quinta-feira, 4 de junho de 2026

O surto de Ebola na República Democrática do Congo pode ter começado já em janeiro, diz chefe da OMS

O chefe da Organização Mundial da Saúde afirmou que o surto de Ebola na República Democrática do Congo pode ter começado já em janeiro, dando ao vírus "uma grande vantagem inicial".

O Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus também afirmou que a resposta estava sendo prejudicada por restrições generalizadas de viagens e destacou os altos níveis de desconfiança da comunidade e os baixos níveis de rastreamento de contatos como principais preocupações.

Desde que o surto foi identificado em meados de maio, o vírus Bundibugyo causou 344 casos confirmados de Ebola , incluindo 60 mortes na República Democrática do Congo, e 15 casos confirmados, incluindo uma morte, no país vizinho, Uganda.

“O surto teve um grande início, e ainda estamos atrasados”, mas a resposta está a recuperar o atraso, disse Tedros, com centros de tratamento já estabelecidos em toda a província de Ituri, a parte mais afetada da RDC.

Ele pediu aos países que impuseram restrições generalizadas de viagens, como os EUA, que as suspendam. Segundo ele, essas restrições "estão interrompendo as cadeias de suprimentos e dificultando a resposta à crise".

O rastreamento de contatos, um elemento fundamental na resposta a qualquer surto de doença infecciosa, está sendo particularmente dificultado pela insegurança e pelo deslocamento em Ituri, afirmou ele, com apenas cerca de 45% dos contatos sendo acompanhados.

“Para nos anteciparmos ao surto, precisamos elevar esse número para mais de 90%”, disse ele.

O número de casos suspeitos na República Democrática do Congo caiu abruptamente na terça-feira, de mais de 1.000 para 116, à medida que as autoridades trabalhavam para reduzir o número de testes atrasados e confirmá-los ou descartá-los.

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Tedros afirmou que uma prioridade fundamental é ampliar a capacidade laboratorial e de diagnóstico nas áreas mais afetadas, bem como nas províncias e países vizinhos.

O primeiro caso identificado no surto foi o de uma enfermeira que foi a um centro de saúde em 24 de abril, mas Tedros afirmou que havia outros cenários possíveis.

“Poderia ser em janeiro, fevereiro, março ou abril”, disse ele. “Mas acho que o foco agora deve ser na resposta.”

A desconfiança era uma barreira séria, disse ele, com alguns líderes comunitários lhe dizendo, durante uma visita à RDC na semana passada, que não acreditavam que o Ebola fosse real. Ele disse que eles também temiam que a resposta à doença desviasse recursos de outros serviços vitais.

Atualmente não existe vacina ou tratamento para a cepa Bundibugyo do vírus, mas Tedros afirmou que a recuperação de seis pessoas na República Democrática do Congo e duas em Uganda demonstra que é possível sobreviver ao Ebola se houver acesso a cuidados médicos e se o paciente procurar atendimento em unidades de saúde assim que os sintomas aparecerem.

O Ministério das Relações Exteriores, da Commonwealth e do Desenvolvimento do Reino Unido anunciou o lançamento de uma rede de pesquisa multirriscos por meio da qual especialistas do Reino Unido e parceiros internacionais poderão fornecer aconselhamento e evidências rápidas sobre doenças infecciosas emergentes e outras crises, incluindo o atual surto de Ebola.

•        Ebola: o que saber sobre surto na República Democrática do Congo

A declaração de emergência de interesse internacional pela Organização Mundial da Saúde (OMS) não significa que o surto de Ebola na República Democrática do Congo seja os estágios iniciais de uma pandemia ao estilo Covid.

O risco que o Ebola representa para o mundo inteiro permanece baixo.

A maioria dos surtos de Ebola tende a ser pequena, mas os especialistas querem evitar um surto como o de 2014-16. Na época, quase 30 mil pessoas no oeste da África foram infectadas, o maior surto da doença já registrado no continente.

O Brasil não teve nenhum caso registrado na época, apenas suspeitas que foram descartadas.

A atual guerra civil no país africano está dificultando o controle do vírus, e a doença vem se espalhando há semanas. Já há 80 mortes confirmadas e 250 casos suspeitos na República Democrática do Congo.

