sexta-feira, 5 de junho de 2026

A sala de aula virou conteúdo e o professor é o alvo

Durante muito tempo, o professor enfrentou o velho ruído da sala de aula: conversa paralela, deboche, indisciplina, desinteresse. Nada exatamente novo na história da educação. A novidade contemporânea é outra. Agora existe um algoritmo observando tudo.

A sala de aula passou a coexistir com uma segunda dimensão invisível: a possibilidade permanente de gravação, edição, viralização e exposição pública instantânea. O professor já não enfrenta apenas uma turma. Enfrenta também a lógica das plataformas digitais.

Nos últimos anos, consolidou-se no ambiente virtual um fenômeno conhecido como cyberbaiting ou teacher-baiting: alunos provocam deliberadamente professores até o limite emocional, enquanto outros gravam escondido a reação final. O vídeo, quase sempre editado fora de contexto, circula depois como entretenimento.

O detalhe mais perverso está justamente na edição. O público raramente vê os quarenta minutos anteriores de desgaste psicológico, ironias, provocações sucessivas e sabotagens silenciosas. O vídeo começa exatamente no instante em que o docente explode, grita ou entra em colapso emocional.

Fora da sala, quem assiste enxerga apenas um “professor desequilibrado”. Dentro dela, muitas vezes existiu um processo sistemático de assédio coletivo cuidadosamente planejado.

Não se trata mais apenas de indisciplina escolar tradicional. Trata-se de uma mutação digital da violência simbólica.

Um estudo publicado na revista Research Papers in Education já apontava, ainda em 2015, um “rápido aumento” do cyberbullying de professores por estudantes, especialmente por meio de gravações publicadas em plataformas digitais. O trabalho observava que as novas tecnologias alteraram profundamente a forma como a autoridade docente pode ser desafiada publicamente.

O fenômeno ganhou nova dimensão com TikTok, Shorts e Reels. O algoritmo recompensa intensidade emocional, conflito, humilhação e choque. Quanto maior a explosão, maior o engajamento. Quanto maior o constrangimento, maior o alcance.

A lógica da plataforma transforma sofrimento em circulação.

Em 2026, sindicatos docentes britânicos passaram a denunciar também o crescimento de gravações clandestinas manipuladas por inteligência artificial. Professores vêm sendo filmados sem autorização e transformados em “deepfakes”, simulando gritos, ofensas e comportamentos inexistentes. A NASUWT, uma das principais entidades sindicais do Reino Unido, descreveu isso como uma “nova fronteira aterrorizante de assédio digital”.

O problema deixou de ser apenas moral. Tornou-se também profissional.

Um vídeo descontextualizado pode destruir reputações construídas durante décadas. Em muitos casos, antes mesmo da apuração dos fatos, já ocorre julgamento público nas redes sociais, pressão de famílias, desgaste institucional e adoecimento psíquico do docente.

A crueldade contemporânea possui uma característica específica: ela precisa de plateia.

O capitalismo digital não monetiza apenas produtos. Monetiza atenção. E poucas coisas geram mais atenção do que alguém emocionalmente destruído diante de uma câmera.

A tragédia vira conteúdo.

A humilhação vira performance.

O sofrimento vira dado.

Existe ainda um elemento geracional delicado. Entre parte dos jovens, consolidou-se uma cultura performática de “status digital”, na qual viralizar passou a funcionar como forma de reconhecimento simbólico. Nesse ambiente, “quebrar” emocionalmente um professor pode ser visto como conquista de prestígio entre pares.

A escola, então, passa a disputar espaço com outra pedagogia: a pedagogia do algoritmo.

Enquanto o professor tenta ensinar História, Matemática ou Literatura, a plataforma ensina outra coisa: como transformar qualquer situação humana em espetáculo de consumo rápido.

Isso ajuda a explicar por que tantos docentes relatam sensação constante de vigilância, medo de exposição e necessidade permanente de autocontrole emocional extremo dentro da sala de aula.

O professor contemporâneo trabalha diante da possibilidade permanente de se tornar meme.

E aqui existe um ponto MUITO perigoso: quando toda autoridade simbólica vira objeto automático de escárnio digital, o que se desgasta não é apenas a figura do professor. É a própria ideia de mediação pedagógica.

Sem autoridade mínima, não existe aprendizagem consistente. Existe apenas ruído.

Não por acaso, diversas entidades educacionais internacionais passaram a defender políticas mais rígidas sobre gravações clandestinas em sala de aula, uso de celulares e proteção digital dos profissionais da educação.

Isso não significa defender autoritarismo escolar nem negar abusos reais cometidos por alguns docentes. Professores também erram, e erros precisam ser apurados quando acontecem.

O problema é outro.

A transformação sistemática da humilhação pública em entretenimento corrói silenciosamente o próprio ambiente educacional.

Quando a sala de aula deixa de ser espaço de formação e passa a funcionar como cenário potencial de viralização, todos perdem: professores, estudantes, a escola pública e a própria sociedade.

O algoritmo não educa.

Ele apenas engaja.

