Dossiê
Ditadura: De Figueiredo aos Kids Pretos, a estratégia do terror
Este
documento consolida três materiais de apoio à apuração sobre o papel de João
Baptista Figueiredo no aparato repressivo e a continuidade doutrinária entre a
ditadura e a trama golpista recente. A Introdução relata um episódio no qual
tive participação direta, e que marca o início da reação das diretas contra o
golpismo incrustado ainda na mídia.
A Parte
I traz a ficha de procedência do memorando Colby–Kissinger de 1974, a peça
documental mais direta e também a mais atacável.
A Parte
II reconstitui a campanha terrorista contra a abertura (1980–1981), que tem no
Riocentro seu clímax.
A Parte
III compõe um quadro comparativo da operação de bandeira falsa em 1968, 1981 e
2022.
A Parte
IV sintetiza a tese e demarca o que a documentação sustenta e o que não
sustenta.
<><>
Introdução
O
retrato que Elio Gaspari traça de João Baptista Figueiredo em sua trilogia
sobre o regime militar é, em boa medida, menos incriminador do que seria de
esperar — e essa é a chave para entender a obra. Figueiredo aparece como
personagem central de dois momentos distintos da Coleção Ditadura, com pesos
muito diferentes.
No
período em que foi chefe do SNI (1974–1979), retratado sobretudo em A Ditadura
Escancarada e A Ditadura Encurralada, ele é enquadrado dentro da tese-mestra de
Gaspari: a do general Golbery (o “feiticeiro”) e de Geisel (o “sacerdote”)
desmontando a ditadura por dentro, contra a “anarquia militar” da linha dura.
Figueiredo é apresentado mais como peça do projeto de distensão do que como
operador dos porões. O eixo dramático desse trecho não é o SNI dele, mas a
reação de Geisel às mortes de Vladimir Herzog (outubro de 1975) e Manoel Fiel
Filho — episódios em que o presidente afinal demite Ednardo D’Ávila Mello e
disciplina o II Exército. Figueiredo, ali, é tratado como aliado dessa ofensiva
contra os aparelhos repressivos autônomos, não como gestor deles.
Essa é,
aliás, a crítica historiográfica mais persistente a Gaspari — a de que ele
concede espaço desmedido e benevolência excessiva à linhagem castelista-Geisel,
atribuindo-lhe estatura de estadista justamente no terreno em que a
documentação posterior seria mais dura. Vale ter isso em mente: a obra não
constrói Figueiredo como torturador ou como arquiteto da máquina de matar.
Elio
defende-se praticando algo impensável para um historiador isento: mantém os
arquivos nos quais se baseou fora do alcance de outros historiadores. Aliás,
foi o principal propagandista da candidatura de João Baptista Figueiredo à
presidência da República, retratando-o como intelectual de peso, especialista
em matemática e tríplice coroado na Academia Militar das Agulhas Negras.
Manipulou pesquisas enviadas pela sucursal de Brasilia da revista Veja –
dirigida por Dalembert Jaccoud.
Quando
a Arena preparava-se para definir seu candidato à sucessão de Figueiredo, a
candidatura de Tancredo Neves ganhava força. Esse fato fez Golbery sair das
sombras, abrir mãos dos intermediários e conceder uma entrevista à Gaspari, nas
Páginas Amarelas da Veja.
Eu
acabara de assumir a Secretaria de Produção/Redação da Folha, no momento em que
Otávio Frias Filho estava sendo preparado para substituir Boris Casoy na
direção editorial — Casoy tendo sido posto ali para aliviar a barra do jornal
com os militares. A ditadura se esgarçava, a Folha já desfraldara a bandeira
das Diretas, e a candidatura de Tancredo crescia, reduzindo as chances de Paulo
Maluf.
Foi
nesse momento que saiu, num sábado, a edição da Veja com a entrevista de
Golbery nas Páginas Amarelas, feita por Gaspari. Era a primeira vez que Golbery
se expunha pessoalmente, em on. Até então, as mensagens do “feiticeiro”
circulavam pela imprensa sem menção à fonte, intermediadas pelo próprio
Gaspari, o grande porta-voz do grupo militar na mídia. Com o regime fazendo
água, Golbery saía das sombras.
