Jamil
Chade: Trump usa estragos causados no governo Bolsonaro para punir Brasil
Num
documento de mais de cem páginas publicado pelo governo de Donald Trump para
justificar tarifas contra a economia brasileira, a Casa Branca ironicamente usa
o desmonte promovido por Jair Bolsonaro em políticas públicas como argumentos
para agir contra o Brasil.
Washington
estima que deveria colocar uma sobretaxa de 25% sobre todos os produtos
brasileiras, alegando uma suposta injustiça do STF contra plataformas
americanas, o fechamento do mercado nacional do etanol e o sistema do Pix.
Mas
pelo menos dois argumentos têm uma relação direta com as escolhas adotadas por
Bolsonaro durante seu governo.
Uma
delas é a acusação por parte da Casa Branca de que o Brasil não estaria agindo
contra o desmatamento. Não há, porém, qualquer referência aos projetos e
medidas adotadas pelo governo Bolsonaro para desmontar o Ibama, para
flexibilizar o uso de terras, os ataques contra ambientalistas e o discurso
negacionista da extrema direita brasileira.
“Apesar
de possuir um marco legal para combater o desmatamento ilegal, o Brasil
historicamente tem falhado em aplicá-lo de forma eficaz, e o desmatamento
ilegal persiste”, diz a conclusão da investigação.
O texto
cita que, de acordo com o Código Florestal brasileiro (Lei nº 12.651/2012), as
propriedades rurais são obrigadas a se cadastrar no Cadastro Ambiental Rural e
fornecer informações detalhadas que facilitem a verificação e a rastreabilidade
de produtos de origem legal.
“No
entanto, esses cadastros não são adequadamente auditados para detectar fraudes
e informações falsas, por exemplo, por meio da verificação cruzada frequente
das informações fornecidas com dados de satélite”, apontam.
No
governo Bolsonaro, o Código Florestal era alvo de ataques, inclusive por
membros do Palácio do Planalto.
“A
melhoria na aplicação do Código Florestal e de outras leis, políticas e
regulamentações ambientais destinadas a combater o desmatamento ilegal, bem
como o investimento em tecnologia que facilitaria auditorias mais frequentes e
eficazes, não têm sido suficientes”, apontam os americanos.
Outra
acusação se refere à “prevalência de fraudes no setor madeireiro”. “Os
documentos oficiais não são suficientes para comprovar que a madeira da
Amazônia foi extraída legalmente”, indica.
Segundo
eles, um estudo de 2024 que analisou áreas protegidas em toda a Amazônia
brasileira constatou que as políticas do Brasil não conseguiram prevenir
adequadamente a grilagem de terras, a pecuária ilegal e o desmatamento.
“O
desmatamento, tanto legal quanto ilegal, está intimamente ligado à produção de
certos produtos madeireiros e agrícolas”, denuncia.
Num dos
trechos, a investigação chega a fazer referências aos anos que Bolsonaro esteve
no poder. Mas seu nome é omitido.
“Estimativas
indicam que a conversão de terras de floresta primária para produção agrícola
responde por mais de 90% do desmatamento (legal e ilegal) no Brasil desde 2001,
e entre 2018 e 2022, a pecuária foi responsável por 78% do desmatamento
atribuído a commodities”, afirmou.
• O desmatamento tornou-se sistêmico,
atingindo o maior índice em 15 anos em 2021.
Uma vez
mais, não há referências ao bolsonarismo e seus aliados.
“Embora
seja difícil determinar estimativas exatas da parcela da produção agrícola
brasileira cultivada em terras desmatadas ilegalmente, um estudo de 2021
estimou que o Brasil perdeu 18 milhões de hectares de floresta devido à
conversão para o agronegócio entre 2013 e 2019, dos quais 95% provavelmente
foram obtidos ilegalmente”, disse.
“Um
estudo estimou que o Brasil exportou US$ 19 bilhões em commodities de risco
florestal em 2019. Produtos madeireiros de origem ilegal contribuem para a
distorção dos preços globais, resultando na desvalorização dos produtos
madeireiros dos EUA. De modo geral, estima-se que a madeira extraída
ilegalmente reduza o valor da madeira extraída legalmente em 7% a 16%”,
apontou.
