O
novo capitalismo político brasileiro
A
transição para a hegemonia agrofinanceira e a captura do orçamento pelo Centrão
exigem que as forças democráticas abandonem o recuo tático e retomem a
mobilização popular...
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A frente ampla, os dois blocos de conjuntura e a necessidade de uma ofensiva
imediata
No
Brasil de hoje, existem motivos de sobra para a construção de uma frente
amplíssima pela eleição de Lula – o único candidato democrático viável que
representa o campo progressista brasileiro. Isso porque o infortúnio da vitória
da extrema direita significaria, mais do que uma simples vitória eleitoral, o
passo decisivo para uma mudança do regime político brasileiro. Não se pode
negar transparência ao programa de governo de Flávio Bolsonaro. Os
bolsonaristas não escondem de ninguém. O programa contém apenas três pontos –
subir a rampa do Palácio do Planalto abraçado com o pai, submeter o Judiciário
(já o jogo parlamentar do Legislativo, como vimos no Bolsonaro I, tem sido
sempre de adaptação e submissão) e entregar as terras raras e demais riquezas
para os Estados Unidos. Simples (e complexo) assim. Está se vendo que este
“Trump II” é muito mais radical que o primeiro. Imaginem o Bolsonarinho I,
herdeiro do pai. Este é o impasse brasileiro e, por isso, a frente ampla
continua decisiva.
Para
compreender a profundidade do momento, porém, é preciso ir além das análises
superficiais que ainda dominam o debate público. É uma quimera falar em cinco
governos do PT como se fossem uma sequência de continuidade ininterrupta.
Troquemos a lógica formal da cronologia pela dialética dos acontecimentos.
Houve uma ruptura fundamental com a deposição de Dilma Rousseff, de modo que
temos, por assim dizer, dois blocos de conjuntura distintos. O primeiro bloco
compreende os dois primeiros governos Lula e o primeiro governo Dilma – um
período marcado pela hegemonia da burguesia industrial e do mercado financeiro
e bancário tradicional, ainda sob os ecos da estabilização monetária e da
inserção externa virtuosa. O segundo mandato de Dilma, muito curto e já sob
forte tensão política, foi menos um bloco coeso do que uma transição
conturbada. Ali houve uma ruptura ainda menosprezada em muitas análises.
Parafraseando Juan Linz (cujas análises sobre a “democracia” e o
“autoritarismo” foram aproveitadas em páginas, a seu modo, hoje clássicas, de
Fernando Henrique Cardoso), no episódio do impeachment de Dilma houve uma
“quebra de confiança” e “deslealdade” nos parceiros fiadores da ordem
liberal-democrática (PSDB e PT, especialmente), destruindo a confiança no
sistema político. O PSDB retirou-se do campo de fiadores e com isso
praticamente desapareceu. Restou o PT. O que chamamos de “Lula três” – o atual
governo – abre, assim, um terceiro bloco, radicalmente distinto dos anteriores.
No fundo da questão, é a isto que remete a questão da frente ampla.
Desde o
impeachment de Dilma (2016), abriu-se no Brasil uma grave crise institucional e
política que nunca foi resolvida. Essa crise não é apenas conjuntural, mas
estrutural. Antes, a hegemonia no bloco de poder das classes dominantes era
compartilhada entre a burguesia industrial e o mercado financeiro tradicional.
Hoje, essa hegemonia – embora o processo ainda não esteja completo – é
agrofinanceira, com supremacia do rentismo e do financismo das fintechs. É por
essas novas brechas financeiras que entram a grana ilegal do centrão e a
acumulação primitiva do crime organizado, num imbricamento cada vez mais
difícil de desfazer. O centrão, nesse contexto, não é mero fiador da
governabilidade: ele está adequando a superestrutura à estrutura, refundando o
Estado por baixo, na ponta do orçamento e das emendas. É plenamente possível
vencer a eleição, mas é preciso entender o jogo que está sendo jogado – e ele
não é o mesmo de 2002, 2006 ou mesmo 2014.
