Gestão
Nunes assinou contrato com ONG apontada como “de fachada” pelo TCU em 2012
Uma
auditoria obtida com exclusividade pela Agência Pública, feita pelo Tribunal de
Contas da União (TCU) em 2012, é taxativa ao afirmar que o Instituto Conhecer
Brasil (ICB), presidido por Karina Ferreira da Gama, é uma entidade “de
fachada”. Doze anos depois, o mesmo ICB, sob a mesma presidente, assinou um
contrato com a gestão do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), de R$ 108
milhões para fornecer 5 mil pontos de internet para comunidades vulneráveis na
capital paulista.
Karina
Ferreira da Gama é também a proprietária da Go Up Entertainment, produtora do
filme Dark Horse — cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Como a
Pública revelou em 26 de maio, o contrato da ICB teve um aditamento no final do
ano passado, que elevou seu total a mais de R$ 157 milhões, para a instalação e
manutenção de 3,2 mil pontos de internet, 64% do volume inicialmente
contratado. O aditamento foi feito seis dias depois de o caso ter vindo à tona,
em reportagem do Intercept Brasil, e ser alvo de pedidos de investigação. Antes
deste aditamento, outros três aditamentos haviam antecipado pagamentos sem que
as metas de serviços fossem entregues.
Na
manhã desta segunda-feira, 1 de junho, a investigação deu um novo passo, com
uma operação policial em endereços pessoais de Karina, da produtora do filme e
da entidade que preside, além da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia.
Na investigação, são apuradas as suspeitas de fraude na licitação, na execução
do serviço contratado e o suposto desvio de dinheiro público, além de confusão
patrimonial e desvio de finalidade dos recursos.
<><>
Alertas de irregularidades ignorados
Muitos
dos problemas agora revelados nas investigações sobre o contrato do ICB com a
gestão Nunes já eram apontados mais de uma década antes em um relatório feito
pelo TCU, sobre entidades que haviam recebido recursos do Ministério da Cultura
em 2010.
O
contrato do ICB que é alvo da auditoria, de R$ 553 mil no valor da época, foi
assinado em razão de uma emenda parlamentar do então senador brasiliense Gim
Argello (hoje no Avante) para a “realização do festival de música de Brasília,
a ser realizado nos dias 03 e 04 de dezembro de 2010 no Teatro Dulcina de
Moraes, com o objetivo de promover a difusão cultural através de uma competição
musical”.
Segundo
a assessoria do ministério, não houve liberação do pagamento “em atendimento à
recomendação constante do Aviso-Circular Conjunto n. 128/2010/MPOG/CGU-PR de
20/12/2010, e Memorando-Circular n. 33/2010 – AECI/GM MinC de 28/12/2010”.
O
documento levantava dúvidas sobre a capacidade de realizar o trabalho e o alto
grau de terceirização na sua execução. Além disso, o TCU já apontava incertezas
quanto à própria idoneidade da entidade.
O
Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica do ICB data de 1990, quando Karina era
apenas uma pré-adolescente, segundo ela própria, na Vila Brasilândia, periferia
noroeste da capital paulista. Seu nome passou a ser ligado à entidade apenas em
2010, quando o instituto mudou de dirigentes e de atividades e, logo em
seguida, assinou seus primeiros contratos com o poder público, então na área de
cultura.
Até 30
de março daquele ano, o ICB era registrado como Associação Rodoviários de
Brasília e estava classificado no Cadastro Nacional de Atividades Econômicas
como uma “Instituição de Longa Permanência para Idosos”. Uma semana após a
alteração da razão social, veio a mudança completa do quadro de dirigentes.
Entre 2008 e 2010, aponta o TCU, o instituto não tinha folha de pagamento ou
quadro de pessoal.
Para a
celebração de contratos como estes, geralmente é exigido que a entidade tenha,
pelo menos, três anos de atividade. A mudança e a forma como foi feita, na
avaliação dos auditores, indicam que a entidade possa ter sido “adquirida” ou
“preparada formalmente” com a finalidade de assinar parcerias com o poder
público.
O ICB é
apontado ainda no relatório como uma entidade de fachada, sem existência
formal, qualificação técnica e capacidade operacional. Assim como outras
entidades descritas da mesma forma, o instituto fazia cotação de preços com as
mesmas três empresas de produção de eventos, assessoria e marketing. Boa parte
do valor total do convênio foi executada por uma delas.
As
irregularidades são apontadas em um contrato cujo valor é consideravelmente
menor do que o da gestão Nunes. Na ocasião, o acordo analisado era de R$ 553,5
mil (R$ 1,46 milhão em valor atualizado pelo IGP-M até dezembro de 2025, quando
foi assinado o aditamento na prefeitura paulistana). Ou seja, mesmo em valores
corrigidos, o contrato equivale a menos de 10% do montante do acordo atual.
