Moisés
Mendes: Flávio puxa a velha direita para a cova do bolsonarismo
Joaquim
Barbosa reapareceu de novo, agora no velório de Flávio Bolsonaro, para saber
como estão os que continuam vivos e se ele não pode ter parte na herança.
Joaquim é o cara aquele que só é visto em momentos graves, geralmente ruins, e
suscita a dúvida típica dessas circunstâncias: o que ele está fazendo aqui?
Quase
sempre estão perscrutando, atirando o verde, jogando o anzol. Outros Joaquins
vão reaparecer ou surgir do nada. Querem saber se podem ocupar a vaga do morto
ou se pelo menos têm direito a alguma partilha.
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Surgem
porque o estrago do caso Flávio-Vorcaro pega a direita antiga, principalmente a
do PP de Ciro Nogueira. A velha direita está desorientada como nunca esteve,
nem no fim da ditadura. Quando os ditadores foram pra casa, a velha direita se
reacomodou numa boa.
Alguns
se recolheram, outros da velha Arena aderiram ao MDB, sem surpresa alguma, e a
vida seguiu em frente com os disfarces possíveis de que aquilo era de novo uma
democracia intocável. Mas aí Aécio fica beiçudo e golpista por ter perdido a
eleição de 2014, fecha-se o cerco a Dilma, caçam Lula e surge Bolsonaro.
Estamos
agora no começo do que seria o fim dessa era em que a extrema direita absorveu
a velha direita, o centro e o centrão, em São Paulo, no Rio Grande do Sul, no
Paraná, no centro-oeste, com exceção do Nordeste. Tudo porque o filho ungido,
que teria saído igualzinho ao pai, fez o que todos sabiam que iria fazer.
Continuou
cuidando das coisinhas da família e não se livrou da obsessão por negócios com
dinheiro suspeito, imóveis e agora filmes. No banco imobiliário de Flávio, o
empreendedorismo a qualquer custo é mais importante do que o que lhe resta de
bons modos numa disputa à presidência da República.
E assim
é abalada não só a estrutura do fascismo no Brasil, mas de toda a direita.
Desde 2018, a direita pós-Arena se submete em muitos Estados às vontades do
bolsonarismo. No Rio Grande do Sul, aliou-se agora ao PL do Conoré Zucco,
candidato de Bolsonaro ao governo, quando todos esperavam que se aliasse a
Gabriel Souza (MDB), o vice-governador de Eduardo Leite, que em 2018 foi
parceiro dos bolsonaristas.
O
bolsonarismo que engoliu a direita desafia toda a velha estrutura pré-Bolsonaro
a sobreviver sem Flávio, com Ciro Nogueira pulando num pé só e com Valdemar
Costa Neto e assemelhados na fila da Polícia Federal.
É o
drama que se expressa no título do editorial de sábado do Estadão, sobre “A
direita diante de seu veneno”. Segundo o jornal, o que ainda chamam de campo
conservador descobriu a “baixa estatura moral e política” do senador candidato.
Descobriu
agora? Não. O próprio Estadão admite que “há anos, parte da direita trata o
bolsonarismo como atalho eleitoral inevitável”. Em nome de projetos urgentes e
do abandono de referências que trouxeram o conservadorismo até aqui. Era o
veneno.
O mundo
sem os tucanos, com a imposição dos Bolsonaros e sem novas lideranças da
direita que pudessem se apresentar como capazes de enfrentar Lula, é o pior de
todos os mundos para o que sobrou do que um dia chamaram de conservadorismo ou
de liberalismo ou anticomunismo. O bolsonarismo comeu a direita no almoço e o
que restava da centro-direita no jantar.
Acontece
aqui o que Trump fez com a direita americana, Milei está fazendo com a direita
argentina e José Antonio Kast fará com a direita chilena. Eles destroem tudo o
que antes funcionava como ideia e como barreira conservadora ao avanço das
esquerdas. Mas o que temos hoje é um fascismo que parece se mostrar de curta
duração.
No
Brasil, eles falharam na tentativa de reeleição, falharam no golpe e ameaçam
falhar agora no esforço para voltar ao poder. A velha direita, que havia virado
hospedeira desse pessoal, perdeu autonomia e foi inviabilizada porque se
envenenou com uma overdose de bolsonarismo. E vê agora os envenenadores se
enfraquecerem.
Nesse
momento de ameaça de abstinência, é dureza ficar dependendo da hipótese
Michelle. A velha direita católica irá se jogar nos braços da pastora que até a
família Bolsonaro rejeita? A direita do Antigo Testamento irá desfilar de
braços dados com Silas Malafaia?
É um
cenário ruim até para o diabo. E é nessas horas que aparecem os Joaquins
Barbosas, aparentemente distraídos, perguntando várias vezes ao lado do caixão:
morreu do quê, se até esses dias estava fazendo um filme com o Vorcaro?
• Clã Bolsonaro teve relação com suspeitos
de envolvimento no crime organizado; relembre casos
O
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) comemorou a decisão dos Estados Unidos de
classificar o PCC e o CV (Comando Vermelho) como terroristas, mas ele e outros
integrantes da família mantiveram relações com acusados de participar do crime
organizado, em especial as milícias no Rio de Janeiro.
