quinta-feira, 4 de junho de 2026

Jamil Chade: Trump usa estragos causados no governo Bolsonaro para punir Brasil

Num documento de mais de cem páginas publicado pelo governo de Donald Trump para justificar tarifas contra a economia brasileira, a Casa Branca ironicamente usa o desmonte promovido por Jair Bolsonaro em políticas públicas como argumentos para agir contra o Brasil.

Washington estima que deveria colocar uma sobretaxa de 25% sobre todos os produtos brasileiras, alegando uma suposta injustiça do STF contra plataformas americanas, o fechamento do mercado nacional do etanol e o sistema do Pix.

Mas pelo menos dois argumentos têm uma relação direta com as escolhas adotadas por Bolsonaro durante seu governo.

Uma delas é a acusação por parte da Casa Branca de que o Brasil não estaria agindo contra o desmatamento. Não há, porém, qualquer referência aos projetos e medidas adotadas pelo governo Bolsonaro para desmontar o Ibama, para flexibilizar o uso de terras, os ataques contra ambientalistas e o discurso negacionista da extrema direita brasileira.

“Apesar de possuir um marco legal para combater o desmatamento ilegal, o Brasil historicamente tem falhado em aplicá-lo de forma eficaz, e o desmatamento ilegal persiste”, diz a conclusão da investigação.

O texto cita que, de acordo com o Código Florestal brasileiro (Lei nº 12.651/2012), as propriedades rurais são obrigadas a se cadastrar no Cadastro Ambiental Rural e fornecer informações detalhadas que facilitem a verificação e a rastreabilidade de produtos de origem legal.

“No entanto, esses cadastros não são adequadamente auditados para detectar fraudes e informações falsas, por exemplo, por meio da verificação cruzada frequente das informações fornecidas com dados de satélite”, apontam.

No governo Bolsonaro, o Código Florestal era alvo de ataques, inclusive por membros do Palácio do Planalto.

“A melhoria na aplicação do Código Florestal e de outras leis, políticas e regulamentações ambientais destinadas a combater o desmatamento ilegal, bem como o investimento em tecnologia que facilitaria auditorias mais frequentes e eficazes, não têm sido suficientes”, apontam os americanos.

Outra acusação se refere à “prevalência de fraudes no setor madeireiro”. “Os documentos oficiais não são suficientes para comprovar que a madeira da Amazônia foi extraída legalmente”, indica.

Segundo eles, um estudo de 2024 que analisou áreas protegidas em toda a Amazônia brasileira constatou que as políticas do Brasil não conseguiram prevenir adequadamente a grilagem de terras, a pecuária ilegal e o desmatamento.

“O desmatamento, tanto legal quanto ilegal, está intimamente ligado à produção de certos produtos madeireiros e agrícolas”, denuncia.

Num dos trechos, a investigação chega a fazer referências aos anos que Bolsonaro esteve no poder. Mas seu nome é omitido.

“Estimativas indicam que a conversão de terras de floresta primária para produção agrícola responde por mais de 90% do desmatamento (legal e ilegal) no Brasil desde 2001, e entre 2018 e 2022, a pecuária foi responsável por 78% do desmatamento atribuído a commodities”, afirmou.

•        O desmatamento tornou-se sistêmico, atingindo o maior índice em 15 anos em 2021.

Uma vez mais, não há referências ao bolsonarismo e seus aliados.

“Embora seja difícil determinar estimativas exatas da parcela da produção agrícola brasileira cultivada em terras desmatadas ilegalmente, um estudo de 2021 estimou que o Brasil perdeu 18 milhões de hectares de floresta devido à conversão para o agronegócio entre 2013 e 2019, dos quais 95% provavelmente foram obtidos ilegalmente”, disse.

“Um estudo estimou que o Brasil exportou US$ 19 bilhões em commodities de risco florestal em 2019. Produtos madeireiros de origem ilegal contribuem para a distorção dos preços globais, resultando na desvalorização dos produtos madeireiros dos EUA. De modo geral, estima-se que a madeira extraída ilegalmente reduza o valor da madeira extraída legalmente em 7% a 16%”, apontou.