Os
pontos destacados pelo TCU guardam relação direta com as ressalvas feitas pelo
Tribunal de Contas do Município (TCM) antes da assinatura do contrato agora sob
investigação, como a fragilidade dos critérios para avaliar a capacidade
técnica e operacional da entidade. Outro aspecto que chama a atenção é a
possibilidade de subcontratação de empresas privadas para prestar o serviço, o
que foi efetivado pela entidade de Karina.
Antes
da entrada milionária na área de Inovação e Tecnologia da gestão Nunes, o ICB
recebia recursos basicamente de emendas parlamentares para eventos literários,
de inclusão digital, esportes e empreendedorismo. Em um deles, como a Pública
mostrou, os pagamentos continuaram a ser feitos mesmo depois de os funcionários
da prefeitura relatarem dificuldade de contato com a entidade.
O ICB e
a Go Up fazem parte de uma rede de entidades e empresas ligadas a Karina. Dessa
rede também participam a Academia Nacional de Cultura, que recebeu mais de R$
2,6 milhões em emendas para a produção de uma série conservadora, e a Conhecer
Brasil Assessoria, Produção e Marketing Cultural, que tentou captar R$ 4,9
milhões — quando Mário Frias era secretário nacional de Cultura do governo
Bolsonaro — para uma série a respeito de atletas cristãos.
<><>
O que diz a prefeitura
Em
nota, a prefeitura afirma que “não há qualquer impedimento junto à
administração pública para a contratação do Instituto Conhecer Brasil (ICB)”.
Diz ainda que, “no momento da celebração do Termo de Colaboração, em 2024, a
entidade atendeu integralmente aos requisitos de habilitação previstos no
processo de Chamamento Público, que respeitou e seguiu rigorosamente a Lei
Federal nº 13.019/2014, marco regulatório das parcerias entre a administração
pública e as organizações da sociedade civil”.
Segundo
a gestão Nunes, “o ICB apresentou toda a documentação necessária para comprovar
sua aptidão e regularidade para participar de certames e formalização do
contrato”. Afirma também que “os apontamentos feitos pelo Tribunal de Contas do
Município (TCM) foram sanados à época e a Corte concordou com o prosseguimento
do chamamento”.
A
gestão municipal garante que “vem exercendo a fiscalização do Termo de
Cooperação assinado com a Organização da Sociedade Civil, zelando pelo adequado
cumprimento do objeto celebrado”.
• ‘A gente não interfere’, afirma Tarcísio
após Nunes criticar a Polícia Civil de SP
O
governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), defendeu nesta
terça-feira, 2, a atuação da Polícia Civil do Estado na Operação Wi-Fi,
deflagrada para apurar suspeitas de fraude em uma licitação de R$ 108 milhões
da Prefeitura da capital. A manifestação ocorreu após o prefeito Ricardo Nunes
(MDB) afirmar que a investigação pode configurar “perseguição política” caso
tenha relação com a produção do filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL).
A
licitação investigada foi vencida pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG
ligada à empresária Karina Ferreira da Gama, sócia da Go UP Entertainment Ltd,
produtora do longa sobre a trajetória política de Bolsonaro. A Operação Wi-Fi
cumpriu mandados em oito endereços, incluindo a sede da ONG investigada, a
produtora Go UP, dois imóveis ligados à empresária e a Secretaria Municipal de
Inovação e Tecnologia.
“A
operação da polícia é uma coisa em que a gente não interfere. A polícia tem
autonomia para fazer as suas investigações, para fazer as suas operações. É uma
instituição de Estado”, disse Tarcísio. A declaração foi dada em coletiva de
imprensa após entrega da duplicação da Rodovia Wilson Finardi (SP-191), no
município de Rio Claro, interior paulista.
Na
segunda-feira, dia 1º, Nunes foi questionado por jornalistas sobre uma das
hipóteses apuradas pelo Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC):
a de que parte dos recursos do contrato investigado possa ter sido destinada à
Go UP durante a produção do filme.
“Eu
tenho empresa de embalagem, eu tenho empresa de aterro sanitário, eu tenho
fazenda, eu tenho várias atividades, eu sou prefeito, qual o problema da pessoa
ter várias atividades? Então, se é essa a motivação, aí eu acho grave. Aí muda
o meu discurso. Se a motivação é por conta do filme, então estão indo atrás de
um contrato com a Prefeitura de 2024 por causa do filme? Aí é grave. Aí é
perseguição política”, afirmou o prefeito.
Tarcísio,
porém, sustentou que a ação decorreu de uma apuração em andamento e de uma
demanda do Ministério Público. “Havia uma investigação em curso, uma demanda do
Ministério Público, e a polícia cumpriu essa demanda do Ministério Público. E,
portanto, tivemos a operação. E sempre vai ser assim: a polícia vai ser e
sempre será uma instituição de Estado, está a serviço do Estado”, declarou o
governador de São Paulo.
Fonte:
Por Leonardo Fuhrmann, da Agência Pública/IstoÉ

Nenhum comentário:
Postar um comentário