O
Papa e a nova encíclica
O Papa
Leão XIV já chegou a fazer um alerta contra a usura. Ele a tratou como um
elemento de corrupção. Oficialmente a Igreja também assim se posiciona. Essa
consideração se originou no mundo pré-capitalista. Naquela época se podia
condenar o dinheiro, uma vez que ele ainda não era capital e não dominava todas
as nossas relações. Ele queria ser Deus, e os guardadores de Deus na Terra
tentavam barrá-lo.
A
tomada de posição contra a cobrança de juros jamais foi fruto de uma
implicância idiossincrática da Igreja. Tinha um fundamento
filosófico-teólogico. O tempo pertence a Deus. Nada pode fazer o tempo, pelo
seu mero transcorrer, gerar um excedente e se apropriar disso. Se o dinheiro se
amplia por si mesmo e alguém se beneficia disso se assenhorando do mero esvair
do tempo objetivo, então é Deus que está sendo usurpado em sua dádiva. O
dinheiro a juros beira o pecado. Depois isso virou pecadinho, mera falta.
Agora, é a vida do mundo.
Atualmente,
a Igreja não mais bate de frente com a prática dos juros. Adotou táticas que
buscam uma conversa menos radical com os fiéis. Então, efetivamente, segundo os
sacerdotes atuais, talvez seja melhor tecer considerações sobre alguns frutos
da lógica do dinheiro do que propriamente sobre o dinheiro-capital. Um desse
frutos é a tecnologia.
A
Inteligência Artificial (IA) é atualmente a tecnologia que mais encarna as
diretrizes do dinheiro como capital. Ela incorpora a função do capital que
exige que se busque o tempo zero. A rotação do capital precisa tender a zero
para que o lucro não decaia. As atividades financeiras, todas elas, se munem de
tecnologia para tal. Essa tecnologia que funciona na busca do domínio do tempo
está no diapasão do dinheiro. Ambos são de mesma natureza. Não é à toa que o
capitalismo de plataforma e o capitalismo financeiro se desenvolvem em
simbiose. Ninguém consegue imaginar a financeirização que comanda o planeta sem
computadores em rede e sem algoritmos em um frenesi descabelado.
Na
Encíclica Magnifica Humanitas que o papa publicou recentemente há uma longa e
apropriada crítica à Inteligência Artificial no mundo atual. Se não se pode
mais torcer o nariz para o dinheiro que funciona sozinho, que se critique sua
tecnologia, em especial a que mais se parece com ele. Poder-se-ia imaginar,
então, que o tempo fosse o elemento a ser posto sob atenção papal. Afinal, a IA
é a herdeira dessa questão diretamente. Mas não é assim que a Encíclica se
colocou. De certo modo, ela foge do tema do tempo. Faz juízos sobre a
tecnologia, mas despidos de qualquer consideração mais fundamental sobre a
questão central, que é o tempo.
A
velocidade é a essência da IA. Um colunista de O Globo, ao escrever sobre o
tema do papa e da IA, publicou como é o trabalho de um eslovaco que esteve na
criação do Chat GPT, que já passou pela empresa de Musk e que, agora, tem um
site de educação:
“Na
virada de março para abril, Karpathy publicou na rede social um longo fio
explicando como transformou sua base de conhecimento numa espécie de Wikipédia
pessoal. Usando a ferramenta de escrever programas da Anthropic, o Claude Code,
mandou mapear todos os principais temas que lhe interessam, construiu com a IA
verbetes longos, profundos, sobre cada um. Fez com que o programa interligasse
tudo. Um único tópico, na sua enciclopédia particular, tem cem artigos
interligados. Desde então, esse grande banco de dados de conhecimento é a base
que consulta para pensar.
O
método, que muitos vinham desenvolvendo em paralelo, mas Karpathy sistematizou
primeiro, organiza o que no mundo da IA atende pelo nome “segundo cérebro”. Um
profissional cria uma base de conhecimento sólida, com tudo o que é importante
para sua carreira. Isso inclui livros inteiros, verbetes, PDFs, planilhas,
análises de concorrência — em cada ramo mudará, mas o princípio é sempre o
mesmo. O trabalho passa a ser conversar com a IA o dia inteiro. Pedir à IA
cruzamento de informação, previsões a respeito do futuro, monitoramento de
certos dados. Relatórios que times de consultores constroem em meses passam a
nascer em horas. Diagnósticos complexos sobre onde está o gargalo numa
companhia podem ser feitos em dias.” (Pedro Doria, O Globo, 26/05/26) (grifos meus).
