A
ameaça ambiental que os bilionários ocultam
Os
pobres e a classe média pagam impostos, os ricos pagam contadores, os muito
ricos pagam advogados – e os ultrarricos pagam políticos. Não é uma observação
original , mas vale a pena repeti-la até que todos a tenham ouvido. Quanto mais
dinheiro os bilionários acumulam, maior é o seu controle sobre o sistema
político – o que significa que pagam menos impostos, que acumulam mais, que seu
controle se intensifica.
Eles
remodelam o mundo para atender às suas demandas. Um dos sintomas da patologia
conhecida como “cérebro de bilionário” é a incapacidade de enxergar além de
seus próprios ganhos de curto prazo. Eles destruiriam o planeta por mais
algumas pedras na montanha inútil da riqueza. E podemos ver isso acontecendo. O
mês de abril trouxe a maior notícia do ano até agora, talvez a maior notícia do
século. Mas, em parte porque os bilionários detêm a maior parte da mídia, a
maioria das pessoas nunca ouviu falar dela. Podemos nos ver envolvidos em um
evento capaz de acabar com a civilização antes mesmo de aprendermos que tal
fenômeno é possível.
A
notícia é que o estado de um sistema crucial de circulação oceânica foi
reavaliado por cientistas . Alguns agora acreditam que, como resultado das
mudanças climáticas que alteram a temperatura e a salinidade da água do mar, é
muito provável que ele entre em colapso. Esse sistema – conhecido como
Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês) –
transporta calor dos trópicos para o Atlântico Norte. Pesquisas recentes
sugerem que, se ele deixar de ocorrer, poderá causar uma queda drástica nas
temperaturas médias de inverno no norte da Europa e mudanças dramáticas nos
ciclos da água da Amazônia. Isso poderia levar a floresta tropical a um colapso
em cascata e desencadear um desastre ainda maior.
A
paralisação da AMOC também provavelmente causará uma aceleração da elevação do
nível do mar na costa leste dos EUA, ameaçando grandes cidades. Além disso,
poderá elevar as temperaturas na Antártida em cerca de 6°C e liberar uma enorme
quantidade de carbono atualmente armazenado no Oceano Antártico, acelerando a
catástrofe climática.
Mesmo
levando em consideração os efeitos contrários do aquecimento global
generalizado, um estudo posterior propõe que o impacto líquido no norte da
Europa seria a ocorrência de períodos de frio extremo – incluindo eventos em
que as temperaturas em Londres cairiam para -19°C, em Edimburgo para -30°C e em
Oslo para -48°C. O gelo marinho em fevereiro se estenderia até a Inglaterra.
Nosso clima mudaria drasticamente , com a probabilidade de extremos muito
maiores, como tempestades de inverno de grande intensidade.
Essa
mudança, em qualquer escala humana realista, seria irreversível. Sua velocidade
provavelmente ultrapassaria nossa capacidade de adaptação . Interrupções na
circulação atmosférica, impulsionadas pela variabilidade climática natural, já
ocorreram antes. Mas não na era da civilização humana em larga escala.
O
primeiro artigo propondo que a Amoc poderia ter um estado ativo e um estado
inativo foi publicado em 1961. Desde então, muitos estudos confirmaram a
descoberta e exploraram possíveis gatilhos e implicações prováveis. Até
recentemente, o colapso da Amoc causado pela atividade humana era classificado
como um evento de “alto impacto e baixa probabilidade”. Devastador, se
ocorresse, mas improvável de acontecer.
Pesquisas
realizadas nos últimos anos levaram a uma reavaliação: o evento passou a ser
visto mais como algo de “alto impacto e alta probabilidade”. Agora, em resposta
ao artigo de abril, o professor Stefan Rahmstorf – talvez a maior autoridade
mundial no assunto – afirma que as chances de uma parada parecem ser de “mais
de 50%”. Poderíamos ultrapassar o ponto de inflexão, diz ele, “em meados deste
século”.
Por que
isso não está em todos os noticiários? Por que não é a principal prioridade dos
governos que afirmam nos proteger de danos? Em grande parte porque o poder
oligárquico defende um modelo de impacto climático que pouco tem a ver com a
realidade: ou seja, os que o comandam têm uma hipótese sobre como o mundo
funciona que é completamente dissociada das descobertas científicas. Esse
modelo fundamenta as respostas oficiais à crise climática.
Tudo
começou com o trabalho do economista William Nordhaus, que buscou avaliar os
efeitos econômicos do aquecimento global. Seu modelo sugere que um nível de
aquecimento “socialmente ótimo” está entre 3,5°C e 4°C. A maioria dos
cientistas climáticos considera um aumento de temperatura desse tipo
catastrófico. Mesmo um aquecimento de 6°C, segundo Nordhaus, causaria uma perda
de apenas 8,5% do PIB. A ciência climática sugere que isso seria mais como o
fim da civilização.