•        7 em cada 10 formados em licenciatura EAD de português e matemática ficam abaixo do básico. Por Paulo Saldaña e Isabela Palhares

Os resultados de 2025 da avaliação federal sobre a formação de professores mostram que a fragilidade dos cursos a distância (EAD) é maior nas áreas em que há mais necessidade e importância na educação básica: matemática e letras (português-inglês).

Sete em cada dez formados no ano passado em cursos de licenciatura EAD nessas duas áreas — a grande maioria em instituições privadas — não conseguiram desempenho acima do básico, de acordo com os dados do Enade das Licenciaturas do ano passado e divulgados pelo MEC (Ministério da Educação).

Os resultados de letras (português-inglês) e de matemática no EAD, ambos com apenas 33% dos concluintes acima do básico, são os piores entre 16 áreas de formação tradicionais (só as licenciaturas em música tiveram desempenho inferior, mas têm poucos concluintes).

Na média de todas as áreas, 47% dos 116.982 concluintes que fizeram a prova conseguiram ficar acima do considerado básico pelo MEC. Entre os cursos presenciais, a média acima do básico foi de 74% dos 79.077 concluintes que fizeram a prova.

Os níveis de desempenho de letras (português-inglês) e matemática também são mais positivos nos cursos presenciais. O primeiro tem 73% de concluintes acima do básico e matemática, 53%.

Os conteúdos de português e matemática são considerados centrais na educação básica e a carga horária dessas áreas é maior nas escolas. As avaliações de larga escala e os indicadores educacionais, como o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), concentram-se nessas disciplinas.

O Enade das Licenciaturas foi lançado em 2024 pelo governo Lula (PT) como forma de permitir um melhor acompanhamento da formação docente no país. Além de mudanças na estrutura da prova, ela passou a ser aplicada anualmente — o Enade normalmente é aplicado por área a cada três anos (além das licenciaturas, o governo também tornou anual a prova direcionada à medicina).

São considerados com proficiência básica os participantes com desempenho igual ou maior que 70 pontos na escala de cada área da prova (formação geral e componente específico de cada área). Esses parâmetros também foram criados com o Enade das Licenciaturas.

O ministro Leonardo Barchini disse nesta quarta que os resultados mostram “um retrato fidedigno para melhorar as políticas públicas do Brasil”. Segundo ele, o atual governo já tem atuado para fortalecer o modelo de formação docente, com foco em melhorias na oferta não presencial.

“O Enade produz visão sistemática da qualidade da formacão inicial de professores no pais. Mas não basta só regular, o MEC tem de induzir melhoria”, disse Barchini, em encontro com jornalistas na manhã desta quarta.

“Os resultados são comparáveis inclusive entre as áreas. Então, além do diagnóstico, todo ano para saber se houve melhora ou não da proficiência, pode comparar por área também”.

As áreas com melhores resultados são ciências sociais e biológicas no EAD (com 84% e 67% acima do básico, respectivamente) e ciências sociais e história entre as licenciaturas presenciais (93% e 89%).

A licenciatura em pedagogia, curso superior com maior número de alunos no país, tem resultados preocupantes. No EAD, 46% dos concluintes ficaram acima do básico e, no presencial, esse percentual foi de 75%.

Há menos cursos de EAD avaliados, mas o número de alunos nessas graduações é maior. O EAD é a aposta do setor privado, que concentra a maioria das matrículas do ensino superior no país.

O governo Lula estipulou o fim dos cursos EAD na licenciatura, mas as regras ainda não estão valendo. O CNE (Conselho Nacional de Educação) discute uma resolução sobre a carga horária presencial mínima com a nova norma federal e o setor privado faz pressão para que haja um percentual mais elevado de aulas não presenciais.

Dos 194,4 mil concluintes em licenciaturas a distância no ano passado, 176,7 mil estão em instituições privadas com e sem fins lucrativos. Isso representa 91% dos estudantes.

Ao considerar cursos com ao menos 15 concluintes e dez participantes na prova (para evitar casos extremos com poucos concluintes e presentes na prova), o curso EAD com melhor desempenho foi o de letras (português) na Unisinos (RS), uma instituição comunitária/confessional. É seguido de ciências sociais na Unicsul (SP) e pedagogia na PUC-PR, respectivamente privada com fins lucrativos e comunitária/confessional.

Entre os cursos presenciais, 111 licenciaturas, a grande maioria pública, conseguiram ter todos os participantes com desempenho acima do básico. Ainda considerando cursos com ao menos 15 concluintes e dez participantes na prova, ciências biológicas na UFMG, pedagogia e geografia na USP lideram (levando em conta as maiores quantidades de concluintes e participantes na prova como critério de desempate).

O curso presencial de uma instituição privada mais bem colocado foi o de pedagogia no Centro Universitário Barão de Mauá (SP), onde os 17 concluintes conseguiram desempenho acima do básico.

A mesma avaliação do Enade Licenciaturas é usada para a PND (Prova Nacional Docente), exame organizado pelo MEC e que as redes de ensino podem optar por utilizar os resultados em seus processos seletivos. Os estudantes concluintes dos cursos de licenciaturas que tenham interesse em participar da PND devem fazer a inscrição específica na prova.

 

Fonte: Por Valter Mattos da Costa, em ICL Notícias/FolhaPress

 

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