quinta-feira, 4 de junho de 2026

Como a China encurralou a indústria alemã

Empresas alemãs se veem cada vez mais dependentes do mercado chinês, ao mesmo tempo em que sofrem com concorrência asiática. Para economistas, complacência alemã das últimas décadas finalmente cobra preço...

Em abril deste ano, a China forneceu à Alemanha menos de um quilo do valioso metal germânio. Do gálio, igualmente importante e de difícil extração, foram exportados apenas três quilos — e somente para a Malásia. Outros países ficaram completamente de mãos vazias, segundo dados alfandegários chineses. Os exemplos mostram como a China exerce seu poder em relação a elementos vitais para a produção de equipamentos tecnológicos de ponta.

Sem o germânio, não haveria transmissão rápida de dados em cabos de fibra ótica, e os aparelhos de visão noturna não funcionariam, assim como as células fotovoltaicas de alta eficiência das sondas espaciais e dos satélites.

E sem compostos de gálio, não haveria internet 5G de alta velocidade, os carregadores rápidos superaqueceriam e nem mesmo os leitores de código de barras nos supermercados funcionariam.

Christian Hell, gerente-executivo da Tradium, empresa alemã especializada na comercialização de minerais críticos, descreve esse quadro como preocupante: "Se até mesmo a Alemanha, que até agora era abastecida de forma relativamente confiável, fica de mãos vazias, isso é um sinal claro".

No final de maio, a ministra da Economia e Energia da Alemanha, Katherina Reiche, defendeu verbalmente uma concorrência justa para as empresas alemãs na China e clamou por um abastecimento confiável de minerais críticos.

No entanto, o regime chinês parece ter todas as cartas na mão.

Mesmo dentro da UE, falta um esforço unificado em relação à China. E a própria Alemanha vem freando esforços de pressão mais duros — por receio de retaliação chinesa contra empresas alemãs.

<><> Produção na China para a China

O exemplo da Basf mostra o quanto as empresas alemãs estão envolvidas na China. A gigante química alemã inaugurou no final de março uma nova grande fábrica em Zhanjiang, no sul da China ao custo de quase nove bilhões de euros (R$ 52 bilhões).

Na nova planta, a Basf produz produtos químicos para a indústria automotiva e de plásticos da China. Enquanto na fábrica na matriz da empresa, em Ludwigshafen, na Alemanha, o fim do fornecimento de energia da Rússia desde 2022 levou ao corte de postos de trabalho e à redução da produção, na China a Basf pode usar sem maiores problemas o petróleo e gás russos a preços favoráveis.

Com a nova unidade, porém, a Basf tem se tornado cada vez mais dependente da boa vontade dos líderes chineses.

É uma dependência que é duramente criticada pelos Estados Unidos, conforme apontado num documento divulgado em novembro, que delineou a nova Estratégia de Segurança Nacional americana. "A Guerra na Ucrânia teve o efeito perverso de aumentar a dependência externa da Europa — especialmente a da Alemanha. Hoje, empresas químicas alemãs estão construindo algumas das maiores plantas de processamento do mundo na China, utilizando gás russo que não conseguem obter em seu próprio país", diz o texto elaborado pelo governo Donald Trump.

<><> Empresas alemãs ajudam a alimentar excesso de capacidade da China

Ao aumentar sua produção na China, empresas alemãs estão contribuindo para que o excesso de capacidade chinesa inunde o mercado mundial.

Enquanto a economia interna da Alemanha permanece estagnada, a capacidade de exportação chinesa funciona a todo vapor. A chamada política de "Dupla circulação", colocada em prática a partir de 2020 pelo líder chinês Xi Jinping, parece estar rendendo frutos para os chineses: tornar-se independente das importações, enquanto o mundo se torna cada vez mais dependente de bens e mercadorias "Made in China".

O fato de a China ter se tornado uma nação industrial em posição de liderança pegou muitos de surpresa na Alemanha — embora esse desenvolvimento tenha sido planejado com uma visão de longo prazo.

"Subestimamos a China, como sempre fizemos e ainda fazemos hoje em muitos setores", diz Manuel Vermeer, um consultor de negócios especializado em China. "Estamos aprendendo isso agora de forma muito dolorosa. E ainda reclamamos por não termos sabido disso antes", acrescenta ele, que há 40 anos assessora empresas alemãs a fazer negócios na China.

<><> Visão de longo prazo dos chineses

Nos primeiros anos, empresas alemãs se beneficiaram com o estabelecimento de joint ventures com empresas chinesas e de um acesso ao mercado do país asiático. Mas, ao mesmo tempo, essas empresas transmitiram seu know-how, especialmente na indústria automotiva. Hoje, essa distribuição de papéis se inverteu na maioria dos casos.