Sem
consultar os Frias, pautei os repórteres, escrevi o texto final e as manchetes
da página e da primeira página. A peça recuperava o histórico de Gaspari a
serviço da ditadura (inclusive a campanha que apresentara João Baptista
Figueiredo como intelectual, “tríplice coroado”, grande matemático) e era
ilustrada por um Golbery pequeno projetando uma sombra enorme, para sustentar o
título: que Golbery era muito menor do que a sombra que projetava. Virou a
manchete principal do jornal.
Na
segunda-feira fui chamado à sala de Frias pai, com Frias filho presente; ambos
foram compreensivos diante da gravidade, mas deixaram claro que certos temas
exigiam consulta prévia. Reconheci a imprudência — mas o jornal foi inundado de
telegramas de apoio no domingo e na segunda. Reforcei aos Frias que o episódio
mostrava que a Folha já tinha dimensão para ombrear-se com a Veja e o Jornal
Nacional, até então os dois veículos mais influentes do país.
>>>>
Parte I — O memorando Colby–Kissinger (11 de abril de 1974)
##
Identificação e procedência
Memorando
do diretor da CIA, William E. Colby, ao secretário de Estado dos EUA, Henry
Kissinger, datado de Washington, 11 de abril de 1974, sob o título “Decisão do
presidente brasileiro Ernesto Geisel de continuar a execução sumária de
subversivos perigosos sob certas condições”. O texto integral está publicado na
coleção oficial Foreign Relations of the United States e foi também liberado
pelo FOIA da própria CIA.
Tornado
público em maio de 2018 a partir de pesquisa de Matias Spektor (FGV). A fonte
primária é citável diretamente, sem dependência de intermediários.
##
Conteúdo
Em 30
de março de 1974 — quinze dias após a posse de Geisel —, o presidente reuniu-se
com os generais Milton Tavares de Souza e Confúcio Danton de Paula Avelino,
respectivamente o chefe que saía e o que assumia o Centro de Informações do
Exército (CIE). Também estava presente o general João Baptista Figueiredo,
chefe do SNI.
• Milton conduziu a maior parte da
conversa e sustentou que métodos extralegais deveriam continuar a ser
empregados contra subversivos perigosos.
• Afirmou que cerca de 104 pessoas haviam
sido sumariamente executadas pelo CIE no ano anterior, sob o governo Médici.
• Figueiredo apoiou a política e defendeu
sua continuidade.
• Em 1º de abril, Geisel comunicou a
Figueiredo que a política deveria prosseguir, com cuidado para que apenas
subversivos perigosos fossem executados.
##
Ressalvas metodológicas
¬¬¬¬
Literalidade vs. interpretação.
- O
texto desclassificado estabelece, com todas as letras, que Figueiredo defendeu
a continuidade e que Geisel canalizou a decisão por meio dele. A versão de que
cada execução dependeria da aprovação nominal de Figueiredo é leitura de
Spektor e da imprensa, não literalidade do parágrafo liberado. Formulação
segura: “Figueiredo endossou e passou a centralizar a política de execuções
sumárias”.
¬¬¬¬
Natureza da fonte.
- É um
relato de inteligência norte-americana sobre o que teria sido dito em reunião
fechada; permanece aberta a questão do informante. Em contrapartida, o Exército
alegou ter destruído a documentação sigilosa brasileira do período, o que
elimina a contraprova nacional — mas também não desmente o memorando.
>>>>
Parte II — A campanha terrorista contra a abertura (1980–1981)
O
Riocentro não foi evento isolado, e sim o clímax de uma campanha sistemática da
linha-dura para inviabilizar a abertura por dentro, atribuindo os ataques à
esquerda. A CNV concluiu que se tratou de ação articulada do Estado, não de
agentes isolados.
## Cronologia
<
1978–1979
—
Atentados contra opositores em Minas Gerais funcionam como precursores; a
partir de 1979, com o retorno dos anistiados à atividade política, o aparelho
repressivo rearticula-se para travar a redemocratização.
