Por
uma luta antimanicomial radicalmente antirracista
Quem é
reconhecido como humano? Quais corpos são tratados como ameaça, excesso,
descontrole ou desrazão? A compreensão do manicômio precisa ultrapassar a ideia
de uma estrutura física para ser entendida como um dispositivo de
manicomialização da vida: um apartheid social que opera por meio da
patologização das diferenças, da medicalização excessiva, do encarceramento e
da produção contínua de exclusão a subjetividades consideradas inadequadas à
norma colonial.
A
manicomialização não deve ser dissociada do projeto moderno-colonial que
instituiu parâmetros de normalidade e anormalidade para gerir corpos,
territórios e modos de existência. No Brasil, a psiquiatria pós-abolição esteve
profundamente comprometida com um ideal de branqueamento da pólis. Discursos
higienistas e eugenistas tinham como intuito eliminar a doença, a loucura e a
pobreza dos centros urbanos, através de um intenso controle social. Os
cientistas da época sinalizavam que o suposto atraso econômico se dava em
decorrência do clima quente e das pessoas colonizadas e sua falta de
civilização, ordem e progresso. O hospício, assim como a prisão e as políticas
de higienização urbana, tornou-se parte de uma engrenagem de controle voltada à
contenção daqueles considerados entraves ao progresso nacional.
O
sofrimento psíquico, portanto, não pode ser separado do racismo estrutural.
Como demonstram os escritos de Frantz Fanon, o colonialismo não produz apenas
exploração econômica: ele invade a experiência subjetiva, reorganiza afetos,
produz alienação e estabelece hierarquias de humanidade. A violência racial
atua também no campo psíquico, fabricando suspeição permanente, fragmentação
vínculos comunitários e produção de condições contínuas de sofrimento.
No
contexto brasileiro, essa violência se organiza de maneira profundamente
atravessada pelo gênero. Enquanto a cultura burguesa construiu para mulheres
brancas o ideal da fragilidade feminina e do confinamento moral, mulheres
negras são historicamente posicionadas como corpos de trabalho e resistência
forçada. Como apontam Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro, raça e gênero operam
conjuntamente na produção de lugares sociais marcados pela desumanização. Não
por acaso, mulheres negras são frequentemente lidas como descontroladas,
agressivas ou inadequadas. A patologização da diferença torna-se, assim, uma
tecnologia de disciplina colonial.
Torna-se
necessária a compreensão de que a manicomialização e o racismo ancoram-se numa
mesma estrutura: a produção da desumanização em nome de uma ideia universal de
razão. Em Discurso sobre o Colonialismo, Aimé Césaire denuncia que a
colonialidade transforma povos inteiros em objetos. A modernidade ocidental
instituiu uma concepção de humano baseada na racionalidade europeia, branca e
masculina. Tudo aquilo que escapa a esse modelo passa a ocupar a margem da
humanidade: o irracional, o desviante, o louco.
A
psiquiatria tradicional participou diretamente dessa operação. A construção
moderna da razão exigiu simultaneamente a invenção da desrazão. O “louco” deixa
de ser percebido em sua singularidade para tornar-se figura social da
incapacidade, do perigo e da improdutividade. As pseudociências raciais dos
séculos XIX e XX aproximaram negritude e desrazão, associando pessoas negras ao
instinto, à violência e à inferioridade intelectual. Como propõem Ana Carolina
Dias Ramos e Emiliano David Camargo ao tensionarem as relações manicomiais,
colonialidade e manicomialização operam conjuntamente na administração de vidas
consideradas desviantes.
Não é
coincidência que manicômios brasileiros tenham sido ocupados majoritariamente
por pessoas pobres, negras e marginalizadas. Tampouco é coincidência que o
sofrimento de determinados grupos siga sendo respondido prioritariamente por
meio da contenção, da medicalização e da violência institucional. O manicômio
não é um desvio da racionalidade moderna; ele é uma de suas expressões mais
acabadas.
Por
isso, a luta antimanicomial exige também uma crítica radical ao estatuto
colonial da razão. Não basta fechar hospitais psiquiátricos se permanecem
intactas as estruturas epistemológicas que determinam quais vidas possuem
legitimidade para existir. Como argumenta Sueli Carneiro ao elaborar a noção de
epistemicídio, o racismo atua igualmente pela destruição de saberes,
cosmologias e formas não hegemônicas de produzir conhecimento. Há um manicômio
epistemológico sustentando a crença de que existe apenas uma forma válida de
racionalidade, subjetividade e humanidade.
Descolonizar
a razão implica romper com a fixação da condição humana como universal
abstrato. Implica questionar a centralidade de um sujeito produzido pela
modernidade ocidental e abrir espaço para outras formas de existir, imaginar e
produzir mundos plurais. Nesse movimento, a diáspora negra emerge como potência
política de reinvenção da vida. Produz linguagens, territorialidades e modos de
cuidado que escapam à lógica colonial da exclusão.
Há,
nesse gesto, um exercício contínuo de desnortear o imaginário colonial, cujo
objetivo é criar outras cartografias possíveis para a existência. Como afirmam
pensadores como Nego Bispo e Ailton Krenak, enfrentar o projeto colonial exige
romper com formas únicas de humanidade e restituir a multiplicidade dos modos
de vida sufocados pela racionalidade moderna.
A luta
antimanicomial brasileira produziu deslocamentos fundamentais ao defender o
cuidado em liberdade e denunciar a violência psiquiátrica. No entanto, sem
enfrentar o racismo que organiza o imaginário social brasileiro, a própria
reforma continuará reproduzindo exclusões históricas.
Aquilombar
o cuidado torna-se, então, uma tarefa ética e política, como prática concreta
de construção coletiva da vida, de fortalecimento comunitário e de defesa
radical da diferença, buscando condições para que as diferenças subjetivas que
nos constituem possam existir em sua plenitude.
A
questão que permanece é: que modelo de sociedade é esse que continua produzindo
sujeitos descartáveis para sustentar sua ideia de normalidade? Enquanto a razão
seguir funcionando como instrumento colonial de classificação humana, a
manicomialização de nossas vidas continuará produzindo separação, exclusão e
morte.
A ruína
desse projeto não deve ser entendida como fim, mas como linha de fuga. Uma
aposta micropolítica na criação de outros mundos possíveis, inconcebíveis para
a lógica excludente da colonialidade. É justamente nesse movimento que a luta
antimanicomial encontra sua radicalidade: denunciando todas as formas de
manicômios e afirmando possibilidades de vidas que escapem às políticas
coloniais da desumanização.
Fonte:
Por Ana Carolina Dias Ramos, no Le Monde

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