'O
Pix não sofre nenhuma ameaça', diz ex-diretor da OMC sobre relatório dos EUA
O
anúncio de que o governo dos Estados
Unidos pode retomar a imposição de tarifas sobre
produtos brasileiros, ocorrido nos últimos dois dias, detonou uma disputa
política entre os dois principais pré-candidatos à Presidência da República, o
presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) e o senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL). Lula acusa Flávio de ter pedido a imposição de
tarifas ao Brasil durante visita a Donald Trump, nos Estados Unidos, na semana
passada. Do outro lado, Flávio Bolsonaro acusa o governo brasileiro de não ter
conseguido negociar com os Estados Unidos de forma satisfatória. Mas embora a
medida, caso implementada, possa afetar pelo menos 20% de todos os produtos
exportados aos Estados Unidos, parte dos embates políticos tem se dado em torno
de um ponto: o Pix.
Lula vem usando o argumento de que os Estados Unidos seriam contra o Pix,
mecanismo criado pelo Banco Central que permite transações financeiras
instantâneas e gratuitas. Flávio, por outro lado, usa como argumento o fato de
que o Pix foi lançado em 2020, durante o governo de Jair Bolsonaro.
O
documento divulgado pelo Escritório de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na
sigla em inglês) na segunda-feira como resultado de uma investigação comercial
fez diversas menções ao Pix, classifica o mecanismo como um "campeão
nacional" e diz que ele representaria uma ameaça à atuação de empresas
norte-americanas que atuam no segmento de meios de pagamento.
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Confira os principais trechos da entrevista:
·
Qual é o impacto imediato desse anúncio em relação às
tarifas para a economia brasileira?
Roberto
Azevêdo - Voltamos
à situação que vivíamos antes de a Suprema Corte norte-americana derrubar as
tarifas em janeiro deste ano. O que está acontecendo agora é que aquelas
tarifas estão sendo reintroduzidas em um patamar mais baixo. Até janeiro, as
tarifas estavam num patamar de 40%. Agora, estão sendo reintroduzidas a 25%.
Antes, era exorbitante, mas ainda é muito alto.
·
Quão prejudiciais essas tarifas podem ser para a economia
brasileira?
Azevêdo
- Já
eram bastante prejudiciais e continuarão sendo por vários motivos. Não apenas
por fechar o mercado americano, mas por impedir a integração de determinados
segmentos da cadeia produtiva brasileira nas cadeias de valor globais que
passam pelos Estados Unidos. Os Estados Unidos são um mercado no qual o Brasil
consegue vender produtos de alto valor agregado, ao contrário das nossas
exportações para a China, para onde nós vendemos muitas commodities. Nos
Estados Unidos, vendemos máquinas, equipamentos, produtos acabados e
semimanufaturados. É um mercado muito especial e esse mercado vai se fechando
progressivamente.
·
O governo alega que havia uma negociação em curso, com um
prazo de 30 dias que ainda não havia esgotado. Houve uma quebra de confiança na
negociação?
Azevêdo
- Essa
negociação vinha acontecendo de maneira muito incipiente. Todas as informações
que eu tenho são de que houve um ou dois contatos muito superficiais. Foram
contatos em alto nível, entre o Jamiesson Greer (secretário de Comércio dos
EUA) e nosso ministro da Indústria e Comércio (Márcio Elias Rosa). Mas é muito
difícil chegar a resultados que alterem o contexto da decisão que foi proposta
com negociações nesse estágio de tratativa. Precisaríamos ter algo mais
avançado, uma coisa mais palpável e isso não estava presente. A proposta de
adoção de medidas da forma que foi formulada não surpreende.
·
O que resta ao governo brasileiro fazer para evitar que
essas sanções sejam de fato impostas?
Azevêdo
- Sobretudo,
negociar, que é o que todos os outros países estão fazendo. Eu vejo algumas
pessoas no Brasil falando em retaliação, em usar a lei de reciprocidade. Até
podemos fazer, mas, francamente, nenhum outro país fez isso até hoje. Só a
China. Mas a gente não pode comparar o poder de fogo da China com o brasileiro.
