A
violência de empresários contra trabalhadores
A cena
é revoltante. Na avenida Paulista, coração financeiro da burguesia brasileira,
vários policiais se esforçam para imobilizar uma mulher negra. Ela se bate,
indignada, dificultando a tarefa dos policiais. A mulher é derrubada, algemada
e colocada dentro de uma viatura, como se fosse uma criminosa. Tudo se passa na
frente de duas crianças, sua filha de sete anos e uma sobrinha.
A
mulher se chama Jussara Bonfim Silva. O motivo da truculenta abordagem policial
foi por uma questão trabalhista. Em 10 de abril, Jussara, auxiliar de limpeza,
foi a um escritório localizado na avenida Paulista para tratar do pagamento de
suas verbas rescisórias. Discordou dos valores apurados pela empresa a quem
prestou seus serviços e a discussão escalou para um bate-boca.
A
trabalhadora, como ela mesma reconheceu, no calor da discussão, chegou a
danificar uma porta do escritório. Isso foi o bastante para os funcionários
chamarem a polícia. Afinal, Jussara quebrou os códigos implícitos de conduta
esperados de uma trabalhadora negra precarizada: a resignação. Ao contrário,
ousou questionar, reclamar e erguer a voz contra um empregador. E, para a
patronal e seus prepostos, a solução nos casos de conflitos trabalhistas,
individuais ou coletivos, é uma só: chame a polícia.
Esta,
rápida e prestativa foi ao local. E diante de uma trabalhadora exaltada por
estar recebendo menos do que lhe deviam, na dúvida ficou do lado mais forte.
Decidiram levá-la a uma delegacia, mas determinaram a Jussara seu lugar na
viatura: a parte traseira, onde normalmente são transportados os “criminosos”.
Foi esse o momento capturado pela câmara de um celular e que revoltou milhões
de pessoas pelo Brasil.
Jussara,
baiana arretada, mãe solo de duas crianças, que se mudou para São Paulo
imaginando aqui ter mais oportunidades e receber algum acolhimento,
indignou-se. Não era criminosa, e em vídeo gravado onde expôs seu lado da
história, afirma orgulhosa e dignamente sua condição de trabalhadora. Seu caso
chama a atenção para uma série de eventos acontecidos em vários pontos do
Brasil, aparentemente desconectados, apresentados pelo grande público como
resultado de um conflito interpessoal.
Ao
contrário, observamos nesses casos de violência traços comuns, o que os
transforma em algo bem distinto de um suposto desentendimento pessoa. Algumas
dessas práticas de violência tem sido cometida diretamente por “cidadãos de
bem”, leia-se, empresários e indivíduos situados naquilo que podemos chamar de
classe média, contra os trabalhadores em vários pontos do país. Em outras
situações, a solução de um conflito trabalhista é resolvida pela polícia, que
utiliza do monopólio da violência garantido pelo Estado, para agir em favor do
capitalista.
A causa
dessa situação, a nosso ver, está diretamente relacionada com a guerra
política, econômica e cultural estimulada pelo capital, contra o trabalho e os
trabalhadores. Essa guerra é necessária para legitimar um processo de
superexploração, cuja expressão maior é a destruição dos direitos trabalhistas
e previdenciários.
A
contrarreforma trabalhista, a constitucionalidade da terceirização das
atividades-fins, a ameaça da pejotização, os ataques à organização sindical e
sua legitimidade em representar os trabalhadores em negociações coletivas, a
ideologia do empreendedorismo a transformar a condição do trabalhador em um
microcapitalista, a informalidade etc., são as manifestações explícitas dessa
guerra.
A
expansão dessa precariedade é fundamental para adequar a exploração do trabalho
às profundas mutações no capitalismo brasileiro. Os últimos dez anos aceleraram
uma transição iniciada ainda na década de 1990, de uma acumulação cuja primazia
passa do capital funcionante, para uma lógica cujo eixo gira em torno da
financeirização e do rentismo, bem como da agromineração exportadora.
Posicionados como polo dinâmico da acumulação capitalista, como seu objetivo é
obter a máxima liquidez em seus investimentos, o barateamento absoluto do valor
da força de trabalho é uma meta perene.
O
resultado dessa dinâmica, ao trabalho não cabe mais o reconhecimento de uma
dignidade implícita, desdobrada na garantia e ampliação de direitos. O pacto
social inscrito na Constituição de 1988, mesmo sob uma visão reformista de
avanços progressivos sob um regime democrático liberal, é claramente
abandonado. A regressão social se torna a única norma aceitável e é defendida
abertamente sem qualquer pudor. É o caso do deputado federal Marcos Feliciano
(PL-SP), que num debate sobre a PEC do fim da escala 6 x 1, posicionou-se
contra a proposta, afirmando que em “Democracias sérias e maduras, como os
Estados Unidos da América e Japão, todas as pessoas trabalham até a exaustão”.
