Repercussão
na imprensa internacional sobre ameaça de novo tarifaço de Trump
A
proposta do governo dos Estados Unidos de adotar tarifas retaliatórias de 25% a
produtos brasileiros após a conclusão de uma grande investigação comercial
contra o Brasil repercutiu na imprensa internacional.
O
governo americano concluiu que certas práticas do governo brasileiro — que
envolvem diversas áreas, como o sistema de pagamentos Pix, a comercialização de
etanol, o combate a corrupção, o respeito a propriedade intelectual e o
desmatamento na Amazônia, entre outros — são "irrazoáveis" e
"oneram ou restringem o comércio dos EUA".
O
jornal britânico The Guardian destacou que os EUA estão propondo tarifas contra
o Brasil "apesar do superávit comercial dos EUA". O Guardian afirma
que "a China tem sido o maior parceiro comercial do Brasil por cerca de
uma década".
"Documentos
divulgados pelo representante comercial dos EUA mostram que, no ano passado, as
exportações americanas para o Brasil aumentaram quase 11%, atingindo US$ 54,4
bilhões. As exportações brasileiras para os EUA caíram 5,7%, para US$ 39,9 bilhões,
o que significa que os EUA tiveram um superávit comercial de mais de US$ 14
bilhões", afirma o jornal britânico.
"O
desequilíbrio comercial no setor de serviços é ainda mais favorável aos EUA,
com as exportações de serviços previstas para 2024 atingindo US$ 29,6 bilhões,
quatro vezes o valor das exportações brasileiras de serviços para os EUA."
O
jornal destacou também as críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva —
tanto ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, como ao senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ), que é pré-candidato à eleição presidencial.
O
Guardian destacou que, em fevereiro, a Suprema Corte dos EUA decidiu que Trump
extrapolou sua autoridade ao usar uma lei diferente — a Lei de Poderes
Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA, na sigla em inglês) de 1977 –
para impor tarifas abrangentes a parceiros comerciais dos EUA, incluindo o
Brasil.
Mas
afirma que a legislação usada agora — a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 —
resiste a contestações judiciais, e "é provável que o governo use essa
autoridade para impor outras tarifas e recuperar parte da receita tributária
perdida quando a Suprema Corte rejeitou as tarifas da IEEPA".
O
jornal americano New York Times também destacou o uso da Seção 301 por Trump
como um novo instrumento mais duradouro para manter tarifas contra outros
países.
"O
governo Trump tem trabalhado para estabelecer um sistema tarifário global mais
duradouro até o verão (do hemisfério norte), mas a Seção 301 exige que o
governo realize investigações específicas para cada país e promova consultas e
audiências antes que os novos impostos de importação entrem em vigor",
afirma o jornal americano.
O New
York Times também destacou que as tarifas propostas pelos EUA "isentariam
alguns produtos, incluindo carne bovina, café, metais de terras raras,
equipamentos aeronáuticos e certas frutas e vegetais".
A rede
Al Jazeera, do Catar, destacou que outros países, como a China e o Vietnã,
também estão sob investigação. E disse que "as mudanças [propostas pelos
EUA] ocorrem apesar da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a
Washington no mês passado, em um momento em que as relações se deterioraram nos
últimos meses".
O
jornal argentino Clarín destacou em seu título as críticas de Lula a Flávio
Bolsonaro e seu irmão, Eduardo Bolsonaro: "Os EUA estão considerando impor
tarifas de 25% sobre o Brasil, e Lula acusa os filhos de Bolsonaro de serem
'traidores'".
"Embora
os mercados tenham reagido com relativa indiferença à notícia, o presidente
Lula da Silva, em tom eleitoral, acusou os filhos de Jair Bolsonaro de estarem
por trás da imposição da tarifa", disse o jornal argentino. "Ainda
assim, Bolsonaro negou ter solicitado a imposição de tarifas."
O
Clarín afirma também que "do ponto de vista comercial, os analistas
minimizaram o impacto das tarifas, considerando que muitos produtos são
isentos".