"No início da década de 1980, levamos as primeiras empresas alemãs para a China. Tivemos que criar joint ventures, por exemplo, no setor automotivo. Os chineses observaram e ouviram com muita atenção e aprenderam. E, como todos sabemos, eles nos ultrapassaram amplamente, justamente nesse setor. Eles lançam carros fantásticos no mercado, que não só têm boa aparência e são econômicos, mas também são realmente muito, muito bons", afirma Vermeer.

<><> Complacência alemã se volta contra país

"Naquela época, pensávamos: ‘Vamos lá, vamos mostrar aos chineses como se faz. Eles podem tentar imitar um pouco, se quiserem. Mas, com a habitual arrogância alemã, partimos do princípio de que eles nunca conseguiriam fazer isso direito, como os alemães com suas excelentes habilidades de engenharia", afirma Vermeer.

Mas os chineses não só ouviram e aprenderem, como se preparam para fazer tudo isso tão bem ou até melhor do que os alemães. "Ninguém [na Alemanha] nem considerava isso no setor automotivo”, disse Vermeer. No entanto, o aperfeiçoamento chinês jé se fez sentir cedo. Programas como o "Made in China 2025", lançado pelo regime chinês em 2015, ou análises de especialistas já serviam de alerta há anos sobre a crescente pressão competitiva representada pelos chineses – especialmente sobre a Alemanha, o Japão e a Coreia do Sul.

<><> De pupilo a mestre

"Nós também lhes ensinamos isso nas joint ventures", afirma Manuel Vermeer. "Eles copiaram muito de nós, certamente às vezes por meios não totalmente legais."

No caso da montadora Brilliance, parceira chinesa da BMW, a estratégia nem tinha disfarces numa uma planta em Shenyang, no nordeste da China. "De um lado, montava-se o BMW; do outro, o Brilliance. Eles simplesmente copiavam. E com a Volkswagen não foi diferente."

Na semana passada, a ministra alemã Katherina Reiche ficou visivelmente impressionada em sua primeira viagem à China. Ela parecia não parar de se surpreender com o rápido desenvolvimento da República Popular para o papel de potência industrial global de ponta. No entanto, tudo isso era previsível, conforme se pode ler nos documentos de planejamento de política industrial publicados pela liderança comunista do país asiático.

"Há 20 anos, planos quinquenais chineses já mostravam uma aposta na mobilidade elétrica. Mas, na época, os alemães não levaram isso a sério ou simplesmente não leram”, diz Manuel Vermeer.

<><> Chineses se preparam para "jantar" indústria alemã

Em um estudo divulgado na semana passada intitulado O choque chinês 2.0: o custo da complacência alemã, os economistas Sander Tordoir e Brad Setser apontaram que em nenhum lugar o novo avanço chinês na indústria de ponta tem sido tão consequencial quanto na Alemanha. Segundo os economistas, nos anos 2000, um "primeiro choque chinês" na indústria havia castigado especialmente os EUA, mas foi por um tempo benéfico para a Alemanha.

"Por muito tempo, Berlim teve dificuldade em enxergar o problema com clareza. Como a economia superavitária por excelência do mundo, a Alemanha se via como parte de uma coalizão de nações exportadoras e resistia ao escrutínio das políticas que sustentavam os grandes superávits comerciais."

Agora, os pesquisadores do think tank Centre for European Reform apontam que chegou a vez de a Alemanha sentir a pressão. "O superávit da China agora ofusca em muito o da Alemanha. [...] A Alemanha continua hesitante, mesmo com a China já tendo devorado grande parte do almoço da indústria alemã e se preparando para comer o jantar."

Uma olhada no atual plano quinquenal chinês de 2026-2030 também indica para onde o vento chinês está soprando, com o país asiático apostando na computação quântica, inteligência artificial, robótica humanoide e interfaces cérebro-máquina. O rumo é claro: menos dependência do Ocidente e mais controle sobre as cadeias de abastecimento globais.

"Uma China que está a caminho de representar 40% da produção industrial global até 2030, ao mesmo tempo em que aumenta as exportações e reduz as importações, criará inevitavelmente mais gargalos, como o controle de terras raras e ingredientes farmacêuticos e produção de chips. A dependência alemã das cadeias de abastecimento chinesas afetará a capacidade da Europa de se rearmar, apoiar a Ucrânia e reduzir suas próprias vulnerabilidades econômicas. Quanto mais a Alemanha esperar, maior e mais disruptiva a resposta eventual terá que ser", conclui o estudo dos economistas Sander Tordoir e Brad Setser.

¨      Economia alemã segue sem sinais de recuperação

O relatório mais recente do Conselho Alemão de Especialistas Econômicos, um órgão consultivo independente, não trouxe notícias animadoras para o chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz. Na quarta-feira (27/05), ele ouviu de cinco economistas que compõem o grupo uma avaliação negativa do cenário econômico.

"Infelizmente, tivemos de reduzir a previsão de crescimento apresentada neste relatório", disse a presidente do Conselho, Monika Schnitzer, antes da reunião. "Agora esperamos que o Produto Interno Bruto (PIB) cresça apenas 0,5% neste ano e 0,8% no próximo."