Os
grandes aparatos de propaganda buscam apagar da consciência nacional uma
cultura de direitos construídas por décadas. A ideia da relação de emprego como
passaporte de acesso aos direitos trabalhistas e previdenciários, assim como o
acesso ao consumo permitido pela renda salarial, tem sido substituída pela
ilusão do empreendedorismo e da pejotização. A ilusão de ficar rico com a
especulação financeira, ou pelas bets e loterias, propaga-se como praga.
Ser
celetista se tornou sinônimo de fracasso. A relação de emprego é transformada
em mera prestação de serviços, como se tratasse de uma vulgar relação
comercial. Como tal, recusa-se o princípio da hipossuficiência do trabalhador,
para transformá-lo num microcapitalista capaz de negociar em pé de igualdade,
com o contratador dos seus serviços, os termos desse contrato.
Porém,
a maioria da classe trabalhadora sabe que o capitalismo realmente existente é
muito distinto do capitalismo utópico vendido pelos ideólogos da máquina de
propaganda do capital. Pesquisa feita pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e pelo
Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), em 2024, revela como as aspirações da
classe trabalhadora caminham em sentido contrário ao projeto burguês de tratar
a relação de emprego como uma relação comercial. Quase 70% dos trabalhadores
autônomos entrevistados, por não saberem quanto vão ganhar no mês seguinte,
gostariam de ter um emprego com carteira de trabalho assinada.
É essa
destruição da dignidade do trabalho, com sua desqualificação material e moral,
a responsável por desatar atos de violência de “empresários” e agentes
policiais cujo alvo são, principalmente, os setores mais precarizados e com
profissões consideradas mais desqualificadas. Profissões, como veremos nos
exemplos aqui trazidos, ocupadas por pessoas negras, cujas reações de violência
são um produto do racismo estrutural, ao mesmo tempo que o reforçam.
Os
corpos negros, tal como na escravidão, tornam-se alvo preferencial para o
exercício de uma violência e de castigos, exercida na maioria das vezes por
motivo gratuito e banal, como meio de a classe dominante, para além dos
instrumentos econômicos da exploração, reafirmar como uma espécie de gozo
ideológico sua supremacia e seu poder.
Vamos
aos casos.
Em 15
de abril, em Aragarças, estado de Goiás, um médico ficou indignado com o valor
cobrado por dois pintores que lhe prestaram um serviço de pintura. Os
trabalhadores acionaram a polícia para intermediar o conflito e poderem apenas
retirar suas ferramentas de trabalho do loca. O médico aceitou abrir o portão
para um dos trabalhadores retirar os equipamentos e, assim que o portão foi
aberto, passou a disparar tiros de revólver e inclusive com um arpão de pesca
contra os pintores e os policiais.
Esse
caso se assemelha ao de Jussara. A revolta do médico com o preço cobrado pelos
pintores deixa implícita uma ideia muito comum nas classes médias: a
desqualificação do trabalho manual feito por certas categorias de
trabalhadores, como a de pintor e auxiliar de limpeza, justifica uma espécie de
“indignação” no momento de negociar a remuneração do trabalho.
E se o
trabalhador reclama pela justa remuneração, a resposta de quem contratou os
serviços é o recurso à violência. No caso de Jussara, a revolta por ver
frustrada sua expectativa em receber pelos serviços pagos, foi tratada pelo
ex-empregador como um caso de polícia. A corporação foi acionada e ao final,
como sabemos, Jussara foi humilhada pelos policiais, ao ser tratada como uma
criminosa. Afinal, quando se mede a importância das coisas, a danificação de
uma porta de vidro é um ato gravíssimo, comparado ao calote sofrido por uma
trabalhadora em evidente situação de vulnerabilidade social.
Já no
caso dos dois pintores, o médico puniu-os, aplicando uma dupla expropriação. A
primeira punição foi expropriar os trabalhadores do valor que lhes era devido,
recusando-se a pagar o valor cobrado. O médico se indignou com a ousadia de
dois sujeitos da ralé em pedir um preço que refletisse o esforço, dedicação e
valorização do seu trabalho. A segunda expropriação foi ter se recusado a
deixar os pintores retirarem as ferramentas necessárias ao exercício da sua
profissão. Essa segunda expropriação buscou afetar a própria existência futura
dos pintores. Sem ferramentas não podem contratar novos serviços, ou se o
fizerem, será em condições precárias.