Contrariando
os mitos ainda vigentes na mídia brasileira, que formata o senso comum de muita
gente intelectualizada, a extrema direita começa a ficar na defensiva no plano
internacional. Trump está em queda livre, com apenas 34% de apoio; Milei oscila
pelas tabelas, sem conseguir consolidar o choque que prometera; Orbán retorna
desmoralizado para casa após sucessivos reveses na União Europeia; e o
candidato de Gustavo Petro, Juan Fernando Cepeda, na Colômbia, mantém folgada
vantagem nas pesquisas. Onde foi parar o mito de que a extrema direita cresce
inexoravelmente no mundo? Ao contrário, há sinais claros de esgotamento. Outro
mito recorrente é que a “geração Z” – nomenclatura que não é neutra – teria
aderido em massa à extrema direita. Falso como uma nota de dois reais, basta
ver as recentes manifestações estudantis da USP. A juventude quer rumos,
decisão e coragem. Aprecia teoria e formação. Detesta paternalismos e discursos
prontos. O que falta não é capturar a juventude com slogans, mas oferecer a ela
um projeto de futuro digno desse nome.
No
Brasil, o governo precisa agir rápido e forte. Existe boa perspectiva, o que
antes não havia, nas chapas estaduais em São Paulo e no Rio Grande do Sul –
dois estados estratégicos para qualquer projeto nacional. O Nordeste continua
bem posicionado eleitoralmente, mantendo-se como o principal colchão de votos
do campo progressista. O lulismo, ou seja, a relação simbólica e material com
os mais pobres, se sofreu algum abalo nos últimos meses, continua firme e de
pé. Mas falta agir rapidamente em duas frentes. A primeira é econômico-social:
tomar medidas concretas contra a carestia e o endividamento das famílias. A
segunda é político-estratégica: retomar sem covardia a questão nacional e a
crítica ao imperialismo dos Estados Unidos, em vez de refugiar-se numa
neutralidade que só beneficia a direita.
Mais do
que isso, porém, é necessário criar um movimento de sociedade civil – e as
universidades são peças centrais nessa empreitada – que erga as pautas da
disputa política do século XXI: criação de big techs nacionais, soberania sobre
terras raras e minerais críticos, reindustrialização em novas bases,
inteligência artificial voltada ao interesse público e uma reforma profunda da
política, que inclua as relações entre os Três Poderes, o pacto federativo e a
organização administrativa do Estado. Um movimento dessa dimensão não se cria
instantaneamente, mas é preciso começar agora.
O papel
de Lula é fundamental nesse processo. Não se trata de culto à personalidade,
mas de reconhecer que sua liderança ainda é o único ativo capaz de agregar as
forças necessárias para uma virada de mesa. Os interesses da maioria do Senado
e do Congresso, contudo, apontam noutra direção: eles gravitam em torno das
emendas, do Banco Master – ou melhor, do novo rentismo e financismo brasileiro
– e das bets, configurando a constelação daquilo que alguns analistas têm
chamado de “parlamentarismo orçamentário brasileiro”. Nesse aspecto, o papel de
Flávio Bolsonaro se assemelha ao de Michel Temer na crise da deposição de
Dilma: vender proteção política em troca de espaços de poder e benesses. As
recentes revelações da reportagem do The Intercept, bombasticamente vindas à
luz na tarde de 14/05/2026, ao exporem as relações de “irmandade” entre Flávio
Bolsonaro e Daniel Vorcaro, escancaram essa dinâmica e oferecem aos
progressistas uma oportunidade política que não pode ser desperdiçada.