Segundo
argumentaram os eminentes economistas Nicholas Stern, Joseph Stiglitz e
Charlotte Taylor , os efeitos moderados previstos por Nordhaus são
consequências do modelo enviezado que ele utilizou. Por exemplo, sua modelagem
pressupõe que riscos catastróficos não existem e que os impactos climáticos
aumentam linearmente com a temperatura. Não existe nenhum modelo climático que
proponha tal tendência. Em vez disso, a ciência climática prevê impactos não
lineares e riscos que aumentam consideravelmente.
Os
prováveis impactos de altos níveis de aquecimento incluem a inundação de
grandes cidades, o fechamento do nicho climático humano (as condições que
sustentam a vida humana) em grande parte do globo, o colapso do sistema
alimentar global e mudanças em cascata – ou seja, transições abruptas nos
ecossistemas – liberando reservas naturais de carbono, o que pode levar a uma
“Planeta-estufa” no qual pouquíssimos sobreviveriam. E não importa a pequena
queda no PIB: não haveria meios de mensuração e praticamente nenhuma economia
para medir.
De
forma bizarra, a modelagem de Nordhaus também aplica taxas de desconto aos
habitantes futuros do planeta: presume-se que suas vidas valem menos que as
nossas. Em outras palavras, tomou-se um método usado para calcular o retorno do
capital e se aplicou a seres humanos. Como apontam os três economistas, “é
muito difícil encontrar uma justificativa para isso na filosofia moral”. Além
disso, os impactos climáticos afetam desproporcionalmente os pobres – mas,
segundo os modelos, suas vidas também valem muito pouco.
Não
surpreendentemente, modelos desse tipo, observam Stern, Stiglitz e Taylor,
foram apropriados por “interesses especiais”, como a indústria de combustíveis
fósseis, para defender respostas mínimas à crise climática. E não são apenas as
companhias petrolíferas. Bill Gates, que alega querer proteger o planeta, doou
US$ 3,5 milhões (R$ 17,5 milhões) para um grupo de investidores que usa o
modelo de Nordhaus como argumento. É liderado por Bjorn Lomborg, que construiu
sua carreira promovendo o modelo enviezado, o que contribuiu para minimizar a
necessidade de ações climáticas. Nordhaus recebeu o Prêmio Nobel de Economia
por suas ideias absurdas e perniciosas – e elas estão profundamente enraizadas
na tomada de decisões governamentais.
Um
culto da morte bilionário tem o pescoço da humanidade em suas garras. Ele tanto
causa quanto minimiza nossa crise existencial. Os oligarcas não são apenas
inimigos de classe, mas, como sempre foram, inimigos da sociedade. Alguns
milhares de pessoas podem destruir civilizações. É a guerra entre os bilhões e
os bilionários, e as consequências não poderiam ser mais graves.
• Semana do meio ambiente – nada a
comemorar? Por Liszt Vieira e Pedro Ivo
Batista
Em 2025
e 2026, o Congresso Nacional aprovou uma série de medidas criticadas por
ambientalistas, pesquisadores, cientistas, povos indígenas e pelo próprio
Ministério do Meio Ambiente por reduzirem mecanismos de proteção ambiental. As
principais medidas foram as seguintes:
(i)
Nova Lei do Licenciamento Ambiental (“PL da Devastação”). A principal mudança
foi a aprovação da nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental (PL 2.159/2021),
transformada na Lei 15.190/2025. Essa lei amplia o autolicenciamento ambiental,
dispensa licenciamento para diversas atividades agropecuárias, reduz exigências
de estudos de impacto, enfraquece a participação de órgãos ambientais e
indígenas e facilita obras de infraestrutura sem análise aprofundada. O
Congresso ainda derrubou grande parte dos vetos do presidente Lula, restaurando
pontos considerados mais permissivos.
(ii)
Licença Ambiental Especial (LAE). Outra medida aprovada criou uma modalidade
especial e acelerada de licenciamento para projetos considerados estratégicos.
Isso traz como consequência acelerar grandes obras com análise reduzida,
diminuir o controle técnico, aumentar riscos socioambientais.
(iii)
Avanço de projetos de regularização fundiária (“PL da Grilagem”)
Continuaram
avançando projetos que flexibilizam a regularização de ocupações em terras
públicas, como os PLs 510/2021 e 2633/2020. Esses projetos estimulam invasões
de terras públicas, favorecem grilagem e incentivam desmatamento na Amazônia.
(iv)
Marco Temporal para terras indígenas. O Congresso aprovou a tese do marco
temporal, convertida na Lei 14.701/2023, mesmo após o Supremo Tribunal Federal
considerar a tese inconstitucional. Essa lei dificulta novas demarcações,
ameaça territórios indígenas e enfraquece uma das principais barreiras contra o
desmatamento.
