Fim
da escala 6x1 sai antes da eleição? As pressões a favor e contra na reta final
no Congresso
Após a
proposta que acaba com a escala 6x1 ser aprovada com larga vantagem na Câmara
dos Deputados, a tramitação no Senado continua incerta.
Senadores
aguardavam para esta semana uma reunião de líderes com o presidente da Casa,
Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), para definir o encaminhamento da matéria,
mas o encontro ficou para depois do feriado de Corpus Christi.
"Não
temos a data certa… mas poderá ser no dia 9 ou 10 [de junho]", disse em
mensagem à BBC News Brasil o senador Paulo Paim (PT-RS), um dos primeiros
parlamentares a defender a redução da jornada.
Alcolumbre
se manifestou sobre o tema apenas na terça-feira (02/06), quase uma semana após
a aprovação na Câmara, e indicou não ter pressa para levar a proposta de emenda
à Constituição (PEC) ao plenário.
"Seria
muito razoável se o Senado pudesse melhorar um texto com essa importância, se
os senadores pudessem debater um assunto dessa envergadura com calma, sem
açodamento, sem pressa", disse, durante sessão do Senado.
"Deve
ter no mínimo uma comissão [analisando a PEC antes do plenário]. Não podemos
ser uma Casa carimbadora", disse ainda.
O
comportamento de Alcolumbre contrasta com o do presidente da Câmara, Hugo Motta
(Republicanos-PB), que rapidamente se alinhou com o governo de Luiz Inácio Lula
da Silva em apoio ao fim da 6x1, pauta com forte apelo eleitoral.
O texto
aprovado pela Câmara na quarta-feira (27/05) prevê que a obrigatoriedade de ao
menos dois dias de folga por semana entre em vigor 60 dias depois da
promulgação da alteração constitucional, etapa que ocorre logo após a aprovação
no Congresso.
Já a
redução da jornada de 44 horas semanais para 40 horas entraria em vigor em duas
etapas. Primeiro, haveria a redução para 42 horas, também após os 60 dias. O
limite de 40 horas seria alcançado após mais um ano. A PEC também prevê que os
salários não serão reduzidos.
Em
reação ao avanço da PEC, 41 senadores de oposição assinaram uma proposta
alternativa, incluindo o pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Essa
PEC permite que os empregados escolham entre seguir o regime de trabalho
tradicional da CLT ou um regime flexível baseado em horas trabalhadas. Nesse
caso, não há redução de jornada com manutenção de salários, nem garantia de
duas folgas semanais.
Para os
defensores do novo modelo, isso dará aos trabalhadores a opção de ajustar sua
jornada de acordo com suas necessidades pessoais e profissionais.
Já os
críticos da mudança dizem que o poder dos trabalhadores para negociar
diretamente com os patrões a escala de trabalho é limitado e, por isso,
defendem que a redução da jornada sem redução de salário seja uma obrigação
para as empresas.
Grupos
já estão mobilizados para pressionar o Senado a favor e contra as duas
propostas.
Entidades
como a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Federação das Indústrias do
Estado de São Paulo (Fiesp) e a Confederação Nacional do Comércio (CNC) apoiam
a PEC da oposição e tentam evitar que o fim da escala 6x1 seja aprovado neste
ano no Congresso.
"O
que se pede? Vamos sair desse período eleitoral, vamos discutir isso com a
profundidade que seja verdadeira e necessária", disse o presidente da
Fiesp, Paulo Skaf, após encontro com Alcolumbre na terça-feira da semana
passada (26/05).
Também
presente na reunião, o presidente da CNI, Ricardo Alban, disse que o fim da
escala 6x1 vai aumentar os custos das empresas e pode representar um aumento
médio nos preços entre 6% e 8%.
Já o
vereador do Rio de Janeiro Rick Azevedo (PSOL), ex-balconista de farmácia e
fundador do movimento Vida Além do Trabalho (VAT), está articulando com
centrais sindicais a realização de atos e até mesmo paralisações para
pressionar senadores pelo fim da escala 6x1. Segundo ele, a PEC alternativa é a
"PEC da escravidão".
"[Depois
de] Passar pela Câmara, como passamos, com uma votação praticamente unânime,
com certeza a gente vai passar pelo Senado", disse Azevedo, em um vídeo em
suas redes sociais.
"A
gente vai pra cima do senhor Alcolumbre com tudo. Já está claro que não temos
medo de seu ninguém", continuou.
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O possíveis caminhos da PEC no Senado
Fontes
no Senado e cientistas políticos se dividem sobre qual será o rito da matéria
na Casa.
Há
certeza de que a PEC passará na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) antes
de chegar ao plenário, mas não está claro se o texto será analisado também por
outras comissões, como a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) ou a Comissão de
Assuntos Sociais (CAS).
Segundo
Paulo Paim, o regimento do Senado prevê que matéria constitucional vá da CCJ
direto ao plenário. Essa também é a leitura do analista político Antônio
Augusto de Queiroz, ex-diretor de documentação do Departamento Intersindical de
Assessoria Parlamentar (Diap).
