Eleutério
F. S. Prado: As finanças são parasitárias?
Desafiado
com essa pergunta, é bem provável que o leitor deste artigo responda
rapidamente com um “sim, as finanças são atividades parasitárias”; de maneira
mais precisa, ele está assim afirmando, sem pensar muito, que o capital de
finanças parasita o capital industrial (notando-se que indústria e industrial
será tomado sempre em sentido amplo neste escrito).
Contudo,
aqui vai se argumentar que essa questão é bem mais intrincada do que parece de
início. E que se pode – e até que se deve – contestar essa difundida tese que,
aliás, não para de prosperar nos meios de esquerda. Para tanto, em sequência,
se examina como essa metáfora surge na história da crítica ao capitalismo e
quais seriam as razões usualmente apresentadas para sustentá-la. Ao longo e ao
final se mostra também como se deve questioná-la.
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Parasitismo em Karl Marx
Examinando
o Livro I de O capital, vê-se que o termo parasita aparece algumas vezes, com
diferentes sentidos. No capítulo VIII, o próprio comprador de força de
trabalho, ou seja, o capitalista industrial aparece como um parasita. O
possuidor da mercadoria força de trabalho vai ao mercado e a vende para outro
possuidor de mercadoria. “O contrato pelo qual ele vende sua força de trabalho
ao capitalista prova (…) que ele dispõe livremente de si mesmo. Fechado o
negócio, descobre-se que ele não era “nenhum agente livre”, pois agora o “seu
parasita [Sauger] não o deixará “enquanto houver um músculo, um nervo, uma gota
de sangue para explorar”.
A
menção ao termo que se encontra no capítulo XIX é distinta: “O salário por peça
facilita, por um lado, a interposição de parasitas entre o capitalista e o
assalariado, o subarrendamento do trabalho”. O parasita nesse caso é o que no
Brasil se chama de “gato”. O seu ganho de intermediário – explica – “advém
exclusivamente da diferença entre o preço do trabalho pago pelo capitalista e a
parte desse preço que eles deixam chegar efetivamente ao trabalhador”.
Assim,
por meio dessas duas citações, vê-se que no próprio âmbito do capital
industrial há situações nas quais Marx enxerga formas de parasitismo.
Como no
Livro II nada se encontra, examinando agora o Livro III, acha-se uma referência
de maior interesse. Um endosso aparente à tese aqui discutida se encontra num
trecho do capítulo XXVII em que Marx explica o processo de socialização do
capital decorrente da expansão do sistema de crédito. Eis que essa expansão
implicava já ao seu tempo – e isso se pode ver hoje de modo melhor – na
propagação das sociedades por ações, na expansão das dívidas públicas e dos
fundos de investimento etc.
Aquilo
que veio se chamar depois financeirização se mostrava para ele, ainda que de
forma incipiente, como uma tendência imanente ao desenvolvimento da relação de
capital. Eis que o capital não se mantém apenas como capital industrial no
âmbito da produção de mercadorias, mas se desenvolve também fora dele como
capital de comércio e capital de financiamento, por exigência da própria
expansão da produção de mercadorias.
O
capital monetário usado no financiamento da produção e que, portanto, funciona
realmente como capital, foi chamado por Marx de capital portador de juros. O
capital de financiamento que não participa diretamente da esfera em que o valor
se valoriza e que é emprestado para as famílias, governos, especuladores etc.
foi denominado por ele de capital fictício. Este último, mesmo não participando
diretamente da produção, dá ao seu dono um direito de saque sobre a mais-valia
produzida socialmente sob a forma de juros, dividendos etc.
Referindo-se
especialmente à expansão das sociedades por ações, Marx diz que ela “produz uma
nova aristocracia financeira, uma nova classe de parasitas sob a forma de
projetistas, fundadores e diretores meramente nominais; todo um sistema de
especulação e de fraude”. E isso ocorre porque a propriedade do capital
destaca-se do capital efetivo que atua na esfera produtiva. Por meio dessa
forma, diz ele, “a remuneração à propriedade do capital (…) passa a estar
inteiramente separada da função que desempenha no processo real da reprodução”.
Do mesmo modo, continua, a função de direção do processo produtivo, “na pessoa
do dirigente, se encontra agora separada da propriedade do capital”.
Note-se,
no entanto, que o aparecimento de uma classe de parasitas – de acordo com o
texto de Marx – não implica que o capital de finanças tenha se tornado parasita
do capital industrial. Pois, a prosperidade desse último depende de modo
crescente da expansão do primeiro mencionado, mas não só do capital que
financia a produção, como também do capital fictício. Advém não da decadência,
mas consequência negativa de seu progresso.