A China fez isso e conseguiu fazer com que os Estados Unidos repensassem muito
do que eles vinham fazendo. Mas a China é um mercado que é fundamental para os
Estados Unidos. O Brasil não é. O Brasil não terá nenhuma capacidade de fazer
os Estados Unidos reverem as suas estratégias por meio de retaliações ou
medidas de reciprocidade. A gente tem que tomar cuidado para não deixar o
discurso eleitoral ganhar o jogo e prevalecer sobre os interesses concretos e
os interesses comerciais da economia brasileira [...] O importante é ter a
cabeça fria, negociar e procurar reduzir o impacto econômico, comercial e
social no Brasil da melhor maneira possível e não criar animosidade e um clima
de polêmica ou de guerra com fins estritamente eleitorais.
·
Na sua avaliação, é isso que o presidente Lula tem feito?
Azevêdo
- Não
sou eu que vou julgar qual é o impacto. Estou apenas dizendo que é necessário
que nós tenhamos muito presente o fato de que quem vai pagar a conta desse
atrito e dessa não convergência serão as empresas brasileiras, os trabalhadores
brasileiros que estão empregados e que vão, possivelmente, perder o emprego ou
ter seus salários afetados por essa situação de embate com os Estados Unidos.
·
O presidente Lula tem atribuído esse anúncio à atuação
política do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro. Qual é a
sua avaliação em relação a isso? Qual é a responsabilidade que ele teve nisso?
Azevêdo
- Acho
que na parte política os políticos que se entendam. Haverá acusações de parte a
parte. Um lado vai dizer que o outro não quer negociar. O outro vai dizer que o
outro lado foi quem provocou isso. Essas acusações, para mim, não resolvem o
problema e não vão levar adiante medidas e ações que possam reduzir o impacto
contra a nossa economia.
·
O Brasil tem negociado bem com o governo dos Estados
Unidos ou o anúncio dessas tarifas mostra que não e que o governo falhou em
tentar uma negociação?
Azevêdo
- A
negociação depende de dois lados. É preciso que os dois lados queiram negociar
e eu não tenho muita certeza de que os dois lados tenham feito o necessário
para engatar, efetivamente, uma negociação que levasse a um desfecho positivo
ou mutuamente satisfatório. As negociações poderiam ter sido encaminhadas de
uma maneira mais assertiva, mais construtiva, mais inovadora, mais criativa.
Não acho que isso tenha acontecido e não vai ser agora, na reta final, que nós
vamos conseguir mudar esse quadro de uma maneira muito significativa. Eu,
particularmente, não acredito que isso vá acontecer.
·
Mas, embaixador, objetivamente, houve falha do governo
brasileiro nesse processo? E se sim, qual?
Azevêdo
- Acho
que os dois governos não demonstraram o empenho necessário para resolver esse
problema de forma negociada.
·
E por que motivo o governo brasileiro faria isso?
Azevêdo
- Aí
você deve perguntar para o governo brasileiro, não para mim.
·
Há uma disputa de narrativas para saber quem foi o
responsável por isso. Na sua avaliação, o senador Flávio Bolsonaro tem
responsabilidade sobre isso ou quem tem responsabilidade sobre isso é o
presidente Lula?
Azevêdo
- Quem
tem mais responsabilidade sobre isso é o presidente Trump. Foi ele quem tomou a
decisão de adotar essas medidas para reindustrializar os Estados Unidos, para
trazer investimentos para dentro dos Estados Unidos, para arrecadar recursos e
arrecadar fundos para viabilizar programas de incentive fiscal que ele vem
adotando em outras áreas. É uma decisão que não afetou apenas o Brasil, mas
também outros vários países.
·
O relatório que foi divulgado pelo escritório comercial
dos Estados Unidos faz muitas menções ao Pix. Por que é que há essa ênfase tão
grande na ferramenta Pix?
Azevêdo
- Não
tem uma ênfase diferente das demais. São seis temas que eles levantam. No
relatório tem corrupção, desmatamento, etanol, tem propriedade intelectual,
plataformas digitais. O Pix é uma delas. Não vejo nada de excepcional no
tratamento que eles dão ao Pix. Pelo contrário, eles alegam que o problema do
Pix não é o Pix em si, mas a forma como o Pix é administrado, porque ele é
administrado pelo próprio órgão regulador que é o Banco Central. O
questionamento é sobre o fato de que é o órgão central que impõe as regras
sobre os concorrentes do Pix, que vêm a ser, por exemplo, Visa, Mastercard,
etc. No Brasil, está se fazendo muito alarde em torno do Pix, mas não acho que
o Pix vai sofrer nenhuma alteração. Eles (os EUA) não vão pedir nada disso. O
que eles gostariam é que o Pix fosse administrado de forma diferente e o pedido
pode ser ou não atendido pelo Brasil.