Não
podemos ficar parados. É hora de ativarmos, especialmente após essas
revelações, uma estratégia mais ofensiva de mobilização da sociedade – nas ruas
e nas redes – visando o crescimento dos movimentos de massas, para desaguar em
grandes manifestações sociais de protesto superiores àquelas da PEC da
Blindagem, ocorridas no ano passado. Estamos em pré-campanha. Não podemos
esperar o tempo oficial de campanha eleitoral para retomar a ofensiva. O ritmo
da disputa é ditado pelos fatos, não pelo calendário do Tribunal Superior
Eleitoral. A cada dia que a esquerda permanece reativa, o campo adversário
consolida sua narrativa e aprofunda a sensação de impunidade e captura do
Estado. A hora de agir é agora. Desde o impeachment de Dilma, a conjuntura –
mesmo na eleição de Lula em 2022 – sempre foi defensiva. Pela primeira vez,
abre-se uma oportunidade de passarmos à ofensiva, que pode tanto ser exitosa ou
mais uma oportunidade perdida.
Deixem-me
abrir um parêntese. Ainda estamos sob os auspícios do bem-sucedido encontro de
Lula com Trump em Washington. Poucos dias depois, também houve a simultânea
reunião lambe-botas do Grupo Esfera na mesma cidade. Gostaria de fazer uma
provocação ousada. Uma das possibilidades da nova doutrina Monroe trumpista – o
que se poderia chamar de seu corolário – são novos acordos neocoloniais
clássicos. Mas também é preciso considerar, para debate, a hipótese de acordos
de divisão de esferas subimperialistas no século XXI e no pós-guerra imediato –
e não apenas a passagem de semicolônia a protetorado – que vedariam a crescente
influência chinesa no hemisfério e, em particular, no Brasil. Esse
subimperialismo do século XXI – bem diferente daquele da época da ditadura
civil-militar, quando Geisel tentou a “Marcha Forçada” do II PND – basear-se-ia
agora numa economia das terras raras associada ao complexo militar-industrial e
à indústria de tecnologia do Vale do Silício, combinada ao capitalismo rentista
agrofinanceiro que já vigora internamente. Fica a provocação, que exige debate
aprofundado.
No
plano doméstico da disputa eleitoral e narrativa, formou-se no Brasil um bloco
que enlaça em condomínio o antigo mercado financeiro – hoje mais um mercado de
administração de rendas do que de produção – e a mídia tradicional subrentista.
Este é o novo capitalismo político brasileiro. Ontem, ele entrou em polvorosa:
dólar subiu, bolsa caiu. Lembro-me da leitura de As lutas de classes na
França de 1848 a 1850, genial clássico de Karl Marx: “o crédito público e o
crédito privado são o termômetro econômico pelo qual se pode medir a
intensidade de uma revolução”. O regime da “Monarquia de Julho de 1830”, que
caiu em 1848, era um regime sob a hegemonia da fração financeira: sempre que a
massa popular de Paris vencia, a bolsa derretia; quando o partido da ordem
avançava, os lucros se refastelavam. A senha foi dada pelo CEO da AtlasIntel,
Andrei Roman: a única maneira de tentar reequilibrar o cenário das eleições
presidenciais seria um “fato novo” de igual tamanho “contra o PT”. Mas, a preço
de hoje, nas condições de temperatura política atuais, a candidatura do filho
de Bolsonaro – o pai insiste em gás queimado – é caso perdido.
O dia
de ontem (escrevo no dia da reportagem do The Intercept) começou com a
divulgação da pesquisa Quaest, que sinalizava uma recuperação de Lula. Os
dados, contudo, morreram à tarde com a bomba atômica revelada pela reportagem.
Até então, o condomínio Quaest-Globo vinha mantendo o controle da narrativa
presidencial sob a capa ilusória da “cientificidade”. Quem presta atenção,
porém, sabe que o viés de uma pesquisa – e as da Quaest são minuciosamente
detalhadas – está nas perguntas. Nos questionários da Quaest, quando se chega
ao caso do Banco Master, as perguntas são formuladas com o objetivo de
confirmar e revestir de veracidade o conteúdo do discurso anterior da própria
mídia: o de que o “escândalo Master” envolve todo o sistema político, incluindo
o Centrão, a direita e a esquerda. O objetivo óbvio é incluir a esquerda no
mesmo saco da corrupção generalizada. O objetivo mais profundo, porém, é
esconder as transformações estruturais do capitalismo financeiro brasileiro,
encarnadas na maquiagem técnica de Campos Neto e dos grupos de mídia – como os
convescotes em Nova York promovidos pelo Valor Econômico e
pela Globo.
