O
que é lenda e o que é verdade no mito das amazonas
Sua
reputação entre os antigos gregos não era das melhores: as amazonas eram
consideradas combatentes duras e destemidas, que iam para a batalha a cavalo
com arco e flecha. Usavam calças, tatuavam-se e, segundo se dizia,
inebriavam-se com drogas em orgias.
"Isso
realmente chocava os gregos, pois na Grécia Antiga eram os homens que mandavam", explica Adrienne Mayor,
historiadora e pesquisadora da Universidade de Stanford. "As mulheres eram
mantidas em casa, teciam e cuidavam das crianças."
Uma
sociedade em que as mulheres tinham igualdade de direitos era difícil de
imaginar para a sociedade patriarcal da época, diz. Assim, algumas crueldades
eram atribuídas às amazonas: elas escravizariam homens, mutilariam ou até
assassinariam crianças do sexo masculino.
Ao
mesmo tempo, os gregos eram tão fascinados por elas que as eternizavam em
estátuas, pinturas murais e vasos. Havia até bonecas de amazonas para as
crianças.
A
melhor maneira de um herói grego provar sua bravura era derrotando uma poderosa
rainha amazona. Como Teseu, rei de Atenas, que teria sequestrado Hipólita e a
tomado como esposa – uma história que, cerca de 2 mil anos depois, foi retomada
pelo dramaturgo inglês William Shakespeare no Sonho de uma noite de verão.
Ou
Aquiles, que teria matado Pentesileia em combate. No entanto, apaixonou-se por
ela ao retirar o capacete dela enquanto ela agonizava, lamentando seu ato.
Existem
muitas variantes dessas histórias, mas o desfecho, do ponto de vista dos
narradores masculinos, é sempre claro: os homens acabam prevalecendo.
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As amazonas realmente existiram?
A mais
antiga menção escrita às amazonas é a do poeta grego Homero, na epopeia Ilíada
(por volta do 8º século a.C.), sobre a Guerra de Troia. Outros se seguiriam.
Durante muito tempo, não se sabia se essas mulheres guerreiras eram apenas
fruto da imaginação dos contadores de histórias da Antiguidade ou se realmente
existiram.
Mas,
graças a descobertas arqueológicas espetaculares recentes na Ucrânia, no sul da
Rússia, no Cazaquistão e na Ásia Central, há indícios de que, nos períodos e
locais onde os gregos situavam as amazonas míticas, realmente existiram
mulheres guerreiras, afirma Mayor.
"Até
agora foram escavadas mais de 300 sepulturas de mulheres enterradas com
flechas, machados de guerra e espadas – algumas com ferimentos de
combate", observa.
Segundo
Mayor, a inspiração para as amazonas teriam sido as arqueiras montadas de
diferentes tribos citas, que viviam ao redor do Mar Negro e nas estepes da
Eurásia. "Os gregos conheceram essas mulheres quando fundaram colônias lá.
Esses povos nômades levavam um estilo de vida relativamente igualitário, no
qual as mulheres também assumiam papéis de liderança."
A
origem da palavra "amazona", porém, é incerta. Talvez venha do antigo
persa ha-mazon, que significa "guerreira", sugere Mayor. Outra
possibilidade é que derive da palavra circassiana amezane, que significa
"mãe da floresta" ou "mãe da lua".
Um
historiador chamado Helânico (século 5º a.C.) tentou atribuir ao termo um
significado grego, traduzindo-o como "sem seio". Essa ideia alimentou
o equívoco de que as amazonas removiam o seio direito, pois ele atrapalharia no
uso do arco ou no arremesso de lanças. Pura bobagem, diz Mayor. "Essa
ideia bizarra já era criticada na Antiguidade, e nenhum artista antigo jamais
retratou amazonas com apenas um seio."
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Matavam meninos?
Apesar
disso, estudiosos antigos continuaram a inventar histórias sobre as amazonas.