As conclusões de um governo americano que se nega a participar do Acordo de Paris apontam: “As ações, políticas e práticas do Brasil em relação ao desmatamento ilegal são irrazoáveis porque não conseguem aplicar efetivamente as próprias leis brasileiras, não aplicam mecanismos básicos de controle para garantir a conformidade com essas leis e promovem a concorrência desleal de produtos agrícolas e madeireiros brasileiros com produtos fabricados sem essas práticas. As ações, políticas e práticas do Brasil oneram ou restringem o comércio dos EUA porque os produtores americanos são forçados a competir com produtos agrícolas brasileiros a preços artificialmente mais baixos. Quando produtos agrícolas e madeireiros produzidos em terras desmatadas ilegalmente entram nos mercados dos Estados Unidos e globais, isso prejudica a competitividade dos produtos americanos, resultando em perda de receita e vendas para produtores e exportadores dos EUA.”

<><> Corrupção

Outro argumento usado pela Casa Branca é da incapacidade de o Brasil lidar com a corrupção. O texto só não cita que muitas das conclusões e citações se referem às constatações feitas por organismos internacionais depois que Jair Bolsonaro desmantelou parte dos mecanismos de combate à corrupção.

Foi durante o governo de Bolsonaro que o ex-juiz Sérgio Moro optou por deixar o Ministério da Justiça, acusando o então presidente de atacar a Lava Jato.

Nos informes obtidos pelo ICL, a OCDE também denunciou o envolvimento de Bolsonaro na tentativa de determinar o uso dos mecanismos de combate à corrupção.

Mas, em seu informe, a Casa Branca uma vez mais omitiu a responsabilização do governo Bolsonaro.

“O Brasil falhou e continua falhando em tomar medidas suficientes para combater o suborno e a corrupção”, disse.

“Em um relatório de outubro de 2023, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) expressou preocupação com o fato de o Brasil não ter alcançado um nível sustentável de combate ao suborno internacional compatível com seu perfil econômico, especialmente considerando o envolvimento de empresas brasileiras em alguns dos maiores casos de corrupção do mundo na última década”, disse.

“O relatório destacou a falha do Brasil em investigar e processar alegações de suborno internacional. Em 2023, a OCDE observou que o primeiro e único caso de suborno internacional levado a julgamento criminal no Brasil ainda estava em andamento, apesar de ter começado em 2014”, alertou.

O relatório também expressou “preocupação” com a anulação de todas as provas em um acordo de leniência com uma construtora brasileira, negociado pelo Ministério Público do Brasil no âmbito da Operação Lava Jato.

¨      F. Bolsonaro: do “andar de cima” ao “andar de cima do crime organizado”. Por Leopoldo Vieira

Candidato preferido de setores financeiros e empresariais que investem na aliança entre liberalismo econômico e direita radical, o senador Flávio Bolsonaro corre o risco de passar a ser identificado, pela propaganda eleitoral, como um nome do chamado “andar de cima do crime organizado”, não apenas do “andar de cima” ou establishment.

O vazamento do áudio entre o senador Bolsonaro e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, atingiu o coração da campanha de oposição ao aproximá-la do acusado de comandar a maior fraude financeira da história do país, sustentada em ativos associados ao crime organizado, segundo apurações da Polícia Federal (PF).

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Como imagem política, o episódio indica a cobrança de financiamento privado para um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro com motivações eleitorais, já que 2026 é um ano de disputa pelo voto, o que sugere a causa política em comum por trás de uma relação pessoal de intimidade.

Embora o impacto possa ser limitado pela dinâmica da polarização e dentro do campo bolsonarista fiel, que resistiu ao lado do líder até nos piores momentos da pandemia de Covid-19, já produz danos entre públicos decisivos para uma disputa apertada: centro, classe média, independentes e indecisos.

A força do bolsonarismo, por sua vez, deve bloquear o advento de uma alternativa capaz de chegar ao segundo turno, pois já existe uma fatia da direita que não votará em Flávio no primeiro, expressa nos resultados de postulantes como Romeu Zema e Ronaldo Caiado.

GUINAR ‘SETE GRAUS’ A BOMBORDO

O caso marca uma alteração relevante, embora esperada por empresários como Lawrence Pih, no eixo da percepção pública sobre corrupção, ligando diretamente o escândalo ao Centrão e à direita. Em paralelo, a sequência de eventos iniciada pelo encontro entre o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e o americano, Donald Trump, reposicionou rapidamente o petista. Analistas de companhias de risco político projetavam a recuperação dele até julho, movimento que acabou sendo antecipado.

