O
que Paulo Freire diria sobre escrever com IA?
Em
tempos de IA generativa, quando a autoria é posta em questão, o retorno ao
jovem Paulo Freire em seus primeiros anos de magistério como professor de
língua portuguesa pode proporcionar uma perspectiva fecunda para o debate.
Nas
instituições de ensino, da educação básica à universidade, mas também no
jornalismo ou em qualquer outro espaço em que a escrita está presente de modo
destacável, a autoria passa por um mal-estar. Aplicativos de IA, capazes de
criar textos, fazem hoje parte dos nossos cotidianos de trabalho. Basta um
celular e um prompt na cabeça e pronto, é possível obter uma redação qualquer.
E agora, o que poderia definir legitimamente a autoria, especialmente nos casos
em que ela importa para certificar como autêntico um texto que foi entregue
como resultado de um trabalho pessoal? Trata-se de uma questão que já suscita
muita controvérsia e não pretendo aqui determinar o que é definitivamente
correto, não é o motivo do artigo. Contudo, diante da densa névoa de problemas
que cobre essa discussão, o que gostaria é apenas vislumbrar um caminho
possível recorrendo a um conceito que fez parte do ensino de Paulo Freire,
exatamente frente ao desafio da orientação de escrever textos, o que ele chamou
de “momento estético da linguagem”.
Entre
os anos de 1937 e 1942, Paulo Freire estudou no Colégio Oswaldo Cruz, um dos
mais importantes de Recife. Nele, com dezesseis anos, ingressou no segundo ano
do nível secundário, que compreendia o ciclo fundamental e o pré-jurídico.
Bolsista e estudioso, foi ali também que começaram os seus anos no magistério,
aproveitado como professor de língua portuguesa. Ainda no ano de 1942, ingressa
no curso de Direito da Universidade do Recife. Segue estudando de forma
aplicada e desenvolvendo sua competência no ensino. Em Cartas a Cristina, livro
publicado em 1994, Paulo Freire apresenta uma narrativa sobre a sua vida e
conta de modo revelador aspectos da sua formação e da sua prática docente.
Recorda vários professores e professoras que exerceram grande influência na sua
educação e sobre sua dedicação aos estudos gramaticais, à filosofia da
linguagem e à linguística. De modo particularmente delicado, ele diz: “Minha
paixão se moveu sempre na direção dos mistérios da linguagem, na busca, se bem
não angustiada, inquieta, do momento da sua boniteza”.
Uma das
razões do uso da IA hoje para produzir textos é a insegurança em relação à
própria escrita. Recentemente, em uma conferência a que assisti sobre o impacto
da IA na pós-graduação, uma discente relatou que tinha limitações para escrever
de acordo com o vocabulário acadêmico. Ela se sentia cobrada, pensei.
Compartilhava sua aflição, declarando sua dificuldade para escrever textos que
pudessem corresponder à competência acadêmica desejada na pós-graduação. A
questão que aparecia, então: Até que ponto seria legítimo usar a IA para
alcançar os resultados requeridos pelo curso? Qual emprego é admitido da IA nos
trabalhos acadêmicos? O debate sobre o uso da IA na escrita autoral merece uma
reflexão ampla. Como disse anteriormente, não é objetivo do artigo tentar
responder a uma questão que exige considerar tantas nuances. Vou apenas sugerir
que Paulo Freire parece nos indicar algo muito importante para todo esse debate
contemporâneo, quando lembra também os impasses do seu tempo de jovem
professor, na década de 1940.
No que
consiste o momento da boniteza da linguagem em Paulo Freire? Para responder a
tal pergunta, primeiro é preciso observar que Paulo Freire, à época de
estudante no ginásio e já exercendo o magistério, deparava-se com uma condição
no ensino da língua portuguesa que chamou de gramatiquice em suas memórias do
período. O emprego do termo significa uma rejeição à gramática vista como um
apego excessivo às suas regras. Paulo Freire propõe uma concepção divergente,
que se dirige a um estado de maior riqueza da linguagem, capaz de proporcionar
uma boniteza, que ele vai chamar também de “momento estético da linguagem”. Mas
é muito importante entender que aqui não se trata também de buscar a boniteza
pela boniteza, o que constituiria outra fórmula sem vida de utilização da
linguagem. Sua concepção é a de que a escrita precisa expressar a autenticidade
do seu autor ou da sua autora, que deve se “esforçar para ser ela ou ele
mesmo”.