Neste
caso, a polícia também foi acionada, mas pelos pintores. Os policiais
negociaram a devolução das ferramentas de trabalho, mas tudo não passou de uma
armadilha do médico para matar os trabalhadores.
Outro
caso, este de maior repercussão, aconteceu em 11 de agosto de 2025, em Belo
Horizonte. O empresário Renê da Silva Nogueira Junior foi preso após matar o
gari Laudemir de Souza Fernandes. Ao dirigir seu carro, Renê ficou irritado por
causa de um caminhão de lixo que fazia uma coleta, ter causado um pequeno
congestionamento. Ao conseguir passar, sacou uma pistola automática Glock .38 e
ameaçou a motorista do caminhão e ainda por cima disparou um tiro que matou
Laudemir.
Enquanto
o gari perdia a vida se esvaindo em sangue, Renê tocava a sua como se nada
tivesse acontecido; como se atirar em trabalhadores fizesse parte de sua rotina
diária. A ira de Renê foi motivada por ver o seu sagrado direito de ir e vir
obstaculizado. Imbuído de uma concepção privatista do espaço público, a rua não
pode ser ocupada por essa gentalha. Deve estar livre e desimpedida para seu
deslocamento no interior dos seus carros, como símbolo de poder e mérito
pessoal. Sem se importar com a consequência trágica de seu ato, o empresário
manteve seus afazeres normais, a ponto de ter sido preso no mesmo dia enquanto
se exercitava em uma academia.
Neste
caso, ainda há uma relação promíscua entre público e privado. A esposa do
empresário Renê, Ana Paula Lamego Balbino Nogueira, é delegada da polícia civil
de Minas Gerais. O exame de balística revelou que a pistola de onde partiu o
tiro que matou Laudemir era a arma funcional de sua esposa. As investigações
provaram que Renê buscou deliberadamente atrapalhar o inquérito, ao orientar
Ana Paula a entregar aos investigadores outra arma registrada em seu nome. E
ainda pesa sobre Ana Paula a acusação de prevaricação, pois sabia que teria
sido Renê o autor do disparo que matou Laudemir, mas não o denunciou e nem
sequer lhe deu voz de prisão.
Aqui
temos um bom exemplo da prática muito comum entre setores das classes médias e
das classes dominantes. No momento em que um dos seus comete um crime,
coloca-se automaticamente em movimento uma operação de autoproteção de classe,
que acoberta e minimiza os crimes cometidos por um de seus membros.
Principalmente quando esses crimes têm como vítimas pessoas das classes
populares. Claro que a relação afetiva entre o casal pesou na prevaricação de
Ana Paula. Mas cabe uma pergunta: se o autor do disparo tivesse sido o filho da
diarista que trabalha para o casal, a atitude de Ana Paula seria a de acobertar
o criminoso?
Outro
caso de violência contra um trabalhador aconteceu em Palmas, Tocantins, um dos
estados símbolo do agronegócio brasileiro. O caso aconteceu em 29 de novembro
de 2025 e mais uma vez o motivo banal para o assassinato teve como causa um
automóvel de luxo. Vemos mais uma vez como o carro é um objeto de distinção
social e expressão da meritocracia, capaz de dotar seu proprietário de uma
superioridade social que lhe garante privilégios e não admite confrontação.
O
trabalhador Dhemis Augusto Sena, vigia de uma empresa terceirizada no shopping
Aldeia Mall, orientou o empresário Waldecir José de Lima Junior, 40 anos, que
devia retirar seu veículo de luxo, um Range Rover Evoque, estimado em R$ 130
mil, de um local proibido para estacionar. A solicitação gerou um pequeno
bate-boca e o atirador, que tem registro de CAC, sacou uma arma e desferiu um
tiro na barriga de Dhemis. Pelas imagens, Waldecir, sem mostrar qualquer
arrependimento, não prestou socorro e ainda por cima gesticulava com Dhemis,
mantendo sempre a arma apontada para o vigia já caído.
A cena
parece indicar que Waldecir acusava Dhemis de ser o responsável pelo tiro que
tomou, pois teria ultrapassado um limite inaceitável ao empresário: o de ser
repreendido por um homem negro, reles vigia, a quem cabe o papel na escala
social de servir aos endinheirados.
