo que a austeridade frequentemente aprofunda recessões, aumenta o desemprego e pode até dificultar a redução da relação dívida/PIB ao enfraquecer o crescimento econômico.

Em segundo lugar, a afirmação de Weller que é falso atribuir a crise externa a desaceleração econômica no Governo Dilma é questionável também. Exercício empírico feito pelo economista Braulio Borges mostrou que pelo menos 38% da desaceleração do PIB per capita brasileiro em 2012-2017 pode ser atribuído a “bad luck”, entre os quais a queda nos preços de commodities observadas neste período (https://blogdoibre.fgv.br/posts/impacto-dos-erros-reais-da-nova-matriz-tem-sido-muito-exagerado). Fatores políticos, como a operação Lava-Jato, como Weller reconhece, também contribuiu para a desaceleração econômica (aguda em 2014-2016, com média de menos 2,1% a.a.) e forte aumento na taxa de desemprego (mais de 9,0% em 2015). Considerando um conjunto de fatores econômicos (queda nos preços de commodities, crise hídrica, etc.) e políticos (lava-jato, ascensão da direita no Congresso, etc.) pode-se sustentar que houve uma verdadeira “tempestade perfeita” no país a partir de 2014 que resultou em uma forte recessão em 2015/2016 (média negativa do PIB real de 3,4% no biênio).

Weller sustenta ainda que “uma crítica à Dilma, oriunda da esquerda, sugere que a crise teria sido causada pela guinada ortodoxa do seu segundo governo —seu ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tentou cortar gastos e aumentar impostos para reequilibrar as contas públicas. Essa narrativa é, entretanto, inconsistente com o ‘timing’ da recessão, que, de acordo com o Ibre (…), começou no segundo trimestre de 2014, antes de Dilma 2.” Ora não se pode afrontar os dados: de fato a recessão começou em 2014, mas esses mesmos dados mostram que a desaceleração se aprofundou sobremaneira – e este é um ponto relevante – em 2025, por ocasião da tentativa do Ministro Joaquim Levy fazer um ajuste fiscal a fórceps numa conjuntura claramente recessiva.  Ao mesmo tempo a tentativa fracassada de ajuste fiscal em meio recessão, cortando gastos públicos, resultou num aprofundamento da crise econômica, o que por sua vez inviabilizou o referido ajuste, obrigando o governo a rever sua meta de superávit primário, em função da queda na arrecadação fiscal.

Para Weller o problema principal no Brasil é de baixa produtividade dada a ausência de reformas estruturais (leia-se reformas liberais), argumento que é repetido ad nauseam por economistas ortodoxo-liberais. Dizer que o problema do Brasil é de baixa produtividade é tautologia, não diz nada sobre a relação de causalidade entre produtividade e crescimento econômico. E um dos problemas da baixa produtividade no Brasil é justamente o de baixo crescimento econômico, em particular do setor industrial. A Lei  Kaldor-Verdoorn sustenta que o crescimento da produção, especialmente industrial, tende a gerar aumento da produtividade do trabalho devido aos retornos crescentes de escala e aos efeitos dinâmicos de aprendizado e inovação. Deste modo, a relação de causalidade entre produtividade e crescimento econômico é inversa.

Vale ressaltar que Weller não faz qualquer menção ao experimento neoliberal durante os Governos Temer e Bolsonaro, quando foram implementadas várias reformas e medidas liberalizantes, como o teto de gastos, reforma trabalhista, e privatização da BR Distribuidora e da Eletrobrás. Apesar das reformas estruturais feitas neste período, o crescimento médio do PIB real em 2017/2023 foi de apenas l,72%  a.a. contra 4,0% a.a. no período 2004/2013, período em que houve uma melhoria significativa nos indicadores sociais do país, inclusive com redução da pobreza, enquanto tais indicadores pioraram significativamente no período 2017/2023.

Cabe destacar que, segundo dados do Observatório de Política Fiscal do IBRE/FGV, o investimento público aumentou de 2,85% do PIB em 2007 para cerca de 4,0% do PIB no período 2009/2013, e foi um dos fatores que contribuiu para manutenção do crescimento elevado no período do chamado de “milagrinho”. Portanto, uma análise minimamente equilibrada considera que não há uma relação de causalidade simples e direta entre reformas e crescimento econômico. Crescimento econômico depende de vários fatores, do lado da oferta e da demanda da economia, inclusive da natureza da reforma implementada.

