quinta-feira, 4 de junho de 2026

Jamil Chade: Representante de Trump diz a ministro brasileiro que quer negociar tarifas

O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, afirmou nesta quarta-feira (3) ao chanceler brasileiro Mauro Vieira que, apesar das conclusões nas investigações contra o país, o governo de Donald Trump quer continuar a negociar uma solução com o Brasil.

O recado foi dado às margens de um encontro da OCDE, em Paris, do qual ambos participaram. Não houve uma reunião. Mas foi o norte-americano quem se aproximou para fazer o comentário.

Greer disse que está dialogando com o Brasil, que há um contato fluido e que quer continuar a dialogar.

Do lado brasileiro, o chanceler disse que a disposição do Brasil é a mesma e que recomendações de adoção de tarifas de 25% e de 12,5%, anunciadas anteontem e ontem pelo USTR, exigem intensificar as negociações.

O Brasil também sinalizou que os dois governos ainda estão dentro do prazo de 30 dias dado por Luiz Inácio Lula da Silva e Trump, em encontro em Washington no mês passado.

Na segunda-feira, o escritório de Greer concluiu investigações contra o Brasil e sugeriu uma sobretaxa que poderia afetar exportações nacionais avaliadas em US$ 10 bilhões. Se não bastante, mais uma tarifa foi sugerida na terça-feira, desta vez relacionada com trabalho forçado.

Prevendo que poderia ser alvo de um ataque, a delegação brasileira usou a viagem de Lula para tentar impedir o novo tarifaço. Ficou estabelecido que ministros dos dois países tentariam chegar a um entendimento no prazo de 30 dias.

Em meados de junho, há ainda mais uma chance de um encontro entre Lula e Trump. Ambos foram convidados para a reunião do G7, na França.

•        Brasil denuncia ingerência de Trump, fala em retaliação e culpa Bolsonaro

Num comunicado emitido pelo Palácio do Planalto, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva subiu o tom de críticas contra Donald Trump e contra a família Bolsonaro. Na nota, as autoridades brasileiras indicam que reservam o direito de aplicar uma retaliação, caso as tarifas sejam impostas pelos EUA contra o Brasil.

Para o governo, a ação de Washington tem uma “motivação política” e alerta que se trata de uma ingerência em assuntos domésticos do país.

O ICL Notícias apurou entre diplomatas que o governo Lula ainda acredita que exista espaço para uma negociação com os EUA. Mas rejeita qualquer ação dos EUA contra o Pix ou por terras raras.

No Palácio do Planalto, foi definido que o Brasil não irá ceder nesses temas estratégicos como barganha para evitar o tarifaço.

Na avaliação interna do governo, as novas barreiras atingiriam pouco menos de 30% do fluxo comercial do Brasil para os EUA, num valor de pouco mais de US$ 10 bilhões.

Nesta terça-feira, a Casa Branca anunciou a conclusão de suas investigações sobre o Brasil, sugerindo que uma taxa de 25% seja imposta sobre os produtos nacionais. Uma lista de exceção também foi publicada, com carne, laranja e produtos desenvolvidos pela Embraer.

Como resposta oficial, o governo Lula manifestou “indignação” com a conclusão preliminar do processo nos EUA.

“Essa investigação teve início em 15 de julho de 2025 por provocação da família Bolsonaro e está associada à tentativa de ingerência em temas internos do nosso país, como feito na recente viagem do senador Flávio Bolsonaro a Washington”, denunciou.

“Essas investidas têm contado com o auxílio de falsos patriotas que usam cargos e funções públicas para conspirar contra os interesses nacionais”, acusou.

“É lastimável que todo o trabalho de diálogo e articulação que o Governo brasileiro tem feito, inclusive com envolvimento pessoal dos Presidentes Lula e Trump, seja sabotado por interesses meramente eleitorais e familiares”, disse.

Para o governo, “não havia e não há justificativa para essas medidas unilaterais contra o nosso país ou contra patrimônios brasileiros como o PIX, mencionado explicitamente nas recomendações preliminares”.

<><> Argumento econômico

De acordo com a nota, os dados oficiais dos EUA apontam que eles acumularam US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos (2011-2025). Só no ano passado, o superávit comercial de bens dos EUA com o Brasil totalizou US$ 14,46 bilhões. Considerando bens e serviços a cifra sobe a US$ 40,52 bilhões.

“Em 2025, 76% das importações originárias dos Estados Unidos entraram no Brasil sem pagar imposto de importação. Oito dos dez principais produtos importados dos Estados Unidos pelo Brasil tiveram tarifa efetiva zero, incluindo petróleo e derivados, aeronaves, gás natural e carvão. A alíquota média efetivamente cobrada dos produtos norte-americanos no Brasil foi de apenas 3,1%”, explicou.

<><> Impacto

Na avaliação do governo, as tarifas são “politicamente motivadas” e o impacto tem sido a imposição de “danos à economia nacional e à geração de emprego e renda, além de diminuir o papel dos EUA como nosso parceiro comercial”.

