quinta-feira, 4 de junho de 2026

Por uma luta antimanicomial radicalmente antirracista

Quem é reconhecido como humano? Quais corpos são tratados como ameaça, excesso, descontrole ou desrazão? A compreensão do manicômio precisa ultrapassar a ideia de uma estrutura física para ser entendida como um dispositivo de manicomialização da vida: um apartheid social que opera por meio da patologização das diferenças, da medicalização excessiva, do encarceramento e da produção contínua de exclusão a subjetividades consideradas inadequadas à norma colonial.

A manicomialização não deve ser dissociada do projeto moderno-colonial que instituiu parâmetros de normalidade e anormalidade para gerir corpos, territórios e modos de existência. No Brasil, a psiquiatria pós-abolição esteve profundamente comprometida com um ideal de branqueamento da pólis. Discursos higienistas e eugenistas tinham como intuito eliminar a doença, a loucura e a pobreza dos centros urbanos, através de um intenso controle social. Os cientistas da época sinalizavam que o suposto atraso econômico se dava em decorrência do clima quente e das pessoas colonizadas e sua falta de civilização, ordem e progresso. O hospício, assim como a prisão e as políticas de higienização urbana, tornou-se parte de uma engrenagem de controle voltada à contenção daqueles considerados entraves ao progresso nacional.

O sofrimento psíquico, portanto, não pode ser separado do racismo estrutural. Como demonstram os escritos de Frantz Fanon, o colonialismo não produz apenas exploração econômica: ele invade a experiência subjetiva, reorganiza afetos, produz alienação e estabelece hierarquias de humanidade. A violência racial atua também no campo psíquico, fabricando suspeição permanente, fragmentação vínculos comunitários e produção de condições contínuas de sofrimento.

No contexto brasileiro, essa violência se organiza de maneira profundamente atravessada pelo gênero. Enquanto a cultura burguesa construiu para mulheres brancas o ideal da fragilidade feminina e do confinamento moral, mulheres negras são historicamente posicionadas como corpos de trabalho e resistência forçada. Como apontam Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro, raça e gênero operam conjuntamente na produção de lugares sociais marcados pela desumanização. Não por acaso, mulheres negras são frequentemente lidas como descontroladas, agressivas ou inadequadas. A patologização da diferença torna-se, assim, uma tecnologia de disciplina colonial.

Torna-se necessária a compreensão de que a manicomialização e o racismo ancoram-se numa mesma estrutura: a produção da desumanização em nome de uma ideia universal de razão. Em Discurso sobre o Colonialismo, Aimé Césaire denuncia que a colonialidade transforma povos inteiros em objetos. A modernidade ocidental instituiu uma concepção de humano baseada na racionalidade europeia, branca e masculina. Tudo aquilo que escapa a esse modelo passa a ocupar a margem da humanidade: o irracional, o desviante, o louco.

A psiquiatria tradicional participou diretamente dessa operação. A construção moderna da razão exigiu simultaneamente a invenção da desrazão. O “louco” deixa de ser percebido em sua singularidade para tornar-se figura social da incapacidade, do perigo e da improdutividade. As pseudociências raciais dos séculos XIX e XX aproximaram negritude e desrazão, associando pessoas negras ao instinto, à violência e à inferioridade intelectual. Como propõem Ana Carolina Dias Ramos e Emiliano David Camargo ao tensionarem as relações manicomiais, colonialidade e manicomialização operam conjuntamente na administração de vidas consideradas desviantes.

Não é coincidência que manicômios brasileiros tenham sido ocupados majoritariamente por pessoas pobres, negras e marginalizadas. Tampouco é coincidência que o sofrimento de determinados grupos siga sendo respondido prioritariamente por meio da contenção, da medicalização e da violência institucional. O manicômio não é um desvio da racionalidade moderna; ele é uma de suas expressões mais acabadas.

Por isso, a luta antimanicomial exige também uma crítica radical ao estatuto colonial da razão. Não basta fechar hospitais psiquiátricos se permanecem intactas as estruturas epistemológicas que determinam quais vidas possuem legitimidade para existir. Como argumenta Sueli Carneiro ao elaborar a noção de epistemicídio, o racismo atua igualmente pela destruição de saberes, cosmologias e formas não hegemônicas de produzir conhecimento. Há um manicômio epistemológico sustentando a crença de que existe apenas uma forma válida de racionalidade, subjetividade e humanidade.

Descolonizar a razão implica romper com a fixação da condição humana como universal abstrato. Implica questionar a centralidade de um sujeito produzido pela modernidade ocidental e abrir espaço para outras formas de existir, imaginar e produzir mundos plurais. Nesse movimento, a diáspora negra emerge como potência política de reinvenção da vida. Produz linguagens, territorialidades e modos de cuidado que escapam à lógica colonial da exclusão.

Há, nesse gesto, um exercício contínuo de desnortear o imaginário colonial, cujo objetivo é criar outras cartografias possíveis para a existência. Como afirmam pensadores como Nego Bispo e Ailton Krenak, enfrentar o projeto colonial exige romper com formas únicas de humanidade e restituir a multiplicidade dos modos de vida sufocados pela racionalidade moderna.

A luta antimanicomial brasileira produziu deslocamentos fundamentais ao defender o cuidado em liberdade e denunciar a violência psiquiátrica. No entanto, sem enfrentar o racismo que organiza o imaginário social brasileiro, a própria reforma continuará reproduzindo exclusões históricas.

Aquilombar o cuidado torna-se, então, uma tarefa ética e política, como prática concreta de construção coletiva da vida, de fortalecimento comunitário e de defesa radical da diferença, buscando condições para que as diferenças subjetivas que nos constituem possam existir em sua plenitude.

A questão que permanece é: que modelo de sociedade é esse que continua produzindo sujeitos descartáveis para sustentar sua ideia de normalidade? Enquanto a razão seguir funcionando como instrumento colonial de classificação humana, a manicomialização de nossas vidas continuará produzindo separação, exclusão e morte.

A ruína desse projeto não deve ser entendida como fim, mas como linha de fuga. Uma aposta micropolítica na criação de outros mundos possíveis, inconcebíveis para a lógica excludente da colonialidade. É justamente nesse movimento que a luta antimanicomial encontra sua radicalidade: denunciando todas as formas de manicômios e afirmando possibilidades de vidas que escapem às políticas coloniais da desumanização.

 

Fonte: Por Ana Carolina Dias Ramos, no Le Monde 

 

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