Dossiê
Ditadura – A defesa indefensável: o que Cavalcanti não leu no caso JK
Era
questão de tempo até a polêmica explodir. Juscelino Kubitschek foi vítima de um
acidente, como concluiu a Comissão Nacional da Verdade (CNV) em 2014, ou de um
atentado, como sustenta agora a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos
Políticos (CEMDP)?
Poucos
dias após o anúncio da CEMDP, o jurista José Paulo Cavalcanti Filho, integrante
da extinta CNV, saiu em defesa das antigas conclusões com um artigo que não faz
justiça à sua reputação. Em vez de explicar por que a CNV se contentou com
versões já desmentidas pelos fatos, preferiu atribuir as conclusões da CEMDP à
militância petista. Dos 6 membros da CEMDP há apenas uma deputada petista.
Segundo
ele:
“Para
lembrar, em 22 de abril de 2014 apresentamos, Pedro Dallari e eu, no CCBB
(Brasília), laudo da perícia que fizemos na Comissão Nacional da Verdade. Com
139 páginas. Firmado por cinco renomados peritos (os melhores, segundo a PF),
que trabalharam nele desde 2012. Examinando 23 outras perícias e afins, já
antes realizadas. Mais 298 negativos de fotos referentes a imagens do caso. E
realizando novos exames.”
E tome
teoria conspiratória a torto e a direito:
“Fato
curioso é que, quando estávamos nos preparando para essa apresentação ao
público, alguns jornalistas da Folha de S.Paulo informaram que a Comissão da
Verdade de São Paulo acabava de apresentar laudo próprio, indicando que JK
teria sido assassinado. As mesmas pessoas de agora. E os mesmos argumentos.
Considerando que estávamos divulgando nosso laudo naquele momento, e se
quisessem mesmo apurar a verdade, o mínimo que se deveria esperar é que
PRIMEIRO estudassem nosso laudo; para DEPOIS, e já considerando tudo que
dissemos, apresentar o deles. Aceitando ou rejeitando aquele nosso. Mas
preferiram divulgar alguns minutos antes…”
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Criticou sem ler
Há um
detalhe que demole o argumento de Cavalcanti: todo o trabalho da CEMDP não se
baseou no laudo da Comissão da Verdade de São Paulo que ele combate, mas na
perícia encomendada a Sérgio Ejzenberg, engenheiro de tráfego, mestre em
transportes e perito em sinistros pela metodologia do Northwestern University
Traffic Institute, dos EUA. Cavalcanti criticou sem ler e concluiu, sem
confirmar, que se tratava dos “mesmos argumentos”. É um trabalho de petistas, e
não se fala mais nisso.
O
problema é que os argumentos não são os mesmos — e não vêm de militantes, mas
de um método. O cerne metodológico de Ejzenberg é a separação entre
investigação e reconstrução. A investigação é a coleta e o registro
disciplinado da evidência física: reconhecer e anotar os vestígios na via e no
veículo, ouvir envolvidos e testemunhas, medir e fotografar a cena, produzir
croquis e diagramas pós-colisão. A reconstrução é a etapa analítica seguinte —
interpretar esse material para descrever a colisão e a cadeia de eventos que
levou ao impacto, com o máximo de detalhe.
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A perícia que ele não leu
A tese
central da versão oficial, repetida pela CNV, era esta: o Opala (placa
NW-9326-RJ) sofreu colisão tangencial na lateral traseira esquerda com o ônibus
da Viação Cometa (prefixo 3148), derivou cerca de 30° para a esquerda, transpôs
o canteiro central e invadiu a pista contrária, onde colidiu de frente com uma
carreta Scania-Vabis carregada com cerca de 30 toneladas de gesso. O acidente
se deu no km 328 (antigo 164/165) da Dutra, em trecho retilíneo a uns 80 metros
do fim de uma curva. A identidade das tintas entre os dois veículos, confirmada
por espectrografia (Termomecânica/IC-SP), era a peça material que supostamente
“amarrava” o carro de JK ao ônibus: a prova de um primeiro toque lateral antes
da travessia para a contramão.
A
perícia de Ejzenberg não trata esses vestígios como prova de colisão, e sim
como evidência mal interpretada — ou produzida em outro momento. A
reinterpretação decisiva recai sobre o paralama: o enrugamento da lateral
traseira esquerda, apontado em 1976 como prova do choque com a Cometa, teria
sido provocado, na verdade, pela colisão frontal com a carreta. O dano
atribuído ao roçar do ônibus é reatribuído ao impacto de frente — o que retira
da equação a necessidade de qualquer contato prévio.
Há um
segundo elemento que desmonta a cadeia material: parte dos danos não seria nem
do acidente. Ao comparar imagens do local com fotos feitas após a remoção do
veículo, o MPF concluiu que outros danos na traseira do Opala ocorreram depois
do guinchamento. Do ponto de vista pericial isso é grave: significa que
vestígios usados em 1976 como “prova” da colisão podem ter sido gerados no
manuseio posterior, contaminando a cena.
O
fechamento vem da reconstrução em 3D, que torna a transferência de tinta não
apenas desnecessária, mas incompatível. A simulação refaz o momento na Dutra,
em Resende, e mostra o Opala atravessando para a pista contrária sem tocar o
ônibus, sublinhando a ausência de marcas de frenagem. O suposto contato que
teria provocado a perda de controle seria fisicamente impossível nas condições
descritas pela perícia da época.