Além
disso, na sua visão, a pressão eleitoral vai contribuir para que o tema tramite
rapidamente — dois terços das vagas do Senado estarão em disputa no pleito de
outubro.
"Eu
acho que a pressão sobre a matéria é tão grande na sociedade e, num ano
eleitoral com renovação da maioria da casa, a tendência é que ande rápido a
despeito da contrapressão do setor empresarial", disse à BBC News Brasil.
Já o
assessor parlamentar de outro senador petista disse à BBC News Brasil o oposto
— na sua visão, Alcolumbre vai segurar o andamento da PEC e deve enviar o texto
para análises de outras comissões.
Para o
cientista político Lucas de Aragão, da Arko Advice, havendo acordo o rito
previsto no regimento pode ser flexibilizado.
"Eu
acho que [no Senado] não vai ter essa pressa toda que a gente percebeu na
Câmara, com o Hugo Mota, mas também não acho que o Alcolumbre vai sentar em
cima [da PEC]", acredita.
"Deve
ter uma tramitação mais organizada, audiências públicas, passar por
comissões", acrescentou.
Para
Aragão, é muito difícil evitar a aprovação no Senado por causa do grande apelo
popular da proposta. Ainda assim, vê chance de a votação ficar para depois da
eleição.
E,
ainda que seja antes de outubro, o cientista político acredita que haverá
mudanças no texto aprovado na Câmara para ampliar o tempo de transição.
Por ser
uma alteração da Constituição, uma PEC só entra em vigor quando é aprovada com
texto idêntico nas duas casas. Então, qualquer alteração faria a proposta
retornar à Câmara, adiando o fim da 6x1.
Na sua
visão, há três incentivos para Alcolubre não acelerar a PEC.
"Primeiro,
há esse distanciamento entre ele e o governo pós-rejeição do [Jorge] Messias ao
STF. Segundo, Alcolumbre não vai disputar a reeleição este ano. Então, a
pressão popular é menos relevante nele do que nos demais", analisa.
"E
o terceiro ponto é que ele está buscando reeleição como presidente no Senado no
ano que vem, numa Casa que está dando indícios de que a oposição vai crescer e
que vai ficar mais à direita. Então, ele está num momento mais sensível às
demandas do PL, da oposição", acrescentou.
Ainda
não se sabe qual será o relator da proposta no Senado. O perfil escolhido por
Alcolumbre, nota Aragão, será uma boa sinalização sobre o ritmo que ele dará
para a tramitação.
Outro
fator que pode atrasar o andamento da PEC é o calendário apertado. Em junho,
haverá Copa do Mundo e festas de São João, um momento em que os parlamentares,
principalmente do Nordeste, passam mais tempo em suas bases eleitorais. E em
julho, ocorre o recesso parlamentar.
A
Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado é presidida pelo senador
Otto Alencar (PSD-BA), aliado do governo.
A CCJ
já recebeu a proposta que cria o regime de trabalho por horas, mas, segundo
Alencar, a prioridade será avançar com a proposta aprovada na Câmara.
A PEC
alternativa não é consenso mesmo na oposição. O senador Cleitinho, do
Republicanos de Minas Gerais e pré-candidato a governador, é um dos que
defendem o fim da escala 6x1.
"Senhor
presidente [Alcolumbre], eu queria entrar aqui na pauta da questão do fim da
escala 6x1 inclusive pedir que vossa excelência possa tramitar o mais rápido
possível", disse, em discurso na tribuna do Senado.
"Essa
pauta da questão da escala não é ideológica. Vai lá na rua, vai no shopping,
vai no supermercado e pergunta ao trabalhador se ele é de esquerda e de
direita. Ele está se lixando pra isso. Ele quer ter é um pouco de dignidade. E
eu tenho propriedade para falar disso porque a vida inteira eu trabalhei nessa
maldita escala", reforçou.
• Alcolumbre mantém silêncio sobre 6×1 e
oposição tenta preservar escala
Seis
dias após aprovação na Câmara, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC)
221/2019, que acaba com a escala 6×1, segue sem tramitação no Senado.
O
presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), mantém silêncio sobre o
andamento da matéria, enquanto a oposição apresentou PEC alternativa que
preserva a escala de seis dias de trabalho e a jornada de 44 horas semanais.
A PEC
12/2026 da oposição foi apresentada no dia seguinte à aprovação da PEC
221/2019, que acaba com a escala 6×1 e reduz a jornada de trabalho no Brasil
das atuais 44 para 40 horas semanais.
Diferentemente
da PEC aprovada na Câmara – que segue aguardando tramitação no Senado –,
Alcolumbre despachou a proposta da oposição para a Comissão de Constituição e
Justiça (CCJ), no mesmo dia.
Procurada
pela Agência Brasil, a assessoria de Alcolumbre não se manifestou.