Em suma, a interpretação da crise de 2014-2016 e de seus desdobramentos políticos e econômicos exige uma análise mais nuançada e menos dogmática do que aquela baseada exclusivamente na defesa de reformas liberalizantes e austeridade fiscal. A experiência brasileira recente mostra que não existe uma relação automática entre ajuste fiscal, reformas pró-mercado e crescimento econômico sustentado. Ao contrário, o desempenho da economia depende da combinação entre contexto internacional, dinâmica política interna, investimento público e privado, política macroeconômica e capacidade de expansão da demanda e da produção. Uma leitura equilibrada do período deve reconhecer tanto os limites e problemas da chamada “nova matriz econômica” quanto os efeitos recessivos do ajuste fiscal de 2015 e das políticas implementadas posteriormente, evitando explicações simplificadoras para um processo histórico marcado por elevada complexidade econômica e política.

•        O caso Vorcaro muda o quadro eleitoral? Por Jean Marc von der Weid

Meu artigo anterior sobre a pré-campanha eleitoral foi distribuído na véspera das revelações do Intercept Brasil, apontando a relação íntima entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, personagem que passou de “sonho de consumo” do bolsonarismo (e muito mais gente) para pesadelo tóxico.

Amigos e não tão amigos me perguntaram no privado, se os novos fatos não anulavam a análise do meu artigo. Penso que não e me parece bem lógico.

O artigo citado apontava para um quadro pessimista para a campanha do presidente Lula e uma crescente ameaça de vitória da direita, com Flávio Bolsonaro ligeiramente à frente na pesquisa DataFolha para o segundo turno, mas com os outros dois direitosos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, também se aproximando de Lula nas simulações.

A minha conclusão ao olhar para esta pesquisa não mudou: a marca forte e persistente da sequência de pesquisas (não só da citada) é o antipetismo/lulismo. Em um primeiro momento, Flávio Bolsonaro herdou os votos do bolsonarismo raiz, avaliados entre 18 e 25% do eleitorado e logo arrastou o voto da direita antipetista/lulista, deixando Romeu Zema e Ronaldo Caiado com um indicativo inferior a 5% nas simulações de primeiro turno.

Dada a notória fragilidade do filho zero dois do energúmeno, a conclusão óbvia é que a direita não tem uma opção a favor do senador, mas busca a melhor possibilidade de derrotar Lula e o PT/aliados. Este raciocínio vale também para o posicionamento dos partidos da direita. Na ausência (voluntária) de uma candidatura de Tarcísio de Freitas, o jogo parecia jogado, apesar do nariz torcido de partes da Faria Lima.

A desmoralização de Flávio Bolsonaro, com a revelação de suas relações cada vez mais complicadas com Daniel Vorcaro, não indica que Lula possa ter vida mais fácil com as alternativas de direita disponíveis. Se as revelações do caso Vorcaro continuarem comprometendo o senador do PL teremos algumas possibilidades de mudança no quadro eleitoral para o primeiro turno.

Em um caso extremo, Flávio Bolsonaro pode ser enquadrado pela PF e pelo MPF e ter sua candidatura impugnada, o que parece improvável. Se isto não acontecer, haveria a possiblidade do PL considerar a candidatura um mico para suas pretensões a fazer uma super bancada na Câmara e no Senado e retirar o seu nome na convenção que indicará formalmente a sua candidatura, algo também improvável dado o peso do bolsonarismo no partido.

A terceira possiblidade é Flávio Bolsonaro virar um “pato manco” e ser batido por um dos seus adversários de direita no primeiro turno. Na primeira pesquisa depois da explosão do escândalo esta hipótese de ascensão de outro candidato da direita não se confirmou, com Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos continuando a patinar entre 3 e 5 % das intenções de voto, algo a ser conferido pelas pesquisas eleitorais daqui para frente.

Dado o peso do bolsonarismo raiz isto também vai ser improvável, a não ser que um dos dois contentores se retire em benefício do outro. Ainda temos que considerar a hipótese do terceiro contentor de Flávio Bolsonaro na direita, Renan Santos (MBL), que se apresenta como o antissistema mais coerente, decole dos seus 2 a 3% de intenção de votos, para assumir o papel de um Pablo Marçal nas eleições para a prefeitura de São Paulo, em 2024, com melhor sucesso.

Nada disso altera a intenção de votos de Lula, embora possa dar a ele uma margem maior de vantagem sobre o segundo colocado no primeiro turno. A única possibilidade deste imbróglio todo favorecer Lula no segundo turno é uma combinação de resultados que derrube a candidatura de Flávio no primeiro turno e gere uma reação do bolsonarismo raiz contra os “traidores”, levando a um voto nulo de uma parcela desta base fanática. Se todos os votos de direita forem dirigidos para o candidato mais bem colocado no segundo turno o risco para Lula continua muito alto.