• O que EUA dizem sobre trabalho forçado
no Brasil ao propor mais tarifas
O
governo dos Estados Unidos incluiu o Brasil em uma lista de 59 países, além da
União Europeia, que "não conseguiram" proibir a importação de bens
produzidos com trabalho forçado — e que, segundo as autoridades americanas,
devem ser sujeitos a mais tarifas retaliatórias por causa disso.
O
Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês)
propõe que o Brasil e outros 53 países citados no relatório recebam tarifas
adicionais de 12,5%. Outras seis economias devem receber taxação de 10%. Não
está claro se essas tarifas se adicionam a outras já em vigor — e como elas se
aplicariam em relação a listas de exceções.
No caso
do Brasil, o relatório destaca o fato de "pesquisas independentes"
sugerirem que "pecuaristas brasileiros constam na chamada 'Lista
Suja'" (leia abaixo na reportagem). A BBC News Brasil entrou em contato
com o governo brasileiro e com associações que representam a pecuária
brasileira, mas ainda não houve manifestação sobre o novo relatório.
Os EUA
ainda estão em fase de consulta sobre essas medidas. O USTR realizará uma
audiência pública sobre sua proposta em 7 de julho.
"O
fracasso dos nossos parceiros comerciais mais importantes em abordar a
importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado é inaceitável. Isso
cria uma dinâmica em que os trabalhadores americanos são forçados a competir
globalmente em condições desiguais", disse o representante-geral de
Comércio dos EUA, Jamieson Greer.
"Não
toleraremos mais essa disparidade. Alguns parceiros comerciais já tomaram
medidas iniciais para impedir a importação de mercadorias produzidas com
trabalho forçado [...]. No entanto, cada um dos nossos parceiros comerciais
deve fazer mais para garantir que o comércio não incentive e perpetue o
trabalho forçado em nível global."
A
investigação foi feita em praticamente todos os parceiros comerciais dos EUA.
As 60 economias sob investigação representam mais de 99% da pauta de
importações dos EUA.
Todas
elas foram condenadas pela investigação — e receberam recomendação de imposição
de tarifas retaliatórias. Entre os países, estão economias avançadas e aliados
tradicionais dos americanos, como União Europeia, Reino Unido, Japão e Israel.
Para
seis economias — Canadá, União Europeia, Equador, México, Paquistão e Indonésia
— a taxação proposta é de 10%, porque no entendimento americano elas possuem
mecanismos, mas não realizam a fiscalização contra o trabalho forçado.
O
anúncio do governo americano ocorre poucas semanas antes da expiração de uma
tarifa de 10% que a Casa Branca havia imposto a dezenas de países após uma
derrota na Suprema Corte em fevereiro, que derrubou o tarifaço inicial proposto
pelo presidente americano Donald Trump. Essa tarifa fixa se baseava na Seção
122 da Lei de Comércio de 1974, mas tinha validade de apenas 150 dias.
Algumas
autoridades e especialistas acusam os EUA de buscar novas formas de manter o
tarifaço de Trump, usando outros pretextos.
"Como
o tribunal considerou o regime tarifário [de Trump] ilegal, acho que está claro
que os EUA estão buscando outras maneiras de restabelecer essa barreira
tarifária, esse regime", disse o ministro do Comércio da Nova Zelândia,
Todd McClay, ao jornal Financial Times. "Não estamos envolvidos em nenhuma
forma de trabalho forçado".
O
anúncio foi feito um dia depois que o mesmo USTR concluiu uma grande
investigação comercial iniciada contra o Brasil em julho do ano passado — e
disse que certas práticas do governo brasileiro são "irrazoáveis" e
"oneram ou restringem o comércio dos EUA".
Na
segunda-feira (01/06), o governo americano propôs tarifas retaliatórias de 25%
a produtos brasileiros — mas essas medidas ainda não foram definidas e serão
discutidas ao longo das próximas semanas até o dia 15 de julho.
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O que o relatório fala sobre o Brasil?
O
Brasil é um dos 59 países (além da União Europeia) com uma seção específica no
relatório. O país é mencionado 19 vezes no relatório de 98 páginas.