As
conclusões de um governo americano que se nega a participar do Acordo de Paris
apontam: “As ações, políticas e práticas do Brasil em relação ao desmatamento
ilegal são irrazoáveis porque não conseguem aplicar efetivamente as próprias
leis brasileiras, não aplicam mecanismos básicos de controle para garantir a
conformidade com essas leis e promovem a concorrência desleal de produtos
agrícolas e madeireiros brasileiros com produtos fabricados sem essas práticas.
As ações, políticas e práticas do Brasil oneram ou restringem o comércio dos
EUA porque os produtores americanos são forçados a competir com produtos
agrícolas brasileiros a preços artificialmente mais baixos. Quando produtos
agrícolas e madeireiros produzidos em terras desmatadas ilegalmente entram nos
mercados dos Estados Unidos e globais, isso prejudica a competitividade dos
produtos americanos, resultando em perda de receita e vendas para produtores e
exportadores dos EUA.”
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Corrupção
Outro
argumento usado pela Casa Branca é da incapacidade de o Brasil lidar com a
corrupção. O texto só não cita que muitas das conclusões e citações se referem
às constatações feitas por organismos internacionais depois que Jair Bolsonaro
desmantelou parte dos mecanismos de combate à corrupção.
Foi
durante o governo de Bolsonaro que o ex-juiz Sérgio Moro optou por deixar o
Ministério da Justiça, acusando o então presidente de atacar a Lava Jato.
Nos
informes obtidos pelo ICL, a OCDE também denunciou o envolvimento de Bolsonaro
na tentativa de determinar o uso dos mecanismos de combate à corrupção.
Mas, em
seu informe, a Casa Branca uma vez mais omitiu a responsabilização do governo
Bolsonaro.
“O
Brasil falhou e continua falhando em tomar medidas suficientes para combater o
suborno e a corrupção”, disse.
“Em um
relatório de outubro de 2023, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE) expressou preocupação com o fato de o Brasil não ter alcançado
um nível sustentável de combate ao suborno internacional compatível com seu
perfil econômico, especialmente considerando o envolvimento de empresas
brasileiras em alguns dos maiores casos de corrupção do mundo na última
década”, disse.
“O
relatório destacou a falha do Brasil em investigar e processar alegações de
suborno internacional. Em 2023, a OCDE observou que o primeiro e único caso de
suborno internacional levado a julgamento criminal no Brasil ainda estava em
andamento, apesar de ter começado em 2014”, alertou.
O
relatório também expressou “preocupação” com a anulação de todas as provas em
um acordo de leniência com uma construtora brasileira, negociado pelo
Ministério Público do Brasil no âmbito da Operação Lava Jato.
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F. Bolsonaro: do “andar de cima” ao “andar de cima do
crime organizado”. Por Leopoldo Vieira
Candidato
preferido de setores financeiros e empresariais que investem na aliança entre
liberalismo econômico e direita radical, o senador Flávio Bolsonaro corre o
risco de passar a ser identificado, pela propaganda eleitoral, como um nome do
chamado “andar de cima do crime organizado”, não apenas do “andar de cima” ou
establishment.
O
vazamento do áudio entre o senador Bolsonaro e Daniel Vorcaro, dono do Banco
Master, atingiu o coração da campanha de oposição ao aproximá-la do acusado de
comandar a maior fraude financeira da história do país, sustentada em ativos
associados ao crime organizado, segundo apurações da Polícia Federal (PF).
Play
Video
Como
imagem política, o episódio indica a cobrança de financiamento privado para um
filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro com motivações eleitorais, já que
2026 é um ano de disputa pelo voto, o que sugere a causa política em comum por
trás de uma relação pessoal de intimidade.
Embora
o impacto possa ser limitado pela dinâmica da polarização e dentro do campo
bolsonarista fiel, que resistiu ao lado do líder até nos piores momentos da
pandemia de Covid-19, já produz danos entre públicos decisivos para uma disputa
apertada: centro, classe média, independentes e indecisos.
A força
do bolsonarismo, por sua vez, deve bloquear o advento de uma alternativa capaz
de chegar ao segundo turno, pois já existe uma fatia da direita que não votará
em Flávio no primeiro, expressa nos resultados de postulantes como Romeu Zema e
Ronaldo Caiado.
GUINAR
‘SETE GRAUS’ A BOMBORDO
O caso
marca uma alteração relevante, embora esperada por empresários como Lawrence
Pih, no eixo da percepção pública sobre corrupção, ligando diretamente o
escândalo ao Centrão e à direita. Em paralelo, a sequência de eventos iniciada
pelo encontro entre o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e o
americano, Donald Trump, reposicionou rapidamente o petista. Analistas de
companhias de risco político projetavam a recuperação dele até julho, movimento
que acabou sendo antecipado.