De
qualquer modo, é preciso assentar aqui que o termo parasita foi usado por Marx
em diferentes sentidos e que ele se afigura como uma noção meramente acessória
da crítica da economia política.
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Parasitismo em Vladímir Lênin
A
origem dessa crença pode ser encontrada, talvez, em O imperialismo – Fase
superior do capitalismo de Vladímir Lênin. Rememorando o trecho de O capital
acima citado, no capítulo III, dedicado ao capital financeiro e à oligarquia
financeira, ele fala (a) da separação da “propriedade do capital da sua
aplicação à produção; (b) da separação “do capital monetário do industrial”; e
(c) da separação “do rentier, que vive apenas dos rendimentos provenientes do
capital monetário, do empresário e de todas as pessoas que participam
diretamente da gestão do capital”. Até esse ponto, Vladímir Lênin não diz mais
do que se encontra no próprio Marx.
Mas, no
capítulo VIII, dedicado especificamente ao parasitismo e à decomposição do
capitalismo, ele vai além do que disse Marx. Aí, Vladímir Lênin censura Rudolf
Hilferding em seu livro inovador O capital financeiro, autor que fez a pesquisa
original e que o informou na elaboração de seu notável opúsculo, por não ter
acentuado o parasitismo como uma característica central do imperialismo em seu
desenvolvimento no século XX. Pois este consiste na monopolização da produção,
a qual, segundo ele, “gera uma tendência para a estagnação e para a
decomposição”. Eis que o faz – e isso se afigura bem importante – baseando-se
no livro de John A. Hobson, o que se considerará mais à frente.
Nessa
perspectiva, julgou Vladímir Lênin – a história posterior mostrou que ele
estava errado – que a monopolização eliminaria os estímulos ao progresso
técnico “e, por conseguinte, a todo progresso”, mas principalmente aquele que
consiste no incremento das forças produtivas. Como, em adição, ele parece
sustentar que o processo econômico passa a garantir a renda da classe
parasitária em detrimento do lucro industrial, como vem engordar – dizendo de
outro modo – o rentismo ao invés de fomentar o progresso industrial, Lenine
apresenta considerações que abrem assim o caminho para a tese do parasitismo
das finanças.
A
origem da tese sobre o parasitismo das finanças parece se encontrar em A
evolução do capitalismo moderno de John A. Hobson, autor que também serviu de
base para Lenine escrever o seu influente livro. Como o termo não aparece
explicitamente em seu escrito, pelo menos no sentido em que aqui é usado,
recorre-se à apresentação feita a ele por Maria da Conceição Tavares, a qual
foi publicada junto com a tradução brasileira de sua obra.
Ao
comparar as análises de Rudolf Hilferding e de John A. Hobson sobre o capital
financeiro, Maria da Conceição Tavares indica que o primeiro, como bom
marxista, tinha “uma visão da totalidade orgânica do grande capital”, enquanto
o segundo, como bom analítico, “realizara uma operação mais complexa de
decomposição” dessa totalidade. Assim, ele “identifica uma classe especial de
capitalistas financeiros (…) que exerce uma dominação financeira sobre a
indústria capitalista”. Tavares anota que ele, porém, não considerou essa elite
como rentista tal como o fizera John M. Keynes na Teoria geral do emprego, do
juro e do dinheiro.
Se
Rudolf Hilferding apresentou a relação do capital industrial com o capital de
finanças como orgânica, seguindo assim Marx, John A. Hobson tomou essa relação
como uma relação funcional de dominação. “Daí” – menciona Maria da Conceição
Tavares – “que essa forma endógena de dominação tende a se transformar em
parasitismo sobre a indústria. Eis que o destino interno do monopolismo do
capital financeiro” – aponta – “é tornar-se parasita”. Ora, essa interpretação
encontra comprovação indireta no próprio escrito de John A. Hobson quando fala
relação de dominação mencionada.
Tendo
por referência, o capital financeiro americano – e não o alemão examinado por
Rudolf Hilferding – John A. Hobson expressa essa ideia da seguinte forma:
“Quando se tem na devida conta o duplo papel desempenhado pelos bancos no
financiamento das sociedades por ações (…), fica bem claro que a tarefa do
banqueiro moderno é, em grande parte, a do financista comum, e que a dominação
financeira na indústria capitalista é exercida em grande medida por
banqueiros”. Eis que vem a ser justamente essa dominação, e a decorrente
precedência da renda em relação ao lucro, que sustenta a tese aqui examinada.
Conclui-se,
portanto, que o uso de parasita como termo da crítica da economia política
proveio do leninismo, ainda que não se possa garantir aqui que essa tenha sido
a sua única fonte.