Surgiu o boato de que, vivendo apenas entre mulheres, elas só permitiam o
nascimento de meninas e abandonavam, mutilavam ou matavam os meninos.
Isso
levanta a questão: mas como elas se reproduziam se os homens eram rejeitados?
Segundo Mayor, historiadores gregos como Heródoto e Estrabão relatavam que
grupos de guerreiras encontravam-se com outras tribos que incluíam homens.
"Tinham relações sexuais e depois se separavam novamente."
Esses
relatos não mencionam assassinatos ou mutilações. "Quando tinham filhos,
ficavam com as meninas e enviavam os meninos de volta ao povo do pai",
explica Mayor. Isso fez com que pesquisadores modernos vissem essas mulheres
como mães negligentes. No entanto, esse era um costume bastante comum entre
povos nômades: criar alianças ao deixar o filho crescer em outro grupo.
Só no
início do século 20 surgiu a ideia de que as amazonas eram lésbicas. A
escritora russa Marina Tsvetaeva afirmou que elas simbolizavam o amor entre
mulheres, e essa visão foi adotada por outros autores.
Mayor
discorda: "Os gregos não tinham problema com a homossexualidade, mas não
há relatos antigos de que as amazonas fossem lésbicas. Se achassem isso,
certamente teriam mencionado."
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As amazonas inventaram as calças?
Se hoje
usar calças é algo comum, na Grécia Antiga as roupas eram feitas de grandes
pedaços retangulares de tecido, habilmente drapeados e presos com alfinetes ou
cintos.
Segundo
Mayor, os gregos atribuíram a invenção das calças a três rainhas guerreiras.
Não se sabe se isso é verdade, mas, segundo ela, "as calças realmente
faziam parte da identidade central de guerreiras míticas e reais". Era uma
vestimenta extremamente prática para a vida a cavalo em ambientes hostis.
"As calças eram absolutamente necessárias para evitar assaduras ao
cavalgar."
Nas
representações artísticas antigas, as amazonas aparecem usando túnicas e calças
ou leggings de lã ou cânhamo. Elas não só estavam à frente de seu tempo em
termos de moda, como também se adornavam com tatuagens. "Corpos
mumificados naturalmente de homens e mulheres, enterrados no permafrost e
datados da época de Heródoto (século 5º a.C.), foram recuperados de túmulos
citas. Sua pele é decorada com animais reais e fantásticos, incluindo cervos,
cavalos, tigres e aves de rapina", afirma Mayor.
Para os
gregos, isso era outro sinal de que as amazonas eram "incivilizadas",
já que as tatuagens eram vistas como uma marca de criminosos ou escravos.
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Drogas ao redor da fogueira
Heródoto
descreveu o uso de uma droga pelos citas. "Eles se sentam em círculo ao
redor de uma fogueira e jogam uma planta inebriante sobre as brasas. Enquanto
ela queima, as pessoas inalam a fumaça e ficam inebriadas, assim como os gregos
ficam embriagados com o vinho. Continuam jogando material no fogo, ficando cada
vez mais inebriados, e dançam e cantam, gritando em volta da fogueira."
Segundo
Mayor, essa planta era provavelmente cannabis. "Arqueólogos encontraram
recipientes para queima de cânhamo – pequenos braseiros, alguns de ouro,
contendo sementes queimadas – tanto em túmulos de mulheres quanto de
homens."
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Amazonas da atualidade
Mulheres
fortes e independentes sempre existiram. Para Mayor, elas personificam o
"espírito das amazonas". "Às vezes permanecem ocultas, outras
vezes emergem das sombras da opressão para a consciência pública", afirma
a historiadora.
Na
cultura popular, guerreiras foram retratadas em filmes como Jogos Vorazes e
séries como Game of Thrones. Na vida real, elas lutam como militares, diz Mayor
– inclusive na Ucrânia, "a terra de origem das míticas amazonas".
Fonte:
DW Brasil

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