Pesquisas internas de institutos e bancos apontam que Lula pode ampliar em até sete pontos uma vantagem sobre Flávio, em meio à probabilidade de o senador ser atingido por novas revelações envolvendo as relações do clã Bolsonaro com Vorcaro, inclusive sobre financiamentos de origem questionável para atividades políticas nacionais e internacionais do grupo. Ter negado conhecer o dono do Master fulminou sua credibilidade.

Caso essa vantagem se confirme nas próximas pesquisas, ficará nítido que denúncias de corrupção têm potencial para abalar a principal candidatura de oposição para além dos parâmetros atuais da polarização. Isso sugeriria que o presidente avançou mais do que se calculava, até aqui, na disputa pela bandeira anticorrupção.

Para setores empresariais e investidores que resistem à aliança entre liberalismo e conservadorismo, o senador Bolsonaro passou a carregar um risco reputacional para pessoas jurídicas e eleitores de centro, classe média, independentes e indecisos.

¨      O "Estado" bandido de Vorcaro e a República. Por Aldo Fornazieri

O escândalo Master se estruturou sobre dois grandes eixos: a criação de um Estado-bandido pelo grupo criminoso e a degradação da República pela corrupção de autoridades. Diferentemente das máfias, o Estado-bandido de Vorcaro se viabilizou de forma superestrutural. As máfias foram organizações de base que se infiltraram nos aparatos estatais de baixo para cima.

O Estado-bandido de Vorcaro se estruturou no alto e se infiltrou pelo alto – pelas estruturas políticas, institucionais e financeiras –, numa operação que envolveu a colaboração do grupo criminoso com altas autoridades da República e funcionários do Estado. Quer dizer: essa organização criminosa se estrutura de forma intra e extraestatal.

Vorcaro se revelou um grande estrategista na infiltração e na cooptação de autoridades e funcionários. Para isso, utilizou um coquetel de meios, destacando-se três: 1) envolvimento de familiares de autoridades com negócios envolvendo o ecossistema das organizações e fundos ligados ao Master; 2) distribuição farta e generosa de propinas, benesses e favores a autoridades, a exemplo de viagens de jatinhos, hotéis de luxo e pagamentos em dinheiro; 3) festas nababescas regadas a luxo e favores sexuais, com uso de garotas trazidas de países do Leste Europeu.

No primeiro ponto, destacam-se relações contratuais e negócios com familiares de ministros do STF, como os irmãos de Dias Toffoli, a esposa de Alexandre de Moraes, o filho de Nunes Marques e o escritório da família do ex-ministro Ricardo Lewandowski. O ex-ministro da Fazenda de governos petistas, Guido Mantega, também prestou serviços a Vorcaro. Os funcionários do Banco Central, comprados para fazer vistas grossas e para viabilizar as ilegalidades financeiras do Master, estão neste mesmo enquadramento.

Já a família Bolsonaro foi cooptada por meio de um nebuloso financiamento do filme sobre o ex-presidente. Há ainda muito por esclarecer neste caso, e a perspectiva de novas revelações deve agravar a crise na candidatura bolsonarista. Flávio Bolsonaro, mesmo sabendo das fraudes de Vorcaro, o chama de irmão e declara que estará sempre com ele. “Não tem meia conversa entre a gente”, diz.

No segundo ponto, é possível arrolar o senador Ciro Nogueira, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, que está preso, Nicolas Ferreira e vários outros. Ciro Nogueira, além das viagens de luxo, recebia uma mesada de R$ 300 mil a R$ 500 mil mensais. Paulo Henrique Costa receberia imóveis no valor de R$ 164 milhões. Recebeu parte desse montante. A ordem de Vorcaro era deixá-lo feliz, pois ele viabilizaria a compra do Master pelo BRB.

No ponto três, as especulações são muitas. Fala-se de deputados, senadores, ministros e empresários. Este ainda é um ponto nebuloso, pois tratar-se-ia de eventos da esfera da vida íntima dos envolvidos. Mas a Polícia Federal está investigando. Juristas e a PF apontam para a possibilidade de dois crimes: tráfico de pessoas para exploração sexual e uso desses encontros para corrupção e tráfico de influência envolvendo autoridades.

