Paulo
Kiass: Por que o governo teima em “apertar o cinto”?
A
última sexta-feira de maio foi marcada pelo anúncio oficial de medidas na área
da política econômica que representam, de forma tão trágica quanto cristalina,
quais são efetivamente as verdadeiras prioridades deste governo. De um lado, a
equipe anuncia cortes, bloqueios e contingenciamentos nas despesas
orçamentárias ditas primárias. De outro lado, o Banco Central (BC) divulga as
informações relativas ao volume de despesas financeiras (que se caracterizam
por serem tão orçamentárias quanto as demais) que compõem a base do pagamento
de juros aos detentores de títulos da dívida pública.
Como se
pode perceber, desde o início deste terceiro mandato do presidente Lula, existe
uma enorme preocupação, uma obsessão recorrente dos responsáveis pela economia
no governo, em atender plenamente às expectativas e aos interesses do sistema
financeiro. Assim foi com a aprovação do Novo Arcabouço Fiscal (NAF) em 2023,
em substituição ao antigo Teto de Gastos de Temer. Isto porque, ao contrário do
que havia sido prometido durante a campanha eleitoral de 2022, a Emenda
Constitucional nº 95 de 2016 não foi simplesmente revogada. Ela foi substituída
por outro dispositivo, que mantém a essência do espírito da austeridade fiscal.
Ou seja, saiu o teto do Temer e entrou o teto de Lula.
Esse
bom mocismo de Haddad e de seus principais colaboradores avançou também para
estabelecer uma política de austeridade fiscal ainda mais rigorosa do que a
prevista na Lei Complementar 200, que instituiu o NAF. O mecanismo que entrou
no lugar do Teto de Gastos impõe uma série de limitações para impedir que se
coloque em movimento um Plano Nacional de Desenvolvimento, assim como para
implementar políticas públicas de acordo com as determinações constitucionais e
as necessidades da maioria da população. Porém, Haddad quis aprofundar ainda
mais os malefícios da austeridade e determinou a meta de obtenção de superávit
primário para o exercício de 2026. Uma loucura!
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Austeridade apenas para os pobres
A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) aprovada no ano
passado tem por atribuição orientar aspectos da política fiscal para o
exercício atual. Assim, o governo sugeriu — e o Congresso Nacional aprovou —
que as contas públicas deverão encerrar o mês de dezembro próximo com um
resultado positivo nas rubricas primárias de 0,25% do PIB. Isso significa que
as receitas deverão superar as despesas em aproximadamente R$ 34 bilhões. A
intenção é tanto mais esdrúxula se considerarmos que estamos em ano eleitoral e
a possibilidade de assegurar a reeleição de Lula depende, dentre outros
fatores, da capacidade de “entrega” do governo.
Ou
seja, não deveria haver limitação alguma para novos programas de investimento
nem para a realização de gastos imediatos, a exemplo da necessária correção do
valor do Bolsa Família, congelado desde Bolsonaro em R$ 600. O mesmo raciocínio
deveria valer para o enfrentamento de problemas como os inacreditáveis
reajustes nos preços dos combustíveis ou a destinação de recursos para as
famílias endividadas. Em suma, o governo deveria ter a seu dispor mais recursos
para “gastar” e não está sendo impedido para esse intento maldoso por alguma
artimanha ou chantagem da oposição. A própria equipe econômica se encarrega de
criar tais obstáculos.
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Governo se orgulha de cortar e cortar e cortar no social
A
novidade de restrição orçamentária parece ter sido saudada como medida bastante
positiva pela própria agência de notícias do governo. A página da EBC traz a notícia e tom
elogioso:
(…) “A
medida, anunciada pelos Ministérios da Fazenda e do Planejamento e
Orçamento, busca garantir o cumprimento das metas
fiscais e evitar que os gastos públicos superem os limites
estabelecidos pelas regras de responsabilidade fiscal. Além do bloqueio, o
Executivo mantém restrições temporárias para a liberação de recursos,
mecanismo conhecido como “faseamento de empenho”, que restringe a contratação
de despesas e atinge R$ 27,1 bilhões até novembro. Somadas, as medidas
chegam a restringir mais de R$ 83 bilhões em recursos até o fim de julho.”
