sexta-feira, 5 de junho de 2026

Entenda as ligações de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro

Conversas reveladas entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro – dono do Banco Master, preso acusado de chefiar um esquema bilionário de fraudes financeiras – expõem uma relação mais próxima e complexa do que o parlamentar vinha admitindo publicamente, lançando uma sombra sobre a pré-candidatura à Presidência do político de extrema direita.

As mensagens, divulgadas em primeira mão pelo site The Intercept Brasil em 13 de maio, indicam que o senador Flávio negociou repasses milionários em meio ao avanço das investigações da Polícia Federal sobre o caso Master. Segundo o senador, esses recursos seriam para financiar uma cinebiografia sobre o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

O material, cuja veracidade foi confirmada por fontes ligadas ao caso e pelo próprio senador, lança dúvidas sobre a versão apresentada por Flávio Bolsonaro e amplia o alcance político de um escândalo que envolve várias esferas do poder.

Segundo o Intercept, Vorcaro chegou a pagar R$ 61 milhões para a produção do filme Dark Horse entre fevereiro e maio de 2025. Essa seria uma parte de um repasse total combinado de cerca de R$ 134 milhões para o filme, um valor exepcionalmente alto para um longa filmado no Brasil, levantando dúvidas se o dinheiro seria mesmo canalizado para a produção.

Além das mensagens, Flávio Bolsonaro confirmou ter visitado o ex-banqueiro no fim de 2025, após a primeira prisão do empresário pela Polícia Federal. O encontro ocorreu na residência de Vorcaro, em São Paulo, depois que ele deixou a prisão por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), que definiu então medidas restritivas, como o uso de tornozeleira eletrônica. A visita foi inicialmente revelada pelo site Metrópoles e, posteriormente, admitida pelo próprio presidenciável.

Flávio Bolsonaro convocou a imprensa, na sede do PL, em Brasília, para dizer que a reunião teria como principal objetivo encerrar sua relação com o ex-banqueiro. "Fui lá para colocar um ponto final nessa história", afirmou o senador. Ele alega ter dito pessoalmente a Vorcaro que não manteria mais negócios com ele após a prisão.

<><> Sinais trocados

Os registros mostram que Flávio Bolsonaro manteve contato frequente com Daniel Vorcaro entre setembro e novembro de 2025. O senador chegou a se referir ao empresário como "irmão" e cobrou diretamente repasses financeiros para a produção de Dark Horse.

Em um áudio de setembro, Flávio disse: "Eu fico sem graça de ficar te cobrando", ao mesmo tempo em que pressiona pela liberação de valores.

Poucos dias antes, em 3 de setembro, o Banco Central havia vetado a venda do Banco Master ao BRB — um movimento que já indicava fragilidade na situação do grupo financeiro.

Mesmo diante desse contexto, as conversas prosseguiram. Em 8 de setembro, o senador voltou a cobrar pagamentos. Em 30 de setembro, a Polícia Federal abriu inquérito para investigar irregularidades envolvendo Vorcaro.

Na última mensagem, em 16 de novembro – um dia antes da segunda prisão de Vorcaro –, Flávio escreveu: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente."

Horas antes da divulgação desse material, o senador esteve com o ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), para se apresentar como pré-candidato à Presidência. Na saída, um repórter do The Intercept perguntou sobre o financiamento de Vorcaro ao filme. Ele respondeu: "De onde você tirou essa informação? É mentira". Ele riu, chamou o repórter de "militante", e se retirou da entrevista coletiva improvisada. Já distante dos jornalistas, disse que era "tudo privado".

Quando os áudios vieram à tona, ele mudou sua versão: "Mais do que nunca, é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes, dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai", afirmou em vídeo. A mensagem segue na linha de que só há dinheiro privado envolvido. "Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet."

A justificativa de que não há dinheiro privado e que, portanto, não haveria irregularidades, é enganoso ao omitir que há recursos públicos envolvidos na fraude do Master. Entre os maiores rombos, estão R$ 2,6 bilhões da Rioprevidência, o fundo responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões a servidores do Rio de Janeiro, R$ 400 milhões investidos pela previdência do Amapá em ativos podres no banco, e ao menos R$ 12,2 bilhões em ativos fraudulentos comprados pelo Banco de Brasília (BRB), que tem como acionista majoritário do Governo do Distrito Federal.

Até a divulgação das conversas, Flávio afirmava não conhecer o ex-banqueiro. Em março, a Polícia Federal revelou que o contato do senador e de outros congressistas estava na agenda telefônica do investigado, dentro das investigações da CPI sobre fraudes no INSS. Na ocasião, Flávio Bolsonaro afirmou que nunca teve contato com o dono do Master e que o número do seu telefone "não é propriamente um segredo".

Com a revelação das conversas, Flávio mudou a versão e passou a dizer que conheceu Vorcaro em dezembro de 2024, "quando o governo Bolsonaro já havia acabado, e quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro". Para se contrapor a esse argumento há, inclusive, uma publicação no X de seu pai, de setembro de 2024, sobre uma reportagem que trata das investigações contra o Master.