O Estado-bandido de Vorcaro articulou várias outras estruturas: espionagem digital e física, contrainformação e operações de desinformação, infiltração institucional na PF, no Ministério Público e na Interpol, articulações internacionais, articulações com o PCC, com o jogo do bicho e milícias no Rio de Janeiro, estruturação de um grupo armado para agir com violência e intimidar adversários e desafetos, incluindo jornalistas.

A partir dessas estruturas e contando com a cobertura de autoridades, com a proteção de funcionários públicos, Vorcaro montou um cipoal de negócios fraudulentos, uma ciranda, uma espécie de pirâmide que terminou por quebrar o banco. Arrastou fundos de pensão de estados e municípios, carteiras de consignados, arrasou o Fundo Garantidor de Crédito. Até agora, o montante das fraudes chega a mais de R$ 50 bilhões.

Se Vorcaro se mostrou eficaz em cooptar, corromper, infiltrar e fraudar, revelou-se desastroso em outros pontos estratégicos para organizações criminosas. Foi um péssimo gestor dos recursos, seja para otimizar o que auferiu pelas fraudes, seja para ser mais comedido na distribuição de propinas. Também se mostrou desastroso na proteção da organização criminosa, agindo abertamente, naturalizando seus crimes. As máfias são mais ciosas na proteção de suas organizações contra as investidas das investigações policiais e das ações judiciais. O Estado-bandido de Vorcaro ruiu como um castelo de areia, tão rapidamente quanto a sua ascensão meteórica.

A contraface do Estado-bandido de Vorcaro é a República degradada. Pode parecer espantoso que ministros do STF, senadores, altos funcionários do Estado, agentes da Polícia Federal, diretores de fundos de pensão e o conselho inteiro do Banco de Brasília tenham se enredado na teia de corrupção de Vorcaro. Mas, pensando bem, não é tão espantoso assim. É mais adequado dizer que é o modo de ser do Brasil, especialmente de Brasília.

É desalentador ver que pessoas, juízes, ministros, senadores e altos funcionários se deixam arrastar pela ambição, pela cobiça ou pela imbecilidade ao fundo do poço. Muitas dessas pessoas são bem instruídas, conhecedoras da história, alcançaram altos postos públicos. Nunca deveriam se esquecer de que, entre a grandeza e a desgraça, a distância é muito pequena.

Corrupção, fraudes, rombos, sonegações estão por toda parte. No Rio de Janeiro, a Refit, a maior sonegadora do Brasil, havia capturado o então governador Cláudio Castro e algumas secretarias do estado para garantir a impunidade e a continuidade de seus crimes. Em São Paulo, algumas grandes empresas que ostentavam reputação pública ilibada, a exemplo da Fast Shop, Ultrafarma, três grandes grupos empresariais do setor de plásticos e resinas e empresas do setor de autopeças promoveram fraudes fiscais bilionárias contra os cofres públicos do estado. Os escândalos do INSS, orçamento secreto, emendas e penduricalhos são apenas peças nesse combo vergonhoso de assaltos ao que deveria ser do povo.

São autoridades da República e altos funcionários que a degradam e a destroem. Destroem o seu caráter público, a coisa do povo, as suas virtudes, a frugalidade, o compromisso, a transparência, a responsabilidade. Muitas dessas autoridades e políticos que se corrompem usam a máscara hipócrita da religião para fraudar, enganar e roubar. O próprio cunhado de Vorcaro, Fabiono Zéttel, é pastor da Igreja da Lagoinha. Flávio Bolsonaro se declara representante de Deus na luta contra o demônio.

A destruição da República provoca uma rejeição à política. Mais de 60% da população afirma que não confia nos partidos, resultando num processo de desengajamento político e desconfiança institucional. Os poderes da República têm baixa legitimidade. As pessoas se sentem fatigadas. As eleições estão se definindo por um jogo de rejeições. O desafio das esquerdas e de Lula consiste em apresentar um programa e propostas que sejam capazes de reverter esses sentimentos generalizados de desânimo e frustração social.

 

Fonte: ICL Notícias/Brasil 247

 

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