Uma boa
parte da população não vê nenhum problema com esse modo de trabalhar. No entanto, a filosofia vai contra o senso
comum. Há um erro fundamental com a ideia do texto em destaque. Um erro de
Karpathy, mas que o próprio colunista não detectou. Note que ele diz: “esse
grande banco de dados de conhecimento é a base que [Karpathy] consulta para
pensar”. Há dois problemas aí, e ambos decorrem do modo que a IA lida com o
tempo: 1) um banco de dados não é conhecimento, é informação; 2) O uso de um
banco de dados para pensar pode, não raro, fazer não pensar, pode atrapalhar o
pensar. Talvez até seja o antipensamento.
Ter
informação a mais não é ter mais conhecimento. Muito menos é ter o melhor
conhecimento. Platão lançou a noção de conhecimento que, em geral, aceitamos
até hoje: “crença verdadeira bem justificada”. O problema do conhecimento não é
quanto à verdade, mas quanto à capacidade nossa de criar boas justificativas
para ter as crenças que temos. Um cético – aquele filósofo que se diz não
filósofo e que quer desafiar o filósofo – nunca fala que não existe a verdade.
Ele resvalaria na autorrefutação. O que o cético diz é que toda vez que viermos
com uma justificação, ainda que à primeira vista bem fundamentada, em algum
momento haverá quem possa fazer uma boa objeção, capaz de criar dúvidas sobre a
justificação da crença.
Como se
pode notar, o conhecimento é desafiado pelo cético. Ele não daria a mínima
atenção para o que se põe no âmbito da informação. O cético fustiga
justificativas, invoca contra a fundamentação melhor. Aquele que lida com
informação, no máximo olha um tipo de checklist. Faz a chamada “verificação
factual”, um trabalho empírico que um aglomerado de algoritmos sem sal e sem
açúcar pode realizar. O mundo da máquina é treinado para lidar com verdades, o
pensar humano surge para lidar com significados.
O
filósofo do Círculo de Viena, Moritz Schlick, falou algo que vale lembrar aqui:
Sócrates não procurava a verdade, mas significados. Quando lemos Platão e
descobrimos Sócrates dizendo que buscava a verdade, sempre temos de considerar
o aviso de Schlick, para entender melhor o filósofo de Atenas. Afinal, Sócrates
fazia perguntas do tipo “O que é X?”. Esse tipo de pergunta encaminha respostas
que buscam antes o significado que a verdade.
Quando
multiplicamos nossas informações, estamos em um modo de trabalho que é o de
tomada de decisão, em geral a de tipo empresarial. Diante de um gargalo
empresarial, o CEO vem com um cetro falso, bate três vezes no chão, e eis que
pensa que o mar se abre. A caricatura de Moisés se imagina profeta. Ora, o
conhecimento não segue o mesmo caminho do raciocínio empresarial e não está sob
o crivo da tomada de decisão. O conhecimento está sob o crivo da engenhosidade
do cético em criar uma seta que pegue o coração, ou mesmo o calcanhar, da
justificação que se apresenta acoplada a uma crença verdadeira. O conhecimento
é caçado impiedosamente pelo expert em pegar filósofos.
O mundo
atual, cercado por todos os lados pela gaiola de aço do trabalho empresarial (e
agora no estilo posto pela financeirização), acredita que tudo o que fazemos
como humanos é ficar tomando decisões. Isso é o pensamento burguês? Estamos
diante da figura homem moderno de Weber, o “especialista sem inteligência e
hedonista sem coração”? Quando Weber fez esse retrato, é muito provável que
tenha olhado a modernidade tardia. Ora, o pensamento burguês não nasceu assim.
Ele não veio defeituoso ao mundo.
Em sua
origem, não se tratava de uma tomada de decisão a partir de informações.
