O
surto de Ebola na República Democrática do Congo pode ter começado já em
janeiro, diz chefe da OMS
O chefe
da Organização Mundial da Saúde afirmou que o surto de Ebola na República
Democrática do Congo pode ter começado já em janeiro, dando ao vírus "uma
grande vantagem inicial".
O Dr.
Tedros Adhanom Ghebreyesus também afirmou que a resposta estava sendo
prejudicada por restrições generalizadas de viagens e destacou os altos níveis
de desconfiança da comunidade e os baixos níveis de rastreamento de contatos
como principais preocupações.
Desde
que o surto foi identificado em meados de maio, o vírus Bundibugyo causou 344
casos confirmados de Ebola , incluindo 60 mortes na República Democrática do
Congo, e 15 casos confirmados, incluindo uma morte, no país vizinho, Uganda.
“O
surto teve um grande início, e ainda estamos atrasados”, mas a resposta está a
recuperar o atraso, disse Tedros, com centros de tratamento já estabelecidos em
toda a província de Ituri, a parte mais afetada da RDC.
Ele
pediu aos países que impuseram restrições generalizadas de viagens, como os
EUA, que as suspendam. Segundo ele, essas restrições "estão interrompendo
as cadeias de suprimentos e dificultando a resposta à crise".
O
rastreamento de contatos, um elemento fundamental na resposta a qualquer surto
de doença infecciosa, está sendo particularmente dificultado pela insegurança e
pelo deslocamento em Ituri, afirmou ele, com apenas cerca de 45% dos contatos
sendo acompanhados.
“Para
nos anteciparmos ao surto, precisamos elevar esse número para mais de 90%”,
disse ele.
O
número de casos suspeitos na República Democrática do Congo caiu abruptamente
na terça-feira, de mais de 1.000 para 116, à medida que as autoridades
trabalhavam para reduzir o número de testes atrasados e confirmá-los ou
descartá-los.
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de desenvolvimento.
Tedros
afirmou que uma prioridade fundamental é ampliar a capacidade laboratorial e de
diagnóstico nas áreas mais afetadas, bem como nas províncias e países vizinhos.
O
primeiro caso identificado no surto foi o de uma enfermeira que foi a um centro
de saúde em 24 de abril, mas Tedros afirmou que havia outros cenários
possíveis.
“Poderia
ser em janeiro, fevereiro, março ou abril”, disse ele. “Mas acho que o foco
agora deve ser na resposta.”
A
desconfiança era uma barreira séria, disse ele, com alguns líderes comunitários
lhe dizendo, durante uma visita à RDC na semana passada, que não acreditavam
que o Ebola fosse real. Ele disse que eles também temiam que a resposta à
doença desviasse recursos de outros serviços vitais.
Atualmente
não existe vacina ou tratamento para a cepa Bundibugyo do vírus, mas Tedros
afirmou que a recuperação de seis pessoas na República Democrática do Congo e
duas em Uganda demonstra que é possível sobreviver ao Ebola se houver acesso a
cuidados médicos e se o paciente procurar atendimento em unidades de saúde
assim que os sintomas aparecerem.
O
Ministério das Relações Exteriores, da Commonwealth e do Desenvolvimento do
Reino Unido anunciou o lançamento de uma rede de pesquisa multirriscos por meio
da qual especialistas do Reino Unido e parceiros internacionais poderão
fornecer aconselhamento e evidências rápidas sobre doenças infecciosas
emergentes e outras crises, incluindo o atual surto de Ebola.
• Ebola: o que saber sobre surto na
República Democrática do Congo
A
declaração de emergência de interesse internacional pela Organização Mundial da
Saúde (OMS) não significa que o surto de Ebola na República Democrática do
Congo seja os estágios iniciais de uma pandemia ao estilo Covid.
O risco
que o Ebola representa para o mundo inteiro permanece baixo.
A
maioria dos surtos de Ebola tende a ser pequena, mas os especialistas querem
evitar um surto como o de 2014-16. Na época, quase 30 mil pessoas no oeste da
África foram infectadas, o maior surto da doença já registrado no continente.
O
Brasil não teve nenhum caso registrado na época, apenas suspeitas que foram
descartadas.
A atual
guerra civil no país africano está dificultando o controle do vírus, e a doença
vem se espalhando há semanas. Já há 80 mortes confirmadas e 250 casos suspeitos
na República Democrática do Congo.