(v)
Flexibilização de regras para agrotóxicos. Também avançaram mudanças conhecidas
como “PL do Veneno”, reduzindo o peso de órgãos de saúde e meio ambiente na
autorização de pesticidas. Essas medidas incluem maior liberação de substâncias
tóxicas, redução do princípio da precaução, riscos à saúde pública e
biodiversidade.
(vi)
Pacote de projetos antiambientais. O Observatório do Clima identificou cerca de
70 projetos considerados ameaças socioambientais em tramitação no Congresso em
2026.
Entre
os temas encontram-se o enfraquecimento da fiscalização ambiental, a redução de
áreas protegidas, a flexibilização de reservas legais, a mineração em áreas
sensíveis e a redução de proteção a comunidades tradicionais.
As
organizações ambientalistas, cientistas e os setores ambientais do Governo
afirmam que essas mudanças vão aumentar o risco de desmatamento, fragilizar
metas climáticas, ampliar conflitos fundiários e comprometer compromissos
internacionais do Brasil sobre clima e biodiversidade.
Esses
Projetos de Lei provocam retrocesso na legislação ambiental e ameaçam biomas e
a biodiversidade do Brasil, pois impactam a proteção da fauna e flora,
conservação de campos nativos e fiscalização remota sobre áreas desmatadas.
O
Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), o Instituto Brasileiro do
Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Chico
Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) apresentaram em 20/5 passado
os impactos negativos do pacote de Projetos de Lei (PLs) em tramitação no
Congresso Nacional que busca fragilizar a proteção ambiental em diferentes
frentes no país.
O PL
nº. 364/2019 tem potencial de eliminar mais de 50 milhões de hectares de
vegetação nativa não florestal, que poderão ser desmatados sem autorização e
nenhuma transparência ou controle nos biomas Cerrado, Pantanal, Pampa, Mata
Atlântica e Caatinga.
O PL
nº. 5.900/2025 coloca em risco a fauna e flora ao interferir na competência
institucional da tutela ambiental atribuída ao Ministério do Meio Ambiente na
atuação sobre espécies com interesse econômico. Também sob ameaça está a
Floresta Nacional do Jamanxim, localizada no município de Novo Progresso, no
Pará. O PL 2.486/2026 reduz os limites da Unidade de Conservação ao converter
quase 40% de sua extensão em Área de Proteção Ambiental (APA), com menor grau
de proteção.
Já o PL
nº, 2.564/2025 propunha alterar a Lei de Crimes Ambientais, enfraquecendo a
aplicação de medidas administrativas cautelares e fragilizando o poder de
polícia ambiental dos órgãos responsáveis, contrariando os princípios da
prevenção e da precaução.
Por
outro lado, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 504 de 2010, que inclui o
Cerrado e a Caatinga entre os biomas considerados patrimônio nacional, foi
aprovada no Senado e depois de mais de uma década aguarda votação na Câmara dos
Deputados, onde foi paralisada pela pressão dos interesses econômicos
contrários.
Apesar
de toda essa ofensiva para destruir o meio ambiente, o desmatamento no Brasil,
inclusive na Amazônia, caiu no ano passado para o menor nível desde 2019 e
ficou, pela primeira vez, abaixo da barreira de um milhão de hectares de
vegetação perdida, afirma um relatório divulgado pela rede de monitoramento
MapBiomas, segundo a qual na Amazônia, a maior floresta tropical do planeta,
“quase cinco árvores por segundo” foram perdidas.
O bioma
mais atingido foi, novamente, o Cerrado, que concentrou mais da metade do
desmatamento do país. O MapBiomas, que reúne universidades, ONGs e empresas de
tecnologia, atribui quase toda a perda de vegetação à expansão agropecuária.
Por outro lado, a revista Nature alerta que a savanização pode chegar antes do
previsto na Amazônia, pois a floresta se aproxima do “ponto de não retorno” (O
Globo, 14/5/2026).
Outra
notícia positiva foi o desmatamento de florestas maduras na Mata Atlântica, o
bioma mais devastado do Brasil, que em 2025 atingiu o menor nível da série
histórica. De acordo com o Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata
Atlântica, a supressão de florestas maduras caiu 40% no ano passado em relação
a 2024.
A perda
florestal tropical diminuiu em 2025, após perdas recordes em 2024 causadas por
incêndios extremos. Segundo o Global Forest Watch do WRI (World Resources
Institute) a perda de florestas tropicais primárias caiu 36% em comparação com
2024, um ano recorde de incêndios extremos (Le Monde, 5/5/2026),
No
Brasil, em ano eleitoral, o governo federal quer apresentar bons resultados
ambientais, após a COP30, realizada em Belém, com resultados modestos, para
dizer o mínimo. Mas dois passivos importantes pesam no balanço ambiental: o
projeto de exploração de petróleo na foz do rio Amazonas e o asfaltamento da
rodovia BR-319 que corta a Amazônia.
Fonte:
Por George Monbiot, em Outras Palavras/A Terra é Redonda

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