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A ideologia do capital industrial
Ora, a
condenação que apresenta as finanças como parasitária pode ser sustentada de um
modo moralista. Este diz que a renda e a riqueza provêm da competência e do
esforço individual na produção de bens e serviços necessários à vida social
numa sociedade que se sustenta e se alevanta sobre mercados, os quais funcionam
obedecendo a lógica supostamente virtuosa da concorrência. Uma suposta
meritocracia inerente ao capitalismo fica assim justificada por um suposto bom
funcionamento econômico.
Como se
sabe, essa lógica sistêmica, que seria inerente ao funcionamento do capital
industrial, foi apresentada de modo marcante pela metáfora da mão invisível.
Adam Smith, em A riqueza das nações, afirmou que, na “sociedade comercial”, a
produção é guiada por uma teleologia implícita que põe uma contra-finalidade. A
partir das ações dos capitalistas como indivíduos, os quais se guiam em
exclusivo pela busca do lucro, o sistema econômico como um todo geraria sempre
e em escala crescente um benefício social que se difundiria por todas as
classes dessa sociedade.
André
Lara Rezende, num artigo recente, explica que esse mito – ele apresenta a
ideologia por excelência do capital industrial como um mito – teria sido
acreditado e desacreditado, respectivamente, nas eras do capitalismo industrial
e do capitalismo notadamente financeirizado. O capitalismo até os anos 1970,
segundo ele, teria sido propriamente industrial, mas a partir dos anos 1980
teria se tornado financeirizado, em razão do surgimento de uma “hipertrofia
financeira”.
“O
processo de financeirização” – diz ele que pensa como John A. Hobson e trata as
finanças com uma mera função – “é, em princípio positivo, pois facilita o
financiamento do investimento, ou seja, o aumento da capacidade produtiva. A
partir de certo ponto, contudo, passa a criar distorções perigosas. Inverte-se
a ordem das coisas: o mercado financeiro deixa de ser um instrumento para o bom
funcionamento da produção de bens e serviços e se torna o protagonista da
economia”.
Com o
advento da supremacia financeira, segundo André Lara Rezende, o capitalismo
perdeu a sua moral. “A explosão da riqueza financeira depois de 2008 (…)
desmistificou a meritocracia capitalista. Diante de fortunas antes
inconcebíveis, agora acumuladas literalmente da noite para o dia, e da
promiscuidade entre os ocupantes do Estado e as elites financeiras, o mito da
riqueza como resultado do trabalho e da competência não tem mais como se
sustentar”. Antes, segundo ele, parecia ter – mas aqui se trata essa percepção
como ideológica.
O que
muda, afinal, como esse advento? “Quando isso [isto é, a financeirização
excessiva] ocorre, a combinação do enriquecimento das elites financeiras com a
generalização dos privilégios dos governantes – políticos eleitos e
funcionalismo – cria uma classe à parte. A elite, anestesiada pelos ganhos
financeiros fáceis, prefere ignorar a erosão da boa governança do Estado, e a
corrupção se generaliza. No Brasil de hoje, o caso do Banco Master, com a sua
espantosa rede de conexões, é exemplar da associação espúria entre as elites e
a política corrompida”.
Essa
crítica até que faz sentido. E ela, como foi visto aqui sumariamente, tem uma
longa história. Contudo, mesmo assim ainda é preciso criticar a tese de que as
finanças (supostamente excessivas) são parasitárias.
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As finanças não são parasitárias
A tese
de Marx segundo a qual os financistas são parasitas é sustentada pelo ethos do
trabalho, mas aquilo que se encontra em Adam Smith, John A. Hobson e André Lara
Rezende vem da ideologia que associa o capitalismo apenas – ou principalmente –
ao capital industrial (em sentido amplo), aquele que domina na esfera econômica
ampla em que se produzem as mercadorias.
Note-se
que o “orgulho do trabalhador” por viver do próprio esforço e a “confiança
burguesa” na justeza dos resultados do sistema econômico, tal como foram aqui
sumariamente descritos, estão ambos assentados nas condições estruturais
providas pelo próprio modo de produção capitalista. Mas diferem entre si porque
um desses fundamentos provém da função social do trabalho em geral, mas o outro
advém da vanglória competitiva.
Note-se
também que, no primeiro caso, o trabalho é tomado como elemento central da
produção social, e que, no segundo, ele se apresenta como função – ou melhor,
como funcionalidade – do sistema econômico produtor de mercadorias, tal como
ele existe e prospera. Pois, está implícito na metáfora da mão invisível e na
crítica de André Lara Rezende à financeirização que os proprietários
industriais são agentes necessários que atuam para o bom funcionamento do
sistema econômico. E é assim mesmo se Smith, antes mesmo de Marx, tenha feito a
distinção entre trabalho produtivo (que produz valor para o capital) e trabalho
improdutivo (que consome valor produzido por outros no sistema da relação de
capital).
