quinta-feira, 4 de junho de 2026


 

O que foi a Revolução Cultural e como ela moldou a história da China há 60 anos?

Revolução Cultural, cujo início está completando 60 anos esta semana, foi um dos períodos mais sombrios da história chinesa.

Em 1966, o líder comunista Mao Tsé Tung ordenou uma campanha nacional para expurgar do governo, da educação e das artes elementos considerados contrarrevolucionários, influências capitalistas e pensamento burguês.

Mao declarava guerra ao passado, às "velhas ideias" e aos "velhos costumes".

E a batalha não seria travada apenas pela polícia ou pelas agências de segurança, mas por cidadãos comuns — especialmente os jovens — contra seus concidadãos.

"A mensagem de Mao era: 'Rebelem-se contra seus professores, contra seus líderes partidários, contra seus superiores, contra os gerentes das fábricas. A rebelião é justificada'", explica o historiador Yafeng Xia, professor da Universidade de Long Island, nos EUA.

A campanha, que oficialmente durou até 1976, transformou completamente a sociedade chinesa e deixou profundas cicatrizes políticas e culturais que ainda estão presentes no país hoje.

<><> A ascensão de Mao e o fracasso do Grande Salto Adiante

Mao Tsé Tung chegou ao poder em 1949, após derrotar as tropas nacionalistas do Kuomintang e estabelecer a República Popular da China, inspirado pelo marxismo.

Após séculos de dinastias imperiais, a China entrou no século 20 com um profundo atraso econômico e marcada por invasões de potências estrangeiras.

As desigualdades entre ricos e pobres, entre áreas rurais e urbanas e entre homens e mulheres eram enormes.

Em 1958, Mao lançou o chamado Grande Salto Adiante, um ambicioso programa concebido para industrializar rapidamente a economia agrária da China e alcançar o Ocidente em poucos anos.

A agricultura foi coletivizada e metas consideradas inatingíveis foram impostas, juntamente com políticas econômicas erráticas que, em última análise, se mostraram contraproducentes.

No início da década de 1960, a economia e a agricultura chinesas entraram em colapso.

Essa situação, combinada com diversos desastres naturais, levou a uma das maiores fomes da história, na qual estima-se que entre 20 e 40 milhões de pessoas morreram.

"Mao sabia que havia ocorrido enormes erros políticos", afirma Yafeng Xia.

Segundo explica o historiador, em 1961 o dirigente deu um passo atrás e outros líderes, como Liu Shaoqi e Deng Xiaoping, ficaram à frente da recuperação econômica.

Em 1964, a economia chinesa parecia estar melhorando.

Mas Mao nunca admitiu completamente ter cometido erros.

De acordo com Xia, o líder também temia que seus sucessores o culpassem pelo fracasso do Grande Salto Adiante e da Grande Fome.

Em 1965, ele começou a preparar seu retorno político rotulando líderes como Liu Shaoqi e Deng Xiaoping (que foi demitido e enviado para trabalhar em uma fábrica de tratores) como "seguidores do capitalismo", uma acusação extremamente grave dentro da retórica comunista chinesa.

<><> O início da Revolução Cultural

Em 16 de maio de 1966, há exatos 60 anos, Mao emitiu uma diretiva com o objetivo de eliminar seus oponentes políticos e, ao mesmo tempo, revitalizar ideologicamente a sociedade.

Segundo o historiador, Mao acreditava que muitos funcionários dos governos central, provinciais e locais haviam se corrompido e não serviam mais ao povo — ou os considerava seguidores dos líderes que ele havia expurgado anteriormente.

"Mao realmente acreditava que estava realizando uma nova revolução comunista, que era necessária uma revolução política constante", observa o historiador.

A mobilização foi massiva: camponeses, operários e, especialmente, estudantes foram convocados a se rebelar contra seus superiores e qualquer pessoa em posição de autoridade.

Tudo isso se desenrolou em meio a uma campanha massiva de culto à personalidade em torno de Mao.

Imagens de milhares de jovens reunidos na Praça Tiananmen, em Pequim, segurando o Pequeno Livro Vermelho de Mao, são um dos símbolos definidores daquela época.

<><> A Guarda Vermelha e a destruição dos 'Quatro Velhos'

O movimento juvenil mais emblemático da Revolução Cultural foi a Guarda Vermelha, composta por milhões de estudantes do ensino médio e universitários que surgiram por todo o país para impor os ensinamentos de Mao.

"Para esses jovens, Mao era Deus. Tudo o que ele dizia era certo", explica Xia.

A campanha dirigia-se contra o que o regime chamava de os "Quatro Velhos": as velhas ideias, a velha cultura, os velhos costumes e os velhos hábitos.

Os guardas vermelhos percorreram a China com o objetivo de destruir as tradições consideradas incompatíveis com a revolução.

Professores, intelectuais e aqueles rotulados como inimigos do Estado eram arrancados de suas casas, amarrados, interrogados, humilhados publicamente e espancados, às vezes até a morte.

