Dona
de produtora do ‘Dark Horse’ expandiu negócios depois de conhecer Mario Frias
Moradora
da Brasilândia, na periferia norte de São Paulo, Karina Gama, 47, dona da
produtora de “Dark Horse”, costuma sair cedo de casa e enfrentar o trânsito até
a rua Haddock Lobo, na região nobre dos Jardins, onde administra suas empresas.
Ela
está na direção de ao menos seis empreendimentos, que não se restringem mais à
esfera cultural nem à cidade onde vive. Neste ano, começou uma holding de
instituições não-financeiras, a Gama Participações Ltda, em Aracaju (SE), e
virou sócia da Upcon Serviços Especializados Ltda, voltada à construção de
edifícios, com sede em Salvador (BA).
Sua
ascensão profissional coincide com o momento em que conheceu o deputado federal
Mario Frias (PL-SP). Os dois foram apresentados quando o ex-ator-global assumiu
a secretaria de Cultura no governo Bolsonaro, em 2020, e se conectaram por
afinidade ideológica, segundo fontes ouvidas pela reportagem.
A
amizade abriu as portas para que Karina ganhasse projetos do campo político
conservador. A partir de 2020, suas empresas passaram a receber dinheiro para
trabalhar em campanhas do PL, inclusive a de deputado federal de Mario Frias, e
verbas de emendas, como mostrou a Folha de S.Paulo.
Um dos
maiores contratos veio do chamamento público de R$ 108 milhões, da Prefeitura
de São Paulo, para fornecer wi-fi a comunidades carentes. O acordo está sob
investigação do Ministério Público e da Polícia Civil, que realizou operação em
endereços ligados a Karina nesta segunda-feira (1º).
Nem
Frias nem a empresária responderam à reportagem sobre a ascensão dos negócios
de Karina desde que ela conheceu o parlamentar.
Apesar
de administrar valores milionários, Karina não tem imóveis registrados em seu
nome, segundo pesquisa em cartórios do estado de São Paulo. Ela requereu a
concessão de uso da casa da família na Brasilândia, por meio de um programa
para pessoas de baixa renda, mas o pedido foi indeferido por não preencher os
requisitos previstos em lei.
Com
Wemerson Marinho, de quem está se divorciando, firmou contrato em 2023 para
comprar uma casa de mais de R$ 2 milhões em Santana de Parnaíba (SP), mas
deixou de pagar as parcelas no ano passado. O caso está na Justiça.
Mãe de
dois filhos, Karina é evangélica desde os 16 anos e frequentadora do Templo de
Salomão na Igreja Universal. É descrita como de trato cordial, mas com “rolos
nos negócios” que afastaram antigos parceiros.
Ela diz
que o seu interesse por projetos sociais veio da religião, o que a levou a
atuar, a partir de 2014, no Instituto Conhecer Brasil, do qual é presidente. O
instituto é uma associação privada, sem fins lucrativos, que recebeu dinheiro
de emendas de Frias para projetos envolvendo letramento digital e esportes,
além do contrato com a prefeitura de São Paulo.
Karina
tinha, antes de 2020, a K F da Gama Produções, empresa individual aberta em
2005, com capital de R$ 1 mil, voltada a atividades culturais e de marketing.
Formada
em jornalismo pela Unip (Universidade Paulista), ela lista nas redes sociais
sua experiência na presidência de associações privadas, atuação no Conselho
Municipal do Direito da Criança e do Adolescente na cidade de São Paulo e
trabalhos como secretária-executiva. Segundo fontes, Karina vivia, até 2019,
uma vida de assalariada cuja remuneração não ultrapassava R$ 25 mil.
A
partir de 2020, já sob o governo Bolsonaro, ela mudou o tipo jurídico da K F da
Gama Produções, que viraria a Conhecer Brasil Assessoria Produção e MKT
Cultural, com indícios de aumento da capacidade econômica operacional da
empresa.
No
mesmo ano, fundou a Academia Nacional de Cultura, associação privada que também
recebeu emendas de parlamentares bolsonaristas para uma série sobre heróis
nacionais, valor ainda não pago em razão de pendências no projeto, segundo o
governo do Estado de São Paulo.
Um ano
depois, fundou a Go Up, produtora de “Dark Horse” que não tem filmes
registrados na Ancine (Agência Nacional do Cinema). É sócia-administradora da
empresa nos Estados Unidos, ao lado de Michael Brian Davis.
As
quatro empresas e associações – o ICB, a ANC, a Conhecer Brasil e a Go Up – têm
na Receita Federal o endereço de um escritório virtual, na avenida Paulista,
onde há serviço de recebimento de correspondência simples.
Já o
endereço no qual Karina trabalha, na Haddock Lobo, tem placa do Instituto
Conhecer Brasil no prédio e recebeu a visita, segundo fontes ouvidas pela
reportagem, de Mario Frias e de Eduardo Bolsonaro. Frias, que fez a ponte entre
Karina e a família Bolsonaro, incluindo o senador Flávio (PL-RJ), nega qualquer
irregularidade com dinheiro público nas transações feitas para as empresas de
Karina.
No ano
passado, Karina deu um novo passo nos empreendimentos. Pela ANC (Academia
Nacional de Cultura), lançou a Connect Faith, uma feira de fé e tecnologia
adiada duas vezes antes de estrear com os corredores vazios, registrados em
vídeos acessados pela reportagem.
Inicialmente
programada para ocorrer em outubro de 2024, ela foi adiada para novembro e
depois remarcada para junho do ano seguinte, sob justificativas de
“acontecimentos ocasionados por força maior” e em “virtude da proximidade das
eleições”.
O
evento aconteceu na Expo Center Norte, em São Paulo, e teve como apresentação
principal show do cantor gospel estadunidense Kirk Franklin, com ingressos de
R$ 300 a R$ 500.
A
prefeitura de São Paulo cobriu R$ 3,5 milhões de despesas da feira, via
Secretaria Municipal de Turismo. Os gastos envolvem itens e serviços como
agentes de limpeza, bombeiro, água mineral, café, produtor executivo e
recepcionista. À reportagem a pasta informou que o apoio foi destinado à
infraestrutura do evento, que tinha público estimado em 60 mil pessoas.
Em
fevereiro de 2026, a empresária expandiu o território de atuação e área de
negócio, até então restrita à cultura, abrindo a Gama Participações Ltda, em
Aracaju (SE), com atividades de holding de instituições não-financeiras,
compra, venda e aluguel de imóveis próprios. O capital social é de R$ 100 mil,
e Karina é a única sócia.
No
mesmo mês, ela entrou como sócia da Upcon Serviços Especializados Ltda, quando
Ademar de Sena Sampaio, naquele momento o único sócio, transferiu gratuitamente
quase metade das cotas para Karina, e ela passou a exercer de maneira isolada a
administração da sociedade, voltada à construção de edifícios. A empresa foi
criada em 2016 e teve sede inicial em Brasília, mas agora está em Salvador
(BA). A reportagem tentou falar com Sampaio, que não respondeu.
Karina
Gama não respondeu os contatos da reportagem. Em entrevista anterior, por
escrito, ela elogiou o filme sobre a vida de Jair Bolsonaro. Segundo Karina,
“Dark Horse” merece seis Oscars.
“Posso
dizer que o Mario Frias é um homem da cultura e das artes cênicas, um gênio do
audiovisual e que, efetivamente, trabalhou muito para o sucesso do nosso filme,
que ficou magnífico, formidável mesmo. Quando ganharmos o Oscar, ele estará
comigo em Hollywood levantando a estatueta de melhor filme”, afirmou.
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Evolução das empresas e associações de Karina Gama
• 2005 – Abre a K F da Gama Produções,
empreendimento na área de eventos com capital social de R$ 1 mil, em São Paulo;
• 2014 – Entra no Instituto Conhecer
Brasil, associação privada sem fins lucrativos da qual é presidente, em São
Paulo;
• 2020 – K F da Gama, que vira a Conhecer
Brasil Assessoria Produção e MKT Cultural, muda tipo jurídico e apresenta
indício de aumento da capacidade econômica operacional;
• 2020 – Funda, em São Paulo, a ANC
(Academia Nacional de Cultura), associação privada ligada a atividades
culturais;
• 2021 – Abre em São Paulo a Go Up,
produtora do filme “Dark Horse”, que também opera nos Estados Unidos;
• 2026 – Abre a Gama Participações Ltda,
com atividades de holding de instituições não-financeiras, compra, venda e
aluguel de imóveis próprios e sede em Aracaju (SE);
• 2026 – Entra como sócia da Upcon
Serviços Especializados Ltda, voltada à construção de edifício e com sede em
Salvador (BA).
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Entenda a operação que mira produtora de filme sobre Bolsonaro
A
Polícia Civil de São Paulo realizou, na manhã desta segunda-feira (1º), uma
operação para investigar suspeitas de desvios em um contrato firmado entre a
Prefeitura e o ICB (Instituto Conhecer Brasil). Os mandados de busca e
apreensão miram a Secretaria Municipal de Inovação, a casa de Karina Ferreira
da Gama e as sedes de duas entidades comandadas por ela: o próprio ICB e a Go
UP Entertainment, produtora do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro (PL).
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Veja o que se sabe sobre a operação.
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Quais são os principais alvos da operação policial?
A
Polícia Civil de São Paulo realizou uma operação para cumprir mandados de busca
e apreensão na sede da Go UP Entertainment, produtora do filme ‘Dark Horse’,
sobre Jair Bolsonaro (PL), na casa da dona da produtora, Karina Ferreira da
Gama, na sede da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia e na sede do
Instituto Conhecer Brasil, entidade presidida por Karina.
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O que motivou a operação?
A
operação, autorizada pela Vara de Garantias do TJ-SP, decorre de uma
investigação policial sobre um contrato entre o Instituto Conhecer Brasil e a
gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) na Prefeitura de São Paulo para o
fornecimento de Wi-Fi gratuito, no valor de R$ 108 milhões.
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Quais foram os sinais de alerta detectados?
Conforme
a Folha de S.Paulo informou na última quinta-feira (28), a Polícia Civil pediu
à Justiça acesso a movimentações financeiras sigilosas de Karina e do ICB,
presidido por ela. A solicitação inclui relatórios de inteligência financeira
produzidos pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) sobre
movimentações atípicas e operações suspeitas no CPF de Karina e no CNPJ do
instituto.
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Quais crimes estão sendo investigados?
A
investigação trata dos crimes de frustração do caráter competitivo de
procedimento licitatório, fraude na execução de contrato administrativo e
emprego irregular de verbas ou rendas públicas.
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Qual é a principal suspeita da polícia?
A
polícia suspeita que o Instituto Conhecer Brasil foi contratado irregularmente
pela prefeitura por um valor acima do praticado pelo mercado, e que houve
pagamentos sem que os serviços fossem prestados. Cada ponto de Wi-Fi contratado
pelo instituto custou R$ 1.800, enquanto a Prodam, empresa pública municipal de
tecnologia, presta serviços idênticos por R$ 230 de implantação e R$ 306 de
manutenção mensal por ponto.
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Qual a possível ligação entre a verba municipal e o filme sobre Bolsonaro?
A
polícia suspeita que parte do dinheiro desviado do contrato de Wi-Fi tenha sido
destinada à produção do filme ‘Dark Horse’, sobre Jair Bolsonaro. Os elementos
de inteligência financeira indicam a potencial ocorrência de financiamento
cruzado ilícito, com envio de recursos do instituto para a produtora, além de
possível lavagem de dinheiro por meio de empresas subcontratadas e outras
organizações sociais geridas pela investigada.
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Qual a posição da Prefeitura de São Paulo e de Karina Ferreira da Gama?
A
Prefeitura de São Paulo afirmou que colabora com as investigações, que todo o
material requisitado já havia sido disponibilizado às autoridades e é de acesso
público e que a contratação do Instituto Conhecer Brasil seguiu os princípios
da legalidade, transparência e economicidade. Já Karina negou que o filme sobre
Bolsonaro tenha recebido dinheiro de pessoas ou empresas brasileiras e afirmou
que a contratação pela prefeitura ocorreu de maneira regular, sem ligação com o
filme ‘Dark Horse’.
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Qual foi a reação de Flávio Bolsonaro?
“[Não]
tem nada a ver com o filme”, disse Flávio a jornalistas ao ser questionado
sobre a ação policial após chegar a um evento no Rio de Janeiro nesta manhã.
Como mostrado pelo portal The Intercept, Flávio Bolsonaro trocou mensagens com
o ex-banqueiro Daniel Vorcaro pedindo recursos financeiros para o filme de seu
pai.
• Produtora de ‘Dark Horse’ teve contrato
de R$ 5 milhões com o DF na gestão Ibaneis
A
presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB), Karina Ferreira da Gama —
apontada como produtora do filme “Dark Horse” — aparece como representante da
entidade que firmou um contrato de R$ 5 milhões com o Governo do Distrito
Federal para execução do programa Steam Maker em escolas públicas da capital. O
instituto foi alvo de uma operação policial deflagrada nesta segunda-feira
(01).
O
contrato foi firmado durante a gestão do governador Ibaneis Rocha (MDB), aliado
político da família Bolsonaro e que chegou a ser afastado do cargo por decisão
do Supremo Tribunal Federal após os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
Documentos
da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF) mostram que o
Instituto Conhecer Brasil participou do Termo de Colaboração nº 02/2023, ligado
ao Programa Desafio DF, para implantação de laboratórios maker e ações de
educação tecnológica em 16 escolas da rede pública.
O
projeto previa capacitação de professores, uso de impressoras 3D, kits de
eletrônica, plataformas digitais, ferramentas de monitoramento pedagógico e
laboratórios móveis chamados de “Smart Labs”. O plano de trabalho também
menciona uso de ferramentas como Google Analytics, Tableau, Google Forms, Zoom,
Microsoft Teams e sistemas digitais de monitoramento.
O
contrato original foi firmado em dezembro de 2023 com valor superior a R$ 4
milhões. Em janeiro de 2025, a parceria recebeu novo aditivo de R$ 1 milhão,
elevando o total para R$ 5 milhões.
Dados
disponíveis no próprio portal da FAPDF indicam que, até dezembro de 2024, R$ 4
milhões já haviam sido liberados ao projeto, enquanto a prestação de contas
seguia classificada como “TC em execução”.
O plano
de trabalho do projeto afirma que o programa buscava implementar um modelo de
“educação criativa e transformação digital” em escolas públicas do DF,
utilizando a metodologia STEAM, sigla para ciência, tecnologia, engenharia,
artes e matemática.
O
material institucional do Instituto Conhecer Brasil afirma que o programa
previa:
• capacitação híbrida de professores;
• ambiente digital de formação;
• repositório colaborativo;
• cessão de equipamentos;
• notebooks;
• impressoras 3D;
• máquinas de corte a laser;
• kits de eletrônica;
• materiais consumíveis;
• ferramentas manuais e elétricas.
Os
documentos também indicam que a entidade deveria realizar monitoramento
contínuo do projeto, incluindo pesquisas de satisfação, avaliações trimestrais,
acompanhamento pedagógico e relatórios periódicos enviados à FAPDF.
A
reportagem procurou o Governo do Distrito Federal e Secretaria de Educação para
questionar:
• quais escolas receberam os laboratórios;
• quais equipamentos foram efetivamente
entregues;
• qual o valor total executado;
• quais empresas participaram da execução;
• e quais critérios fundamentaram o
aditivo de R$ 1 milhão enquanto a prestação de contas ainda estava em execução.
A
reportagem também questionou se existe alguma auditoria, procedimento de
controle, investigação ou apuração administrativa relacionada ao programa Steam
Maker, ao Instituto Conhecer Brasil ou à execução do contrato.
Até a
publicação desta reportagem, o GDF e a Secretaria de Educação não haviam
respondido aos questionamentos enviados pela coluna.
Fonte:
ICL Notícias

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