Após
uma visita dele a Donald Trump, os EUA anunciaram a nova definição para o PCC e
o CV — medida que o presidenciável do PL celebra como trunfo eleitoral.
“A
família Bolsonaro e Flávio Bolsonaro não compactuam com facções ou grupos
armados e criminosos. Diferentemente do governo Lula [PT], que recebeu a
primeira-dama do tráfico no Ministério da Justiça e fez lobby nos Estados
Unidos a favor de facções narcoterroristas”, afirmou a assessoria do
pré-candidato do PL à Presidência.
A nota
faz referência à ida de Luciane Farias, esposa de um homem apontado como líder
do Comando Vermelho do Amazonas, ao Ministério da Justiça e Segurança Pública
em 2023. A pasta admitiu que Luciane, que recebeu a alcunha de “dama do
tráfico”, foi recebida em reuniões, mas afirmou que não sabia de quem se
tratava. O presidente Lula, porém, não se encontrou com Farias.
A
assessoria de Flávio disse que “não há um único boletim de ocorrência ou
processo que corrobore a tese da reportagem”. Também acusou o governo Lula de
manter “relações próximas com uma integrante do PCC recentemente presa e que
pode estar à frente de um plano de atentado contra a vida de Flávio” — a nota
não explica a que se refere a afirmação nem cita indícios.
Relembre
algumas das ações e manifestações da família Bolsonaro ligadas às milícias e ao
crime organizado.
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Homenagem a Adriano da Nóbrega
O
ex-policial militar Adriano da Nóbrega, apontado pelo Ministério Público como
integrante da milícia de Rio das Pedras e do grupo de extermínio Escritório do
Crime, recebeu, em 2005, a visita na cadeia de Flávio e Jair Bolsonaro (PL).
Os
políticos entregaram a Nóbrega a Medalha Tiradentes, honraria concedida pela
Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) a personalidades que
prestaram relevantes serviços à sociedade. A homenagem ocorreu a pedido de
Flávio, então deputado estadual.
Em
2003, o político já tinha feito uma homenagem a Nóbrega, que teria ocorrido a
pedido do pai, segundo Jair afirmou à imprensa em 2020.
Nóbrega
foi morto em uma operação da Polícia Militar da Bahia, em 2020, depois de ficar
por mais de um ano foragido. Ele era acusado de uma série de homicídios no Rio
de Janeiro e de envolvimento com máquinas caça-níqueis, proibidas no Brasil.
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Emprego a parentes de miliciano e ‘rachadinha’
Além da
homenagem, Flávio garantiu emprego na Alerj, até 2018, a Raimunda Veras
Magalhães e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, respectivamente mãe e esposa
de Adriano da Nóbrega.
Elas
tiveram salário de mais de R$ 6.000 no gabinete do deputado e, segundo o
Ministério Público do Rio de Janeiro, estavam envolvidas em um esquema de
“rachadinha”, em que parte do salário dos assessores era devolvida ao político.
O parlamentar sempre negou as acusações.
De
acordo com os investigadores, Danielle repassou ao menos R$ 150 mil a Fabrício
Queiroz, policial militar aposentado que era assessor de Flávio. Desse volume,
R$ 115 mil teriam sido transferidos por intermédio de contas bancárias
controladas por Adriano da Nóbrega. Também foram usadas contas em nome de dois
restaurantes da família do ex-policial e de Raimunda, em período anterior à
nomeação dela no gabinete de Flávio.
As
investigações sobre a “rachadinha” foram encerradas após o STF (Supremo
Tribunal Federal) e o STJ (Superior Tribunal de Justiça) anularem em 2021 as
provas coletadas.
Flávio
sempre rejeitou as acusações, que diz serem parte de um ataque orquestrado para
destruir sua reputação. “[Houve] toda essa espuma, todo esse ataque para tentar
destruir minha reputação, e nunca teve início um processo criminal contra mim.
Sabe quantas ligações financeiras tem com meus assessores? Zero. Sabe quantos
assessores disseram que cobrei salário de volta para empregar no meu gabinete?
Zero”, afirmou ao podcast Inteligência Ltda em março deste ano.
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Exaltação a milícias e organizações criminosas
Jair e
Flávio Bolsonaro apoiaram policiais suspeitos de comportamento violento e
falaram a favor das milícias, organizações criminosas compostas sobretudo por
ex-agentes de segurança.
Em
2018, Jair defendeu esses grupos, estabelecendo relação entre a presença deles
e a segurança. “Naquela região onde a milícia é paga, não tem violência”,
afirmou.
Flávio
também já minimizou a gravidade das milícias, dizendo que “não raro é
constatada” a felicidade dos moradores de comunidades dominadas por milicianos.
Em discurso na Alerj em 2007, chamou as milícias de “nova forma de
policiamento, entre aspas”.
Jair,
além disso, foi preso por integrar uma organização criminosa que tentou dar um
golpe de Estado. Durante seu mandato como presidente, de 2019 a 2022, ele
também não se movimentou para classificar como terroristas grupos como o PCC.