Pesquisas
internas de institutos e bancos apontam que Lula pode ampliar em até sete
pontos uma vantagem sobre Flávio, em meio à probabilidade de o senador ser
atingido por novas revelações envolvendo as relações do clã Bolsonaro com
Vorcaro, inclusive sobre financiamentos de origem questionável para atividades
políticas nacionais e internacionais do grupo. Ter negado conhecer o dono do
Master fulminou sua credibilidade.
Caso
essa vantagem se confirme nas próximas pesquisas, ficará nítido que denúncias
de corrupção têm potencial para abalar a principal candidatura de oposição para
além dos parâmetros atuais da polarização. Isso sugeriria que o presidente
avançou mais do que se calculava, até aqui, na disputa pela bandeira
anticorrupção.
Para
setores empresariais e investidores que resistem à aliança entre liberalismo e
conservadorismo, o senador Bolsonaro passou a carregar um risco reputacional
para pessoas jurídicas e eleitores de centro, classe média, independentes e
indecisos.
¨
O "Estado" bandido de Vorcaro e a República.
Por Aldo Fornazieri
O
escândalo Master se estruturou sobre dois grandes eixos: a criação de um
Estado-bandido pelo grupo criminoso e a degradação da República pela corrupção
de autoridades. Diferentemente das máfias, o Estado-bandido de Vorcaro se
viabilizou de forma superestrutural. As máfias foram organizações de base que
se infiltraram nos aparatos estatais de baixo para cima.
O
Estado-bandido de Vorcaro se estruturou no alto e se infiltrou pelo alto –
pelas estruturas políticas, institucionais e financeiras –, numa operação que
envolveu a colaboração do grupo criminoso com altas autoridades da República e
funcionários do Estado. Quer dizer: essa organização criminosa se estrutura de
forma intra e extraestatal.
Vorcaro
se revelou um grande estrategista na infiltração e na cooptação de autoridades
e funcionários. Para isso, utilizou um coquetel de meios, destacando-se três:
1) envolvimento de familiares de autoridades com negócios envolvendo o
ecossistema das organizações e fundos ligados ao Master; 2) distribuição farta
e generosa de propinas, benesses e favores a autoridades, a exemplo de viagens
de jatinhos, hotéis de luxo e pagamentos em dinheiro; 3) festas nababescas
regadas a luxo e favores sexuais, com uso de garotas trazidas de países do
Leste Europeu.
No
primeiro ponto, destacam-se relações contratuais e negócios com familiares de
ministros do STF, como os irmãos de Dias Toffoli, a esposa de Alexandre de
Moraes, o filho de Nunes Marques e o escritório da família do ex-ministro
Ricardo Lewandowski. O ex-ministro da Fazenda de governos petistas, Guido
Mantega, também prestou serviços a Vorcaro. Os funcionários do Banco Central,
comprados para fazer vistas grossas e para viabilizar as ilegalidades
financeiras do Master, estão neste mesmo enquadramento.
Já a
família Bolsonaro foi cooptada por meio de um nebuloso financiamento do filme
sobre o ex-presidente. Há ainda muito por esclarecer neste caso, e a
perspectiva de novas revelações deve agravar a crise na candidatura
bolsonarista. Flávio Bolsonaro, mesmo sabendo das fraudes de Vorcaro, o chama
de irmão e declara que estará sempre com ele. “Não tem meia conversa entre a
gente”, diz.
No
segundo ponto, é possível arrolar o senador Ciro Nogueira, o ex-presidente do
BRB Paulo Henrique Costa, que está preso, Nicolas Ferreira e vários outros.
Ciro Nogueira, além das viagens de luxo, recebia uma mesada de R$ 300 mil a R$
500 mil mensais. Paulo Henrique Costa receberia imóveis no valor de R$ 164
milhões. Recebeu parte desse montante. A ordem de Vorcaro era deixá-lo feliz,
pois ele viabilizaria a compra do Master pelo BRB.
No
ponto três, as especulações são muitas. Fala-se de deputados, senadores,
ministros e empresários. Este ainda é um ponto nebuloso, pois tratar-se-ia de
eventos da esfera da vida íntima dos envolvidos. Mas a Polícia Federal está
investigando. Juristas e a PF apontam para a possibilidade de dois crimes:
tráfico de pessoas para exploração sexual e uso desses encontros para corrupção
e tráfico de influência envolvendo autoridades.