“No primeiro trimestre de 2026, a participação dos EUA nas exportações brasileiras atingiu o menor valor da série histórica ao somar 9,4%”, alertou.

O Brasil lembrou que, conforme acordado pelos presidentes Lula e Trump por ocasião da reunião em Washington no dia 7 de maio, estão em curso negociações tarifárias entre os dois países em busca de soluções que resultem no encerramento da investigação da Seção 301, previsto para 15 de julho, sem imposição de medidas contra o Brasil. “O Governo brasileiro também dará continuidade ao diálogo com o setor privado com esse objetivo”, indicou.

Para, no texto, o governo alerta que não ficará apenas de braços cruzados.

“O Brasil se reserva o direito de recorrer aos instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, para fazer face a situações de injustiça contra o Estado brasileiro, sem amparo nas regras do comércio internacional”, disse. Em outras palavras, o governo não descarta o uso de uma retaliação.

“O governo reafirma a expectativa de que as recomendações não se convertam em tarifas efetivas, mas reitera que adotará toda e qualquer medida capaz de reduzir os danos que venham a ser causados à economia, aos empregos e à renda dos brasileiros”, disse.

O texto ainda manda um recado aos bolsonaristas. “É preciso estar atento aos traidores da pátria e trabalhar em defesa da nossa soberania e dos interesses do povo brasileiro”, completou.

•        Contra a China, governo Trump quer mais 12,5% de tarifas sobre o Brasil

O governo de Donald Trump concluiu que o Brasil e outras dezenas de economias violam as leis trabalhistas e que, portanto, sugere que novas tarifas terão de ser aplicadas.

A investigação foi concluída e seus resultados foram publicados nesta madrugada pelo Escritório de Comércio da Casa Branca.

A taxa, se aplicada, se somaria ao imposto de 25% já anunciado nesta semana contra o Brasil e outros 10% já aplicado pelo governo Trump contra todos os países.

Desta vez, a alegação é de que o Brasil permite a entrada em seu território de produtos que estariam sendo fabricados com trabalho forçado. Dali, eles seriam incorporados a produtos nacionais e exportados aos EUA ou concorrendo contra produtos americanos no mercado brasileiro.

A meta, segundo especialistas, é a de onerar os países que estão importando produtos chineses, principalmente nos setores que concorrem contra bens americanos.

O informe anuncia:

O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) constatou que o Brasil não conseguiu impor e aplicar efetivamente uma proibição de importação de produtos com trabalho forçado.

Constatamos que a falha em impor e aplicar efetivamente uma proibição de importação de produtos com trabalho forçado é irrazoável.

Constatamos que a falha em impor e aplicar efetivamente uma proibição de importação de produtos com trabalho forçado onera ou restringe o comércio dos EUA.

Embora o Brasil alegue proibir importações produzidas com trabalho forçado por meio da implementação de seus compromissos em acordos de investimento e acordos de livre comércio, essas disposições não proíbem legalmente a importação de bens produzidos total ou parcialmente por trabalho forçado de outra economia para o mercado interno para venda.

Pelos motivos expostos, os resultados desta investigação indicam que os atos, políticas e práticas do Brasil relacionados à falha em impor e aplicar efetivamente uma proibição de importação de produtos com trabalho forçado são irrazoáveis e oneram ou restringem o comércio dos EUA.

Num comunicado, a Casa Branca explicou que as práticas de 60 economias relacionadas à falha em impor e aplicar efetivamente uma proibição à importação de bens produzidos com trabalho forçado são consideradas injustificadas e oneram ou restringem o comércio dos EUA.

“A falha de nossos parceiros comerciais mais importantes em abordar a questão da importação de bens produzidos com trabalho forçado é inaceitável. Isso cria uma dinâmica em que os trabalhadores americanos são forçados a competir globalmente em condições desiguais”, afirmou a Embaixadora Jamieson Greer.

“Não toleraremos mais essa disparidade. Alguns parceiros comerciais já tomaram medidas iniciais para impedir a importação de bens provenientes de trabalho forçado, inclusive por meio do USMCA e de compromissos firmados em Acordos de Comércio Recíproco. No entanto, cada um de nossos parceiros comerciais deve fazer mais para garantir que o comércio não incentive e perpetue o trabalho forçado em nível global”, explicou.

O governo, assim, propõe tarifas adicionais sobre todos os produtos das economias investigadas.

Para as economias que impõem uma proibição à importação de bens provenientes de trabalho forçado, que se comprometeram a impor e aplicar tal proibição por meio de um Acordo de Comércio Recíproco, ou para as economias que impuseram um regime parcial com o efeito de impedir a importação de certos bens provenientes de trabalho forçado, o Representante Comercial dos EUA propõe uma alíquota de 10% para as tarifas adicionais.