O outro
ardil desse mesmo dispositivo manipulatório é a tese da “polarização simétrica”
e da “calcificação” das posições eleitorais, uma readaptação (mais uma “ideia
fora do lugar”?) que Felipe Nunes (CEO da Quaest) e Thomas Traumann
(comentarista da Globo e ex-secretário de imprensa de Dilma) fizeram de
cientistas políticos norte-americanos, entre direita e esquerda. Esta é a tese
falsa: não existe polarização simétrica entre direita fascista e esquerda
democrática no país. A tese é falsa como uma nota de três reais, pela razão
elementar de que a esquerda não pretende derrubar o estado de direito nem
rasgar a Constituição. A polarização simétrica, artificialmente construída,
abre alas para indagar a existência de um “medo” da vitória de qualquer um dos
dois prováveis candidatos. Desse mesmo raciocínio do medo surge, como se fosse
um anseio espontâneo do eleitorado, uma pergunta inteiramente artificial sobre
a “moderação” dos candidatos – cujo único objetivo é envenenar a direção
política da campanha e forçar o campo progressista a um recuo ainda maior na
tática defensiva.
A
coluna da jornalista Malu Gaspar, publicada na manhã de hoje, manda um recado
cifrado, mas que também expressa um desejo talvez não totalmente racionalizado,
mas claro para quem sabe ler: “Um experiente observador de Brasília definiu bem
a situação ao dizer que Vorcaro comprou todo mundo que estava à venda. Tinha
‘irmãos’ e ‘amigos de vida’ em todo o espectro ideológico e em todos os níveis
hierárquicos que importam nos Três Poderes. A investigação entrou no mundo
político pela direita e pelo Centrão, mas há denúncias para todos os gostos, e
tudo o que puder ser explorado politicamente será.” Além de invocar o sempre
anônimo “experiente observador” – recurso clássico de legitimação jornalística
–, a coluna acaba comparando o futuro da eleição a um filme de Quentin
Tarantino: todo mundo mata todo mundo na grande carnificina, e o sobrevivente
não é o herói, mas o bandido da história. Citar Tarantino pode ser um recurso
retórico de alto risco: efetua-se a travessia da linguagem para a
metalinguagem, da realidade sanguinária da luta social à “invenção” estetizada
do artista. A colunista não lembra, mas recentemente o caso do secretário de
Trump – Pete Hegseth, indicado para Secretário de Defesa – foi ridicularizado
após recitar, em abril de 2026, o famoso trecho bíblico falso do filme Pulp
Fiction como se fosse uma oração real durante um culto no Pentágono.
Tarantino não é drama nem épico; é farsa e estetização da violência.
Continuando no território das metáforas cinematográficas, talvez seja mais
veraz (ao molde do realismo estético lukacsiano?) mencionar Os Bons
Companheiros de Martin Scorsese. Walter Benjamin matou a charada de
Tarantino a exatos 91 anos: quando a política é estetizada, a única resposta
crítica é politizar a estética.
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A geoeconomia das terras raras, o nacionalismo possível e o nacionalismo
emergente
Por
fim, e não menos importante, a geoeconomia das terras raras. A proposta da
Terrabras – uma empresa nacional nos moldes da antiga Petrobras – é, sem
dúvida, derivada do arsenal do desenvolvimentismo nacional que deu origem à
petrolífera estatal. Pode e deve ser reatualizada neste século XXI. Contudo,
sua criação exige do governo uma iniciativa imediata, enquanto para o grande
público a questão ainda é inteiramente nova e não amadurecida. Sem isso, corre
o risco de permanecer um discurso que visa marcar posição dentro da esquerda –
uma espécie de hedge discursivo esvaziado para acusar o
governo Lula de “entreguismo”. A própria China, por meio do Global
Times, elogiou o encaminhamento brasileiro – Xin Xing Ping andou formulando
o ideograma, no recente encontro de cúpula com Trump em Pequim, a orientação de
uma relação de “estabilidade estratégica construtiva” para evitar a “armadilha
do Peloponeso” –, o que indica que o tema é estratégico. O controle do solo e a
exigência de uma cadeia produtiva interna de valor dos minerais críticos são
elementos estruturantes de uma posição soberana. Essas condições estão
previstas pelo acordo em curso no Congresso, mas não são suficientes.