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Cautela
Para a
cientista política Luciana Santana, professora da Universidade Federal de
Alagoas (Ufal), a demora na definição da tramitação da PEC no Senado demonstra
certa “cautela institucional” de Alcolumbre.
“O
silêncio do presidente do Senado pode ser interpretado como uma tentativa de
evitar um posicionamento precoce diante de uma pauta que reúne forte apoio
popular, mas também intensa resistência de setores empresariais e de parte dos
parlamentares”, destacou.
A
professora acrescentou que, nos últimos dias, representantes dos empresários
defenderam que a discussão ocorra de forma mais lenta, inclusive após as
eleições, “e têm pressionado o Senado por mudanças no texto”.
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Tramitação
Lideranças
governistas esperam a definição da tramitação após a reunião de líderes que
deve ocorrer na próxima semana, devido ao feriado de Corpus Christi, nesta
quinta-feira (4).
Nesta
terça (2), as comissões e corredores do Senado estavam esvaziados. Há a
previsão apenas de uma sessão semipresencial – quando os senadores podem votar
sem estarem presentes no Plenário.
A
cientista política Luciana Santana acrescenta que Alcolumbre quer equilibrar
interesses contraditórios, com seu comportamento indicando mais uma estratégia
para controlar o ritmo da tramitação do que uma rejeição aberta ao mérito da
PEC.
“Se
acelerar a PEC, atende à pressão social e evita o desgaste de ser visto como
obstáculo a uma pauta popular. Se retardar ou permitir alterações profundas,
responde às preocupações de empresários e de grupos parlamentares que
consideram a proposta precipitada”, acrescentou.
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PEC da Oposição
O texto
da oposição prevê um regime de trabalho alternativo à carteira regida pela CLT.
Nesse modelo, a jornada deve ser definida por negociação direta e individual
entre patrão e trabalhador, via contrato por hora trabalhada e não por jornada
semanal.
A PEC
da oposição mantém a escala de até seis dias de trabalho na semana e 44 horas
semanais. Além disso, a jornada negociada valeria mais que acordos coletivos,
negociados pelo conjunto dos trabalhadores de uma empresa ou setor com mediação
de sindicatos.
A
proposta alternativa, de autoria do líder Rogério Marinho (PL-RN), já conta com
a assinatura de apoio de 41 senadores. Ele criticou a redução da jornada de
trabalho no Brasil prevista na PEC aprovada na Câmara.
“[A PEC
da oposição] preserva a liberdade de escolha do trabalhador e evita a adoção —
com algumas exceções — de um modelo único de jornada imposto de forma
generalizada a todos os setores da economia”, disse o senador potiguar.
A
mobilização da oposição é criticada pela líder do PT no Senado, Teresa Leitão
(PT-PE), que considera a medida um retrocesso e alerta que ela pode atrasar o
fim da escala 6×1:
“Espero
que haja momentos de reflexão, de negociação, de acordos e também de pressão
social, porque o apelo popular do fim da jornada 6×1 pegou, e pegou porque é
uma realidade de vida dos trabalhadores e das trabalhadoras.”
A
professora da Ufal Luciana Santana pondera que, ao abrir espaço para propostas
alternativas, o Senado pode modificar o texto e prolongar a tramitação da PEC.
“O
Senado tradicionalmente se apresenta como uma casa revisora e tende a
demonstrar maior sensibilidade às pressões econômicas e federativas. Por isso,
é provável que os senadores busquem introduzir ajustes, realizar audiências e
ampliar o debate”, comentou.
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CCJ
A PEC
que acaba com a escala 6×1 deve ser analisada primeiro na CCJ, liderada pelo
senador Otto Alencar (PSD-BA), antes de ir ao Plenário, onde precisa ser
aprovada em dois turnos.
O
presidente da CCJ informou que vai priorizar a votação da PEC da Câmara, que
começou a tramitar primeiro que a da oposição, que teria que “entrar na fila”,
segundo Otto Alencar. O senador espera definir o relator na próxima semana, em
conjunto com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
A
cientista política da Ufal Luciana Santana avalia que, mais importante que uma
posição pública de Alcolumbre, é a definição do nome do relator e de um
possível calendário de audiências públicas.
“São
esses movimentos institucionais que mostrarão se o Senado pretende acelerar,
revisar ou efetivamente esfriar a tramitação da matéria”, disse a professora.
A
próxima reunião da CCJ deve ocorrer em 10 de junho, quarta-feira da próxima
semana. O governo espera votar a proposta até o final do mês. Um requerimento
da oposição para realizar uma audiência pública no plenário da Casa foi
aprovado, mas ainda sem data definida.
O líder
do governo no Senado, Jacques Wagner (PT-BA), espera que o Senado escute a
demanda das ruas.
“Espera-se
agora que o Senado Federal cumpra sua alta responsabilidade política,
sintonize-se com o clamor popular e aprove a matéria com a celeridade que o
momento histórico exige”, disse em artigo publicado em um portal do PT.
Fonte:
BBC News Brasil/IstoÉ

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