Vale a
ressalva de método, que afasta qualquer leitura de “nova prova”: a abordagem de
Ejzenberg é de revisão documental e simulação dinâmica, não de novo exame
químico-físico da tinta. Ele foi convidado pelo MPF para examinar os documentos
de 1976 e 1996 do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), e a própria
CEMDP não realizou novas perícias — consolidou estudos, depoimentos e
investigações anteriores, recorrendo ao princípio jurídico do in dubio pro
victima. A tinta não foi reanalisada em laboratório meio século depois. O que a
perícia faz é demonstrar que a interpretação dada àqueles vestígios em 1976 é
insustentável diante da física da colisão.
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A prova do pudim
E aqui
está o ponto decisivo, e pouco lembrado: a tese da batida do ônibus já fora
rejeitada judicialmente — duas vezes — quatro décadas antes de o MPF a
sistematizar.
O
Ministério Público de Resende denunciou Josias Nunes de Oliveira, motorista da
Cometa, por imprudência: velocidade excessiva, colisão tangencial com o Opala e
o consequente desgoverno fatal. O juiz Gilson Vital Vitorino julgou a ação
improcedente. O fundamento foi duplo: a prova testemunhal — os nove passageiros
ouvidos negaram qualquer choque — e a desqualificação técnica do laudo do ICCE.
A sentença registrou que o local não fora preservado, que a descrição da curva
e do recapeamento era omissa, que o cálculo de velocidade do ônibus era
duvidoso e que o laudo de tintas sequer trazia a assinatura dos analistas, em
violação ao art. 159, §2º, do Código de Processo Penal. Diante do conflito
entre prova testemunhal e pericial, o juiz rejeitou a pericial e absolveu, em
nome da presunção de inocência.
O
Ministério Público apelou. O II Tribunal de Alçada Criminal, relator o juiz
Lizardo de Lima, negou provimento e manteve a absolvição — com um argumento
físico que ecoa o de Ejzenberg 41 anos antes: se o ônibus tivesse atingido a
lateral esquerda do Opala ao longo de mais de um metro, vindo em maior
velocidade, o carro teria sido arrastado pelo coletivo, o que não ocorreu. E
sobre as tintas, o acórdão foi explícito: a identidade espectrográfica, sem
outros fatores de convicção, “não tem preponderância absoluta”, pois aquelas
tintas não eram exclusivas dos dois veículos.
A
consequência para o debate atual é direta. Ao reafirmar a colisão como fato
provado pelas tintas, a CNV não contraria apenas o MPF — contraria a própria
coisa julgada penal do caso. O acórdão de 1978 e o laudo de 2019 dizem, no
essencial, a mesma coisa.
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As falhas da CNV
No caso
específico de JK, a CNV incorreu em quatro omissões:
1. Ignorou a coisa julgada. Não enfrentou a
absolvição do motorista do Cometa, decisão que já assentara, em duas
instâncias, a inexistência de colisão prévia.
2. Ignorou as contradições do próprio ICCE —
em especial o enrugamento do paralama, atribuído ao ônibus quando decorria do
impacto frontal com a carreta.
3. Ignorou a contaminação da cena — os danos
na traseira do Opala produzidos após o guinchamento, que viciam os vestígios
usados como prova.
4. Não enfrentou a dinâmica. A reconstrução
mostra a travessia para a contramão sem qualquer toque no ônibus e sem marcas
de frenagem; o contato alegado é fisicamente impossível.
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A última parada
Resta o
que transforma um detalhe logístico em peça central da tese do atentado: o
tempo e o testemunho.
A
explicação canônica é prosaica, e é justamente o que alimenta a suspeita. JK
parou no Hotel-Fazenda Villa-Forte, no km da Dutra próximo a Resende, para um
encontro — segundo depoimento colhido pela Comissão da Verdade de São Paulo,
uma reunião com o filho do dono do estabelecimento. Uma parada de rotina numa
viagem Rio–São Paulo.
O
incômodo está na identidade do anfitrião. O proprietário era o brigadeiro
Newton Junqueira Villa-Forte, um dos criadores do Serviço Nacional de
Informações (SNI), com ligações à cúpula do regime — Golbery e Figueiredo,
então chefe do SNI. A coincidência fica mais pesada quando se lembra que
Figueiredo, o general eleito justamente após a morte de JK, havia sido aluno do
brigadeiro. A última parada de Juscelino antes de morrer foi numa propriedade
ligada ao aparato de inteligência da ditadura, no momento em que ele dava os
primeiros passos para voltar à política presidencial.
E há o
detalhe que fecha o quadro. O acidente ocorreu pouco mais de dois quilômetros
depois do hotel, de onde JK havia saído minutos antes — três minutos, segundo
algumas fontes. Decisivo: pelo depoimento do filho de Newton, o motorista
Geraldo Ribeiro reclamou, antes de partir, que alguém havia “mexido no carro”.
A mesma cena aparece na apuração de Carlos Heitor Cony, reproduzida no
Relatório JK da Comissão Municipal: ao deixar o estacionamento, Ribeiro
estranhou o Opala e perguntou se alguém havia mexido no veículo.
Foi
essa a viagem que terminou no km 328 da Dutra. Cavalcanti pode chamá-la de
acidente. A Justiça, em 1978, e a engenharia, em 2019, já disseram o contrário.
Fonte:
Por Luís Nassif, no Jornal GGN

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