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Seguranças acusados de participar de quadrilha
Em
agosto de 2018, a Operação Quarto Elemento prendeu policiais suspeitos de
participar de uma quadrilha especializada em extorsões. Entre os presos estavam
os gêmeos Alan e Alex Rodrigues Oliveira, dois policiais militares que, naquele
ano, teriam participado da segurança da campanha de Flávio ao Senado. Eles são
irmãos de Valdenice de Oliveira Meliga, que foi assessora da liderança do PSL
(antigo partido de Bolsonaro) na Alerj e tesoureira do partido no estado.
Na
época, o senador eleito negou ao jornal O Estado de S. Paulo pediu que os
policiais integrassem sua campanha, enquanto Valdenice disse que os irmãos
atuavam como voluntários. Em foto publicada em sua rede social em outubro de
2017, Flávio aparece com Valdenice e os gêmeos. Na legenda, escreveu: “Parabéns
Alan e Alex pelo aniversário, essa família é nota mil!!!”.
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Aliança com Rodrigo Bacellar
O
ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar (União Brasil) estreitou laços com a
família Bolsonaro a partir de 2024, almejando suceder Cláudio Castro (PL) no
Governo do Rio de Janeiro. Em julho daquele ano, Bacellar se encontrou com
Jair, Flávio e Carlos para discutir as eleições municipais e ganhou uma medalha
do clã com os dizeres “imorrível, imbroxável e incomível”.
Depois
de se tornar potencial candidato da família Bolsonaro no Rio, ele perdeu o
mandato e foi preso por suspeita de participar de uma organização criminosa e
vazar informações para beneficiar o Comando Vermelho.
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Proximidade com Daniel Vorcaro
Áudio
divulgado pelo site The Intercept Brasil revelou que o senador Flávio Bolsonaro
mantinha contato com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, acusado de uma série de
crimes envolvendo fraudes do Banco Master, como organização criminosa,
corrupção e lavagem de dinheiro.
O site
revelou que Vorcaro combinou o pagamento de R$ 134 milhões para o filme “Dark
Horse” (azarão, em inglês), sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Depois,
Flávio afirmou que o dono do Master pagou cerca de R$ 60 milhões para o
longa-metragem e reconheceu ter cobrado parcelas restantes, sob a justificativa
de envolver apenas recursos privados, e não públicos. O senador também admitiu
ter encontrado pessoalmente com Vorcaro para, segundo ele, “colocar um ponto
final” na relação.
A
fraude do Master gerou prejuízo de pelo menos R$ 41 bilhões ao sistema
financeiro nacional, afetando também o BRB (Banco de Brasília).
• Deputado aciona PF para investigar
relações do entorno de Flávio Bolsonaro com o Comando Vermelho
O
deputado federal Alencar Santana (PT-SP), vice-líder do Governo na Câmara,
apresentou notícia de fato à Polícia Federal para investigar indícios de que o
entorno político de Flávio Bolsonaro pode ter sido utilizado como canal de
acesso, influência e proteção institucional para interesses do Comando Vermelho
no Estado do Rio de Janeiro.
A peça
pede que a PF apure se a rede de aliados, indicados políticos e operadores
próximos ao senador serviu para abrir portas em órgãos públicos, viabilizar
nomeações, intermediar demandas e conferir cobertura política a pessoas
vinculadas à facção criminosa.
A
representação cita Gabriel Dias de Oliveira, o Índio do Lixão, apontado como
liderança do Comando Vermelho; Luiz Eduardo Cunha Gonçalves, o Dudu,
ex-assessor de TH Joias; Alessandro Pitombeira Carracena, ex-secretário
estadual de Esportes e ex-subsecretário de Defesa do Consumidor; e Gutemberg
Fonseca, ex-secretário estadual de Defesa do Consumidor do Rio de Janeiro,
apontado como aliado próximo de Flávio Bolsonaro.
Segundo
a peça, mensagens reveladas por investigações da própria Polícia Federal
mencionam reuniões, pedidos, favores, acesso a agentes públicos e possível
tentativa de nomeação em estrutura estatal, elementos que reforçam a
necessidade de esclarecer se a influência política associada ao senador foi
real, simulada ou instrumentalizada por terceiros.
Para
Alencar Santana, a gravidade do caso está na possibilidade de uma facção
criminosa ter buscado entrada no aparelho estatal por meio de personagens
ligados ao campo político de Flávio Bolsonaro.
A
notícia de fato pede rastreamento financeiro, preservação de mensagens, análise
de agendas, registros de entrada, câmeras, nomeações, contratos e vínculos
políticos, além de remessa às autoridades competentes caso surjam elementos
envolvendo parlamentar com foro.
A PF
precisa investigar se o entorno de Flávio Bolsonaro funcionou como ponte entre
o Estado do Rio de Janeiro e o Comando Vermelho, seguindo o caminho da
influência, das nomeações e do dinheiro.
Fonte:
Brasil 247/ICL Notícias/Viomundo

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