A
história indígena das máscaras do Brasil que rodam o mundo
Ao
longo de décadas, as máscaras cara-grande, do povo indígena Apyãwa-Tapirapé, se
espalharam do Mato Grosso ao redor do mundo. Além de integrarem acervos de
museus, elas são hoje revendidas em casas de leilão no exterior ou até
populares plataformas de comércio eletrônico, com preços iniciais variando de
600 doláres a 17 mil dólares (R$ 3 mil a R$ 90 mil).
Em
inglês, as máscaras (também chamadas de Ypé ou Upé) são frequentemente
apresentadas como raros artefatos espirituais de um místico povo indígena num
Brasil remoto. Nos anos 1960, elas adentraram o vasto universo do comércio
mundial de objetos culturais, tendo as próprias aldeias na ponta inicial da
cadeia.
"Essas
máscaras são fundamentais para a prática espiritual dos Tapirapé, sendo
utilizadas principalmente em contextos cerimoniais para estabelecer contato com
forças sobrenaturais e espíritos ancestrais," diz um dos anúncios, pedindo
1,6 mil dólares (R$ 8,2 mil) por um exemplar. "Elas são confeccionadas com
materiais naturais provenientes do seu próprio ambiente."
Mas nem
tudo pode o olho do homem branco. Foi o que explicaram os indígenas Nivaldo
Paroo'i Tapirapé e Koxamare'i Tapirapé, numa visita na semana passada a Bonn,
na Alemanha, onde a exposição "Amazônia, Mundos Indígenas" exibe
máscaras cara-grande.
Para o
seu povo, que prefere a autodenominação Apyãwa, as peças hoje à venda ou em
exibição se limitam a uma versão adaptada das máscaras de fato usadas nos seus
rituais. Ao serem dessacralizadas, as réplicas preservaram algumas tradições e,
ao mesmo tempo, sofreram alterações estéticas decisivas para a cultura
indígena.
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Subsistência versus proibição
A
manufatura familiar se tornou, seis décadas atrás, uma estratégia para engajar
com a demanda comercial nos arredores do Rio Araguaia, afirma a antropóloga Ana
Coutinho, que acompanhou a incursão à Alemanha. Viajantes, comerciantes e
curiosos, inclusive estrangeiros, passavam por ali desejosos de vestígios
materiais do que percebiam como um mundo longínquo e misterioso.
"As
pessoas que comercializaram as máscaras para cá [Europa], na nossa visão, não
sabiam realmente se elas eram para rituais", disse Nivaldo Paroo'i. Não há
clareza sobre os valores cobrados no século 20, mas especialistas apontam para
a tendência de supervalorização uma vez que objetos culturais cruzam
fronteiras.
Sagradas
ou não, as máscaras confeccionadas com matéria-prima de animais silvestres, que
impliquem na sua destruição ou apanha, não poderiam ser comercializadas,
conforme prevê a legislação brasileira, desde 1967, independentemente de quando
foram produzidas. Elas estão, inclusive, na Lista Vermelha de Objetos Culturais
Brasileiros em Risco, do Conselho Internacional de Museus (ICOM, na sigla em
inglês), que elenca os itens do gênero mais vulneráveis ao tráfico ilícito.
A
vedação da comercialização deste tipo de peças, entretanto, esbarra em outros
aspectos, pondera Anauene Soares, advogada especializada em patrimônio
cultural, que atuou como coordenadora técnica da lista brasileira. "Não se
pode destituir totalmente tal prática de compartilhamento cultural das
comunidades indígenas, por ser uma forma de autodeterminação dos próprios
costumes. A questão é como conciliarmos uma proteção ao patrimônio cultural e
um mercado de arte responsável."
Em
âmbito internacional, a venda também pode ser passível de sanções, mas depende
de vários fatores, incluindo o que dizem legislações nacionais vigentes, bem
como a adesão ou não de cada país à Convenção sobre o Comércio Internacional
das Espécies Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES), de 1975.
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Mudanças para olhos atentos
Foi uma
transação proibida pela própria comunidade indígena que deu início à
comercialização das máscaras, conta Coutinho. Uma peça idêntica às usadas em
rituais foi vendida por um indivíduo Apyãwa a um colecionador particular, em
troca de uma arma de fogo.
"Esse
evento repercutiu muito negativamente na aldeia e causou muito conflito. Então
eles resolveram, a partir de várias conversas e reuniões, começar a
confeccionar máscaras diferentes daquelas dos rituais," afirma a
pesquisadora do Centro de Convivialidade-Desigualdade na América Latina Maria
Sibylla Merian (Mecila).