Colombo representou o pensamento burguês durante um bom tempo, e ele viajou por
aventura, e não por tomada de decisão, ou tomada de decisão segundo informações
que podiam encorajá-lo. Os americanos da NASA não levaram o homem à Lua em 1969
por conta de tomadas de decisões, mas pelo ímpeto da Guerra Fria. O pensamento
burguês só se transformou nessa sua caricatura, que fala a todo momento em
“capacidade de tomada de decisões”, bem recentemente. É no período neoliberal,
nos últimos quarenta anos, que essa caricatura realmente se instaurou e começou
a se passar por “pensamento”. A tomada das decisões que o CEO tanto acha que
vai poder ser sua praxe, e que ele acredita que é o protótipo do pensar, é uma
porta aberta para o autoengano. A máquina decide sempre de modo mais veloz, e
será ela de fato a que irá tomar decisões. Ele será enganado pela máquina ao se
achar autônomo. A decisão segue o imperativo do tempo zero, o imperativo do capital,
por isso a tecnologia do capital, a IA, é que irá tomar a decisão.
Considerando
isso, temos de entender que pensar está bem longe dessa prática. Alguém que diz
que poderá pensar a partir da IA já se afastou de todo o pensar. O pensamento é
da ordem da divagação, do devaneio. Pensar é uma aventura. Só entendemos o que
é pensar quando estamos com Rousseau, nos momentos de seus devaneios de
caminhante solitário. Só começamos a ter uma compreensão do pensar quando
escutamos Nietzsche criticando Descartes e Kant com a sua frase: “não sou eu
que penso, mas o pensamento me vem”. Pensar é viajar por caminhos que não estão
em mapa algum. Pensar é o turismo perigoso. A IA não permite nenhum turismo,
ela implica em trazer o parceiro humano para o âmbito do seu mundo, o mundo do
foco e da velocidade. A IA é um instrumento do focalizar, do não perder o foco,
da glorificação da “concentração”. Algoritmos são feitos para que os humanos
não interfiram no imperativo do capital por meio da perda de foco. Quando o
humano se funde à máquina e se torna também ele uma peça algorítmica, quando
ele é integrado à grande subjetividade maquínica (1) de nosso tempo, ele está
fora do pensar. Ele está no rumo certo. O pensar é, para dizer de modo
hiperbólico, só de quem pega o rumo errado. O pensar é da ordem da errância.
Você não pode distrair um algoritmo, e isso o impede de pensar. Ele é feito
para exibir concentração, foco, rumo certo. Algoritmo é exatamente isso: passos
para procedimentos.
Mais um
item a se notar: na citação que coloquei em destaque é dito que o CEO lida com
um ‘segundo cérebro’. Sim, a maneira que a tecnologia atual fala do ajudante do
pensamento é exatamente esta: cérebro. Sócrates tinha um daimon. Não era um
tomador de decisões. Tratava-se de um Contrariador Divino que era para Sócrates
o que este desejou ser para Atenas: a mosca que pica o grande cavalo, que o
importuna.
Nada
mais distante disso que um segundo cérebro. Aliás, eis o ponto: acredita-se que
o pensamento é o que é fruto do cérebro. Palavras como espírito, mente ou alma
– tradicionais na filosofia – se desfizeram diante da noção de cérebro, uma
peça da ordem da fisiologia e, enfim, da própria tecnologia. E esta palavra,
com sua conotação já tecnologizada, é vista como o que armazena, faz elos
associativos dirigidos por esquemas (um algoritmo) e produz, então, resultados.
O cérebro secreta resultados. Se colocado em outro lugar do corpo, secretaria
urina ou coisa parecida. Mas jamais sêmen. Um CEO acredita pensar do modo que
ele urina. Quando demora para urinar, é a velhice, é a próstata que precisa ser
regularizada com tansulosina. Se o remédio restaura o tempo de urina, eis que o
tempo então volta a ser economizado. O CEO ainda não “pifou”. Ele está ali apto
para ser um algoritmo a mais, só que em um nível de pedantismo cada vez maior.
Acredita que pensa.
De
fato, o papa não poderia tocar nesse tópico, o do tempo zero, o tema da velocidade. Pois tocando nessa
ferida, chamaria a atenção para o que é a essência da tecnologia moderna, a de
ser obra que busca roubar a dádiva de Deus que é o tempo. Isso faria todos
entrarem pela crítica do capital, não simplesmente da tecnologia. E a Igreja se
tornaria ridícula perante um mundo em que a crítica do capital é ridícula.
Fonte:
Por Paulo Ghiraldelli, em A Terra é Redonda

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