(…) [GN]
O
anúncio prevê um bloqueio de R$ 23,7 bi na medida anunciada apenas na
sexta-feira, sem considerar as demais já em vigor. A matéria da agência
incorpora um misto de comemoração e realismo, ao saudar os cortes, mas ao mesmo
tempo reconhece que eles podem provocar problemas para o governo.
(…)
“Entre os ministérios, os maiores cortes ficaram concentrados nas
seguintes pastas:
- Ministério da
Defesa: R$ 4,363 bilhões;
- Ministério das
Cidades: R$ 3,32 bilhões;
- Ministério da
Educação: R$ 1,605 bilhão;
- Ministério dos
Transportes: R$ 1,5 bilhão;
- Ministério da
Fazenda: R$ 1,396 bilhão;
- Ministério da
Saúde: R$ 1,002 bilhão.
Na
prática, isso significa menos espaço orçamentário para a execução de
projetos, contratos e investimentos dessas pastas até nova reavaliação das
contas públicas.” (…)
Ocorre
que tais medidas seguem à risca a lógica neoliberal da contabilidade “primária”
para a gestão da austeridade fiscal. Isso significa que todas as despesas
financeiras ficam de fora das regras do austericídio. Assim, o governo realiza
esse gigantesco empenho para cortar nas áreas sociais e investimentos, mas faz
cara de paisagem para aquela que se converteu na conta mais deficitária do
Orçamento da União. A equipe econômica se esforça para criar uma falsa
narrativa de que o governo está sendo “responsável” na condução da política
fiscal, pois se autoestabeleceu essa armadilha da meta de um ligeiro superávit
primário de 0,25% do PIB.
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O resultado fiscal nominal é deficitário: 8% do PIB
No
entanto, eles simplesmente fingem ignorar que a realidade fiscal é
completamente distinta. Se os gastos com juros fossem incorporados ao cálculo,
como deveriam ser em qualquer tipo de abordagem mais honesta, em nenhum
exercício ao longo das últimas décadas o governo central poderia se gabar de
ter alcançado um resultado fiscal superavitário. A partir do momento em que as
despesas com juros da dívida são levadas em conta, o déficit nominal se
aproxima de 8% do PIB. Portanto, a realidade é muito distinta da narrativa
falaciosa que tentam vender ao conjunto da sociedade. Se o problema é a disputa
de adjetivos, a única conclusão possível é que o atual governo, assim como
todos os anteriores, é absolutamente “irresponsável” em termos de política
fiscal.
No
mesmo dia em que as informações do rigor da austeridade são divulgadas, o BC torna públicas as tabelas com os
dados envolvendo as despesas com juros. E assim ficamos sabendo que, somente ao
longo do mês de abril recente, a União gastou R$ 85 bi com destinação de
valores do orçamento para os detentores de títulos da dívida pública. Ou seja,
em apenas um único mês, o governo gastou quase o triplo do que pretende
economizar por meio dos cortes e contingenciamentos nas contas “primárias” para
todo o ano. Para esse tipo de dispêndio com os beneficiários privilegiados, que
se localizam no “topo do topo” de nossa vergonhosa pirâmide da desigualdade
social e econômica, nenhuma providência é adotada. Para isso, não há limite
algum, não existe teto, não ocorre contingenciamento. Além disso, é bem
sintomático que esse valor trilionário não receba jamais os qualificativos de
“gastança”, “populismo” ou “irresponsabilidade”, tão costumeiros quando as
elites tratam de criticar despesas como o Bolsa Família ou os benefícios
previdenciários.
Ao
longo do mês de abril, o governo destinou R$ 4,2 bi em cada um dos dias úteis
do período para o cumprimento das despesas financeiras. Ou seja, em apenas seis
dias foram dispendidos com juros valores equivalentes a todo o esforço de
cortes e bloqueios anunciados no mesmo dia pelo pessoal do rigor e da
responsabilidade fiscais. Mais uma vez, tratou-se de novo recorde para esse
tipo de gasto em abril na série histórica. Como o próprio Lula gosta de
afirmar, nunca antes na história deste país esse patamar foi alcançado.