Por quase uma década, as universidades ficaram paralisadas e os hospitais funcionaram apenas parcialmente.

Templos, lojas, casas, livros e grande parte do patrimônio cultural da China também foram destruídos.

A violência também atingiu famílias comuns: Xia lembra que seus pais trabalhavam para uma empresa estatal em uma pequena cidade na província de Jiangsu.

Segundo relata, pessoas que não simpatizavam com sua mãe a denunciaram e ela passou dois anos na prisão.

Seu pai, que inicialmente havia respondido ao chamado revolucionário de Mao, acabou sendo perseguido após 1968.

<><> Caos e campo

Em 1968, o movimento havia saído do controle e a China estava mergulhada em uma atmosfera de violência e caos que alguns comparavam a uma guerra civil.

Estima-se que centenas de milhares de pessoas morreram em expurgos e lutas pelo poder.

Mao acabou concluindo que a situação era insustentável e decidiu conter a Guarda Vermelha.

Muitos desses jovens eram estudantes urbanos que viajavam pelo país sem realizar nenhum trabalho produtivo, explica Xia.

A solução de Mao foi enviá-los para o campo para trabalhar como agricultores e "aprender com os camponeses".

Cerca de 16 milhões de jovens foram realocados para áreas rurais, permitindo que as cidades recuperassem alguma aparência de calma.

Embora a história oficial chinesa considere que a Revolução Cultural tenha durado de 1966 a 1976, os três primeiros anos foram os mais radicais e violentos.

A partir de 1969, Mao continuou a expurgar membros do governo e das forças armadas e consolidou seu poder apoiando-se em figuras consideradas radicais, como sua esposa, Jiang Qing.

Juntamente com Zhang Chunqiao, Wang Hongwen e Yao Wenyuan, Jiang formou o grupo que mais tarde seria conhecido como a "Gangue dos Quatro" ou "Bando dos Quatro".

<><> A morte de Mao e o legado da Revolução Cultural

Mao morreu em setembro de 1976.

Após sua morte, o Partido Comunista Chinês o apresentou como um "grande herói" e tentou distanciá-lo dos excessos e horrores da Revolução Cultural, considerada catastrófica no país.

Os novos líderes processaram aqueles que consideravam intelectualmente responsáveis pelas atrocidades, especialmente a Gangue dos Quatro, cujos membros foram condenados à prisão perpétua.

Segundo Xia, o Partido Comunista não podia se dar ao luxo de uma condenação total de Mao, pois isso teria colocado em questão a própria legitimidade do regime.

Portanto, os sucessores de Mao sustentaram que o líder estava velho e doente, e que havia sido manipulado em seus últimos anos.

Com o tempo, porém, alguns dos erros do líder foram oficialmente reconhecidos.

Deng Xiaoping (já reabilitado) resumiu essa visão com uma frase que se tornaria famosa: Mao "estava certo 70% das vezes e errado 30% das vezes".

Deng, que se tornou o líder supremo em 1978, liderou uma mudança de rumo que ajudaria a moldar a China contemporânea.

O aparato repressivo do Estado permaneceu, mas o país começou a reconciliar duas ideias que dividiram o mundo durante grande parte do século 20: o comunismo político e a abertura econômica capitalista.

Em um país governado por um partido comunista, o capitalismo deixou de ser visto como uma contradição.

Décadas depois, a figura de Mao continua gerando divisões na China.

Segundo Xia, muitos cidadãos ainda idealizam aquela época e acreditam que, durante o maoísmo, "os funcionários geralmente não eram corruptos".

"Mais de 50% dos chineses ainda acreditam que Mao foi um grande líder", afirma o historiador.

No entanto, ele ressalta: "pessoas mais instruídas sabem o que aconteceu durante a Revolução Cultural".

¨      Como o Partido Comunista da China controla o país

Desde 1º de outubro de 1949, quando Mao Tsé-tung promoveu a revolução comunista e chegou ao poder, o partido tem o controle total do país — passando pelo governo, a polícia e o Exército.

Foi sob a direção do partido que a China passou de um país pobre e rural a uma potência econômica mundial. E, no meio deste processo, não tolerou qualquer oposição, reprimindo dissidências.

No dia em que a República Popular da China comemora 70 anos, a BBC explica como o Partido Comunista tem o controle sobre o país:

<><> Contexto histórico

Quando Mao Tsé-tung chegou ao poder, impôs um regime socialista totalitário rígido.

No entanto, o fracasso econômico do Grande Salto para Frente (1958-1962), que buscava transformar a economia agrária do país e que acabou provocando escassez de alimentos, gerando a perseguição ideológica da chamada Revolução Cultural (1966-1976), a campanha de Mao contra os partidários do "capitalismo", que junto com a fome, causou milhões de mortes em todo o país.

Após o falecimento de Mao em 1976, o país emergiu lentamente da estagnação, com as reformas promovidas por Deng Xiaoping, então secretário-geral do Partido Comunista.