O
encaminhamento de uma empresa nacional monopolista exige um consenso nacional
que não está presente na conjuntura. O próprio Getúlio Vargas, na lei de
criação da Petrobras, precisou ser antecedido por um empate político
proporcional a um vigoroso movimento popular nacionalista de longo prazo – algo
hoje inexistente. O movimento foi tão vitorioso que a lei do monopólio estatal
do petróleo foi proposta, vejam só, pela UDN, o partido de oposição feroz ao
trabalhismo e que abrigava o núcleo duro dos “entreguistas” à época. A atual
corrida global por minerais críticos – lítio, nióbio, terras raras, cobalto –
recoloca o debate sobre o papel do Estado na exploração de recursos
estratégicos. A China não apenas elogia o Brasil, mas já construiu uma cadeia
verticalizada que domina o refino e a produção de baterias, tendo sido a
principal ameaça de barganha no contexto do tarifaço de Trump. Mas o caso
chinês é especial em termos geopolíticos e geoeconômicos: nos anos 1970,
beneficiou-se de uma relação vantajosa com os Estados Unidos para isolar a
URSS; nos anos 1990, após a Praça da Paz Celestial, a China se protegeu da
descoberta do neoliberalismo, operando e formulando uma economia política
original e eclética.
No
cenário das relações de força brasileiras, propostas como a Terrabras enfrentam
dois obstáculos concretos. Primeiro, a falta de coesão política interna.
Segundo, a ausência de uma burguesia interna – ainda mais a sua fração
agrofinanceira recém-predominante – disposta a subordinar seus excedentes a um
projeto de autonomia nacional. Além disso, o ambiente ideológico atual é
fragmentado. Enquanto nos anos 1950 o nacionalismo econômico mobilizava
sindicatos, militares, intelectuais e setores industriais, hoje o debate
público balança entre a inserção subordinada às cadeias globais e um
desenvolvimentismo verde de baixa densidade, muitas vezes diversionista. Sem
uma pressão social organizada de longo prazo, a Terrabras corre o risco de
permanecer como bandeira retórica – útil para demarcar posição à esquerda do
petismo, mas insuficiente para alterar a correlação de forças.
Uma
empresa monopolista nos moldes da antiga Petrobras exigiria não apenas vontade
política do Executivo, mas reformas legais profundas – como a revisão do marco
regulatório da mineração – e investimentos estatais vultosos em P&D. A
criação de um fundo público de pesquisa em minerais críticos, ainda que
bem-vinda, é apenas um primeiro passo. Que prospere e seja antesala de outros
passos. As universidades, por exemplo, abrigam grupos de pesquisa isolados, mas
a instituição como um todo parece desnorteada – incapaz de assumir
coletivamente o encargo de ajudar a construir, com a força de seu aparato
institucional-científico, em ritmo de campanha e adesão social, um novo bloco
histórico nacionalista. Nenhuma dessas condições está madura. Assim, a crítica
ao “entreguismo” do governo Lula resvala na demagogia: não se traduz em força
concreta para alternativas, mas em pensamento mágico. A lição de Vargas
permanece atual, ainda que suas condições de aplicação sejam hoje radicalmente
distintas: o nacionalismo vitorioso nunca brotou de decretos ou discursos de
ocasião, mas de um movimento de ruas mobilizado, organizado e persistente –
exatamente o que falta agora. Sem isso, a onda levará não apenas o camarão,
como canta o grande Zeca Pagodinho, mas qualquer possibilidade de construção de
um projeto democrático e soberano para o Brasil do século XXI.
Fonte:
Por Jaldes Meneses, em A Terra é Redonda

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