Lula continua necessitando convencer a pequena parcela do voto independente, que eu chamo de republicanos de centro-direita, de repetir o voto de 2022. Foi o que deu a vitória a Lula, mas naquelas circunstâncias este voto foi motivado pela ameaça bolsonarista à democracia e este impulso não parece tão forte nestas eleições.

A estratégia de Lula e do PT para estas eleições está centrada em produzir benesses para diferentes públicos, mas isto está gerando, até agora, nada mais do que uma pequena recuperação do presidente na sua própria base eleitoral, menos motivada agora do que em 2022. Com o eleitorado lulista decepcionado com o seu governo, o risco de uma parcela significativa vir a se abster ou votar nulo ou branco é um perigo enorme para Lula.

A piora no quadro econômico com aumento da inflação, sobretudo de combustíveis e alimentos, já está em curso e vai ser difícil de compensar com medidas paliativas e isto pode ter como consequência uma perda de votos, não necessariamente para Flávio Bolsonaro ou um candidato da direita, mas para um não voto. Os índices de abstenção vão ser um fator importante nestas eleições, talvez mais do que em qualquer outra no passado, dadas as estreitas margens de vantagem de Lula.

E este quadro econômico pode piorar muito em função de fatores externos como a guerra EUA/Israel x Irã ou planetários como o El Niño gigante prometido pelos cientistas para o segundo semestre.

Com este quadro mais do que arriscado, a decisão de Lula de reapresentar a candidatura de Jorge Messias ao STF é inexplicável. Há uma frase muito utilizada no teatro grego antigo que me veio à cabeça quando vi o anúncio da candidatura bis de Messias: “os deuses enlouquecem os que eles querem destruir” (Eurípides em As bacantes).

O que Lula espera deste novo embate? Na melhor das hipóteses Davi Alcolumbre simplesmente não colocaria a candidatura na pauta até as eleições, deixando Lula rangendo os dentes impotente, já que não tem forças para dobrar a vontade do presidente do Senado, nem conta com o apoio da opinião pública para isto. Na pior das hipóteses Davi Alcolumbre pode humilhar Lula de novo, com um desgaste difícil de medir, já que o tema é, para mim, marginal nas decisões do eleitorado. Em qualquer caso, ele tem nada a ganhar e algo a perder.

Ao insistir em seu fiel escudeiro, Lula está queimando a possibilidade de lançar um nome de peso que traria o apoio da opinião pública e perdendo a última chance de eleger um juíz ou juíza não bolsonarista. O risco para o futuro é enorme no caso de uma derrota eleitoral de Lula, pois daria à direita a maioria no STF, condição fundamental para golpear a democracia por dentro, como fez Viktor Orbán na Hungria.

Também não é inteligível a bronca de Lula nos eleitores antissistema com a frase infeliz “qualquer imbecil que se coloca contra tudo isso que está aí ganha aplausos entusiasmados” (ou algo parecido, não me lembro exatamente da frase). Afinal de contas, Lula já foi aplaudido por dizer que o Congresso tinha “300 picaretas com anel de doutor” e até ganhou uma música com o seu dito. O sentimento de que tudo é igual na política brasileira é o resultado de anos de concessões à direita e às classes dominantes mos governos de Lula e os de Dilma Rousseff e a bronca de Lula passa recibo de que está incomodado por ser confundido com isto tudo que está aí.

O elemento mais importante neste “novo” quadro é que ele não altera a perspectiva de votos para o congresso. Lula pode até ter mais “palanques” com a participação de candidatos da direita, já que alguns partidos do Centrão estão se dispondo a liberar suas bases para acordos eleitorais locais.

Esta decisão vai trazer mais votos para Lula? Isto é discutível, mas certamente estas alianças locais com a direita vão dificultar um pedido de votos de Lula para os partidos de esquerda para não desagradar seus novos aliados. O resultado vai ser uma enxurrada de deputados e senadores de direita e fisiológicos, escorados no dinheiro gasto pelas emendas parlamentares. E o congresso resultante vai ser ainda mais sinistro do que o atual.

A candidatura do mais do mesmo de um decepcionante governo Lula III, sem a sensação de uma ameaça à democracia que marcou a eleição de 2022 deixa o PT e aliados de esquerda sem uma mensagem de esperança no futuro do país e leva o eleitorado a olhar os candidatos para Senado e Câmara como uma geleia geral que não indica escolhas diferenciadas a serem feitas na hora de votar.

Votaremos (a esquerda) em Lula sem dúvida, mas descrentes em um futuro em que o “novo” governo irá enfrentar os graves problemas ambientais, sociais, energéticos e econômicos que nos assolam.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

Nenhum comentário: