A
sala de aula virou conteúdo e o professor é o alvo
Durante
muito tempo, o professor enfrentou o velho ruído da sala de aula: conversa
paralela, deboche, indisciplina, desinteresse. Nada exatamente novo na história
da educação. A novidade contemporânea é outra. Agora existe um algoritmo
observando tudo.
A sala
de aula passou a coexistir com uma segunda dimensão invisível: a possibilidade
permanente de gravação, edição, viralização e exposição pública instantânea. O
professor já não enfrenta apenas uma turma. Enfrenta também a lógica das
plataformas digitais.
Nos
últimos anos, consolidou-se no ambiente virtual um fenômeno conhecido como
cyberbaiting ou teacher-baiting: alunos provocam deliberadamente professores
até o limite emocional, enquanto outros gravam escondido a reação final. O
vídeo, quase sempre editado fora de contexto, circula depois como
entretenimento.
O
detalhe mais perverso está justamente na edição. O público raramente vê os
quarenta minutos anteriores de desgaste psicológico, ironias, provocações
sucessivas e sabotagens silenciosas. O vídeo começa exatamente no instante em
que o docente explode, grita ou entra em colapso emocional.
Fora da
sala, quem assiste enxerga apenas um “professor desequilibrado”. Dentro dela,
muitas vezes existiu um processo sistemático de assédio coletivo cuidadosamente
planejado.
Não se
trata mais apenas de indisciplina escolar tradicional. Trata-se de uma mutação
digital da violência simbólica.
Um
estudo publicado na revista Research Papers in Education já apontava, ainda em
2015, um “rápido aumento” do cyberbullying de professores por estudantes,
especialmente por meio de gravações publicadas em plataformas digitais. O
trabalho observava que as novas tecnologias alteraram profundamente a forma
como a autoridade docente pode ser desafiada publicamente.
O
fenômeno ganhou nova dimensão com TikTok, Shorts e Reels. O algoritmo
recompensa intensidade emocional, conflito, humilhação e choque. Quanto maior a
explosão, maior o engajamento. Quanto maior o constrangimento, maior o alcance.
A
lógica da plataforma transforma sofrimento em circulação.
Em
2026, sindicatos docentes britânicos passaram a denunciar também o crescimento
de gravações clandestinas manipuladas por inteligência artificial. Professores
vêm sendo filmados sem autorização e transformados em “deepfakes”, simulando
gritos, ofensas e comportamentos inexistentes. A NASUWT, uma das principais
entidades sindicais do Reino Unido, descreveu isso como uma “nova fronteira
aterrorizante de assédio digital”.
O
problema deixou de ser apenas moral. Tornou-se também profissional.
Um
vídeo descontextualizado pode destruir reputações construídas durante décadas.
Em muitos casos, antes mesmo da apuração dos fatos, já ocorre julgamento
público nas redes sociais, pressão de famílias, desgaste institucional e
adoecimento psíquico do docente.
A
crueldade contemporânea possui uma característica específica: ela precisa de
plateia.
O
capitalismo digital não monetiza apenas produtos. Monetiza atenção. E poucas
coisas geram mais atenção do que alguém emocionalmente destruído diante de uma
câmera.
A
tragédia vira conteúdo.
A
humilhação vira performance.
O
sofrimento vira dado.
Existe
ainda um elemento geracional delicado. Entre parte dos jovens, consolidou-se
uma cultura performática de “status digital”, na qual viralizar passou a
funcionar como forma de reconhecimento simbólico. Nesse ambiente, “quebrar”
emocionalmente um professor pode ser visto como conquista de prestígio entre
pares.
A
escola, então, passa a disputar espaço com outra pedagogia: a pedagogia do
algoritmo.
Enquanto
o professor tenta ensinar História, Matemática ou Literatura, a plataforma
ensina outra coisa: como transformar qualquer situação humana em espetáculo de
consumo rápido.
Isso
ajuda a explicar por que tantos docentes relatam sensação constante de
vigilância, medo de exposição e necessidade permanente de autocontrole
emocional extremo dentro da sala de aula.
O
professor contemporâneo trabalha diante da possibilidade permanente de se
tornar meme.
E aqui
existe um ponto MUITO perigoso: quando toda autoridade simbólica vira objeto
automático de escárnio digital, o que se desgasta não é apenas a figura do
professor. É a própria ideia de mediação pedagógica.
Sem
autoridade mínima, não existe aprendizagem consistente. Existe apenas ruído.
Não por
acaso, diversas entidades educacionais internacionais passaram a defender
políticas mais rígidas sobre gravações clandestinas em sala de aula, uso de
celulares e proteção digital dos profissionais da educação.
Isso
não significa defender autoritarismo escolar nem negar abusos reais cometidos
por alguns docentes. Professores também erram, e erros precisam ser apurados
quando acontecem.
O
problema é outro.
A
transformação sistemática da humilhação pública em entretenimento corrói
silenciosamente o próprio ambiente educacional.
Quando
a sala de aula deixa de ser espaço de formação e passa a funcionar como cenário
potencial de viralização, todos perdem: professores, estudantes, a escola
pública e a própria sociedade.
O
algoritmo não educa.
Ele
apenas engaja.