<
Janeiro de 1980
—
Intensifica-se a onda de atentados à bomba, concentrada em São Paulo, Rio, Belo
Horizonte e Porto Alegre. Mais de trinta dos ataques visam bancas de jornal que
vendiam a imprensa alternativa, com o objetivo de sufocá-la comercialmente.
< 27
de agosto de 1980
— Três
cartas-bomba explodem no Rio no mesmo dia. Na sede da OAB, morre a secretária
Lyda Monteiro da Silva ao abrir o pacote endereçado ao presidente da Ordem; no
gabinete do vereador Antônio Carlos de Carvalho (PMDB), o assessor José Ribamar
de Freitas perde um braço e um olho, com mais feridos; uma terceira explode na
redação da Tribuna da Luta Operária (PCdoB). Uma quarta, enviada à ABI, é
desativada após aviso anônimo a Barbosa Lima Sobrinho.
<
Agosto–setembro de 1980
—
Figueiredo decreta luto oficial e declara que levará o país à democracia apesar
das bombas. Ao longo do ano, são alvos livrarias, redações de esquerda, escolas
e entidades; uma bomba é desativada no hotel onde se hospedava Leonel Brizola e
outra no escritório do advogado Sobral Pinto.
< 30
de abril de 1981
— No
Riocentro, durante show do Dia do Trabalhador com cerca de 20 mil pessoas, uma
bomba explode prematuramente no carro dos próprios agentes, matando o sargento
Guilherme Pereira do Rosário e ferindo gravemente o capitão Wilson Luís Chaves
Machado, ambos do DOI-CODI do I Exército. Um segundo artefato explode na casa
de força.
< 2
de outubro de 1981
— O STM
decide pelo arquivamento do IPM por 9 votos a 4, sem apontar autores, mantendo
a versão de que os militares no carro eram vítimas. Voto vencido: almirante Sá
Bierrenbach.
<
Meados de 1981
— Cerca
de três meses após o atentado, Golbery do Couto e Silva — idealizador da
abertura — pede exoneração e rompe com Figueiredo. O governo não esclarece o
caso.
## Nota
sobre os números
As
estimativas variam: a denúncia do MPF-RJ fala em “mais de 40” atentados entre
1980 e abril de 1981; a historiadora Maria Helena Moreira Alves conta 46 atos
de terrorismo de direita só em 1980; outras fontes chegam a 74 no período
completo. Recomenda-se citar a faixa, com a fonte, em vez de um número único.
>>>>
Parte III — A operação de bandeira falsa (1968 · 1981 · 2022)
O
quadro abaixo isola a estrutura comum aos três episódios: fabricar o caos e
atribuí-lo ao adversário para legitimar a medida de exceção. Não se trata de
uma linhagem institucional única, mas da persistência de uma mesma gramática de
ação.
>>>>
Parte IV — Síntese: o papel de Figueiredo e a continuidade
Figueiredo
ocupou, sucessivamente, os nós de comando do aparato de segurança em suas fases
mais letais: a Casa Militar de Médici (1969–1974), no auge dos Anos de Chumbo;
a chefia do SNI sob Geisel (1974–1979); e a Presidência (1979–1985)[19]. O
memorando de 1974 o coloca dentro do círculo decisório que tratou a execução
sumária como política de Estado, e a CNV o inclui na cadeia de comando do
regime.
##
Limite probatório.
- A
documentação sustenta responsabilidade de comando e estrutura, não autoria de
mortes caso a caso. No Riocentro, documentos indicam que o diretor do SNI e o
comandante do Exército conheciam os planos, mas não está estabelecido que
Figueiredo participou do plano; o que é dele, sem disputa, é o acobertamento
ocorrido sob seu mandato.
## Tese
defensável.
- Mais
do que uma linha de sangue institucional direta, há a persistência de uma
gramática de ação — o falso atentado, o caos administrado, a inversão de
autoria — que reaparece de Burnier a Riocentro e ressurge na minuta golpista.
Figueiredo é o personagem que costura repressão e abertura nesse arco: o homem
do memorando de 1974 e o presidente sob quem a linha-dura tentou explodir a
própria transição.
Fonte:
Por Luís Nassif, no Jornal GGN

Nenhum comentário:
Postar um comentário