·
Na sua avaliação, o Pix sofre algum tipo de ameaças?
Azevêdo
- Não,
a meu ver, não. O Pix em si não sofre nenhuma ameaça.
·
Mas qual é o interesse dessas grandes empresas em relação
ao Pix?
Azevêdo
- O
Pix aumentou a capacidade do consumidor brasileiro participar nas plataformas
digitais nacionais. Nós, no comércio eletrônico e várias outras formas de
engajamento econômico. Eles próprios reconhecem isso. O que eu ouço com
frequência é o fato de que o Pix é operado pelo Banco Central e o Banco Central
é o agente regulador. Portanto, seria desleal com os competidores do Pix o fato
de que o Pix é operado pelo próprio agente regulador. Essa é a queixa que eu
ouço e é isso que eu entendo que está sobre a mesa.
·
A questão do Pix vem sendo utilizada de forma política?
Azevêdo
- Eu
acho que tudo está sendo explorado de forma política, por um lado ou pelo outro
lado. É inevitável. Estamos em um ano eleitoral. É claro que essas coisas vão
ser exploradas do ponto de vista eleitoral. Seria absolutamente impensável que
não fossem exploradas. O que nós não podemos é perder a perspectiva do impacto
real sobre a economia.
·
Há possibilidade de o governo recorrer à OMC, ser contra
essas tarifas e qual a capacidade da OMC de resolver uma disputa como essa
hoje?
Azevêdo
- Tanto
o Brasil quanto outros países já recorreram à OMC, mas como todos nós sabemos,
o órgão de solução de controvérsias da OMC está inoperante e, portanto, não vai
levar a nenhuma consequência prática. Levar o tema à OMC tem sempre o poder de
elevar a visibilidade do assunto e questionar a legitimidade dessas medidas.
Mas não podemos esperar um resultado juridicamente efetivo na OMC. Isso
seguramente não irá acontecer.
¨
EUA ameaçam taxar Brasil por trabalho forçado na pecuária
e governo Lula diz que pode adotar reciprocidade
O
governo dos Estados
Unidos incluiu o Brasil em uma lista de 59 países, além da
União Europeia, que "não conseguiram" proibir a importação de bens
produzidos com trabalho forçado — e que, segundo as autoridades americanas,
devem ser sujeitos a mais
tarifas retaliatórias por causa disso. O Escritório do
Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) propõe que o
Brasil e outros 53 países citados no relatório recebam tarifas adicionais de
12,5%. Outras seis economias devem receber taxação de 10%. Não está claro se
essas tarifas se adicionam a outras já em vigor — e como elas se aplicariam em
relação a listas de
exceções.
O
governo brasileiro manifestou "profunda discordância" com a inclusão
do país na lista. "É lamentável que tema tão relevante como o da proteção
de condições dignas para milhões de trabalhadores e trabalhadoras seja
desvirtuado para servir de justificativa a medidas protecionistas
unilaterais", afirmou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio
e Serviços (MDIC), em nota publicada na tarde de quarta-feira (3/6). "A
Organização Internacional do Trabalho (OIT) reconhece há décadas o Brasil como
referência internacional no combate ao trabalho forçado, graças à combinação de
fiscalização, responsabilização, cooperação institucional e compromisso
político", destacou ainda a pasta.
O MDIC
afirmou também que o Brasil pode recorrer à Lei de Reciprocidade para responder
a "situações de injustiça contra o Estado brasileiro, sem amparo nas
regras do comércio internacional" e reafirmou a expectativa de que as
recomendações preliminares do USTR não se convertam em tarifas efetivas. No
caso do Brasil, o relatório do USTR destaca o fato de "pesquisas
independentes" sugerirem que "pecuaristas brasileiros constam na
chamada 'Lista Suja'"
(leia abaixo na reportagem). A BBC News Brasil entrou em contato com
associações que representam a pecuária brasileira, mas ainda não houve
manifestação sobre o novo relatório.