O PIB mede o valor total de todos os bens e serviços produzidos e é o indicador da força econômica de um país. Já a taxa de inflação — ou seja, a alta dos preços — deve subir para 3% em 2026.

Os números entram em choque com o que Merz prometeu como sua principal prioridade ao assumir o governo em maio de 2025: recolocar a economia nos trilhos.

<><> Frustração entre empresas alemãs

Líderes empresariais vêm expressando um descontentamento crescente com o governo. As principais associações industriais afirmam que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a posição competitiva da Alemanha na economia global nunca foi tão precária.

Um em cada quatro empregos no país está ligado ao setor industrial. Durante décadas, as exportações alemãs de automóveis, máquinas, produtos químicos e farmacêuticos prosperaram, e o país colheu os frutos disso. Desde a prolongada desaceleração econômica iniciada em 2019, porém, as empresas alemãs vêm perdendo competitividade global, e exportadores questionam abertamente se ainda é possível reverter o quadro.

<><> Preços da energia dispararam

Ao final do ano passado, havia alguma esperança de que a economia finalmente começasse a reagir em 2026. Mas a guerra no Irã atrapalhou esses planos. Os preços do óleo de aquecimento subiram 40%, e gás e eletricidade também devem continuar ficando mais caros.

Antes da guerra no Irã, 20% do consumo global de petróleo e gás natural liquefeito passava pelo Estreito de Ormuz, ao largo da costa iraniana. Mas, assim como a política tarifária do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o bloqueio tem afetado o mundo inteiro.

"Tarifas e a crise energética estão atingindo a economia alemã de forma particularmente dura, porque o país é ao mesmo tempo exportador de bens e importador de combustíveis fósseis", explicou o economista austríaco Gabriel Felbermayr, recentemente nomeado para o Conselho Alemão de Especialistas Econômicos.

Ao mesmo tempo, cresce a pressão competitiva nos mercados globais, especialmente da China. Em 2025, o país asiático voltou a aumentar o volume de bens exportados para a Europa, ampliando a concorrência com a Alemanha, que tem no continente europeu seu principal mercado de exportação, afirmou Felbermayr. "Isso impõe uma enorme pressão sobre as indústrias alemãs tanto no mercado interno quanto em terceiros mercados."

<><> Menos crianças e mais aposentados

A falta de crescimento econômico também evidencia os problemas estruturais enfrentados pela Alemanha, como o rápido envelhecimento da população. Nos próximos anos, os baby boomers alcançarão a idade de aposentadoria.

Ao mesmo tempo, a expectativa de vida aumenta, a taxa de natalidade continua caindo e a imigração para a Alemanha está em declínio. Além disso, à medida que a população envelhece, também sobem os custos com cuidados de saúde e assistência de longo prazo.

No país, os fundos de seguridade social são financiados por contribuições de empregados e empregadores. Atualmente, essas contribuições representam pouco mais de 42% dos custos da folha de pagamento. "Sem reformas, a taxa combinada de contribuições para todos os programas de seguro social vai ultrapassar 50% até 2040", estima a presidente do Conselho, Schnitzer.

Será necessário conter gastos e estabilizar receitas. O Conselho recomenda que a geração mais velha contribua mais para os custos. De modo geral, afirmou Schnitzer, é preciso "fazer reformas que também resultem em encargos financeiros reais". Seu colega Achim Truger, no entanto, discorda, por temer que isso gere dificuldades para a população.

É justamente por isso que a coalizão governista formada pelas conservadoras União Democrata Cristã (CDU)/União Social Cristã (CSU) e pelos social-democratas (SPD) encontra tantas dificuldades para implementar reformas. Ainda não está claro quais dos bilhões em cortes planejados serão efetivamente adotados. Uma proposta para exigir contribuições mais altas ao seguro de cuidados de longo prazo de pessoas sem filhos também gerou críticas.

<><> Preocupações com o orçamento

Especialistas também têm manifestado preocupação com a política fiscal do governo federal. Eles afirmam que os elevados gastos financiados por dívida com o fortalecimento militar e a reforma da infraestrutura deteriorada da Alemanha não virão sem custos. O déficit orçamentário deve chegar a 3,7% do PIB neste ano e a 4,3% em 2027 — bem acima dos 3% permitidos pelos critérios de estabilidade da União Europeia.

Apenas uma retomada econômica poderia ajudar, e os especialistas têm algumas sugestões. Eles consideram importante apostar no progresso tecnológico como motor da força econômica.

Mas reconhecem que startups, sozinhas, não serão suficientes e que a indústria alemã precisa de uma mudança fundamental de mentalidade. Segundo eles, as empresas devem redirecionar seus investimentos do setor automotivo para áreas de alta tecnologia e saúde, onde há grandes volumes de pesquisa e desenvolvimento.

 

Fonte: DW Brasil

 

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