O
Estado-bandido de Vorcaro articulou várias outras estruturas: espionagem
digital e física, contrainformação e operações de desinformação, infiltração
institucional na PF, no Ministério Público e na Interpol, articulações
internacionais, articulações com o PCC, com o jogo do bicho e milícias no Rio
de Janeiro, estruturação de um grupo armado para agir com violência e intimidar
adversários e desafetos, incluindo jornalistas.
A
partir dessas estruturas e contando com a cobertura de autoridades, com a
proteção de funcionários públicos, Vorcaro montou um cipoal de negócios
fraudulentos, uma ciranda, uma espécie de pirâmide que terminou por quebrar o
banco. Arrastou fundos de pensão de estados e municípios, carteiras de
consignados, arrasou o Fundo Garantidor de Crédito. Até agora, o montante das
fraudes chega a mais de R$ 50 bilhões.
Se
Vorcaro se mostrou eficaz em cooptar, corromper, infiltrar e fraudar,
revelou-se desastroso em outros pontos estratégicos para organizações
criminosas. Foi um péssimo gestor dos recursos, seja para otimizar o que
auferiu pelas fraudes, seja para ser mais comedido na distribuição de propinas.
Também se mostrou desastroso na proteção da organização criminosa, agindo
abertamente, naturalizando seus crimes. As máfias são mais ciosas na proteção
de suas organizações contra as investidas das investigações policiais e das
ações judiciais. O Estado-bandido de Vorcaro ruiu como um castelo de areia, tão
rapidamente quanto a sua ascensão meteórica.
A
contraface do Estado-bandido de Vorcaro é a República degradada. Pode parecer
espantoso que ministros do STF, senadores, altos funcionários do Estado,
agentes da Polícia Federal, diretores de fundos de pensão e o conselho inteiro
do Banco de Brasília tenham se enredado na teia de corrupção de Vorcaro. Mas,
pensando bem, não é tão espantoso assim. É mais adequado dizer que é o modo de
ser do Brasil, especialmente de Brasília.
É
desalentador ver que pessoas, juízes, ministros, senadores e altos funcionários
se deixam arrastar pela ambição, pela cobiça ou pela imbecilidade ao fundo do
poço. Muitas dessas pessoas são bem instruídas, conhecedoras da história,
alcançaram altos postos públicos. Nunca deveriam se esquecer de que, entre a
grandeza e a desgraça, a distância é muito pequena.
Corrupção,
fraudes, rombos, sonegações estão por toda parte. No Rio de Janeiro, a Refit, a
maior sonegadora do Brasil, havia capturado o então governador Cláudio Castro e
algumas secretarias do estado para garantir a impunidade e a continuidade de
seus crimes. Em São Paulo, algumas grandes empresas que ostentavam reputação
pública ilibada, a exemplo da Fast Shop, Ultrafarma, três grandes grupos
empresariais do setor de plásticos e resinas e empresas do setor de autopeças
promoveram fraudes fiscais bilionárias contra os cofres públicos do estado. Os
escândalos do INSS, orçamento secreto, emendas e penduricalhos são apenas peças
nesse combo vergonhoso de assaltos ao que deveria ser do povo.
São
autoridades da República e altos funcionários que a degradam e a destroem.
Destroem o seu caráter público, a coisa do povo, as suas virtudes, a
frugalidade, o compromisso, a transparência, a responsabilidade. Muitas dessas
autoridades e políticos que se corrompem usam a máscara hipócrita da religião
para fraudar, enganar e roubar. O próprio cunhado de Vorcaro, Fabiono Zéttel, é
pastor da Igreja da Lagoinha. Flávio Bolsonaro se declara representante de Deus
na luta contra o demônio.
A
destruição da República provoca uma rejeição à política. Mais de 60% da
população afirma que não confia nos partidos, resultando num processo de
desengajamento político e desconfiança institucional. Os poderes da República
têm baixa legitimidade. As pessoas se sentem fatigadas. As eleições estão se
definindo por um jogo de rejeições. O desafio das esquerdas e de Lula consiste
em apresentar um programa e propostas que sejam capazes de reverter esses
sentimentos generalizados de desânimo e frustração social.
Fonte:
ICL Notícias/Brasil 247

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