Para todas as demais economias, o Representante Comercial dos EUA propõe uma alíquota de 12,5% para as tarifas adicionais. O Representante Comercial dos EUA também propõe um mecanismo têxtil que permitiria a entrada nos Estados Unidos de um determinado volume de importações de vestuário e têxteis de certas economias com uma tarifa reduzida.

Consultas ainda serão realizadas e, até julho, o presidente Trump terá de tomar uma decisão.

<><> Quem será punido com 12,5%

Argélia; Angola; Argentina; Austrália; Bahamas; Bahrein; Bangladesh; Brasil; Camboja; Chile; República Popular da China; Colômbia; Costa Rica; República Dominicana; Egito; El Salvador; Guatemala; Guiana; Honduras; Hong Kong, China; Índia; Iraque; Israel; Japão; Jordânia; Cazaquistão; Kuwait; Líbia; Malásia; Marrocos; Nova Zelândia; Nicarágua; Nigéria; Noruega; Omã; Peru; Filipinas; Catar; Rússia; Arábia Saudita; Singapura; África do Sul; Coreia do Sul; Sri Lanka; Suíça; Taiwan; Tailândia; Trinidad e Tobago; Turquia; Emirados Árabes Unidos; Reino Unido; Uruguai; Venezuela; e Vietnã.

Seis economias não conseguiram aplicar efetivamente uma proibição à importação de bens produzidos com trabalho forçado: Canadá; Equador; União Europeia; Indonésia; México; e Paquistão. Elas, portanto, terão impostos de 10%.

<><> Argumento

Segundo o governo americano, esses governos devem ser punidos pelos seguintes motivos:

(1) prejudica o objetivo universal de eliminar o trabalho forçado;

(2) permite que empresas que se valem de trabalho forçado produzam bens a um custo menor e, assim, distorçam as condições de mercado para empresas que não utilizam trabalho forçado;

(3) prejudica a lucratividade de empresas que não utilizam trabalho forçado; e

(4) contribui para a burla das proibições de importação de trabalho forçado existentes.

“A falha de cada uma das economias acima mencionadas em impor e aplicar efetivamente uma proibição de importação de trabalho forçado onera ou restringe o comércio dos EUA, sujeitando os produtores americanos à concorrência desleal de bens produzidos com trabalho forçado, tanto nos mercados de exportação quanto no mercado americano, e deslocando bens estrangeiros produzidos sem trabalho forçado ou insumos de trabalho forçado para os Estados Unidos e outros mercados”, completa.

•        Marco Rubio diz que Brasil não está entre países amigáveis aos Estados Unidos

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, afirmou nesta terça-feira (2) que o Brasil não está entre os países considerados mais alinhados aos interesses de Washington no hemisfério ocidental. A declaração foi feita durante uma audiência no Senado americano, na qual ele também mencionou que o país atravessa um período de disputa eleitoral.

A fala ocorre em meio ao aumento das tensões entre os governos brasileiro e americano. Na segunda-feira (1º), o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) propôs a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Dias antes, Rubio havia anunciado a inclusão do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) na lista de organizações terroristas dos Estados Unidos.

Durante a audiência, o secretário afirmou que existe atualmente uma rede de países da região que atua em sintonia com Washington tanto em temas de segurança quanto em iniciativas voltadas ao crescimento econômico. Ele, porém, não especificou quais governos fazem parte desse grupo.

Neste ano, o governo de Donald Trump lançou a iniciativa Escudo das Américas, voltada ao combate ao crime organizado transnacional. Embora diversos líderes latino-americanos tenham sido convidados para o encontro, países vistos como menos alinhados à política externa americana — entre eles Brasil, Colômbia e México — ficaram de fora.

Rubio também citou um evento promovido pelo Departamento de Estado sobre minerais críticos, que reuniu representantes de governos da região para discutir parcerias estratégicas com os Estados Unidos.

Ao comentar o cenário político latino-americano, o secretário afirmou que a região é, em sua maioria, composta por governos amistosos aos EUA. Como exceções, mencionou Nicarágua, Cuba, Venezuela, Brasil e o governo colombiano. Sobre o Brasil, destacou que o país está em um ciclo eleitoral; já em relação à Colômbia, classificou o presidente como uma figura “problemática”.

Segundo Rubio, os Estados Unidos precisam aproveitar o atual contexto regional para ampliar sua presença política e econômica após o que chamou de duas décadas de negligência. Na avaliação dele, esse período permitiu que a China e outras potências expandissem sua influência na América Latina.

As declarações contrastam com o posicionamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Também nesta terça-feira, Lula criticou a proposta de novas tarifas contra produtos brasileiros e acusou Rubio de adotar uma postura hostil em relação à América Latina.

“Ele é anti-América Latina. É inimigo mortal de Cuba e de vários países latino-americanos”, afirmou o presidente. Lula também declarou que já manifestou a Donald Trump a percepção de que o republicano não simpatiza com o Brasil. “Eu já disse ao Trump que ele não gosta do Brasil”, disse.

 

Fonte: ICL Notícias

 

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