<><> Cláusula de confidencialide

Ao admitir ter uma relação com Vorcaro, ele alegou ainda haver uma cláusula de confidencialidade no contrato entre o ex-banqueiro e a produtora do filme: "Eu não falei que era mentira. Tenho contrato de confidencialidade", disse em entrevista à Globonews.

Flávio Bolsonaro afirmou que não houve doação ou favor, mas sim um investimento com expectativa de retorno financeiro. "Não é banqueiro enrolado, é investidor de filme", se referiu à Vorcaro na época em que o conheceu.

Ele afirmou que a equipe do filme passava por dificuldades para captar recursos no Brasil e atribuiu o cenário a uma suposta perseguição da Polícia Federal a opositores durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Dark Horse, que no inglês significa algo como "azarão", é dirigido pelo cineasta americano Cyrus Nowrasteh, conhecido por produções dramáticas de cunho religioso ou político, como O Apedrejamento de Soraya M. (2008) e O Jovem Messias (2016).

A "mega produção hollywoodiana", como definiu Flávio Bolsonaro, retrata a trajetória de Jair Bolsonaro, do atentado de 2018 à chegada à Presidência. No papel principal está Jim Caviezel, conhecido por interpretar Jesus em "A Paixão de Cristo"

O projeto envolve figuras próximas ao bolsonarismo. O ator e deputado federal Mário Frias (PL-SP), ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro, é responsável pelo roteiro e produção.

Inicialmente, Frias afirmou que "não há um único centavo" de Vorcaro no filme. Depois modulou sua fala na linha de Flávio Bolsonaro, de que "não haveria problema algum" ter dinheiro de Vorcaro, por se tratar de relação "privada".

Nas mensagens encontradas no celular de Vorcaro e reveladas pelo Intercept, Mário Frias aparece agradecendo, por mensagem de áudio, apoio ao filme sobre o ex-presidente.

"Só te agradecer, meu irmão. Vamos mexer com o coração de muita gente e vai ser muito importante para o nosso país, tá? Preciso de vez em quando te falar como as coisas vão andando, tá?" , disse Frias, em 11 de dezembro de 2024.

A produtora Go Up Entertainment, responsável pelo longa, também negou ter recebido recursos do ex-banqueiro — o que contrasta com os registros de pagamentos apresentados na investigação, que indicam repasses de ao menos R$ 61 milhões.

O valor total de R$ 134 milhões contrasta com o preço normalmente investido em filmes no Brasil e provocou especulações se o filme não estava sendo para disfarçar recursos que seriam usados para outros fins. O longa O Agente Secreto (2025), por exemplo, custou R$ 28 milhões e a produção recente mais cara do cinema nacional é Ainda Estou Aqui (2024), que teve gastos de R$ 45 milhões. 

<><> Polícia Federal investiga Eduardo Bolsonaro

Uma das frentes de investigação da PF envolve o possível uso desses recursos para custear despesas de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), irmão de Flávio, nos Estados Unidos, onde o ex-deputado vive desde fevereiro de 2025.

A Polícia Federal identificou transferências da empresa Entre Investimentos e Participações — associada ao ex-banqueiro — para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas. O fundo é representado por Paulo Calixto, advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro.

Eduardo negou as acusações de se favorecer desses recursos. Em rede social, afirmou que a suspeita "é tosca" e um "assassinato de reputação". "Meu status migratório não permitiria [receber esses recursos]. Se isso tivesse acontecido, o próprio governo americano me puniria", disse.

Flávio também negou que o dinheiro tenha sido utilizado com essa finalidade, embora tenha confirmado que valores passaram pelo fundo nos Estados Unidos. Segundo o senador, os recursos foram integralmente aplicados no projeto. Ele disse que Calixto atuava como gestor do fundo e é pessoa de sua "confiança".

<><> Entorno político envolvido

Apesar de Flávio tentar se desvincular do caso — chegando a afirmar que "o Banco Master é do Lula" —, a ligação com Vorcaro se espalha pelo entorno político da família Bolsonaro.

O senadorCiro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil e aliado de Jair Bolsonaro, que chegou a ser cotado a vice de Flávio, foi alvo de operação da Polícia Federal relacionada a suposto recebimento de vantagens ao tentar legislar a favor do banco.

A chamada "emenda Master", apresentada por Ciro em 2024, propunha ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo que protege investidores em caso de quebra de instituições financeiras.

A proposta beneficiaria diretamente o modelo de negócios do Master, que captava recursos oferecendo alta rentabilidade com cobertura do fundo. Segundo a PF, no entanto, o texto da emenda teria sido elaborado por assessores do próprio banco e posteriormente apresentado no Senado por Nogueira praticamente sem alterações.

Em mensagens interceptadas, Vorcaro celebra que o texto saiu exatamente como ele mandou. Ciro nega que tenha enviado a versão integral da proposta feita pelo banco. O senador nega irregularidades e afirma que a proposta tinha caráter técnico, voltado à proteção de correntistas.

Enquanto isso, Flávio aposta na criação de uma CPI para investigar o Banco Master como forma de defesa. Nos bastidores do Congresso, no entanto, há ceticismo quanto à instalação da comissão, especialmente pela resistência do presidente da Casa, Davi Alcolumbre, que também está na mira das investigações sobre a fraude do Master.