Os EUA
ainda estão em fase de
consulta sobre essas medidas. O USTR realizará uma audiência pública
sobre sua proposta em 7 de julho. "O fracasso dos nossos parceiros
comerciais mais importantes em abordar a importação de mercadorias produzidas
com trabalho forçado é inaceitável. Isso cria uma dinâmica em que os
trabalhadores americanos são forçados a competir globalmente em condições
desiguais", disse o representante-geral de Comércio dos EUA, Jamieson
Greer. "Não toleraremos mais essa disparidade. Alguns parceiros comerciais
já tomaram medidas iniciais para impedir a importação de mercadorias produzidas
com trabalho forçado [...]. No entanto, cada um dos nossos parceiros comerciais
deve fazer mais para garantir que o comércio não incentive e perpetue o
trabalho forçado em nível global."
A
investigação foi feita em praticamente todos os
parceiros comerciais dos EUA. As 60 economias sob investigação
representam mais de 99% da pauta de importações dos EUA. Todas elas foram
condenadas pela investigação — e receberam recomendação de imposição de tarifas
retaliatórias. Entre os países, estão economias avançadas e aliados
tradicionais dos americanos, como União Europeia, Reino Unido, Japão e Israel. Para
seis economias — Canadá, União Europeia, Equador, México, Paquistão e Indonésia
— a taxação proposta é de 10%, porque no entendimento americano elas possuem
mecanismos, mas não realizam a fiscalização contra o trabalho forçado.
O
anúncio do governo americano ocorre poucas semanas antes da expiração de uma
tarifa de 10% que a Casa Branca havia imposto a dezenas de países após uma
derrota na Suprema Corte em fevereiro, que derrubou o
tarifaço inicial proposto pelo presidente americano Donald Trump.
Essa tarifa fixa se baseava na Seção 122 da Lei de Comércio de 1974, mas tinha
validade de apenas 150 dias. Algumas autoridades e
especialistas acusam os EUA
de buscar novas formas de manter o tarifaço de Trump, usando outros
pretextos. "Como o tribunal considerou o regime tarifário [de Trump]
ilegal, acho que está claro que os EUA estão buscando outras maneiras de
restabelecer essa barreira tarifária, esse regime", disse o ministro do
Comércio da Nova Zelândia, Todd McClay, ao jornal Financial Times. "Não
estamos envolvidos em nenhuma forma de trabalho forçado".
O
anúncio foi feito um dia depois que o mesmo USTR concluiu
uma grande investigação comercial iniciada contra o Brasil em julho do ano
passado — e disse que certas práticas do governo brasileiro são
"irrazoáveis" e "oneram ou restringem o comércio dos EUA". Na
segunda-feira (01/06), o governo americano propôs tarifas retaliatórias de 25%
a produtos brasileiros — mas essas medidas ainda não foram definidas e serão
discutidas ao longo das próximas semanas até o dia 15 de julho.
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O que o relatório fala sobre o Brasil?
O
Brasil é um dos 59 países (além da União Europeia) com uma seção específica no
relatório. O país é mencionado 19 vezes no relatório de 98 páginas. "O
USTR constatou que o Brasil não impôs nem aplicou efetivamente uma proibição de
importação de produtos com trabalho forçado", diz o texto, cujas
conclusões sobre o Brasil estão resumidas em três parágrafos.
O
relatório diz que a falha em impor e aplicar efetivamente uma proibição de
importação de produtos com trabalho forçado é "irrazoável" e
"onera ou restringe o comércio dos EUA" — os mesmos termos
usados na conclusão
da investigação do dia anterior que condenou práticas comerciais usadas pelo
Brasil e propôs tarifas de 25% aos produtos brasileiros. "Embora
o Brasil alegue proibir importações produzidas com trabalho forçado por meio da
implementação de seus compromissos em acordos de investimento e acordos de
livre comércio, essas disposições não proíbem legalmente a importação de bens
produzidos total ou parcialmente por trabalho forçado de outra economia para o
mercado interno para venda", diz o texto. Essas conclusões sobre o Brasil
são semelhantes às de outros países — com algumas variações no texto para cada
um.