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Despesas com juros sem limite: recorde atrás de recorde
Além
disso, ao longo do primeiro quadrimestre deste ano, o total de gastos com juros
chegou a R$ 352 bi. Esse montante é 33% mais elevado do que o realizado no
mesmo período do ano passado, quando acusou R$ 264 bi. Isso significa que
nenhuma outra rubrica do orçamento observou um crescimento de tal magnitude.
Pelo contrário, em função da natureza austericida da política fiscal primária,
todas as demais despesas sofreram algum tipo de contenção ou restrição. Mas,
para esse pessoal que cuida com todo o carinho dos interesses do povo do
financismo, os juros são intocáveis!
Os
dados são escandalosos, ainda mais quando se considera que se trata de um
governo presidido pelo Partido dos Trabalhadores. Desde 2024 que o acumulado de
despesas financeiras com juros em 12 meses vem superando a marca de R$ 1
trilhão. Agora alcançou R$ 1,1 tri. A principal razão para esse volume
mastodôntico reside na manutenção da taxa oficial de juros também na
estratosfera. Como a Selic é a referência mínima de remuneração dos ativos
financeiros de forma generalizada, os custos de rolagem da dívida pública e de
pagamento dos juros desta tornam-se bastante elevados.
O
governo precisa resolver de forma urgente essa espécie de esquizofrenia na
condução da política fiscal. Caso ele decida se assumir plena e integralmente
como “responsável”, deveria passar a atuar sobre o conjunto das despesas
orçamentárias, aí incluídos os gastos financeiros. Ou então retirar o véu da
falsidade da narrativa da “responsabilidade fiscal” e assumir de forma pública
e transparente que sua prioridade segue sendo mesmo o andar de cima. O
populacho que opte por brioche se a baguete está muito cara.
¨
Delirius economicus. Por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred
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Adam
Smith, grande filósofo escocês, cunhou a expressão “homo economicus”,
uma herança genética presente em todos os seres humanos: nascem com noções
básicas de economia no seu DNA.
Doctor
Smith também lançou duas expressões bastante conhecidas e talvez ainda hoje mal
compreendidas: o egoísmo aparente, segundo o qual, se cada um buscar o melhor
para si, todos ganham, ou seja, uma sociedade mais rica. A outra seria a mão
invisível que faria o mercado funcionar. Nada a ver com a noção de equilíbrio,
mas supõe que consumidores e produtores se autoajustem dinamicamente. É
importante sublinhar a palavra “dinamicamente” para escapar do enclausuramento
da economia capitalista nas masmorras do equilíbrio.
Paul
Krugman distribuiu cacetadas aos adeptos da austeridade, essa banalidade
estática. Segundo o ex-colunista do jornal New York Times, os
“austeros” equiparam o problema da dívida nacional de uma economia ao da dívida
de uma família. Se uma família acumulou dívidas demais, deve apertar os cintos.
Os governos não devem fazer o mesmo?
A
resposta de Paul Krugman: uma economia não é uma família endividada. “Nossa
dívida (privada) consiste principalmente de dinheiro que devemos uns aos
outros; ainda mais importante, nossa renda provém principalmente de venda de
coisas uns aos outros. Seu gasto é minha renda e meu gasto é sua renda. Assim,
o que acontece se todo mundo reduzir o gasto simultaneamente a fim de reduzir
suas dívidas? Resposta: “a renda cai”.
Quando
se trata de cuidar do funcionamento da economia como um todo, ou seja, de
questões ditas macroeconômicas, os vícios do senso comum e do individualismo
metodológico levam a recomendações suicidas de política econômica, como as
oferecidas por economistas do equilíbrio e seus adeptos.
As
trapalhadas começam com a definição da chamada macroeconomia como “a economia
dos agregados”. Nessa visão apologética, a “agregação” dos comportamentos
individuais racionais leva necessariamente ao equilíbrio do conjunto da
economia, o que torna nocivas as intervenções governamentais.
Não por
acaso, os economistas da corrente principal se empenham com denodo na
descoberta dos fundamentos microeconômicos da macroeconomia, assim como os
alquimistas buscavam a pedra filosofal. Essa proeza intelectual pretende
convencer os incautos de que o movimento do “macro” é resultado da agregação
das decisões no âmbito do “micro”.