Em
Uganda, uma pessoa foi infectada e outra morreu pelo vírus da doença.
A
espécie de Ebola envolvida é rara, então há menos ferramentas e conhecimento
para deter um vírus que mata cerca de um terço das pessoas infectadas.
Existe
risco significativo para países vizinhos como Uganda, Sudão do Sul e Ruanda,
considerados de alto risco devido às estreitas ligações comerciais e de viagens
com a República Democrática do Congo.
“A
situação é complexa o suficiente para exigir coordenação internacional”, diz a
Dra. Amanda Rojek, do Instituto de Ciências Pandêmicas da Universidade de
Oxford.
No
entanto, a República Democrática do Congo tem uma vasta experiência em lidar
com surtos de Ebola e a resposta é “significativamente mais forte hoje do que
há uma década”, diz Daniela Manno, da London School of Hygiene & Tropical
Medicine.
O ebola
é uma doença grave e mortal, embora seja rara. O vírus Ebola infecta
principalmente morcegos que comem frutas, mas as pessoas podem ser infectadas
se entrarem em contato próximo com animais.
Este
surto está sendo causado pela espécie Bundibugyo de Ebola — é uma das três
espécies conhecidas por causar surtos, mas é relativamente desconhecida.
O
Bundibugyo causou apenas dois surtos antes — em 2007 e 2012 — no qual matou
cerca de 30% das pessoas infectadas.
O vírus
Bundibugyo apresenta uma série de desafios. Não há vacinas ou tratamentos
medicamentosos aprovados para o Bundibugyo, embora existam algumas
experimentais, ao contrário de outras espécies do vírus Ebola.
E os
testes para determinar se alguém tem a infecção não parecem funcionar bem. Os
resultados iniciais do surto foram negativos para o vírus Ebola, e ferramentas
de laboratório mais sofisticadas foram necessárias para confirmar que
Bundibugyo estava envolvido.
Lidar
com Bundibugyo é “uma das preocupações mais significativas” neste surto, diz a
professora Trudie Lang, da Universidade de Oxford.
Acredita-se
que os sintomas apareçam entre dois e 21 dias após a infecção.
No
começo é como uma gripe: febre, dor de cabeça e cansaço. Mas, à medida que o
Ebola progride, causa vômitos, diarreia e faz com que os órgãos do corpo não
funcionem. Alguns pacientes desenvolvem hemorragias internas e externas.
Sem
medicamentos aprovados destinados a combater o vírus Bundibugyo, o tratamento
depende de “cuidados otimizados”, incluindo o controle da dor e dos fluidos e
da nutrição. O cuidado precoce aumenta as chances de sobrevivência.
O ebola
se espalha por meio de fluidos corporais infectados, como sangue e vômito, mas
isso normalmente só se manifesta após os sintomas aparecerem.
O
primeiro caso registrado foi de uma enfermeira que desenvolveu sintomas em 24
de abril. Desde então, foram necessárias três semanas para confirmar a
existência do surto.
“A
transmissão contínua ocorreu por várias semanas e o surto foi detectado muito
tarde, o que é preocupante”, disse Anne Cori, do Imperial College London.
Isso
significa que as autoridades de saúde estão atrasadas na contenção do surto, o
que, segundo a OMS, aponta para algo “potencialmente muito maior do que o que
está sendo detectado e relatado atualmente”.
O
principal método será identificar quem está infectado e para quem a pessoa pode
ter transmitido o vírus.
Também
haverá esforços para evitar que o Ebola se espalhe por hospitais e outros
centros de tratamento, lugar em que os pacientes estão na fase mais infecciosa.
Outra tarefa é garantir um enterro seguro dos mortos pela doença.
O
número de infectados e o conflitos militar em curso na República Democrática do
Congo, que já tirou de casa 250 mil pessoas, são um desafio.
“Muitas
das áreas afetadas são cidades com minas, onde a população é flutuante. Essa
mobilidade aumenta o risco à medida que as pessoas se movem entre comunidades e
cruzam fronteiras”, diz Lang.
Se esse
surto pode ser contido rapidamente ou se transformar em uma repetição do que
aconteceu há pouco mais de uma década, será determinado pela resposta agora.
Fonte:
The Guardian/BBC News

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