"O
USTR constatou que o Brasil não impôs nem aplicou efetivamente uma proibição de
importação de produtos com trabalho forçado", diz o texto, cujas
conclusões sobre o Brasil estão resumidas em três parágrafos.
O
relatório diz que a falha em impor e aplicar efetivamente uma proibição de
importação de produtos com trabalho forçado é "irrazoável" e
"onera ou restringe o comércio dos EUA" — os mesmos termos usados na
conclusão da investigação do dia anterior que condenou práticas comerciais
usadas pelo Brasil e propôs tarifas de 25% aos produtos brasileiros.
"Embora
o Brasil alegue proibir importações produzidas com trabalho forçado por meio da
implementação de seus compromissos em acordos de investimento e acordos de
livre comércio, essas disposições não proíbem legalmente a importação de bens
produzidos total ou parcialmente por trabalho forçado de outra economia para o
mercado interno para venda", diz o texto.
Essas
conclusões sobre o Brasil são semelhantes às de outros países — com algumas
variações no texto para cada um.
O
Brasil aparece em outro trecho do relatório em um estudo de caso específico,
sobre sua produção de carne bovina — ao lado de outros dois exemplos, sobre
importação de arroz de Mianmar e de tabaco do Malauí.
"Está
bem documentado que o trabalho forçado é utilizado na produção de gado no
Brasil", diz o relatório.
"A
lista TVPRA [uma lista do governo americano de produtos fabricados por meio de
trabalho infantil ou trabalho forçado] afirma que há razões para acreditar que
existe trabalho forçado na produção de gado no Brasil. Pesquisas independentes
sugerem que pecuaristas brasileiros constam na chamada 'Lista Suja'."
A
"Lista Suja" é um documento público divulgado pelo Ministério do
Trabalho para dar visibilidade a fiscalizações do governo de combate ao
trabalho escravo.
Segundo
o relatório americano, as exportações agrícolas americanas são afetadas por
isso, já que tanto Brasil como EUA exportam carne bovina congelada para a China
— com o Brasil se distanciando dos americanos na preferência dos chineses.
"Durante
o período de 2015 a 2025, o volume de exportações de carne bovina congelada do
Brasil para as economias investigadas quase dobrou, em comparação com um
aumento de 21% no volume exportado pelos EUA", diz o texto.
"Como
demonstram as importações de carne bovina congelada pela China, os efeitos
negativos da concorrência com produtos provenientes de trabalho forçado sobre
as exportações dos EUA não se limitam a bens manufaturados, podendo também
afetar negativamente as exportações agrícolas americanas."
"Embora
nem todas as importações chinesas de carne bovina congelada do Brasil sejam
necessariamente produzidas com trabalho forçado, a prevalência dessa prática na
produção pecuária brasileira sugere fortemente que ao menos parte dessas
importações foi produzida total ou parcialmente com trabalho forçado."
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Quais países estão na lista junto com o Brasil?
Segundo
as conclusões da investigação americana, "todas as economias investigadas
falharam tanto em impor uma proibição legal à importação de bens produzidos
total ou parcialmente com trabalho forçado quanto em fazer cumprir efetivamente
essa proibição".
As
economias listadas pelos EUA são:
• África do Sul
• Angola
• Arábia Saudita
• Argélia
• Argentina
• Austrália
• Bahamas
• Bahrein
• Bangladesh
• Brasil
• Camboja
• Canadá
• Catar
• Cazaquistão
• Chile
• China
• Colômbia
• Coreia do Sul
• Costa Rica
• Egito
• El Salvador
• Emirados
Árabes Unidos
• Equador
• Filipinas
• Guatemala
• Guiana
• Honduras
• Hong Kong
• Índia
• Indonésia
• Iraque
• Israel
• Japão
• Jordânia
• Kuwait
• Líbia
• Malásia
• Marrocos
• México
• Nova Zelândia
• Nicarágua
• Nigéria
• Noruega
• Omã
• Paquistão
• Peru
• Reino Unido
• República Dominicana
• Rússia
• Singapura
• Sri Lanka
• Suíça
• Taiwan
• Tailândia
• Trinidad e Tobago
• Turquia
• União Europeia
• Uruguai
• Venezuela
• Vietnã
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Tensões entre Brasil e EUA
O
anúncio da conclusão americana sobre trabalho forçado aconteceu um dia após
outra grande investigação sobre o Brasil, na qual o USTR propôs tarifas
retaliatórias de 25% contra produtos brasileiros.