Há uma
oportuna correspondência com o contexto acadêmico hoje quando notamos que Paulo
Freire cita nesta passagem das suas memórias, exatamente “quem trabalha
dissertação ou tese doutoral” como destinatários da sua preocupação. Dedica
ainda uma sugestão agora também fundamental: “[…] que se obrigue, como tarefa a
ser rigorosamente cumprida, a leitura de autores de bom gosto. Leitura tão
necessária quanto as que tratam diretamente seu tema específico”. Naturalmente,
não há como escrever com uma certa competência sem ter se transformado em um
leitor também experimentado. Trata-se de um princípio que deve ser obedecido,
mesmo por quem hoje faz uso da IA na elaboração dos seus textos. Caso
contrário, a IA deixa de ser um assistente no trabalho da escrita para se
transformar supostamente em um dispositivo capaz de substituir a falta de
formação adequada exigida para a autoria como resultado de um processo
educativo.
Não faz
sentido esperar escrever bem sem ter realizado também leituras que desenvolvam
um saber relevante à experimentação da escrita. Em uma outra passagem de Cartas
a Cristina, quando se refere às referências literárias que lhe foram
transmitidas ainda durante o ciclo escolar, Paulo Freire cita Gilberto Freyre,
Machado de Assis, Eça de Queiroz, Graciliano Ramos, Manoel Bandeira e Carlos
Drummond de Andrade e José Lins do Rego. Aqui poderíamos imaginar que, de todo
modo, Paulo Freire poderia ter se fixado em algumas leituras, prestigiadas para
as rupturas que considerava necessárias em seus primeiros passos de professor,
mas que hoje estariam desatualizadas diante de novos problemas com os quais
lidam quem ensina a língua portuguesa. A comunidade escolar foi ampliada e a
educação popular se constituiu como um campo específico de fundamentos.
Contudo, a capacidade de Paulo Freire nos surpreender não se esgota assim tão
facilmente.
Em
outro livro, Medo e ousadia, publicado com o educador estadunidense Ira Shor,
em 1987, Paulo Freire também recorda seus tempos de estudante no ginásio e
começo no magistério. Trata-se de uma transcrição da conversa gravada entre os
dois. Do mesmo modo, Ira Shor também rememora sua época de estudante e ingresso
no magistério, ensinando gramática. Resgata o processo de ingresso de
estudantes trabalhadores em universidades municipais, nos anos 70, e apresenta
seus dilemas como educador. Apesar da origem também popular e de um desacerto
inicial com a aprendizagem institucionalmente determinada, termina se educando
em conformidade para obter o sucesso requerido para cursar universidades de
maior prestígio. Como professor, havia adquirido uma formação mais tradicional,
mas encontrava-se lecionando para estudantes que estavam fazendo outro percurso
universitário. Então, indagava: “Como é que a correção gramatical poderia se
inserir em suas vidas da forma que eu a cultivei?”
Um
pouco mais adiante, diz Paulo Freire: “Em certo momento, você tem que lutar
contra a gramática, para ter a liberdade de escrever”. Cita também suas
leituras, alguns dos autores que mais tarde voltará a lembrar em Cartas a
Cristina, com a seguinte observação: “[…] esses autores não estavam preocupados
em seguir a gramática! O que procuravam em suas obras era um momento estético”.
Explicando um pouco mais a sua prática docente, diz: “Eu lhes ensinava
gramática a partir do que escreviam, e não de um compêndio. E utilizava também
textos de bons autores brasileiros”. Importante notar que Paulo Freire está
repercutindo seu desempenho de iniciante no magistério em uma conversa com um
educador ante o seu desafio docente trinta anos após. Sua busca pelo momento estético
da linguagem não ficou para trás, pelo contrário. Ele reafirma sua atualidade,
no final da década de 1980, quando ocorre o encontro com Ira Shor. Para Paulo
Freire, a beleza da linguagem encontra-se na original autoria, aquela que somos
capazes de expressar de acordo com as nossas referências e não por meio de uma
mera imitação gramatical.