•        DUPLA DA PESADA: Castro e Flávio Bolsonaro sob graves suspeitas

A extrema direita brasileira atravessa uma das semanas mais turbulentas desde o início da pré-campanha presidencial. Em poucos dias, três frentes distintas de investigação e desgaste público atingiram nomes importantes do campo bolsonarista:  o senador Flávio Bolsonaro, hoje tratado como principal herdeiro eleitoral do pai, e o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL).

Embora os casos não façam parte da mesma investigação, eles passaram a se acumular no mesmo ambiente político e produziram um efeito dominó dentro da direita. O resultado foi uma crise de narrativa. Flávio, que tentava transformar o caso Banco Master em desgaste exclusivo para o governo Lula, agora precisa responder sobre aliados envolvidos em operações policiais, suspeitas financeiras e negociações milionárias.

A primeira pancada no bolsonarismo veio com a quinta fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em 7 de maio. A ação, autorizada pelo ministro André Mendonça, do STF, teve como um dos alvos o senador Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro e aliado do clã..

Segundo a PF, a investigação apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional relacionados ao Banco Master. A decisão autorizou buscas, bloqueio de R$ 18,85 milhões e medidas cautelares.

O ponto mais sensível para Ciro é a suspeita de que seu mandato parlamentar teria sido usado em favor de interesses do Banco Master. A investigação apura se uma emenda apresentada pelo senador para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos teria sido elaborada por pessoas ligadas ao banco. O caso ficou conhecido nos bastidores como “Emenda Master”.

A operação atingiu diretamente a imagem de Ciro como articulador do Centrão e peça importante da estratégia da direita para 2026. A defesa do senador nega irregularidades e afirma que ele está à disposição da Justiça.

A segunda frente da crise veio com os áudios de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, banqueiro preso na investigação do Banco Master. As mensagens reveladas pelo Intercept Brasil mostram Flávio negociando recursos para financiar Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro estrelado por Jim Caviezel.

O valor negociado chegou a cerca de R$ 134 milhões. Segundo os documentos revelados, ao menos R$ 61 milhões teriam sido direcionados ao projeto. A produtora responsável pelo filme nega ter recebido dinheiro de Vorcaro ou de empresas ligadas a ele.

O desgaste político aumentou porque Flávio inicialmente negou a informação. Depois da divulgação dos áudios, admitiu que buscou recursos com Vorcaro, mas afirmou que se tratava de investimento privado.

Em entrevista à GloboNews, o senador não conseguiu se explicar e deixou mais dúvidas que respostas.

As declarações abriram uma nova frente de questionamentos. Se o dinheiro foi realmente destinado ao filme, a produtora precisa explicar por que nega ter recebido recursos de Vorcaro. Se não foi para a produção, cresce a pressão sobre o destino efetivo dos valores.

A Polícia Federal apura se os recursos solicitados a Vorcaro foram de fato usados na produção ou se o filme pode ter servido como justificativa para outras movimentações financeiras. O caso também passou a envolver suspeitas sobre emendas parlamentares e verbas públicas ligadas à rede da produtora e levou o ministro Flávio Dino a pedir investigação.

Nesta sexta-feira (15), outra frente de desgaste atingiu o bolsonarismo. O ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro foi alvo de busca e apreensão na Operação Sem Refino, da Polícia Federal.

A investigação mira suspeitas de irregularidades envolvendo um grupo econômico do setor de combustíveis ligado ao empresário Ricardo Magro, dono da Refit. A ação foi autorizada pelo STF e apura ocultação patrimonial, evasão de recursos ao exterior e possíveis conexões com agentes públicos.

A operação contra Castro não é uma fase do caso Master, mas politicamente ampliou a sensação de cerco sobre a direita. Castro é do PL e foi uma das principais vitrines do bolsonarismo no Rio de Janeiro.

A Justiça determinou bloqueio de cerca de R$ 52 bilhões em ativos financeiros e suspensão das atividades econômicas das empresas investigadas. A defesa de Castro afirmou que ele colaborou com as buscas e disse desconhecer os fundamentos da decisão.

Os três episódios criaram uma crise simultânea para a extrema direita. Ciro Nogueira representa o elo com o Centrão. Flávio Bolsonaro representa o projeto presidencial da família Bolsonaro. Cláudio Castro representa uma das principais bases estaduais do PL.

Em menos de dez dias, os três passaram a ocupar manchetes relacionadas a operações policiais, áudios, suspeitas financeiras e decisões do STF. O problema para a direita deixou de ser apenas jurídico. Passou a ser político, eleitoral e policial.

A narrativa anticorrupção usada durante anos contra adversários perde força quando aliados de primeira linha precisam responder sobre banco investigado, financiamento milionário de filme, emendas parlamentares e operações da Polícia Federal.

A extrema direita entrou na semana tentando usar o caso Master contra Lula. Sai dela tendo que explicar Ciro Nogueira, Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro, Refit e Cláudio Castro.

 

Fonte: DW Brasil/ICL Notícias

 

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