O
Brasil aparece em outro trecho do relatório em um estudo de caso específico,
sobre sua produção de carne bovina — ao lado de outros dois exemplos, sobre
importação de arroz de Mianmar e de tabaco do Malauí. "Está bem
documentado que o trabalho forçado é utilizado na produção de gado no
Brasil", diz o relatório. "A lista TVPRA [uma lista do governo
americano de produtos fabricados por meio de trabalho infantil ou trabalho
forçado] afirma que há razões para acreditar que existe trabalho forçado na
produção de gado no Brasil. Pesquisas independentes sugerem que pecuaristas
brasileiros constam na chamada 'Lista Suja'."
A
"Lista Suja" é um documento público divulgado pelo Ministério do
Trabalho para dar visibilidade a fiscalizações do governo de combate ao
trabalho escravo. Segundo o relatório americano, as exportações agrícolas
americanas são afetadas por isso, já que tanto Brasil como EUA exportam carne
bovina congelada para a China — com o Brasil se distanciando dos americanos na
preferência dos chineses. "Durante o período de 2015 a 2025, o volume de
exportações de carne bovina congelada do Brasil para as economias investigadas
quase dobrou, em comparação com um aumento de 21% no volume exportado pelos
EUA", diz o texto. "Como demonstram as importações de carne bovina
congelada pela China, os efeitos negativos da concorrência com produtos
provenientes de trabalho forçado sobre as exportações dos EUA não se limitam a
bens manufaturados, podendo também afetar negativamente as exportações
agrícolas americanas. Embora nem todas as importações chinesas de carne bovina
congelada do Brasil sejam necessariamente produzidas com trabalho forçado, a
prevalência dessa prática na produção pecuária brasileira sugere fortemente que
ao menos parte dessas importações foi produzida total ou parcialmente com
trabalho forçado."
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Tensões entre Brasil e EUA
O
anúncio da conclusão americana sobre trabalho forçado aconteceu um dia após
outra grande investigação sobre o Brasil, na qual o USTR propôs
tarifas retaliatórias de 25% contra produtos brasileiros. As
supostas práticas brasileiras condenadas pelo governo americano são
relacionadas ao comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, tarifas
preferenciais injustas, combate à corrupção, proteção da propriedade
intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal. O governo
americano ainda está recebendo consultas do público até o dia 1º de julho sobre
as medidas. No dia 6 de julho, haverá uma audiência pública.
O
representante-geral de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, disse que teve
"reuniões construtivas" que "se intensificaram nas últimas
semanas" com os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump — e
que espera dar continuidade a esse diálogo com o governo brasileiro até 15 de
julho, antes de adotar qualquer medida de resposta. "No entanto,
continuamos enfrentando divergências significativas na resolução das questões
identificadas nesta investigação", disse Greer em nota.
No
mesmo dia em que anunciou a medida, Trump fez uma publicação com o senador e
pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em uma das fotos, também
aparece seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. "Foi muito bom ter
Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca — um jovem inteligente que ama
muito o seu país, o Brasil!", escreveu Trump na sua rede social Truth
Social. Antes da publicação do presidente americano, Flávio afirmou em vídeo
publicado nas redes sociais que é contra a imposição de novas tarifas para
compra de produtos importados que os EUA planejam adotar contra o Brasil. "Sempre
defendi as empresas brasileiras e, em qualquer oportunidade que tiver, vou
continuar a defender nosso setor produtivo. Pedi expressamente ao presidente
Trump para não taxar nossas empresas. Tarifa não é solução", disse Flávio
na terça-feira. "Precisamos sentar de maneira séria na mesa de negociação,
não com bravatas, como faz Lula."
Lula,
por sua vez, atribuiu a conclusão das investigações americanas à atuação de
Flávio e Eduardo Bolsonaro nos EUA.
O
petista chamou os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro de "vendilhões e
traidores da pátria" ao reagir à nova ameaça do governo americano."Esses
filhos do Bolsonaro conseguem ser pior do que ele. E são, na verdade,
vendilhões da pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse
nas decisões brasileiras. É isso que vocês têm que dizer alto e bom som: são
traidores", disse Lula.
O
presidente brasileiro comentou que a reunião que ele teve com Trump no início
do mês havia sido um "sucesso", mas que as negociações foram
atrapalhadas. O presidente argumentou ainda que mostrou a Trump que os EUA não
têm déficit comercial com o Brasil e mencionou a celebração da família
Bolsonaro no primeiro tarifaço contra o Brasil.
Fonte:
BBC News Brasil

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