Em Uganda, uma pessoa foi infectada e outra morreu pelo vírus da doença.

A espécie de Ebola envolvida é rara, então há menos ferramentas e conhecimento para deter um vírus que mata cerca de um terço das pessoas infectadas.

Existe risco significativo para países vizinhos como Uganda, Sudão do Sul e Ruanda, considerados de alto risco devido às estreitas ligações comerciais e de viagens com a República Democrática do Congo.

“A situação é complexa o suficiente para exigir coordenação internacional”, diz a Dra. Amanda Rojek, do Instituto de Ciências Pandêmicas da Universidade de Oxford.

No entanto, a República Democrática do Congo tem uma vasta experiência em lidar com surtos de Ebola e a resposta é “significativamente mais forte hoje do que há uma década”, diz Daniela Manno, da London School of Hygiene & Tropical Medicine.

O ebola é uma doença grave e mortal, embora seja rara. O vírus Ebola infecta principalmente morcegos que comem frutas, mas as pessoas podem ser infectadas se entrarem em contato próximo com animais.

Este surto está sendo causado pela espécie Bundibugyo de Ebola — é uma das três espécies conhecidas por causar surtos, mas é relativamente desconhecida.

O Bundibugyo causou apenas dois surtos antes — em 2007 e 2012 — no qual matou cerca de 30% das pessoas infectadas.

O vírus Bundibugyo apresenta uma série de desafios. Não há vacinas ou tratamentos medicamentosos aprovados para o Bundibugyo, embora existam algumas experimentais, ao contrário de outras espécies do vírus Ebola.

E os testes para determinar se alguém tem a infecção não parecem funcionar bem. Os resultados iniciais do surto foram negativos para o vírus Ebola, e ferramentas de laboratório mais sofisticadas foram necessárias para confirmar que Bundibugyo estava envolvido.

Lidar com Bundibugyo é “uma das preocupações mais significativas” neste surto, diz a professora Trudie Lang, da Universidade de Oxford.

Acredita-se que os sintomas apareçam entre dois e 21 dias após a infecção.

No começo é como uma gripe: febre, dor de cabeça e cansaço. Mas, à medida que o Ebola progride, causa vômitos, diarreia e faz com que os órgãos do corpo não funcionem. Alguns pacientes desenvolvem hemorragias internas e externas.

Sem medicamentos aprovados destinados a combater o vírus Bundibugyo, o tratamento depende de “cuidados otimizados”, incluindo o controle da dor e dos fluidos e da nutrição. O cuidado precoce aumenta as chances de sobrevivência.

O ebola se espalha por meio de fluidos corporais infectados, como sangue e vômito, mas isso normalmente só se manifesta após os sintomas aparecerem.

O primeiro caso registrado foi de uma enfermeira que desenvolveu sintomas em 24 de abril. Desde então, foram necessárias três semanas para confirmar a existência do surto.

“A transmissão contínua ocorreu por várias semanas e o surto foi detectado muito tarde, o que é preocupante”, disse Anne Cori, do Imperial College London.

Isso significa que as autoridades de saúde estão atrasadas na contenção do surto, o que, segundo a OMS, aponta para algo “potencialmente muito maior do que o que está sendo detectado e relatado atualmente”.

O principal método será identificar quem está infectado e para quem a pessoa pode ter transmitido o vírus.

Também haverá esforços para evitar que o Ebola se espalhe por hospitais e outros centros de tratamento, lugar em que os pacientes estão na fase mais infecciosa. Outra tarefa é garantir um enterro seguro dos mortos pela doença.

O número de infectados e o conflitos militar em curso na República Democrática do Congo, que já tirou de casa 250 mil pessoas, são um desafio.

“Muitas das áreas afetadas são cidades com minas, onde a população é flutuante. Essa mobilidade aumenta o risco à medida que as pessoas se movem entre comunidades e cruzam fronteiras”, diz Lang.

Se esse surto pode ser contido rapidamente ou se transformar em uma repetição do que aconteceu há pouco mais de uma década, será determinado pela resposta agora.

 

Fonte: The Guardian/BBC News

 

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