As
supostas práticas brasileiras condenadas pelo governo americano são
relacionadas ao comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, tarifas
preferenciais injustas, combate à corrupção, proteção da propriedade
intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.
O
governo americano ainda está recebendo consultas do público até o dia 1º de
julho sobre as medidas. No dia 6 de julho, haverá uma audiência pública.
O
representante-geral de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, disse que teve
"reuniões construtivas" que "se intensificaram nas últimas
semanas" com os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump — e
que espera dar continuidade a esse diálogo com o governo brasileiro até 15 de
julho, antes de adotar qualquer medida de resposta.
"No
entanto, continuamos enfrentando divergências significativas na resolução das
questões identificadas nesta investigação", disse Greer em nota.
No
mesmo dia em que anunciou a medida, Trump fez uma publicação com o senador e
pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em uma das fotos, também
aparece seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro.
"Foi
muito bom ter Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca — um jovem
inteligente que ama muito o seu país, o Brasil!", escreveu Trump na sua
rede social Truth Social.
Antes
da publicação do presidente americano, Flávio afirmou em vídeo publicado nas
redes sociais que é contra a imposição de novas tarifas para compra de produtos
importados que os EUA planejam adotar contra o Brasil.
"Sempre
defendi as empresas brasileiras e, em qualquer oportunidade que tiver, vou
continuar a defender nosso setor produtivo. Pedi expressamente ao presidente
Trump para não taxar nossas empresas. Tarifa não é solução", disse Flávio
na terça-feira.
"Precisamos
sentar de maneira séria na mesa de negociação, não com bravatas, como faz
Lula."
Lula,
por sua vez, atribuiu a conclusão das investigações americanas à atuação de
Flávio e Eduardo Bolsonaro nos EUA.
O
petista chamou os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro de "vendilhões e
traidores da pátria" ao reagir à nova ameaça do governo americano.
"Esses
filhos do Bolsonaro conseguem ser pior do que ele. E são, na verdade,
vendilhões da pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse
nas decisões brasileiras. É isso que vocês têm que dizer alto e bom som: são
traidores", disse Lula.
O
presidente brasileiro comentou que a reunião que ele teve com Trump no início
do mês havia sido um "sucesso", mas que as negociações foram
atrapalhadas.
O
presidente argumentou ainda que mostrou a Trump que os EUA não têm déficit
comercial com o Brasil e mencionou a celebração da família Bolsonaro no
primeiro tarifaço contra o Brasil.
Em
seguida, Flávio Bolsonaro divulgou uma carta destinada ao secretário de Estado
dos Estados Unidos, Marco Rubio, em que ele pede que Washington não imponha
novas sanções comerciais ao Brasil.
No
ofício, escrito em inglês, o senador diz que o país vive "um grave
processo de deterioração fiscal e econômica" e que a imposição de novas
tarifas causaria "sérios danos ao povo brasileiro".
"Por
isso, escrevo para reiterar formalmente o pedido que lhe fiz pessoalmente: que
os Estados Unidos não imponham tarifas ao Brasil", escreveu.
Outro
ponto de desavença entre os governos dos EUA e Brasil aconteceu na semana
passada, após o governo americano anunciar que passará a classificar as facções
criminosas brasileiras PCC e CV como organizações terroristas. A medida foi
anunciada por Trump dois dias após um encontro no Salão Oval com Flávio
Bolsonaro.
"Nós
não aceitamos ser tratados como moleques. Não aceitamos ser tratados como uma
republiqueta", disse Lula, sobre a decisão americana.
Fonte:
BBC News Brasil

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