John
Maynard Keynes, o fundador da macroeconomia, escreveu nos manuscritos
preparatórios da Teoria Geral de 1933 que a economia monetária
da produção funciona segundo o circuito “macro” do
dinheiro-mercadoria-dinheiro, “a profícua descoberta de Karl Marx”.
Ele
utiliza Marx com o propósito de afirmar o caráter “originário” das decisões de
gasto monetário do conjunto da classe capitalista, num triplo sentido: (i) a
propriedade das empresas e o acesso ao crédito conferem a essa classe social a
faculdade de gastar acima de sua renda (lucros) corrente; (ii) as decisões de
gasto na produção corrente e na formação de nova capacidade (investimento)
criam o espaço de valor (a renda nominal da economia como um todo), mediante o
pagamento dos salários e geração de lucros sob a forma monetária.
(iii) A
“criação” da renda e do lucro gera os fluxos de consumo e de poupanças. Estas
últimas se encarnam em reivindicações genéricas sobre a riqueza e a renda
futura – a massa de ativos financeiros formada pelo rastro de dívidas e pelos
direitos de propriedade –, ambos avaliados diariamente em mercados organizados.
Contemporaneamente
a John Maynard Keynes, o economista polonês Michał Kalecki valeu-se dos
esquemas de reprodução de Marx para formular o princípio da demanda efetiva.
Michał Kalecki investiga as condições de reprodução da economia composta de
três macro departamentos: bens de consumo dos trabalhadores, bens de produção e
bens de consumo dos capitalistas.
Ao
utilizar os esquemas de reprodução, Michał Kalecki procura mostrar que o
princípio da demanda efetiva já está estabelecido no volume II de O
capital. Aí Marx distingue as condições de produção do valor das condições
de sua realização. As primeiras dependem da capacidade produtiva da
sociedade, as segundas decorrem da disposição dos capitalistas de renovar o
circuito de valorização do capital.
Assim,
ao comentar a equação: “Lucros Brutos = Investimento Bruto + Consumo dos
Capitalistas”, Michał Kalecki se pergunta sobre o seu significado: “Significa
ela, por acaso, que os lucros, em um dado período, determinam o consumo e o
investimento dos capitalistas, ou o inverso, disto? A resposta a esta questão
depende de determinar qual destes itens está diretamente sujeito às decisões
dos capitalistas. Fica claro, pois, que os capitalistas podem decidir consumir
e investir mais em um dado período, do que no precedente. Mas eles não podem
decidir ganhar mais. São, portanto, suas decisões de investimento e consumo que
determinam os lucros e não vice-versa”.
As
análises de John Maynard Keynes e de Michał Kalecki podem ser aplicadas às
decisões de gasto do governo: as autoridades podem decidir gastar mais ou
menos, mas não podem determinar o resultado fiscal. Déficits ou superávits
dependerão da resposta do setor privado ao estímulo do gasto público. Se o
governo corta o gasto em uma conjuntura de forte desaceleração do setor privado
–empresas e famílias – a queda da renda “agregada” vai inexoravelmente levar a
uma trajetória perversa dos déficits e das dívidas públicas e privadas, com
efeitos indesejáveis sobre os bancos financiadores.
Na
academia onde ensinam e pesquisam nossos ilustres economistas, não há
necessariamente o fluxo circular da renda monetária. No sistema econômico da
escola delirius economicus, o coração da economia de mercado-capitalista bate
forte, mas não há sangue correndo pelas artérias e veias. E o Estado, nessa
visão, entope as artérias e veias com o gasto e, portanto, levará ao infarto,
ou seja, o calote, a inflação e a miséria.
Perguntar
não ofende, só aos arrogantes: se não houver fluxo de sangue bombeado pelo
coração, a vida acaba. Analogamente, se o dinheiro não bombeia no sistema
econômico, no circuito gasto-renda, seja pelo Estado, pelas instituições
bancárias, pelas empresas e pelos consumidores, é o colapso do capitalismo.
Suspeito que os economistas do mainstream querem destruir o sistema
monetário-financeiro capitalista.
Fonte:
Outras Palavras/A Terra é Redonda

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