Para
finalizar com mais um exemplo, apresentamos outro caso, este em Guarulhos. Em
fevereiro de 2025, o servente de pedreiro Lincoln Vicente de Moura publicou um
vídeo que em poucos dias atingiu quase 6 milhões de visualizações no TikTok e
mais de 1 milhão no Instagram. No vídeo, Lincoln denunciou ter sofrido uma
violenta abordagem policial às 4 horas da madrugada, quando saía para trabalhar
numa empresa terceirizada da CCR, na Via Dutra, fazendo manutenção e limpeza de
vias e esgotos. Lincoln foi chamado de ladrão e vagabundo, e ao fim da
abordagem tomou uma joelhada no estômago.
Aqui,
temos a velha exibição do poder de Estado por meio de seus agentes. Humilhar um
trabalhador às 4 horas da manhã com ofensas e agressões faz parte da rotina
policial. Formada numa doutrina de segurança nacional para quem o povo é uma
ameaça interna a ordem burguesa, a violência gratuita desatada pelos agentes
policiais serve para disciplinar esse mesmo povo pelo medo. É preciso respeitar
a autoridade. Não importa se essa autoridade esteja sendo ofendida ou ameaçada
por um cidadão qualquer.
O
esculacho gratuito da polícia contra moradores da periferia serve de medida
preventiva, para que nunca ousem desafiar a autoridade do Estado. É o gozo
ideológico de personalidades que ao não terem o poder de fato nas mãos, o que
lhes interdita a possibilidade de esculachar um morador do Alphaville,[ix]
compensam essa defasagem se utilizando do pequeno poder repressivo que o Estado
lhe confere, para humilharem quem está situado em um degrau inferior ao que o
agente do Estado supõe estar.
Os
elementos comuns a esses casos envolvem trabalhadoras e trabalhadores negros,
precarizados e/ou terceirizados, exercendo ocupação de baixa qualificação,
tanto salarial como simbólica. Precarização e terceirização agravadas a partir
da reforma trabalhista de Temer em 2017. Os algozes se encontram em condição
superior, profissional ou legal. Ocupam posição social elevada, médico e
empresário, ou possuem autoridade legalmente constituída, caso dos policiais. O
poder econômico do capital e o poder coercitivo do Estado se unem na guerra
contra o trabalho para colocá-lo em seu devido lugar, resignado ao seu destino
cruel de ser explorado.
Esses
casos mostram como a guerra do capital e do Estado contra o trabalho é de amplo
espectro. Envolvem mudanças na legislação de proteção e de remuneração ao
trabalho, mas é igualmente uma guerra ideológica e cultural. Esforçam-se, os
aparatos de propaganda, em mudar o caráter do trabalho, de relação de emprego
para uma mera prestação de serviços comerciais. Ao mesmo tempo ela se reflete
na desvalorização do trabalho e resulta na destruição de qualquer traço de
dignidade, que se desdobra nos atos de violência e desrespeito exemplificados.
Num
contexto de ascensão do fascismo, essa guerra contra o trabalhador se desdobra
em uma subsunção violenta dos trabalhadores não só ao capital, mas aos
capitalistas e aos seus aparelhos repressivos. No caso de Jussara, o Estado,
através do seu braço policial, sequer operou em última instância como um comitê
de interesses da burguesia. Sua atuação foi direta e deixou a lição do que os
trabalhadores enfrentariam, caso prospere a ideia de que podem negociar
livremente sua relação de trabalho com os patrões.
Nos
casos de Dhemis, de Laudemir e dos pintores, os “empresários” se acham em tal
situação de empoderamento que já descartam o recurso aos aparelhos repressivos
do Estado contra o trabalho. Na guerra em curso, os novos capitalistas sentem
que o mundo lhes pertence e nenhum pé-rapado, situados no “mais baixo da escala
do trabalho”, como um certo jornalista um dia se referiu a dois faxineiros, não
podem ter seus privilégios limitados. Privatizam o direito de subsumir o
trabalho aos seus caprichos e vontades, recorrendo a uma violência permitida
legalmente apenas ao Estado.
Nessa
guerra de amplo espectro do capital contra o trabalho, a única saída possível
para os trabalhadores não morrerem, alvejados por algum empresário ou de
exaustão de tanto trabalhar, como sugere o deputado Feliciano, é a de
reafirmarem em luta coletiva sua condição humana.
Isso
exige um movimento capaz de deter o processo em curso, que transforma o
trabalhador em vítima de um aumento da exploração econômica, mas também da
transformação do seu corpo em alvo de exercício de uma violência que busca
afirmar o poder e a supremacia dos capitalistas.
Fonte:
Por Renato Nucci Jr, em A Terra é Redonda

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