Em meio a um cenário de pobreza e fome, Xiaoping rompeu com o status quo e implementou uma série de reformas econômicas centradas na agricultura, num ambiente liberal para o setor privado, na modernização da indústria e na abertura da China para o comércio exterior.

Para ele, não importava se o sistema econômico chinês era comunista ou capitalista, mas sim se funcionava. E foi assim que promoveu um verdadeiro "milagre econômico".

As reformas econômicas e sociais introduzidas por Deng Xiaoping foram continuadas por seus sucessores, Jiang Zemin e Hu Jintao.

O atual presidente, Xi Jinping, chegou ao poder em 2012 e desde então lidera o avanço da China como superpotência global.

<><> 90 milhões de membros

O Partido Comunista conta com cerca de 90 milhões de membros, o que equivale a aproximadamente 7% da população do país.

Seu papel de liderança está previsto na Constituição e, embora existam vários outros pequenos partidos, eles são obrigados a apoiar os comunistas.

A filiação ao Partido Comunista é considerada essencial para quem quer ascender profissionalmente — seja na política, no mundo dos negócios ou até mesmo na área de entretenimento.

Isso vale inclusive para grandes empresários como Jack Ma, fundador da gigante do comércio eletrônico Alibaba, Ren Zhengfei, fundador da empresa de telecomunicações Huawei, ou celebridades como a atriz Fan Bingbing.

Se são vistos contrariando os ideais do partido, precisam se desculpar publicamente para escapar de detenções secretas e perseguições. E foi exatamente isso que aconteceu com Fan no ano passado.

A estrela do cinema chinês ficou desaparecida por cerca de três meses, após ser acusada de evasão fiscal, o que gerou uma série de especulações, e ressurgiu pedindo desculpas aos fãs, ao Partido Comunista e ao governo.

<><> Uma pirâmide de poder controlada do topo

O Partido Comunista está organizado como a estrutura de uma pirâmide — com o presidente Xi Jinping no topo.

A partir da base, as organizações partidárias elegem os órgãos superiores até chegar à liderança.

O Congresso Nacional do Partido Comunista da China, realizado a cada cinco anos, nomeia um comitê central que, por sua vez, escolhe o politburo - comitê que reúne as principais lideranças do partido.

Essas eleições geralmente são decididas e aprovadas de antemão, e o verdadeiro poder está nas mãos do politburo.

No topo da pirâmide, está finalmente Xi Jinping. Em 2017, o partido abriu caminho para ele se tornar presidente vitalício. E também votou para consagrar seu nome e ideologia na constituição, o que o equiparou a Mao Tsé-Tung.

<><> O todo-poderoso politburo

O Partido Comunista da China controla o país — passando pelo governo, a polícia e o Exército.

Do alto da pirâmide, o politburo garante que a linha partidária seja mantida e controla três outros órgãos importantes:

- Conselho de Estado;

- Comissão Militar Central;

- Assembleia Nacional Popular ou parlamento.

O Conselho de Estado é o governo, liderado pelo primeiro-ministro — atualmente Li Keqiang —, que é subordinado ao presidente.

O papel dele é implementar políticas partidárias em todo o país, administrando, por exemplo, o plano econômico nacional e o orçamento do Estado.

A ligação entre os militares e o partido comunista remonta à Segunda Guerra Mundial e à subsequente guerra civil. Essa conexão é institucionalizada pela Comissão Militar Central, que lidera as Forças Armadas da China.

A comissão controla o arsenal nuclear do país e seus mais de 2 milhões de soldados, o maior efetivo militar do mundo.

Embora exista um parlamento, a chamada Assembleia Nacional do Povo apenas aprova as decisões tomadas pela liderança do partido.

<><> Pulso firme com a opinião pública

O Partido Comunista não tolera dissidências, tampouco permite partidos da oposição. Os críticos do governo correm o risco de serem perseguidos.

A repressão contra aqueles que se manifestam contra as autoridades não dá sinais de que vai diminuir, ao passo que a repressão aos direitos humanos se intensificou sob a gestão de Xi Jinping.

As represálias não poupam sequer membros do alto escalão do partido. Bo Xilai, que já foi um poderoso líder do partido regional, foi condenado à prisão perpétua em 2013 após ser acusado de corrupção e abuso de poder.

A China insiste que respeita os direitos humanos e justifica seu pulso firme em relação à dissidência argumentando que tirar milhões de pessoas da pobreza supera as liberdades individuais.

A imprensa e a internet — incluindo as redes sociais — são rigidamente controladas no país. A chamada "Grande Muralha" de censura na internet bloqueia o acesso a determinados sites estrangeiros, assim como ao Google, Facebook, YouTube e Twitter.

A digitalização da vida cotidiana permite que o partido implemente ainda tecnologias de monitoramento avançadas, que culminaram no projeto de sistema de crédito social — por meio do qual o comportamento de cada um dos cidadãos seria pontuado em uma espécie de ranking de confiança.

Esse controle quase total da imprensa ajudou o partido a influenciar a opinião pública e reforçar ainda mais o próprio controle.

 

Fonte: BBC News


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