A
contestação de que as finanças são parasitárias foi defendida recentemente por
Stephen Maher e Scott Aquanno em A queda e a ascensão da finança americana.
Neste livro, em primeiro lugar, eles afirmam que não há antagonismo entre as
finanças e a indústria (tomando enfaticamente este último termo no sentido
amplo que lhe deu Marx, ou seja, como lócus da produção de valor e mais-valor
no capitalismo).
Eis que
essas atividades não estão apenas intimamente interligadas, como dependem uma
da outra para subsistirem. Se as finanças consomem valor produzido pela
indústria (em sentido amplo), ela facilita a inversão de capital, disciplina a
extração de mais-valor, alimenta a competição de mercado, facilita a circulação
nacional e internacional do capital. A tese de que elas se tornaram excessivas
no capitalismo contemporâneo parece desde logo mal fundamentada.
Esses
dois autores, ademais, afirmam corretamente que o processo de financeirização
explicito não começou nos anos 1980 e que ele não vem a ser, portanto, uma
característica do neoliberalismo. Apontam desde logo que Rudolph Hilferding
discutiu já no começo do século XX uma forma específica de financeirização pela
qual as corporações industriais na Alemanha foram subsumidas ao capital
monetário detido pelos bancos. Deu, então, o nome de capital financeiro à fusão
– orgânica como foi visto – do capital industrial com o capital de
financiamento ofertados pelos bancos.
Mas vão
mais longe. Indicam, outrossim, que algo semelhante aconteceu nos Estados
Unidos entre 1880 e 1929, sob a liderança do banco J. P. Morgan. E que a
financeirização assumiu novas formas depois da Grande Crise do século XX. As
próprias corporações industriais incorporaram as funções financeiras daí em
diante até o fim da II Guerra Mundial, quando então passaram a atuar como tais
explicitamente. Eles registram ainda que essas corporações, após 1980, se
internacionalizam simultaneamente como empresas industriais e como empresas
financeiras e que, após 2008, elas foram abraçadas pelas grandes gestoras de
ativos com a Black Rock.
A essas
duas teses centrais, eles acrescentam três outras que aqui serão apenas
mencionadas: (i) a financeirização por si só não implica no declínio do
capitalismo; (ii) ela não implica que um processo de monopolização se tornou
irreversível nesse modo de produção; e (iii) mesmo que as finanças possam
exercer pressão sobre os governos, condicionando a política econômica, a sua
expansão não implica num recuo do Estado e da intervenção estatal no
funcionamento do sistema econômico.
Em
resumo, “os problemas que se apresentam agora” na história contemporânea –
dizem eles – “são problema do capitalismo; não se afiguram, portanto, como
problemas criados pelas finanças num capitalismo que seria saudável de outra
forma”. Portanto, a própria tese de que a atividade de finanças se tornou
excessiva a partir dos anos 1980 parece advir ainda da necessidade de
justificar o capitalismo, mesmo que seja mitologicamente.
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Conclusão
Ao
chegar ao término desta nota, aquilo que escreveu Vladímir Lênin no começo do
século XX pode ser visto noutra perspectiva. Olhando para a história do século
XX e XXI vê-se que o capitalismo não só prosperou – ainda que por meio de
surtos, crises e guerras –, mas foi capaz de destruir de fora para dentro os
sistemas econômicos que surgiram de revoluções socialistas. Diante dessa
evolução, pode-se ainda falar em decomposição do capitalismo? Pode-se dizer que
o capital de finanças e em especial o capital fictício é parasitário?
A falha
de seu argumento, que avulta agora em outro período histórico, não teria sido
relevar um capitalismo baseado no capital industrial e concorrencial em face de
um capitalismo piorado, fundado em monopólios e dominado pelas finanças? Eis
que as finanças não podem ser tomadas como parasitárias – conclui-se aqui –
mesmo se o processo de socialização do capital, que a expande enormemente,
engendra inúmeras formas de vida parasitárias.
Ademais,
se houve decomposição, ela aconteceu não na base estrutural do sistema que,
aliás, se mostrou bem resilente, mas na sociedade que se levantou e prosperou
sobre ela. Não por falta de progresso, mas por excesso dele. Não por carência
de prosperidade, mas porque ela se interverte sempre em miserabilidade para
muitos no capitalismo.
Fonte:
A Terra é Redonda

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