As
mudanças estéticas começam nas dimensões, menores ou maiores do que as máscaras
dos rituais, ao ponto de serem incompatíveis com uma cabeça humana.
Tampouco
as cores são as mesmas nas peças de produção familiar. Nas cara-grande
originais — estas produzidas por coletivos na Takãra, a casa cerimonial dos
Apyãwa —, as penas de arara e diademas seguem combinações cromáticas fixas,
cada uma representando os espíritos de um dos seus tradicionais inimigos.
Combinado
sempre com o vermelho, o azul, por exemplo, é uma referência aos Kayapó, que
iam à guerra pintados com o pigmento do jenipapo. Já o amarelo e o vermelho
correspondem às cores que os Karajá usam nos próprios adornos, enquanto os
Avá-Canoeiro são representados pelos grafismos que os caracterizam.
Os
não-indígenas são também retratados como inimigos. As máscaras que os
representam são exclusivamente da cor vermelha, fazendo lembrar a pele branca
exposta ao sol.
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Soluções nativas
Para as
versões à venda, os Apyãwa recorreram à tapiragem, prática tradicional entre
indígenas sul-americanos. Ela transforma as cores originais das penas,
geralmente ao esfregá-las em substâncias naturais, como a gordura de tartaruga,
o urucum ou o sangue de sapo.
Já os
materiais das máscaras não ritualísticas são ossos de vaca ou madeira. Eles
substituíram as longas caudas de arara vermelha, os afiados dentes de pecaris
ou pirarucus e os bicos de tucano. As matérias-primas nativas não só adicionam
imponência à primeira vista aos originais, com também servem a um simbolismo
próprio dos Apyãwa na representação das suas guerras históricas.
Os
conflitos com vizinhos, epidemias e a ocupação de territórios pela agropecuária
já arriscaram levar os Apyãwa à extinção. Eram cerca de 50 indivíduos estimados
por especialistas nos anos 1950.
As
seguintes vendas de máscaras acompanharam o reflorescimento espiritual,
contrariando receios de que o novo comércio canibalizasse práticas ancestrais,
relata Coutinho. Segundo a antropóloga, foi um período de "afirmação
interna, com a retomada de rituais depois de um quase desaparecimento, e, ao
mesmo tempo, de projeção para o mundo exterior".
Koxamare'i
Tapirapé se descreveu emocionada ao testemunhar na Alemanha o trabalho dos seus
anciãos . "Para meu povo é muito importante. Um dia, as futuras gerações
Apyãwa vão vir também conhecer."
No Mato
Grosso, as máscaras sagradas continuam sendo usadas anualmente pelos Apyãwa,
nas festas da cara-grande. A crença indígena é de que os espíritos ficam nas
peças, que, por isso, são destruídas no dia seguinte.
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Resistindo a violências
Em
2020, 917 indivíduos Apyãwa foram contabilizados por dados oficiais levantados
pelo Instituto Socioambiental (ISA), divididos nas Terras Indígenas Urubu
Branco e Tapirapé/Karajá.
O povo
indígena hoje convive com a pressão fundiária decorrente das invasões de
garimpeiros e fazendeiros na transição entre o Cerrado e a Amazônia. O seu
território figura entre os mais atingidos por queimadas no Brasil.
Para
Nivaldo Paroo'i, o papel da viagem à Alemanha era fazer com "que as
pessoas não vejam as máscaras [só] como arte, mas sim [que enxerguem] os vários
conhecimentos produzidos na comunidade" dos Apyãwa.
"Estas
máscaras permitem evocar, como eles próprios explicam, por meio destes objetos,
a construção de relações com o mundo dos brancos, bem como as diferentes
estratégias indígenas para controlar o seu patrimônio," diz Leandro
Varison, curador da exposição sobre a Amazônia.
Os dois
Apyãwa participaram de três dias de eventos em museus de Bonn e Colônia, com
apoio do governo brasileiro e do Mecila.
As
máscaras cara-grande também compõem os acervos do Museu de Arte de São Paulo
Assis Chateaubriand (MASP), na capital paulista, o Museu do Quai Branly, em
Paris, e o Metropolitan Museum of Art (The Met), em Nova York, entre outros. É
crescente a preocupação com a origem de objetos culturais indígenas, enquanto
ganha tração o debate sobre repatriações aos povos e países de origem.
Em
2023, uma máscara cara-grande entrou numa lista de 611 itens arqueológicos ou
históricos cuja devolução o Brasil reivindicou da França, numa disputa de quase
uma década entre os dois países. Segundo o governo brasileiro, as peças haviam
sido emprestadas ao Museu de História Natural de Lille e deveriam ter sido
retornadas em 2009.
Fonte:
DW Brasil

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