• 7 em cada 10 formados em licenciatura
EAD de português e matemática ficam abaixo do básico. Por Paulo Saldaña e
Isabela Palhares
Os
resultados de 2025 da avaliação federal sobre a formação de professores mostram
que a fragilidade dos cursos a distância (EAD) é maior nas áreas em que há mais
necessidade e importância na educação básica: matemática e letras
(português-inglês).
Sete em
cada dez formados no ano passado em cursos de licenciatura EAD nessas duas
áreas — a grande maioria em instituições privadas — não conseguiram desempenho
acima do básico, de acordo com os dados do Enade das Licenciaturas do ano
passado e divulgados pelo MEC (Ministério da Educação).
Os
resultados de letras (português-inglês) e de matemática no EAD, ambos com
apenas 33% dos concluintes acima do básico, são os piores entre 16 áreas de
formação tradicionais (só as licenciaturas em música tiveram desempenho
inferior, mas têm poucos concluintes).
Na
média de todas as áreas, 47% dos 116.982 concluintes que fizeram a prova
conseguiram ficar acima do considerado básico pelo MEC. Entre os cursos
presenciais, a média acima do básico foi de 74% dos 79.077 concluintes que
fizeram a prova.
Os
níveis de desempenho de letras (português-inglês) e matemática também são mais
positivos nos cursos presenciais. O primeiro tem 73% de concluintes acima do
básico e matemática, 53%.
Os
conteúdos de português e matemática são considerados centrais na educação
básica e a carga horária dessas áreas é maior nas escolas. As avaliações de
larga escala e os indicadores educacionais, como o Ideb (Índice de
Desenvolvimento da Educação Básica), concentram-se nessas disciplinas.
O Enade
das Licenciaturas foi lançado em 2024 pelo governo Lula (PT) como forma de
permitir um melhor acompanhamento da formação docente no país. Além de mudanças
na estrutura da prova, ela passou a ser aplicada anualmente — o Enade
normalmente é aplicado por área a cada três anos (além das licenciaturas, o
governo também tornou anual a prova direcionada à medicina).
São
considerados com proficiência básica os participantes com desempenho igual ou
maior que 70 pontos na escala de cada área da prova (formação geral e
componente específico de cada área). Esses parâmetros também foram criados com
o Enade das Licenciaturas.
O
ministro Leonardo Barchini disse nesta quarta que os resultados mostram “um
retrato fidedigno para melhorar as políticas públicas do Brasil”. Segundo ele,
o atual governo já tem atuado para fortalecer o modelo de formação docente, com
foco em melhorias na oferta não presencial.
“O
Enade produz visão sistemática da qualidade da formacão inicial de professores
no pais. Mas não basta só regular, o MEC tem de induzir melhoria”, disse
Barchini, em encontro com jornalistas na manhã desta quarta.
“Os
resultados são comparáveis inclusive entre as áreas. Então, além do
diagnóstico, todo ano para saber se houve melhora ou não da proficiência, pode
comparar por área também”.
As
áreas com melhores resultados são ciências sociais e biológicas no EAD (com 84%
e 67% acima do básico, respectivamente) e ciências sociais e história entre as
licenciaturas presenciais (93% e 89%).
A
licenciatura em pedagogia, curso superior com maior número de alunos no país,
tem resultados preocupantes. No EAD, 46% dos concluintes ficaram acima do
básico e, no presencial, esse percentual foi de 75%.
Há
menos cursos de EAD avaliados, mas o número de alunos nessas graduações é
maior. O EAD é a aposta do setor privado, que concentra a maioria das
matrículas do ensino superior no país.
O
governo Lula estipulou o fim dos cursos EAD na licenciatura, mas as regras
ainda não estão valendo. O CNE (Conselho Nacional de Educação) discute uma
resolução sobre a carga horária presencial mínima com a nova norma federal e o
setor privado faz pressão para que haja um percentual mais elevado de aulas não
presenciais.
Dos
194,4 mil concluintes em licenciaturas a distância no ano passado, 176,7 mil
estão em instituições privadas com e sem fins lucrativos. Isso representa 91%
dos estudantes.
Ao
considerar cursos com ao menos 15 concluintes e dez participantes na prova
(para evitar casos extremos com poucos concluintes e presentes na prova), o
curso EAD com melhor desempenho foi o de letras (português) na Unisinos (RS),
uma instituição comunitária/confessional. É seguido de ciências sociais na
Unicsul (SP) e pedagogia na PUC-PR, respectivamente privada com fins lucrativos
e comunitária/confessional.
Entre
os cursos presenciais, 111 licenciaturas, a grande maioria pública, conseguiram
ter todos os participantes com desempenho acima do básico. Ainda considerando
cursos com ao menos 15 concluintes e dez participantes na prova, ciências
biológicas na UFMG, pedagogia e geografia na USP lideram (levando em conta as
maiores quantidades de concluintes e participantes na prova como critério de
desempate).
O curso
presencial de uma instituição privada mais bem colocado foi o de pedagogia no
Centro Universitário Barão de Mauá (SP), onde os 17 concluintes conseguiram
desempenho acima do básico.
A mesma
avaliação do Enade Licenciaturas é usada para a PND (Prova Nacional Docente),
exame organizado pelo MEC e que as redes de ensino podem optar por utilizar os
resultados em seus processos seletivos. Os estudantes concluintes dos cursos de
licenciaturas que tenham interesse em participar da PND devem fazer a inscrição
específica na prova.
Fonte:
Por Valter Mattos da Costa, em ICL Notícias/FolhaPress

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