Em
outro registro em que conta sobre os seus primeiros anos no magistério, o
artigo “Ninguém nasce feito, é experimentando-se no mundo que nós nos fazemos”,
escrito em 1992 e publicado no ano seguinte na coletânea Política e educação,
Paulo Freire acrescenta mais alguns detalhes à natureza do trabalho que
realizava com seus alunos lecionando língua portuguesa. É muito significativa a
seguinte nota: “Foram desses tempos as primeiras tentativas no sentido de
desafiar ou de estimular, de instigar os alunos, adolescentes dos primeiros
anos do então chamado curso ginasial, a que se dessem à prática do
desenvolvimento de sua linguagem – a oral e a escrita. Prática impossível,
quase, de ser vivida plenamente se a ela falta a busca do momento estético da
linguagem, a boniteza da expressão, coincidente com a regra gramatical ou não.”
Encontramos aqui a mesma concepção, presente também nos outros registros já
citados, de que, para Paulo Freire, o desenvolvimento da linguagem é um
processo de singularização através da autoria.
Algo
muito importante, no artigo há um destaque também para as práticas pedagógicas
elaboradas com seus alunos. Paulo Freire conta que frases extraídas dos
trabalhos eram discutidas coletivamente. Algumas vezes, essas frases eram
comparadas com aquelas produzidas por autores que considerava grandes
escritores. Sempre com o propósito de que seus alunos progredissem na escrita.
Não com o propósito da aquisição pura e simples da gramática normativa, mas
para que pudessem, sobretudo, atingir uma capacidade expressiva envolvida pelo
gosto da leitura e da escrita. É assim que o estudo da gramática muda: “Em
lugar de termos nela a prisão da criatividade, do risco, o espantalho à
aventura intelectual, passamos a ter nela uma ferramenta a serviço de nossa
expressão”. Portanto, quando Paulo Freire remete ao momento estético da
linguagem, não se trata de algo que se alcança através de uma escrita
automática. É resultado de um trabalho em que a partilha da experiência é o que
preserva a original capacidade de criação.
Assim
como nas outras referências em que também recapitula seus primeiros anos no
magistério, Paulo Freire cita, junto ao repertório literário que sublinhava
suas influências, professores e professoras que foram marcantes para que
adquirisse no estudo da gramática uma compreensão mais desembaraçada da rigidez
acadêmica tradicional. No artigo, acrescenta ainda a leitura do linguista
alemão Karl Vossler (1872-1949), como quem primeiro lhe chamou a atenção para o
problema do momento estéticoda linguagem, cuja obra Gesammelte Aufsätze zur
Sprachphilosophie, publicada em 1923, Paulo Freire leu em espanhol em uma
tradução editada na Argentina com o título Filosofía del lenguaje. Embora
referencie em uma nota de rodapé a quarta edição, de 1963, a cronologia correta
indica que consultou a primeira edição, publicada em 1943, contemporânea,
portanto, do período da sua vida mencionado. Karl Vossler foi um dos pensadores
germânicos influentes na forma como a gramática começou a ser sistematizada no
Brasil sob uma perspectiva moderna.
Agora
que a IA generativa nos desafia a discutir a autoria, o que o docente em
formação Paulo Freire, dos tempos de seu início no magistério, nos provoca a
pensar? Concluímos com ele que essa condição não se alcança através de códigos
de linguagem. Trata-se de uma capacidade de expressão que só existe
propriamente quando nos fazemos plenamente presentes na escrita, ou seja,
criando. É aí que acontece o momento estético da linguagem, diante do querer
expressar de modo sensível, pessoal e intransferível. Para que essa dimensão
estética aparecesse na escrita dos seus alunos, Paulo Freire precisou enfrentar
a gramática rigidamente prescrita nas escolas e se orientar por outros
caminhos. A IA generativa também tem um caráter impositivo. São as Big Techs
decidindo sobre o seu uso em uma escala massiva. É um novo contexto em relação
ao qual precisamos nos posicionar para que o ato criativo não se desvaneça
também. Um debate vivo para o legado de Paulo Freire.
Fonte:
Por Aristóteles Berino, em Outras Palavras

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